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Resistência LGBTI+: de onde vieram os votos

 

Capital paulista elegeu seis pessoas LGBTIs para a Câmara Municipal. Votos nas quatro mais à esquerda vieram principalmente de áreas centrais, mas também houve apoio da periferia. Os de direita, de regiões de elite e classe média

Do OUTRAS PALAVRAS, 02/12/2020

Por Vinícius Almeida, na coluna Outras Cartografias

Baixe o mapa em anamorfose aqui

Os resultados do primeiro turno das eleições municipais em São Paulo revelaram que pessoas LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis, queers, intersexuais, assexuais e outras pessoas não cis-heterossexuais) terão mais representatividade na Câmara de Vereadores a partir de 2021. Até então, o único vereador em exercício é Fernando Holiday (Patriota). No próximo ano, outras cinco chapas irão compor um quadro mais diverso.

Das seis candidaturas eleitas, quatro se localizam no campo da esquerda, todas filiadas ao PSOL. Duas foram candidaturas individuais: Erika Hilton, a candidata mais votada no país, e Luana Alves. E outras duas foram candidaturas coletivas compostas por, pelo menos, uma pessoa LGBTQIA+: Bancada Feminista, com Carolina Iara, e Quilombo Periférico, com Samara Sosthenes. Com exceção de Luana Alves, as vereadoras eleitas são mulheres trans ou travestis. Além disso, todas são mulheres negras e defendem pautas interseccionais em seus programas políticos, considerando os cruzamentos de raça, gênero, sexualidade, classe, idade, deficiência, dentre outras.

Thammy Miranda (PL) e Fernando Holiday (Patriota), nono e quinto candidatos mais votados no país, respectivamente, foram eleitos por partidos no campo da direita e de posição conservadora. Até aqui, vemos que a representação não necessariamente está atrelada ao discurso progressista. Holiday, apesar de negro e gay, coloca-se como opositor de políticas específicas a pessoas negras e LGBTQIA+. Miranda é o primeiro homem trans eleito para o cargo no município e se denomina progressista, com o objetivo de levar a discussão sobre diversidade sexual e de gênero para dentro do campo conservador.
O que dizem os mapas

A área de cada zona eleitoral foi transformada (anamorfose) a fim de mostrar a importância de cada candidatura através do total de votos absolutos. Isso nos permite ver o peso espacial dos votos. É importante pensar que quem vota são as pessoas, não a extensão dos territórios, portanto o mapa deve mostrar as dinâmicas espaciais a partir da população nos territórios. A porcentagem de votos que cada candidatura recebeu é expressa por uma variação de tons de vermelho e nos revela as concentrações de votos. Ela é independente do total absoluto, mas, no geral, mantém similaridade na distribuição.

O mapa da figura abaixo auxilia na identificação, por nome, de cada zona eleitoral.

Os votos nas candidaturas da esquerda foram mais expressivos nas áreas centrais do município, que, de acordo com o Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo1, também é onde se concentra as populações branca, feminina e jovem. Mas há alguns poréns. Erika Hilton teve votação expressiva no centro e em áreas mais distantes, apesar de não ter alcançado os extremos norte, leste e sul com a mesma intensidade. Fernando Holiday também teve votação expressiva em grande parte do município, no entanto, recebeu votos em áreas mais nobres, ao sul.

O Quilombo Periférico merece destaque, pois além de receber boa parte de seus votos das áreas centrais e da zona oeste, teve quantidade significativa de votos no extremo leste – a única das seis candidaturas que mobilizou mais eleitores nos distritos daquela região, alguns dos mais desiguais ainda segundo a Rede Nossa São Paulo.

Outro destaque está na quase ausência de votos para Thammy Miranda nas zonas eleitorais de Pinheiros e Jardim Paulista, contrastando com as candidaturas de esquerda. Os votos a ele estão distribuídos de forma um pouco mais homogênea, com destaque para áreas de classe média e média-baixa.

As candidatas da esquerda eleitas têm histórico em movimentos sociais, o que sugere um fortalecimento e resistência frente ao “pânico anti-LGBTs”2 que cresce nas últimas eleições. Esse parece ser um movimento que ocorre em diversas cidades. O site Vote LGBT3 identificou 90 candidaturas LGBTQIA+ eleitas em 72 municípios neste ano. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA)4, o número de candidaturas trans eleitas passou de 8, em 2016, para 30, em 2020, em todo o país.

Dados como esses levantam diversos questionamentos sobre como será a representatividade na câmara. Mais numerosas, as forças políticas progressistas podem mostrar que toda a política deve ser pensada de forma interseccional. Os mapas não deixam dúvida sobre de onde vêm as pessoas que vão cobrar dos mandatos eleitos.

1 Rede Nossa São Paulo. Mapa da desigualdade. Disponível em: https://www.nossasaopaulo.org.br/.

2 Marcos de Jesus Oliveira. “O pânico anti-LGBTs como estratégia de governo”. Outras Palavras, 01/10/2019. Disponível em: https://outraspalavras.net/crise-brasileira/o-panico-anti-lgbts-como-estrategia-de-governo/.

3 Vote LGBT. Disponível em: https://votelgbt.org/eleicoes.

4 ANTRA. “Candidaturas trans foram eleitas em 2020”. Disponível em: https://antrabrasil.org/2020/11/16/candidaturas-trans-eleitas-em-2020/.


VINÍCIUS ALMEIDA
Doutorando em Geografia Humana na USP.

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