Pages

A CIA e György Lukács

Do A Terra É Redonda, 27 de Janeiro 2021
Por ANTONINO INFRANCA*


Os relatórios da agência norte-americana sobre as atividades do marxista húngaro.

A questão mais polêmica para quem, em diferentes graus, se interessa por Lukács é, sem dúvida nenhuma, se posicionar em relação ao suposto caráter stalinista do pensamento dele. Escrevo “suposto” porque, confesso, desde o início, não estou absolutamente convencido da existência de um caráter stalinista no pensamento de Lukács. Não nego que tenha tido alguma relação com o stalinismo, tendo vivido de 1933 a 1945 na União Soviética e de 1945 a 1971 na Hungria.

Mas não há igualmente dúvida de que ele tenha sido uma vítima do stalinismo: foi preso, em 1941, pela polícia stalinista e salvo do Gulag pela intervenção de Dimitrov – chefe da Internacional Comunista –; foi expulso da Universidade de Budapeste, em 1949; foi deportado para a Romênia por ter participado da Revolução Húngara de 1956 como ministro do governo Nagy; foi expulso do Partido Comunista Húngaro de 1929 a 1945 e, depois, de 1949 a 1967.

Esses dados, talvez, não convencerão quem argumenta que, no fundo, as vítimas do stalinismo eram, sobretudo, comunistas, mas não se pode negar que Lukács, na condição de perseguido ou excluído – como escrito acima –era um comunista antistalinista. É difícil pensar que uma vítima adira ao sistema que a perseguiu, a menos que se queira inventar alguma forma de masoquismo patológico do qual, aliás, não há nenhuma prova. Na verdade, Lukács sempre assumiu posições ou apoiou teses que eram distantes ou hostis ao stalinismo.

Minha intenção, neste breve artigo, é verificar o que pensavam de Lukács seus reais adversários. Não me refiro aos irredutíveis anticomunistas como Fejtö ou Kerényi, que levaram adiante teses insustentáveis e substancialmente ridículas. Não me refiro nem mesmo aos cães de guarda do stalinismo, alemães orientais, ou russos, ou húngaros que, com suas condenações, confirmaram o caráter antistalinista do pensamento de Lukács.

Refiro-me, ao contrário, à Central Intelligence Agency, mais conhecida pela sigla CIA, isto é, o sistema de espionagem estadunidense, que certamente entendia de stalinismo. Um intelectual famoso como Lukács não escapou à atenção da CIA. Ela se interessou, sobretudo, por suas posições políticas em relação ao regime de Kádár, acompanhando seus passos, portanto, sobretudo após 1956, provavelmente para compreender as dinâmicas culturais da Hungria comunista e para compreender quanto o regime kadariano era capaz de controlar essas dinâmicas.

O primeiro documento da CIA referente a Lukács data de 1959, do autor Paul Landy, um escritor que fugiu da Hungria devido à repressão, após a derrota da Revolução de 1956; hoje, o documento está disponível no site https://www.cia.gov/library/readingroom/document/cia-rdp81-01043r003400130004-2. São três páginas de uma coleção de documentos intitulada “The Creative Artist in a Communist Society”. O documento referente a Lukács já tem o título significativo “György Lukács: Hungary’s heretical Marxist”. Assim, Lukács era apresentado como um “marxista herético”, cujo “pensamento se afasta muito da posição ideológica do partido” (p.1). Landy reconhece a fama internacional de Lukács e alerta que, recentemente (1959), o partido voltou a atacá-lo, porque “se recusou a desistir de suas ideias ‘revisionistas’ sobre os direitos dos indivíduos em um Estado marxista” (Ibid).

Inaceitável para o partido foi a concepção lukacsiana, segundo a qual “a tarefa da ciência marxista é considerar objetivamenteas obras literárias”. Esta posição é considerada por Landy incompatível com a condenação de Pasternak e de outros escritores. Lukács foi alvo de “ataques violentos, por ter recusado o controle do Partido sobre a literatura” (p. 2), argumentando que o próprio Lênin não tinha, de forma alguma, essa atitude censória. Lukács também é acusado de “ter feito ‘falsas’ declarações sobre a rebelião húngara antissoviética de 1956 e de ter apoiado diversos pontos de vista sobre o marxismo que não correspondem à interpretação do partido” (Ibid).

