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SEBASTIÃO SALGADO NA AMAZÔNIA

Da Folha de São Paulo, 19 de Dezembro, 2020


Amazônia Esplêndida A maior floresta tropical do mundo apresenta dimensões e encantos superlativos, mas seus 5,5 milhões de km² estão cada vez mais ameaçados de destruição pela ação humana –em 2020, o desmatamento atingiu o nível mais alto dos últimos 12 anos; nas imagens deste especial, o principal fotógrafo da atualidade revela as belezas do relevo e dos rios voadores do bioma que ocupa metade do território brasileiro
 

Uma das mais antigas formações geológicas do planeta está na região das fronteiras do Brasil com a Venezuela, no Amazonas e em Roraima; os tepuis, em formato de meseta, têm solo impermeável às chuvas, o que leva a água a escoar pelas bordas, surgindo assim cachoeiras como a do El Dorado (ao fundo) e a do Desabamento (em 1° plano), no Parque Estadual do Aracá

A Funai está no purgatório, mas vai resistir a Bolsonaro



Thea Severino e Naief Haddad

19.dez.2020 - 1h

SÃO PAULONo sobrevoo pela região da Reserva Florestal Parima, Salgado registra o arco-íris e o sol que anunciam a interrupção das fortes chuvas

Radicados em Paris desde 1973, o Sebastião Salgado e sua mulher, a diretora artística e designer Lélia Wanick Salgado, decidiram montar uma nova casa, em São Paulo, para ficar mais perto da família e da primeira neta, Nara, que tem 3 anos.

“Tô com 76 anos, a Lelinha, 74. Falei: Vamos ficar perto dos nossos, ver essa menininha crescer. É só isso que conta na vida. O resto passa”, diz o fotógrafo.

Semanas antes do início da pandemia de coronavírus no Brasil, o mineiro recebeu a reportagem em seu apartamento no bairro de Higienópolis para falar de seu projeto “Amazônia”, do presente e do futuro da fotografia, da atuação da Funai [Fundação Nacional do Índio] no governo de Jair Bolsonaro, entre outros temas.

Desde 2017, a Folha publica o resultado das viagens dele à floresta na série de dez reportagens fotográficas Sebastião Salgado na Amazônia. “É o maior espaço que um movimento indígena brasileiro já recebeu para as suas publicações”, afirma.



O fotógrafo Sebastião Salgado sobrevoa de helicóptero a floresta amazônica na região de Auaris, em Roraima, em outubro de 2018 - Felipe Reichert

A parceria com a Folha teve início em 1996, quando ele já era considerado um dos maiores nomes da fotografia mundial. Àquela altura, Salgado passou seis meses trabalhando com o jornal, cobrindo, entre outros assuntos, as ações do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e a chacina de Eldorado dos Carajás (PA).

As expedições de Salgado ao maior bioma brasileiro tiveram início em 2013. Para chegar a comunidades remotas, ele viajou por terra, água e ar, e registrou os indígenas Korubo, Ashaninka, Suruwahá, Yawanawá, Marubo, Ianomâmi , do Xingu e Zo’é .

Conta que, nessas incursões à floresta, ele se integra às comunidades e não dispõe de tratamento especial. “Nessa profissão, você tem que gostar de viajar”, diz o fotógrafo. “E rede é uma cama boa em qualquer lugar. Eu tenho uma maravilhosa que levo para o mundo inteiro.”

O resultado de “Amazônia”, projeto concebido com Lélia, assim como todos os outros (“Trabalhadores”, ”Êxodos”, “Gênesis” etc.), poderá ser visto em livro e exposição em 2021.



Durante a época das chuvas, o rio Jaú, no Amazonas, invade as margens e cobre parte do tronco das árvores, fenômeno que caracteriza a mata de igapó

A mostra passará por Paris e Roma antes de chegar a São Paulo, no Sesc Pompeia, em julho.

Nesta entrevista, também respondeu às ressalvas que costumam ser feitas ao seu trabalho. Segundo alguns críticos, ele promove uma glamourização da vida indígena.

Em virtude do centenário da Folha, a ser celebrado em fevereiro de 2021, o fotógrafo de 76 anos também comentou como imagina chegar aos cem. “Para não perder massa muscular, não deixo ninguém carregar as minhas malas.”



