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Literatura dos Arrabaldes: Poemas de Sankofa

Em duas escritoras da periferia, a ancestralidade renovada e o feminismo negro como forma de curar feridas — pessoais e coletivas. Maternidade e cabelo afro tornaram-se um convite a ver as raízes profundas como um canto de libertação




De OUTRASPALAVRAS, 21 de Dezembro, 2020
Por Eleilson Leite, na coluna Literatura dos Arrabaldes


Os livros abordados neste artigo são Troca1, de Thata Alves, publicado em 2017 pelo Selo Academia Periférica das Letras e Nós – 20 poemas e uma Oferenda2, de Neide Almeida que saiu pela Ciclo Continuo Editorial no ano de 2018. As autoras são negras, porém de gerações e formações distintas. Neide, que está estreando em livro solo, é socióloga com mestrado em linguística. Iniciou sua militância no campo da educação e da cultura ainda nos anos 1980 e na época da publicação de seu livro era coordenadora do Núcleo de Educação do Museu Afro. Já Thata Alves é artista multimídia e escritora autodidata. Integra o Sarau da Ponte para Cá e atua no Coletivo CITA, entre outras atividades. Tem 28 anos e um livro publicado anteriormente3. Ambas são da periferia de São Paulo; Thata, é da Zona Sul e Neide, da Leste. A experiência da maternidade é um elemento marcante na obra das duas escritoras e a valorização do matriarcado é uma tônica comum às obras.

As autoras, como a maior parte das escritoras negras que tiveram livros analisados nesta coluna, reverenciam a ancestralidade negra e africana. Thata e, especialmente Neide, fazem esse movimento como um ebó, como sugere Lívia Natália no prefácio do livro Nós. Ebó, na tradição das religiões de matriz africana, é uma oferenda, um despacho e pode ser entendido como uma cura que resulta numa limpeza espiritual. As poetas transmitem em seus textos essa atmosfera de renovação e a devoção que fazem à ancestralidade é o fio condutor que articula os textos nas obras. Entendo esse movimento como a Sankofa que pode ser traduzido como “volte e pegue”. Um retorno ao passado para “ressignificar o presente, para, então, construir o futuro”, como diz Cesar Fraga, fotógrafo brasileiro afrodescendente que refez o percurso de seus antepassados escravizados e o registrou na série documental Sankofa – a África que te habita4. O título desse documentário é inspirador e me fez perceber a estrutura de sentimento manifestada nos poemas de Thata Alves e Neide Almeida.

Nós



O livro de Neide é uma obra madura como fruta que demora a ficar no ponto de ser sorvida. É um trabalho muito bem resolvido tanto do ponto de vista do texto, quanto da edição. Embora pessoal, Nós fala de muitas. Neide reiteradamente exalta “as que vieram antes”. É um livro do matriarcado. A figura da mãe é central nas três dimensões: ela como mãe de uma jovem, a relação da filha com ela e dela com sua própria mãe. São a um só tempo os “nós” que as unem e o “nós” como pronome pessoal no plural. Todos os textos, incluindo a oferenda, são de Sankofa e a autora nos conduz nessa viagem ancestral com um vigor poético admirável. Neide conseguiu fazer um livro que é sua limpeza espiritual e um legado para a literatura.

O livro abre e se encerra com haicais que falam por si. “Raízes profundas/ não me prendem a chão algum/ Libertam meu canto” está nas primeiras páginas. “Minha Oxum me diz:/ a poesia é tom, dança/ à flor da pele” aparece nas últimas. No primeiro ela se expressa em paradoxo: as raízes profundas a fazem voar. No segundo é o sentido visceral de sua escrita que é uma expressão de seu corpo que tem história e território.

Os poemas estão numerados de 1 a 20 e o de número 10 é justamente aquele que dá título do livro. Como foi dito, Neide explora o duplo sentido da palavra “nós”. Mas há no poema uma certa ênfase no sentido de amarração: “me desfaço de laços/ e me cubro apenas/ com a delicadeza de panos atados/ por precisos nós”. Cabe aqui uma reflexão sobre a distinção entre “laço” e “nó”. Laço seria algo sujeito a ser desfeito; já o nó é inviolável. O poema está impresso numa página dupla na qual há um delicado desenho de duas mulheres negras. Aparentemente duas jovens, mas pode ser uma mulher e uma adolescente. Talvez o desenho represente a autora e sua filha Luara Erremays que é autora da referida ilustração, bem como da capa. Neste caso, reforça o sentido do “nós” como pronome também. Mas a autora busca, e consegue, estabelecer uma fusão dos dois sentidos.

