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Donald Trump: aberração ou sintoma de uma doença mais profunda dos EUA?

Da Carta Maior, 13 de Jaeiro, 2021
Por Joseph Stiglitz 


Créditos da foto: Flores em cercas de segurança dias depois que apoiadores de Donald Trump invadiram o Capitólio. (Erin Scott/Reuters)

O ataque ao Capitólio dos Estados Unidos pelos partidários de Donald Trump, incitados pelo próprio presidente, foi o resultado previsível de seu ataque de quatro anos às instituições democráticas, auxiliado e estimulado por tantos no Partido Republicano. E ninguém pode dizer que Trump não nos avisou: ele não estava comprometido com uma transição pacífica de poder.

Muitos dos que se beneficiaram enquanto ele reduzia os impostos para as corporações e os ricos, revertia as regulamentações ambientais e nomeava juízes favoráveis aos negócios sabiam que estavam fazendo um pacto com o diabo. Ou eles acreditavam que poderiam controlar as forças extremistas que ele desencadeou ou não se importavam.

Para onde vão os EUA a partir daqui? Donald Trump é uma aberração ou um sintoma de uma doença mais profunda dos Estados Unidos? Os EUA são confiáveis? Em quatro anos, as forças que deram origem a Trump, e o partido que o apoiou esmagadoramente, triunfarão novamente? Que se pode fazer para evitar esse resultado?

Trump é o produto de múltiplas forças. Por pelo menos um quarto de século, o partido republicano entendeu que poderia representar os interesses das elites empresariais apenas abraçando medidas antidemocráticas (incluindo repressão eleitoral e 'gerrymandering' [aprovação de alterações nas zonas eleitorais de modo a favorecer o partido]) e aliando-se a fundamentalistas religiosos, supremacistas brancos e populistas nacionalistas.

Claro, populismo implicava políticas que eram antitéticas para as elites empresariais. Mas muitos líderes empresariais passaram décadas dominando a habilidade de enganar o público. As 'Big Tobacco' [grandes empresas de tabaco] gastaram muito com advogados e ciência falsa para negar os efeitos adversos de seus produtos à saúde. As 'Big Oil' [grandes empresas de petróleo] fizeram o mesmo para negar a contribuição dos combustíveis fósseis para a crise climática. Eles reconheceram que Trump era um deles.

Então, os avanços na tecnologia forneceram uma ferramenta para a rápida disseminação de desinformação e o sistema político dos EUA, onde o dinheiro reina supremo, permitiu que as empresas de tecnologia emergentes se libertassem de arcar com sua responsabilidade. Esse sistema político fez outra coisa: gerou um conjunto de políticas (às vezes chamadas de neoliberalismo) que proporcionou ganhos massivos de renda e riqueza para os que estão no topo, mas promoveu uma quase estagnação em todos os outros lugares. Logo, um país na vanguarda do progresso científico foi marcado pelo declínio da expectativa de vida e aumento das disparidades de saúde.

A promessa neoliberal de que a riqueza e os ganhos de renda chegariam aos que estão por baixo era fundamentalmente espúria. À medida que mudanças estruturais massivas desindustrializaram grandes partes do país, aqueles que ficaram para trás foram deixados para se defenderem sozinhos. Como alertei em meus livros The Price of Inequality e People, Power and Profits, essa mistura tóxica proporcionou uma oportunidade convidativa para um aspirante a demagogo.

Como vimos repetidamente, o espírito empreendedor dos norte-americanos, combinado com a ausência de restrições morais, fornece uma ampla oferta de charlatões, exploradores e aspirantes a demagogos. Trump, um sociopata mendaz e narcisista, sem nenhum conhecimento de economia ou apego à democracia, era o homem do momento.

A tarefa imediata é remover a ameaça que Trump ainda representa. A Câmara dos Representantes deveria impedi-lo agora, e o Senado deveria julgá-lo algum tempo depois, para impedi-lo de ocupar um cargo federal novamente. Deve ser do interesse dos republicanos, não menos do que dos democratas, mostrar que ninguém, nem mesmo o presidente, está acima da lei. Todos devem compreender o imperativo de honrar as eleições e garantir a transição pacífica de poder.

Mas não devemos dormir confortavelmente até que os problemas subjacentes sejam resolvidos. Muitos envolvem grandes desafios. Devemos conciliar a liberdade de expressão com a responsabilidade pelo enorme dano que a mídia social pode e tem causado, desde o incitamento à violência e promoção do ódio racial e religioso à manipulação política.

Os Estados Unidos e outros países há muito impõem restrições a outras formas de expressão para refletir preocupações sociais mais amplas: não se pode gritar fogo em um teatro lotado, envolver-se em imagens de abuso infantil ou cometer calúnia e difamação. É verdade que alguns regimes autoritários abusam dessas restrições e comprometem as liberdades básicas, mas os regimes autoritários sempre encontrarão justificativas para fazer o que quiserem, independentemente do que os governos democráticos façam.

Nós, norte-americanos, devemos reformar nosso sistema político, tanto para garantir o direito básico de voto quanto a representação democrática. Precisamos de uma nova lei de direito de voto. A antiga, adotada em 1965, era voltada para o Sul, onde a privação de direitos dos afro-americanos havia permitido às elites brancas permanecerem no poder desde o fim da Reconstrução após a guerra civil. Mas agora as práticas antidemocráticas são encontradas em todo o país.

Também precisamos diminuir a influência do dinheiro em nossa política: nenhum sistema de freios e contrapesos pode ser eficaz em uma sociedade com tanta desigualdade como os EUA. E qualquer sistema baseado em “um dólar, um voto” ao invés de “uma pessoa, um voto” estará vulnerável à demagogia populista. Afinal, como esse sistema pode servir aos interesses do país como um todo?

Finalmente, devemos abordar as múltiplas dimensões da desigualdade. A diferença marcante entre o tratamento dado aos insurrecionistas brancos que invadiram o Capitólio e os pacíficos manifestantes do Black Lives Matter neste verão mais uma vez mostrou para aqueles ao redor do mundo a magnitude da injustiça racial da América.

Além disso, a pandemia de Covid-19 ressaltou a magnitude das disparidades econômicas e de saúde do país. Como tenho argumentado repetidamente, pequenos ajustes no sistema não serão suficientes para fazer grandes modificações nas desigualdades arraigadas do país.

A forma como os Estados Unidos responderem ao ataque ao Capitólio dirá muito sobre a direção do país. Se não apenas responsabilizarmos Trump, mas também embarcarmos no difícil caminho da reforma econômica e política para resolver os problemas subjacentes que deram origem a sua tóxica presidência, então haverá esperança de um dia melhor. Felizmente, Joe Biden assumirá a presidência em 20 de janeiro. Mas será necessário mais de uma pessoa - e mais de um mandato presidencial - para superar os desafios de longa data dos Estados Unidos.

Joseph E Stiglitz é ganhador do Prêmio Nobel de Economia, professor universitário na Universidade de Columbia e economista-chefe do Instituto Roosevelt.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli

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