Landy comenta que o ataque a Lukács é “uma lição a ser ensinada aos intelectuais que acreditam que certo grau de liberdade de pensamento é autorizado em países governados pelo comunismo” (Ibid). Este comentário nos confirma que Lukács, graças ao seu prestígio, podia manter uma posição “herética”, que esta posição “herética” era considerada perigosa pelo partido, porque poderia servir de modelo a ser seguido por outros intelectuais. É preciso lembrar que um pequeno grupo de jovens intelectuais se reuniu em torno de Lukács, alguns dos quais formaram a chamada “Escola de Budapeste”, e outros alunos que, ao desvencilharem-se das pressões do regime kadariano, acabaram se tornando os intelectuais mais críticos dentro de todo o sistema comunista – Zoltai, Hermann, Almasi. Landy, diante disso, adverte que, apesar “da série de ataques particularmente virulentos, Lukács sempre foi admirado e respeitado pelos intelectuais de todo o bloco comunista” (p. 3).

No relatório, Landy continua enfatizando que a posição de Lukács sempre foi alheia às linhas ortodoxas do Partido, mesmo quando vivia na União Soviética. A participação ativa de Lukács no período pré-revolucionário húngaro de 1956 e a definição de “revolução”, dada por Lukács aos acontecimentos de 1956 na Hungria, particularmente irritaram o Partido. Além disso, Lukács recusou a tese oficial de que os eventos de 1956 tivessem sido uma contrarrevolução fascista e imperialista. O regime não perdoa Lukács que, quando foi um dos pontos de referência do Círculo Petöfi – uma associação de jovens reformistas – argumenta que “a juventude revolucionária poderia eliminar todos os restos stalinistas. O fortalecimento das liberdades democráticas e a autonomia eram as bases para determinar o caminho húngaro para o socialismo” (p. 2). O futuro para Lukács não será favorável, a menos que se adéqüe às diretrizes do Partido.

Um segundo relatório da CIA sobre Lukács, de 13 de maio de 1968, intitulado “Lukács ataca novamente”, é referido como “confidencial”. Pode ser encontrado no site https://www.cia.gov/library/readingroom/document/cia-rdp79b00864a000800010039-1. O relatório destaca a tomada de posição de Lukács, expressa publicamente em um artigo na revista Kortars, contra “dogmas ligeiramente melhorados e modernizados e, também, a adoção unilateral das mais estúpidas loucuras ocidentais”. O relatório lembra a posição sempre herética de Lukács em relação às diretivas do Partido, sua participação no governo Nagy de 1956 e sua recente readmissão no Partido, ocorrida em 1967, mas que de maneira alguma implica “a aprovação de suas teorias por parte do Partido”.

O artigo em Kortars não é novidade, pois “Lukács publicou recentemente inúmeros artigos em revistas estrangeiras, atacando, por sua vez, os stalinistas intransigentes e a deserção dos princípios marxistas”. O relatório conclui que todos os ataques a Lukács apenas aumentam sua popularidade e desacredita o partido. Isso confirma que Lukács era capaz de interpretar e, portanto, representar a opinião pública húngara, substancialmente contrária ao regime neostalinista de Kádár.

O terceiro relatório surge em 10 de janeiro de 1970, é classificado como “Top Secret” e tem o título genérico “Hungria-Iugoslávia-URSS”. A data é de alguns meses antes da morte de Lukács, 04 de junho de 1971. Disponível no site https://www.cia.gov/library/readingroom/document/0005977238. Refere-se a uma entrevista de Lukács ao jornal iugoslavo Borba, na qual Lukács “explica de maneira enfática a necessidade de uma renovação marxista para evitar uma crise no mundo socialista”. “Lukács reprovou veementemente a liderança soviética por não formar mais parceria com os socialistas europeus e qualificou as teorias de Stalin de seus antecessores como “manobras táticas que são amplamente irrelevantes”. As declarações de Lukács eram típicas de sua posição política na época. Bastante insólita é a afirmação de que às críticas a Stalin unisse também aquelas aos antecessores: talvez inclusive Lênin? Certamente não, porque seria um caso único, que não foi observado por nenhum estudioso de Lukács, nem mesmo foi um argumento repetido pelo filósofo húngaro. Pode-se, portanto, considerar uma afirmação digna de maiores esclarecimentos, talvez o próprio informante quisesse permanecer vago para instilar alguma suspeita sobre Lukács, como crítico radical do leninismo.