Maior conjunto de ilhas fluviais do planeta, Anavilhanas, no Rio Negro, ao norte de Manaus, é uma das maravilhas do mundo

Registro com celular

Imagem feita com celular não é fotografia, é um registro de comunicação. Fotografia é outra coisa, é a memória. Quando você pega as fotografias que o seu pai e a sua mãe fizeram de você pequenininho, que te levaram ali na esquina onde ainda tinha um cara que revelava o filme e copiava, aquele ‘albinho’ é a memória da sua vida. Você olha a foto da sua avó, aquilo ali é fotografia, tem uma memória que isso aqui [o celular] não tem. A fotografia tem um lado, um registro, que ela é impressa, tocada, vista, vista outra vez.

Fotografia no futuro

É possível que ela desapareça porque vai se modificando. E isso não é ruim, é história. Muitas coisas desapareceram, transformaram-se em outras, é a evolução. A câmera já não é mais uma câmera fotográfica, é um híbrido: serve para cinema, para fotografia… Hoje, o fato de você trabalhar num arquivo digital facilita mexer [nas imagens].

Esse lado de uma certa pureza da fotografia está se perdendo. Fazer o que eu faço em fotografia, de entrar lá dentro da Amazônia, de atravessar a Etiópia caminhando 850 km, ninguém mais faz. Sou o único fotógrafo no planeta a fazer isso. São pedaços que desaparecem e transformam o fluxo principal. E chega uma hora que já não é mais assim.

À moda antiga

Trabalho com câmera digital, mas não sei editar no computador. O papel é essencial, tocar é essencial, ver outra vez é essencial. Recebo uma prancha de contato e edito com uma luva, marco as imagens. Com várias fotos da mesma situação, sou capaz de distinguir qual é a melhor delas. Mas guardo aquilo tudo, tenho umas 600 mil fotos impressas.

Trabalho em equipe

Dizem que o fotógrafo trabalha só. Em determinados momentos, ele está mesmo só. Mas se não for o motorista, se não for a Lélia para a gente conceber [os projetos], se não for o laboratório, se não for a pessoa que te ajuda a editar…

É um raio criativo que passa naquele momento, você chega lá e faz, mas depois a potencialização disso tudo não é feita pelo fotógrafo. O fotógrafo participa, mas ele depende de toda uma estrutura.



Monte Roraima coberto de nuvens, na fronteira entre Brasil e Guiana

Troca com as comunidades

Você tem que estar com vontade de ir mesmo. Tem que respeitar essas comunidades, achar que é importante o que você está fazendo. E tem que ter um prazer imenso em viver com as comunidades porque, na realidade, não é você mesmo que faz as fotos, são as pessoas que te dão elas de presente em função da relação que vocês mantêm.

Quando você entra numa aldeia, você é amigo de todo mundo, fica junto de manhã e à noite, ali passa a ser a sua casa.

O ser humano passou a ser um animal urbano quase. Então, você tem que gostar [de ir para o mato]. Hoje, as pessoas não têm mais a oportunidade de gostar [da natureza] porque elas não conhecem, têm medo de ir, se sentem agredidas, não conseguem enfrentar o inóspito.

Críticas à glamourização

Os indígenas [que eu registro] estão com roupa de gala mesmo porque tenho que mostrá-los em uma situação de dignidade, e não como um subproduto do mundo urbano. Quando eles estão com aquelas roupas [dos brancos], são as piores, as camisetas mais velhas, mais rasgadas. E eles põem aquela camiseta por causa do pium [borrachudo]. Quando vão caçar, vão com paramento tradicional.

Não me preocupo [com críticas por certa glamourização da fotografia que faço]. Sou tão criticado, levo tanta porrada. Cada um dá a sua opinião no que quer e pronto.

Estúdio na mata

Serei extremamente criticado quando sair esse trabalho [“Amazônia”] porque fiz muito muita foto de estúdio. Levo um estúdio que pesa 30 kg para a Amazônia e instalo debaixo das árvores. A luz é sempre natural, não sei trabalhar com luz artificial. E entra no estúdio quem quer. Eu não forço [ninguém a nada], não peço [para fotografá-los] e não podo eles. Deixo eles se arranjarem e vou fazendo o retrato deles.

Cultura indígena

Tem histórias dos movimentos indígenas no Brasil que são muito interessantes e que as pessoas não conhecem. Por exemplo, uma grande parte dos indígenas do Xingu se urbanizaram e morreram de tristeza na cidade. Porque um índio vai para a cidade e ele não fala a língua, não escreve, não lê, não é cartesiano. O sistema lógico indígena é outro.

Uma boa parte dos indígenas já foram urbanos e resolveram voltar [para as tribos]. Hoje são totalmente indígenas, é muito interessante. E a história que conhecemos dos indígenas é desses últimos decênios que estamos vivendo com eles. Mas a história já era essa 400 anos atrás.



