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O desalento de Ano Novo dos médicos que enfrentam a Covid-19

Dois relatos dados a CartaCapital mostram o que se enfrentou nas UTIs e enfermarias; 'Agora, está muito mais estressante trabalhar', revelam
 

Por GIOVANNA GALVANI
Da Carta Capital, 2 DE JANEIRO DE 2021



PROFISSIONAIS DA SAÚDE NO COMBATE AO CORONAVÍRUS. FOTO: KENZO TRIBOUILLARD/AFP

“Eu fui dar a notícia do óbito de um rapaz, um cara jovem, sem doenças. O sogro dele, um senhor idoso, estava com uma máscara do Bolsonaro fazendo arminha. Quando eu contei a notícia do óbito, com todo aquele clima de consternação, ele ficou bem alterado. Ele falou que isso tinha acontecido porque o paciente não fez o tratamento precoce. Porque o Mandetta não deixou mais ninguém fazer. E que, se ele visse o Mandetta, era capaz de dar um tiro nele.”

Médicos, enfermeiros, auxiliares, fisioterapeutas, agentes de saúde e mais uma gama de profissionais ditos “da linha de frente” contra a Covid-19 ficaram em destaque ao longo de 2020. No início, ainda existiam manifestações de respeito e decoro. Palmas nas janelas, relatos marcantes de dias nebulosos em frente ao desconhecido. No entanto, mais de 195 mil vidas perdidas para o coronavírus no Brasil depois, o tom mudou.

O relato acima veio do médico reumatologista João Alho, que atua como intensivista em um hospital público em Santarém, no Pará, desde o início da epidemia de Covid-19 no Brasil. Lá, a segunda onda do coronavírus ainda não é uma realidade gritante como em São Paulo, onde trabalha outro médico que conversou com CartaCapital para esta reportagem de relatos de quem precisa lidar com as consequências do aumento do número de casos.

“Agora, trabalhar está muito mais estressante, porque temos também a demanda dos casos não graves. Não tem mais hospital da campanha, não existe a preocupação de que o hospital possa ser um foco de transmissão se você está com um sintomas leves, com uma tosse há um dia. Os serviços estão lotados e a gente está muito sobrecarregado de uma maneira geral”, relata Ricardo Mastrangi, médico residente no Hospital Emílio Ribas, referência em epidemiologia no País.

Encontrar um culpado é tarefa impossível, mas a situação também não pode ser observada fora do show de horrores que tomou os noticiários ao longo do ano: as insistências do presidente Jair Bolsonaro de que a Covid-19 seria uma “gripezinha” ou de que todos se conformassem com a morte, o desincentivo para o “fique em casa”, a aposta em remédios sem comprovação científica. A lista jamais deixou de ser atualizada.

Mastrangi relata que pacientes chegavam “dizendo que a prima da irmã da tia tomou hidroxicloroquina, ivermectina, está tomando corticoide e também quer tomar.” Mesmo assim, o cuidado dos profissionais foi capaz de contornar a maioria das situações.

“Com pessoas mais hostis, acabamos percebendo que não tem o que fazer. Não que eu me renda às demandas, justifico dizendo que não sou o médico do primo ou do presidente da República. E aí eu sinto que a gente ainda consegue ter controle”, relata.

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No entanto, cada passo dos profissionais passou a ser monitorado de perto pelas dúvidas e angústias familiares, diz João Alho. “No começo do processo pandêmico, a gente teve uma ansiedade, um certo tipo de pressão por parte dos familiares. Você passava muito tempo nos boletins familiares explicando o porquê de não dar determinada medicação. Esse processo de desinformação consumia muito tempo no telefone com as famílias.”, diz.

A vida dos profissionais virou do avesso. João conta que se sentia culpado em consumir uma série ou filme para desestressar por achar que deveria estar estudando, buscando novos artigos, outras descobertas sobre o vírus.

Já Ricardo admite que, em junho, saía todos os dias chorando da UTI do hospital pela intensa carga de trabalho. A imprevisibilidade do paciente de Covid, que tem piora registrada em poucas horas, é comumente abordada pelos profissionais da Saúde como a prova de que o vírus não é passível de ser ignorado. Mesmo assim, segundo a última pesquisa PNAD-Covid, continua em ritmo crescente o número de pessoas que já não toma nenhuma medida de prevenção contra a contaminação.

“As pessoas acabam jogando muita responsabilidade nos profissionais de saúde. A gente também tem medo da doença, tem medo pelos nossos familiares, de voltar pra casa e passar para alguém, a gente tem medo de tudo porque é muito novo e acaba sobrecarregando todo mundo.”, diz Mastrangi.

As festas de fim de ano, apesar das recomendações de entidades como a Fiocruz, que fez uma cartilha para reduzir riscos associados ao contágio, registraram aglomerações, abraços e festas. Compreensível pela vontade, mas dolorido pelas consequências que virão, diz Mastrangi, conformado que o descanso desses plantões será um “preparo para o pior”.

Há de se ter esperança. A vacina. Um imunizante seguro, gratuito e distribuído em massa nunca esteve tão próximo.

João Alho suspira e hesita ao falar do assunto. Não porque não acredite nos estudos que indicam a eficácia, os quais o médico acredita serem a real esperança, a luz no fim do túnel para o futuro. O problema é o mesmo do começo, um ciclo que não se quebrou apesar das mortes, da lotação de hospitais, do luto das famílias, do risco global: quem está disposto a fazer o combate à pandemia de maneira rápida, eficiente e organizada? “A gente percebe que existe um esgotamento da população, é claro que teve um momento que todo mundo relaxou um pouco, mas já deu. A coisa está desandando e precisamos voltar a ter um isolamento mais rígido.”, pede, tal qual uma resolução de Ano Novo que se desconfia que não irá acontecer.

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