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Cinco cidades de SP foram desmatadas na Amazônia em 2020, de acordo com Inpe

Para porta-voz do Greenpeace dados revelam que gestão de Jair Bolsonaro gera prejuízos para o ecossistemas e economia



Por Catarina Barbosa
Do Brasil de Fato | Belém (PA) | 09 de Janeiro de 2021 


Dados do INPE apontam que desmatamento em dois anos de Bolsonaro tem alta de 82% comparados ao período de 2016 a 2018 - Wilson Dias/ Agência Brasil

Os alertas de desmatamento da Floresta Amazônica chegaram a 8.426km² durante todo o ano passado. O número corresponde a uma área próxima a cinco cidades de São Paulo, que possui 1.521 km² de extensão.

Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) na última sexta-feira (8), e foram registrados pelo projeto Deter-B, responsável por acompanhar em tempo quase real, desmatamentos e outras alterações na cobertura florestal com área mínima próxima de um hectare.

A área devastada do bioma em 2020 é o segundo pior índice do Deter, que começou a operar em 2015, e perde apenas para 2019, primeiro ano da gestão de Jair Bolsonaro (sem partido), em que foram 9.178 km² desmatados.

Se considerados os dois primeiros anos do seu governo o crescimento de destruição da Amazônia chega a 82% se comparados aos três anos anteriores. Entre 2016 e 2018 o desmate foi de 4.845 km², enquanto em 2019 e 2020, os números saltam para 8.802 km².

Para Rômulo Batista, porta-voz da Campanha Amazônia do Greenpeace, isso é apenas a comprovação de que Bolsonaro além de não ter a intenção de frear o avanço do desmatamento no país gera ainda mais prejuízos para o ecossistema e a economia.

"O desmatamento não traz riqueza e a prova disso são os diversos estudos que apontam que onde o desmatamento está, você não tem uma diferença do Índice de Desenvolvimento Econômico (IDH) nos municípios onde ocorrem mais desmatamento", afirma.

Confira abaixo a entrevista

Brasil de Fato: Com base nesse resultado podemos dizer que a atuação do governo federal no combate ao desmatamento é ineficaz?

Rômulo Batista: Com certeza, o que a gente tem visto nos últimos dois anos é um desmonte de todas as políticas e conquistas ambientais feitas desde a redemocratização do país, passando pela desaprovação de fiscais do Ibama e o IBMBio quando estavam cumprindo o seu dever, destruindo equipamentos dentro de terras indígenas, que estavam fazendo extração ilegal de madeira ou garimpo, ao corte de verbas.

Nesse cenário veremos uma aumento nos níveis de desmatamento chegando aos 10 mil km² de área desmatada.

A redução de orçamento já foi muito grande nos últimos dois anos e para o próximo ano há a previsão de mais quase 30% no orçamento para operações do Ibama. O próprio ministro [do Meio Ambiente] Ricardo Salles falou na reunião ministerial de abril, que está se aproveitando para passar a boiada e toda desregulamentação infralegal das questões ambientais que vimos ocorrendo, principalmente, durante o ano de 2020.

De que forma podemos entender a atuação do general Hamilton Mourão, que está à frente do Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL)?

O Brasil, anteriormente, tinha alguns conselhos nos quais você tinha a participação e representação social de organizações sejam elas de causas ambientalistas ou sociais, porém o Conselho da Amazônia é formado basicamente por membros do governo, que seguem à risca, a visão que o presidente tem para o meio ambiente.

Bolsonaro vê o meio ambiente como um entrave econômico. Enquanto todos os países do mundo estão tentando se adequar, estão pensando a nova economia pós-covid focada em um desenvolvimento limpo, um desenvolvimento verde, o presidente e seus ministros apostam na abertura de terras indígenas para mineração e no desmatamento para o aumento da produção agrícola, o que não é necessário.

O Brasil já tem muitas áreas abertas, muita área de pasto não utilizada, que poderia ser aproveitada para o aumento da agropecuária, mas na verdade ele vê a Amazônia como uma grande fonte de recursos naturais, seja de madeira, de minério ou para expansão do agronegócio através de terras baratas.

A Amazônia está muito próxima de um ponto de "não retorno".

A gente sabe que as áreas que são desmatadas e acabam sendo griladas são terras públicas utilizadas para especulação imobiliária, simplesmente para gerar lucro para pouquíssimas pessoas.

O desmatamento não traz riqueza e a prova disso são os diversos estudos que apontam que onde o desmatamento está, você não tem uma diferença do Índice de Desenvolvimento Econômico (IDH) dos municípios onde ocorrem mais desmatamento.

Com esse cenário de desmatamento contínuo e desmonte dos órgãos de fiscalização, quais prejuízos a gente pode esperar para os próximos anos?

Infelizmente, se seguirmos esse cenário veremos uma aumento nos níveis de desmatamento chegando aos 10 mil km² de área desmatada.

É importante salientar que a ciência aponta que a Amazônia está muito próxima de um ponto de "não retorno" também chamado de ponto de "inflexão", que é quando a floresta perde a capacidade da sua automanutenção.

No ano passado: Biodiversidade perdida em queimadas na Amazônia levará décadas para se recuperar

A gente sabe que a Floresta Amazônica é super rica em biodiversidade e as pessoas gostam muito de se referir à Amazônia como o "pulmão do mundo", eu prefiro a analogia com o coração. Toda essa umidade que ela bombeia para a atmosfera acaba voltando em forma de chuva para a própria Amazônia, para o centro-oeste, sudeste, que são os grande produtores rurais do país.

