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Longe de Pindorama

Imagem: Ciro Saurius


Do A Terra É Redonda, 21 de Janeiro 2021
Por FLAVIO AGUIAR*

Considerações sobre o uso de determinadas palavras e expressões

Abordo aqui, palavras e expressões que nunca usei, não uso, e nunca vou usar. Ou usarei com muito, muito cuidado.

Por exemplo, “Tupiniquim”. Por que será que pessoas de esquerda, quando querem manifestar algum tipo de desprezo pelo Brasil, usam a expressão “Tupiniquim”?

Em primeiro lugar, por que não “Tupinambá”? Ou “Caiapó”? “Carijó”? “Tamoio”? “Xekleng”? Em segundo lugar, por que, para manifestar desprezo pelo Brasil, recorrer a uma velha e surrada metáfora indígena? Do que os “Tupiniquim” têm culpa? Por que ficaram com o Mico neste jogo de baralho que embaralha preconceitos os mais variados? Será que é porque se diz que eles eram aliados dos Portugueses e os “Tupinambá”, não? Será que ser “Tupiniquim” é um “programa de índio”?

É verdade que este preconceito já existia antes mesmo da chegada dos Portugueses. Não sou expert em tupi-guarani, mas pelo que pude levantar o significado de “Tupiniquim” é algo como “o povo ao lado”, ou seja, o “vizinho”. Já “Tupinambá” poderia significar “os primeiros descendentes dos pais” ou “todos os tupis”. De uma ou de outra maneira, “Tupiniquim” queria dizer, para os Tupinambá, “os que vieram depois”. Os recém-chegados. Os migrantes tardios. Os que vieram atrapalhar o nosso reinado, dividir o nosso território. Qualquer semelhança com os atuais refugiados é mera coincidência.

Uma hipótese interessante para explicar o sucesso da palavra para menosprezar os brasileiros está na sua terminação “piniquim”. Lembra “pequeno penico”, não é? Trata-se de uma maneira elegante, acadêmica, sofisticadamente metonímica e metafórica, de se referir a “um povim de merda”, ou a ela afeito. Traz à baila o comentário de Sérgio Buarque de Hollanda, em alguma de suas páginas, dizendo que os adeptos do Positivismo no século XIX e começos do XX sentiam um “secreto horror” quando encaravam o Brasil. Além da mestiçada, da negrada, da indiada, da caboclada, da mistureba, quando abriam a janela viam bananeiras, jacarandás, araçás, palmeiras, araucárias e suas taças retorcidas, barbas-de-pau, cipós, e outros vegetais tortos, rios rebeldes ou preguiçosos, ao invés dos ínclitos pinheiros eliótis da Floresta Negra ou das águas plácidas, serenas, solenes do Sena, do Arno, do Reno, do Elba, do Tâmisa, ou mesmo, em último caso, do Tejo e do Douro. Viam urubus ao invés de corvos, maritacas e carcarás no lugar de rouxinóis e águias. Junto com “Tupiniquim” vai a palavra “Pindorama”, também usada, embora com menos frequência, para se referir pejorativamente ao Brasil.

O que me deixa perplexo é o fato de intelectuais que ficam pálidos de espanto ou coram rubicundos, quando se deparam com expressões racistas referentes aos afros e seus descendentes (repulsa inteiramente justa ao racismo), continuarem usando, impávidos, termos tão preconceituosos com relação a nossos indígenas.

Aí vem “o brasileiro médio”. Esta expressão me dá erisipela na alma. Vem sempre associada a algo muito negativo. Não sei o que ela significa, num país com mais de 210 milhões de habitantes, seis mil quilômetros de norte a sul e outros tantos de leste a oeste, com quase todos os climas do planeta, exceto o andino, o alpino, o ártico e o antártico, uma das maiores desigualdades sociais do mundo, etc. “Médio” para mim era coisa de futebol, a começar pelo centro-médio de antigamente, como o Dequinha do Flamengo, ou o médio-volante, um conceito tão elástico a ponto de abranger de Zito e Didi a Zico, Falcão e Maradona. Em todo caso, “o brasileiro médio” costuma ser racista, homofóbico, machista, ignorante, tapado, em suma, um traste da história. O “brasileiro médio” é como o “país tupiniquim”: não tem jeito nem nunca terá. Qual é o antônimo do “brasileiro médio”? Não existe, porque onde e quando ele entra em campo, os contrários desaparecem. Por exemplo: os 47 milhões de eleitores que votaram em Fernando Haddad, no segundo turno de 2018, simplesmente deixam de existir. Porque o “brasileiro médio” votou, vota e votará em Bolsonaro. Na verdade, há um antônimo do “brasileiro médio”: é o articulista que usa a expressão, porque ele não é o “brasileiro médio”. Ao contrário, ele está “acima da média”. Gozado: neste campo semântico, só existe “o brasileiro médio”. Não existe (pelo menos nunca vi) “a brasileira média”. Eis mais uma prova contundente, portanto, de que “o brasileiro médio” é machista e obtuso.

E a “classe média”, então? Êta arraia miúda com mania de graúda, uma “raça desgraçada”. Em caso de dúvida no seu artigo, dê um pau na “classe média”. Despreze a “classe média”. Pise nela, que é a verdadeira fonte da desgraça neste país. Por quê? Porque “em qualquer país civilizado”, em “qualquer país sério”, isto é, não “Tupiniquim” nem habitado pelo “brasileiro médio”, a “classe média”, embora possa ter problemas, é tolerável. A “classe média” de outros países é poliglota, fala inglês, francês, alemão, espanhol, holandês, etc., não deve ser consumista nem desprezar turcos, africanos ou muçulmanos, etc. Mas no Brasil não: a “classe média” será sempre horrível. Esqueça a burguesia, os rentistas, os milicianos, a culpa será sempre da “classe média”. 99,99 % dos articulistas que costumam tascar o pau no lombo da “classe média” a ela pertencem, mas não leve isto em conta. Porque eles, os articulistas, não são “o brasileiro médio” nem padecem da “razão tupiniquim”, muito menos vivem em “Pindorama”. Aliás, não sei bem onde vivem. Deve ser na rive gauche de algum rio plácido, sereno e solene.

*Flávio Aguiar, escritor e crítico literário, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de O teatro de inspiração romântica (Senac).

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