O movimento de Sankofa feito por Neide é regido pela memória. A metáfora do colar de pérola que está no texto chamado de Oferenda e aparece no livro como um apêndice é uma carta de navegação para leitura dos poemas. Trata-se de um texto em prosa poética com narrativa mítica que discorre sobre um colar de pérolas que uma mulher produziu durante sua gravidez. Guardada em uma caixa prateada, o colar permaneceu esquecido por anos até que a mulher reencontrou a caixa e por meio dela ativou sua lembrança. As pérolas que se soltavam da caixa só poderiam ser contidas se atadas “pelos fios de pensamento que tramara tão habilmente”.

Mares, rios e as montanhas de Minas Gerais são metáforas recorrentes que habitam a narrativa poética da autora, mas é por meio do corpo que ela se conecta à ancestralidade que busca. Em mim é um poema que justifica essa percepção. Nele, a autora discorre de modo elegante e sutil sobre como se revelam no seu corpo a grandeza épica do seu povo: “prenhe de histórias/ de nossa gente/ gestos guiados por internos tambores/ surgem discretos nos quadris/ se insinuam nos ombros/tomam posse de minhas mãos”. Inerente à centralidade do corpo, aparece na poesia de Neide a própria figura da mulher e toda genealogia materna que guia sua ancestralidade.

Com o sugestivo título de Travessias, neste poema, Neide se pergunta se o medo que sua mãe tem do mar não está associado à “ancestral memória da longa travessia”. Em Abebê (espelho de Oxúm) ela, efetivamente, se expressa por meio de seus ascendentes. Ela parece se dirigir à mãe e desencadeia a partir dela a linhagem que vai até a bisavó aproximando-se do povo negro que foi escravizado. O mar aparece novamente como imagem forte para tratar dos que nele foram atirados na travessia do Atlântico.

O poema Corpo vai na mesma linha. Com cinco estrofes, ele segue uma forma estética de outros textos da autora que vão somando camadas até chegar a uma ideia consolidada fazendo uso de uma reiteração para enfatizar a ideia central do texto. No caso, o corpo é expresso pela metáfora do campo: campo de solo revolto; campo sagrado; campo marcado (pelas águas e pelo vento); campo de batalhas e a ideia síntese: “campo ocupado/ por séculos de rebeldia/ por cantos de liberdade”. A elaboração poética me remete a Luedje Luna: “Eu sou um corpo/ Um ser/ Um corpo só/ Tem cor, tem corte e a história do meu lugar” (Corpo no Mundo).

Em Bordas, Neide segue a argumentação centrada no corpo como elemento de identidade: “Minhas bordas/ escuras como meu dentro/não me suportam/ se desfazem”. A borda parece ser a pele negra. A explosão iminente como o rompimento de uma comporta pode desaguar em duas dimensões: “ora rios serenos/ ora mares bravios”. No poema Soul ela aprofunda ainda mais a reflexão. A palavra que quer dizer alma em inglês tem este sentido, mas guarda também o sentido de verbo “ser” em função da sonoridade (sou). Trata-se de uma devoção às ancestralidades guiadas, mais uma vez, pelas mulheres: “atravessada sou/ por mulheres que vieram/ antes de mim”. A autora segue a forma que dá um ritmo crescente ao poema a cada estrofe como camadas que são postas uma sobre a outra: “atravessada sou; iluminada sou”; “liberta sou”; “banhada sou”. Iabás (orixás femininos) é outro poema que reforça a exaltação à ancestralidade feminina: “ao ouvi-las me reconheço/ e reencontro/ poderosas heranças:/ palavras flechas/ certeiras/ inteireza”.

A busca interior de Neide não é um fim em si mesmo. Ela é coletiva. É um levante! O poema Meus quilombos é um, entre outros, que expressa de modo enfático essa perspectiva. O texto tem o ritmo vibrante e uma tensão de luta. Carregado de verbos (amparam, protegem, aquecem, prendem, libertam) desenham a atmosfera interna do Quilombo: tudo é montanha; calmaria (de longe); murmúrio; gesto. A autora busca traduzir a alegria, a paz e a guerra no aldeamento quilombola. E desse modo a Sankofa se completa para a autora.