Ao atingir esse ponto de não retorno, a floresta vai passar por um processo de seca e de diminuição do regime hídrico.

Então, além da floresta se tornar mais pobre em termos de biodiversidade, vai acarretar em um menor volume de chuvas. Existem estudos que mostram, por exemplo, que essa seca que já perdura há dois anos no Pantanal pode ser já o começo do reflexo dessa diminuição de chuva e, infelizmente, esse ano vimos o que ocorreu região pantaneira por causa dessa seca, que também agravou muito a questão de queimadas.

Alguns produtores do Sul e Sudeste do Brasil sofreram, em 2020, o reflexo dessa escassez de chuvas, o que comprometeu muitas safras. Podemos considerar esse um reflexo do desmatamento?

Recentemente, além do impacto direto na agricultura, a gente viu que os reservatórios das hidrelétricas na região Sul, Sudeste e Centro-oeste estão muito baixos.

Precisamos lembrar que as mudanças climáticas são o maior desafio que a humanidade vai passar nesse século.

Estes reservatórios são basicamente enchidos pelo regime de chuva, que sofre essa grande influência da umidade. Inclusive, o Doutor Carlos Nobre* cunhou o termo rios voadores, que faz referência a toda essa umidade da Amazônia, que vai para a atmosfera, bate da Cordilheira dos Andes e se torna como se fosse um rio trazendo muita umidade e enchendo tanto os reservatórios quanto irrigando essas áreas agrícolas.

Então, a própria atividade agropecuária, que impulsiona o desmatamento na Amazônia, principalmente, para a criação de gado, vai pagar o preço por essa destruição.

Com a diminuição de chuvas, há lugares em que você teria duas safras de soja e de milho. No entanto, pela diminuição da chuva só vai ter uma.

Há um estudo que mostra que na bacia do Rio Xingu, no Pará, ao diminuir a quantidade de mata, lugares que antes produziam duas safras passaram a ter só uma, em decorrência da escassez de chuvas. Esses são reflexos.

Vale lembrar também que esse desmatamento e queima da Amazônia libera muito gás do efeito estufa acelerando ainda mais as mudanças climáticas.

Precisamos lembrar que as mudanças climáticas são o maior desafio que a humanidade vai passar nesse século. Se a gente passar o limite estabelecido no Acordo de Paris em mais de dois graus desde a era pré-industrial, as consequências vão ser enormes.

Os regimes de seca serão muito mais comuns, teremos distúrbios climáticos como grandes tempestades.

Todos esses fenômenos se tornarão mais comum. Países mais pobres, como é o caso do Brasil, vão ser os que vão sofrer mais com os efeito das mudanças climáticas, porque não terão dinheiro pra investir na mitigação, nem tão pouco estão trabalhando para impedir que ela aconteça.

*Carlos Nobre foi um dos ganhadores do Prêmio Nobel em 2008, quando integrou o Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC).

Tu acreditas que é possível reverter essa destruição da floresta e dos ecossistemas que nela existem? Se sim, o que precisamos fazer a curto prazo?

É possível, sim, reverter. O Brasil já teve taxas de desmatamento mais altas em anos anteriores. Em 2004, por exemplo, a gente tinha 27 mil km² de desmatamento segundo o Prodes, que é outro sistema do Inpe que mede a taxa anual de desmatamento.

A taxa anual do ano de 2020 ficou em 11 mil km² e chegamos a atingir menos de 5.480 km², no ano de ano de 2012.

Pensando nisso e tentando contribuir para que a gente não atinja esse ponto de "não retorno", em abril, o Greenpeace junto a outras 61 organizações enviou para o presidente da Câmara e para o presidente do Senado com cinco ações emergenciais para auxiliar o combate ao desmatamento das queimadas.

A política que tem sido implementada aqui no Brasil, que na verdade é a antipolítica ambiental.

Basicamente, um pedido de moratória do desmatamento nos próximos cinco anos, ou seja, o desmatamento não seria autorizado e todos passariam a ser ilegais; a volta do Plano de Combate e Prevenção ao Desmatamento e Queimadas na Amazônia estendendo isso para outros biomas, como o Cerrado e o Pantanal, e a volta de funcionários de carreira especializados nos cargos de chefia, direção e coordenação do Ibama e do ICMBio.

Você teria também a volta da criação e implementação das Unidades de Conservação e Terras Indígenas, que são, segundo a ciência a melhor forma de evitar o desmatamento e as queimadas.

Com isso seria possível reduzir esse desmatamento que temos agora, como já foi provado no passado, e, assim, voltar a ser vistos como o país que lidera a questão ambiental.

O Brasil por muitos anos foi visto como o líder na questão ambiental, o líder na diminuição do desmatamento. Nós reduzimos as emissões por desmatamento praticamente aos níveis que tínhamos assumido em compromissos internacionais.

Outro ponto é que muitos países, muitas empresas e fundos de investimento já se manifestaram contra o desmatamento na Amazônia e contra essa política que tem sido implementada aqui no Brasil, que na verdade é a antipolítica ambiental.

A questão ambiental passa também pela questão econômica. Ou seja, a recuperação econômica depende disso e mais e mais clientes, que compram os produtos do Brasil vão demandar que esse produto seja sem desmatamento, sem queimadas.

Para isso, é essencial que o governo federal faça a sua lição de casa diminuindo esse desmatamento, essas queimadas e implementando um programa de rastreabilidade para saber onde esses produtos estão sendo produzidos e se eles estão contaminados pela destruição do meio ambiente.

Edição: Marina Duarte de Souza

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