Mais importante, no entanto, é o apreço expresso em relação a Tito e ao regime iugoslavo, considerado “como a maior contribuição para a renovação do marxismo”. Esta declaração de Lukács foi, provavelmente, uma concessão ao entrevistador iugoslavo, porque o termo “maior” pode ser contestado à luz das declarações da época. Lukács reconhecia a importância da novidade do regime titoísta, mas sem querer torná-lo um modelo a propor. De fato, no fechamento do relatório, o informante anônimo argumenta que, poucos dias antes da entrevista, “as afirmações para o centenário de Lênin tinham levantado críticas implícitas ao sistema iugoslavo”, afirmações expressas pelo regime soviético. Assim, os redatores do jornal Borba tinham aproveitado a oportunidade para entrevistar Lukács e dar novamente mais relevância ao socialismo iugoslavo.

O informante, após ter resumido os fatos, conclui o relatório com sua análise, argumentando que Lukács, pela primeira vez, vinculava suas críticas a Stalin à atual política soviética. Na verdade, Lukács nunca tinha poupado críticas ao neostalinismo de Brejnev, no poder em 1970. Para o informante, “as declarações de Lukács complicarão a posição do líder do partido húngaro Kádár, que tenta introduzir medidas mais liberais nos limites impostos pelo conservadorismo soviético”.

O quarto relatório, datado de 10 de janeiro de 1970 e qualificado como “Secreto”, intitula-se “URSS-Iugoslávia-Hungria” e se apóia no relatório anterior. Foi encaminhado ao Presidente Richard Nixon no “The President’s Daily Brief”. Pode ser encontrado no site https://www.cia.gov/library/readingroom/document/cia-rdp79t00975a015300100002-9. No texto dirigido ao presidente dos EUA se refere que Lukács “culpou os soviéticos por persistentes distorções do marxismo e se chamou por um ‘marxismo renovado’ em todos os países socialistas”. O relatório reforça o valor crítico da entrevista com o filósofo húngaro, relatando uma comparação proposta por Lukács: “Os trabalhadores franceses e italianos não gostariam de viver no sistema não democrático dos soviéticos”.

É clara a intenção de salientar a crítica, não tanto ao sistema econômico soviético, mas ao sistema político, inaceitável para os trabalhadores ocidentais, acostumados ao confronto democrático com as instituições estatais. Contrário ao inaceitável sistema soviético, “Lukács elogiou o sistema de autogestão de Tito, como contribuição para o ressurgimento das ideias fundamentais de uma democracia operária”. O relatório conclui com a observação de que o regime de Kádár pode também ignorar as críticas de Lukács, mas estas não passarão despercebidas aos soviéticos, que pedirão explicações ao seu aliado húngaro.

No relatório teme-se que “os responsáveis iugoslavos estarão igualmente preocupados com a entrevista; embora não discordem de Lukács, não querem, no entanto, que a prudente liberalização da Hungria seja comprometida pelo fortalecimento dos controles soviéticos”. Em suma, Lukács parece ser capaz de perturbar todos e os três regimes socialistas com suas entrevistas e posições integras que, segundo a CIA, renovam seu forte caráter antistalinista.

*Antonino Infranca é doutor em filosofia pela Academia Húngara de Ciências. Autor, entre outros livros, de Trabalho, indivíduo, história – o conceito de trabalho em Lukács (Boitempo).

Tradução: Juliana Hass

Nenhum comentário:

Postar um comentário