Paraná (rio largo ou mar, na língua tupi-guarani) conectando o Rio Negro com o Rio Cuiuní

Acidentes de trabalho

Nessa profissão você cai muito. Quando está correndo atrás de índio no mato, por exemplo. Tenho dificuldade para caminhar porque já quebrei o joelho lá nos Ashaninka.

Fizemos uma sessão com 22 Ianomâmis no Pico da Neblina, a 3 mil metros de altura. Eles desceram muito para a planície com a chegada do branco, mas são de montanha; seus deuses estão todos lá em cima. Fomos com o pajé lá em cima, escorregando naquelas pedras. E, olha, pra subir lá, ainda mais para um velhinho [risos]…Tivemos que subir com cordas. Foi lá que rompi o tendão do braço. Mas tenho massa muscular que aguenta, não tenho medo de fraquejar no meio porque se fraquejar no meio você está morto.

História de pescador

Trabalho com dois assistentes que são mateiros, o Agostinho e o Bebé. Tem uma história fantástica. O Agostinho estava com a gente nos Suruwahá e ficou gripado. E não pode entrar [em uma comunidade] com um cara gripado porque você pode matar a tribo inteira. E aí o Bebé foi com a gente para os Korubo. E ele é um pescador colossal. Uma noite, pegou um pirarucu de 52 quilos e outros peixes grandes. Ele alimentou a aldeia inteira!

No dia de irmos embora, o [jornalista] Leão Serva perguntou a um líder deles o que ele gostaria de pedir ao presidente. Ele parou, pensou e disse: “Fala para ele dar para nós o Bebé” [risos].

Ajuda do Exército

Eu comprei 45 mil litros de combustível, depositei no Exército e me deixaram voar com eles na Amazônia. É a organização que mais apoia o movimento indígena, que mais conhece a Amazônia. Quando tem um índio doente, eles levam para um hospital, fazem campanhas de vacinação que a gente nem fica sabendo. Os melhores pilotos com quem voei no mundo são do Exército brasileiro.

Você vê esse Bolsonaro e uns generais retrógrados falarem: “Temos que proteger a Amazônia, senão ela vai ser invadida”… Ninguém no planeta ousaria invadir a Amazônia! Nem o Exército americano conseguiria porque o Exército brasileiro é que conhece a Amazônia.

Militares com Bolsonaro

O Exército que está com Bolsonaro é o aposentado. Tem um livro do [escritor albanês] Ismail Kadaré que se chama “O General do Exército Morto”. Bolsonaro é o general do Exército morto. É um Exército aposentado, velho, aparentado com o golpe de Estado de 1964. Os piores do Exército é que estão com o Bolsonaro.

Conhecemos uma quantidade de generais operacionais lá na linha de frente [na Amazônia] que não pensam como esses caras, não.



Temporal cai sobre a região do Baixo Rio Negro (a jusante da confluência com Rio Branco e início do arquipélago das Anavilhanas)

Funai

A Funai resiste porque tem um amortecedor, os deputados e os senadores não estão permitindo que determinadas barbaridades sejam feitas. A Funai já esteve em pior situação do que agora, no golpe de 1964, por exemplo. O [ex-senador Romero] Jucá foi preso dentro da Funai!

Como a gente passou por momentos muito interessantes com a Funai durante os governos Fernando Henrique, Lula e Dilma, a gente imagina que a Funai [não irá resistir à Presidência de Bolsonaro]. Na verdade, a Funai já esteve no inferno e agora ela está no purgatório, mas vai resistir. Eliminar uma instituição dessas Bolsonaro não consegue.

O Brasil, aliás, tem instituições incríveis! Foi o primeiro país do mundo a eliminar a poliomielite porque era o único capaz de vacinar toda a sua população ao mesmo tempo. A gente critica o movimento de saúde brasileiro, todo mundo dá um cacete, mas é um dos melhores sistemas de saúde do planeta porque atinge a todos [fala em tom de exclamação].

Ele [Bolsonaro] está tentando eliminar as instituições, mas não vai conseguir. É um país tão deformado, mas tudo isso vai se corrigir, tudo isso se corrige.

Cicatriz deixada por Bolsonaro

Ele vai fazer mal, vai deixar uma cicatriz, mas não vai destruir um sistema. Acho que haverá um amadurecimento [do país]. Viver esse momento é desesperador, mas também é interessante.