Troca



Assim como Neide, Thata faz o movimento de Sankofa conduzida pela reverência às mulheres que a antecederam, especialmente sua mãe. Outra semelhança com Nós é que os poemas mais emblemáticos dessa perspectiva, são os que abrem e encerram a obra. ABença, mãe!é o primeiro poema do livroefaz uma devoção à mãe e por meio dela exalta a força da mulher negra lastreado pelas ancestralidades expressas nos orixás (Oxum e Ogum) dos quais extraiu destreza e sensualidade, elementos vitais de sua personalidade. Credibilidade é o derradeiro poema do livroe tem a forma de uma súplica à mãe que parece ser mais do que a sua progenitora. Busca por uma mãe ancestral que vem de África, pois exalta os “irmãos escravizados”.

Outros dois poemas mais retóricos dentre os que exaltam a negritude não têm título. Um discorre sobre a ausência de personagens negros nas histórias clássicas da literatura infanto-juvenil. Especifica Rapunzel, não por acaso uma personagem que tem no cabelo um elemento central. Faz essa crítica para expressar o encantamento que vive por um homem negro (de trança): “quando não mais acreditava em homens/ vem você e põe à tona/ o coração dessa leoa”. O outro poderia ter um título que seria Mãos Pretas. Nele a autora aborda o negro como classe trabalhadora, da qual os ricos não podem prescindir. “É a mão preta que ergue o teto projetado pelo arquiteto” é o verso inicial do combativo texto. Na sequência ela argumenta que são negros que fazem a segurança das festas burguesas; são as mãos pretas da cozinheira que resolvem a receita da nutricionista e assim vai. “Se por um dia a mão preta parasse?” pergunta a poeta. “A casa grande entrará em choque/ quando em seus estoques não tiver mais/ MÃO PRETA pra puder cuidar”, conclui assertivamente.

Os demais poemas de Sankofa são todos curtos em acordo com o projeto editorial do livro que privilegia poemas com elementos gráficos e mensagens de efeito. Dandara? Dandara?, o único com título dessa série, cria uma imagem do corpo de mulher negra que nem respondia ao nome de rainha que tinha, em face de seu desespero devido a insultos que sofrera. Outros dois se voltam para a história da escravidão negra no Brasil. Um repudia os monumentos dos algozes dos negros e indígenas com espingarda na mão, fazendo referência velada à estátua do bandeirante Borba Gato existente em São Paulo, tão famosa quanto vulgar. Em forma de prece, no outro texto ela faz uma bela reflexão sobre o gesto extremo de mulheres negras que teriam preferido matar seus filhos do que entregá-los ao cativeiro.

A exaltação do cabelo é uma das principais formas pelas quais a autora se remete às suas origens afro. Thata cultiva uma enorme e bela cabeleira que é um traço expressivo de sua personalidade. Ela dedica três textos para tratar do tema, todos sem título. Em um deles, ela demonstra indignação com uma senhora de alta classe que teria recomendado que ela prendesse o cabelo, alegando que parecia um “aplique”. Em outro, ao contrário, ela fala dos elogios que recebe das amigas, mas reconhece que amigas mesmo são aquelas que ajudam a desembaraçar seus cachos. O terceiro sai do plano das relações cotidianas e aborda o cabelo como elemento da ancestralidade negra: “as raízes que brotam no Ori/ se entrelaçam em polos africanos/ restabelecendo nossa conexão”.

O tema da ancestralidade aparece também entre aqueles poemas para serem difundidos por meio de lambes. Também sem título, traz o texto impresso sobre um mapa da África pintado de preto: TUAS/ORIGENS/ NÃO/NEGA. A autora encontrou uma ótima solução poética e plástica para poema, êxito poucas vezes alcançado nos demais textos com esse apelo de artes gráficas, como veremos adiante.

Por fim, cabe destacar um poema de Sankofa que agrega uma tônica feminista contemporânea. Trata-se de Mãe Autônoma. O texto é um depoimento pessoal no qual destila ressentimento e desprezo pelo homem que, no divórcio, não assume seu devido papel: “numa separação não existe pai/que proponha guarda compartilhada”. Discorre sobre o quanto é trabalhosa a lida com os filhos. Os cuidados com os pequenos a faz descuidar de si própria: “ela não tem mais tempo pra produzir/ pra se cuidar, uma vida social”. A crítica à negligência paterna é o centro de suas queixas: “mas o que mais à tortura/é o descaso, esse não dividir o fardo”. E protesta: “dinheiro da pensão não paga ausência”. A autora conclui o longo poema exaltando mais uma vez a força da sua mãe como exemplo de resistência: “só hoje entendo o que enfrentou minha rainha/ quando nos preparou gororoba com farinha”