Às vezes, eu vejo as pessoas aqui no Brasil um pouco desesperadas com esse homem que chegou ao poder, com as tentativas de tolher as liberdades. Eu acredito na dialética como evolução. Nós estamos negando esse momento, mas isso que está aí não vai ficar. Não é que eu sou otimista, a história é assim. Foi assim no mundo. Nós vamos dar um salto.

Anos Lula

Por que não tem protestos aqui iguais aos do Chile [em 2019]? Porque tivemos 13 anos de governo do proletariado [do PT, com Lula e Dilma Rousseff]. O Lula foi o único proletário do mundo que chegou ao poder. Isso é uma coisa única, os brasileiros não se dão conta!

Marx propunha tomar o poder pela força e pelo proletariado, pela revolução. No Brasil, isso chegou democraticamente. Todo o sistema social de antagonismo que podia desafiar o poder foi desmontado. E vai levar dois, três anos para começar a se montar outra vez.

Urbanização do Brasil

Fazendo o livro “Trabalhadores - Uma Arqueologia da Era Industrial” [lançado em 1993 pela Companhia das Letras], pude constatar que a palavra globalização não existia, ninguém falava disso, era relocalização. Com a relocalização, vi que o nosso país, que quando eu era menino tinha 92% de população rural, começou a se urbanizar de uma maneira colossal.

Todos os problemas sociais que temos são decorrentes desse acelerador de partículas em que nós fomos colocados. Olha aqui [apontando a vista do seu apartamento em São Paulo, no 20º andar]: cada janelinha, varandinha dessas recebe água encanada, eletricidade. Nós temos um sistema de organização colossal! Falamos mal dele pra chuchu, mas é superorganizado.



Paisagem com mata de Igapó, como se chamam as florestas frequentemente alagadas pelas águas escuras dos rios

Canal da Mancha

Eu vou fazer um outro projeto sobre a construção do túnel entre a França e a Inglaterra. Fui o único fotógrafo que trabalhou realmente ali. Olha, possivelmente eu seja o fotógrafo da história da fotografia global que mais tenha trabalhado, fotografado. Tenho muitas fotografias.

Café

Eu não tomo café, mas eu adoro o cheiro, fiz um livro sobre o café [“Perfume de Sonho”, lançado em 2015 pela editora Paisagem].

O café é muito ácido, e o meu sangue é O+, o tipo mais antigo que tem. Todos os indígenas são O+ porque são caçadores coletores, comem carne. Então, a sua digestão é muito mais ácida que um sangue B+ ou A. E quando você adiciona o café, que é superácido, aí faz um carnaval.

A história do café tão bonita. Você sabe que há em torno de 50 milhões de famílias que trabalham com café? E todos esses grãos de um bom café, de uma arábica não robusta, são coletados à mão, com os grãos separados. Então tudo isso que você tem aqui [mostra o livro] já passou pelas mãos de alguém, pelas mãos de uma família. É extremamente familiar a cultura do café.

Viver até os cem anos

Não é apenas chegar aos cem anos. É você poder, aos 76, ainda estar correndo atrás de índio na Amazônia, entende?

Acho que a primeira coisa a fazer é ter uma disciplina, uma higiene de vida grande. Me alimento muito bem, eu como, no mínimo, cinco tipos de fruta toda manhã, castanhas.

Não faço esporte, mas carrego o equipamento, ando muito. Para não perder massa muscular, não deixo ninguém carregar as minhas malas.

E outra coisa importante é você ter o futuro à sua frente, não deixar que seu futuro fique atrás de você. Na hora que ele passar para trás, acabou. Então você tem que ter planos, fazer coisas, correr atrás.



Cachoeira do Rio Cotingo; ao fundo, o monte Roraima, associado ao herói Makunaima, da mitologia dos índios Macuxi, que inspirou o clássico romance 'Macunaíma', de Mário de Andrade

Serra Pelada




Aventureiros do ouro e seus rastros nos rios e na selva põem em risco o maior grupo indígena de pouco contato com os brancos, que há mil anos vive em seu shangri-lá entre picos, vales e cachoeiras, no extremo norte do Brasil


Edição: Suzana Singer / Assistente de edição: Lígia Mesquita / Reportagem e textos: Leão Serva, Naief Haddad e Thea Severino / Fotos: Sebastião Salgado e Felipe Reichert / Edição de fotos: Thea Severino / Coordenação de Arte: Thea Severino / Infografia: Luciano Veronezi / Design e desenvolvimento: Thiago Almeida, Pilker, Rubens Alencar e irapuan Campos

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