A maior parte dos poemas (18) do livro de Thata Alves são textos experimentais e curtos, alguns próximos da forma de haikai, e que não são, necessariamente, escritos de combate ou de Sankofa. A autora quis exercitar sua veia criativa com as palavras fazendo uso, inclusive, de recursos gráficos como a estética de lambe-lambe. Há poemas promissores, mas na maioria dos casos, são pouco inspirados. Alguns, inclusive tem a pretensão de serem reflexivos, mas não me parece que a autora alcance tal objetivo. Há alguns que remetem a clichês que se vê em memes pela Internet: “Ou reconstrói/ o que dói/ ou o tempo/ corrói”. Outro exemplo: “A única geografia/ que conheço/ com perfeição/ são as dunas/ de suas curvas”. E para terminar a série: “E quando/ não vale a pena/ vale a pena/ pelo aprendizado”. Creio que Thata se animou demasiadamente com a forma e não calibrou bem o conteúdo desse conjunto de poemas que, embora formem a maior parte dos textos do livro, ficam aquém dos demais que prezam pela contundência de sentimentos e argumentos bem elaborados.

Não se cala uma mulher

Neide Almeida e Thata Alves se aproximam de modo amplo na estrutura de sentimento expressa pela Sankofa, mas há poemas em que as duas autoras se completam em, pelo menos, duas abordagens mais específicas: o cabelo como elemento ancestral e a defesa da mulher. Por um fio, de Neide, discorre sobre a ancestralidade afro tendo o cabelo como guia dessa reverência. O encontro consigo por meio do espelho desperta o sentido de pertença: “quando me vi desnuda/ olhei demoradamente:/ os pés plantados no chão/ as pernas, troncos fortes/ o ventre escuro…” A autora vai entendendo a geografia de seu corpo, repassando cada membro, reconhecendo-se em seus pais: o riso do pai e o olhar da mãe. Os cabelos se soltam, e ela se reconhece “com a gente que veio antes de mim/ reinventada na menina que pari”.

O verso final deste poema se conecta com um outro, onde a abordagem feminista é bem assertiva. Trata-se de Alfanje que tem sete estrofes que começam com o mesmo verso: “não se cala uma mulher…” É um poema manifesto que denuncia diversos tipos de violência contra a mulher: máscaras (censura); física; assédio moral; tortura; indiferença; dos tribunais; das armas de fogo.

O tema do cabelo em Thata é visceral, mas a autora não consegue ter uma elaboração poética a altura da importância que dá para esse elemento de seu corpo tão definidor de sua personalidade. Já a denúncia do machismo e a altivez feminina aparece em Troca com maior destaque tanto pela ênfase, quanto pela escrita. Um é o Mãe Autônoma, anteriormente abordado. Mas há outros dois que têm a forma curta como é a maioria dos textos do livro. Um tem apenas dois versos: “Que o buquê de flores/ anteceda o erro”. Éum poema gráfico, cuja composição conta com uma foto de um buquê de flores mortas em meio às folhagens secas. Um texto inquietante que me levou a uma interpretação relacionada ao feminicídio. Considerando as recorrentes críticas ao machismo, é possível que Thata quis dizer que é melhor ganhar flores antes de uma relação com um homem, ainda que tóxica, do que recebê-las no funeral em decorrência de violência provocada pelo parceiro. Em outro poema curto, a autora ironiza indiretamente o samba Mulheres de Martinho da Vila: “Já teve mulheres/ de todas as cores./Opta quantidades/ou valores?”.

Neide e Thata dão contornos poéticos ao feminismo negro que intersecciona raça, gênero e classe. As autoras, por meio de suas obras buscam a cura de si próprias, mas também da coletividade das mulheres negras em função da polifonia de seu canto de libertação que vem da Sankofa. Como diz Neide, as raízes profundas não predem; libertam.

1 O livro tem formato 10 x 14, acabamento grampeado, capa com papel craf 240 gr. Esse projeto gráfico aproxima a obra da estética do Fanzine. Por sinal, toda a parte gráfica é da Zinelândia Editora. A ilustração da capa é de Fernanda Theodoro. Os 38 poemas estão distribuídos em 38 páginas. Na última delas há uma minibio da autora acompanhada de uma foto de perfil na qual ela exibe sua vasta e bela cabeleira.

2 A obra tem formato 15 x 16, e 60 páginas. Na orelha há uma foto da autora com sua minibio. A capa e as ilustrações são de Luara Erremays. Dambala assina o projeto gráfico. Livia Natália faz o prefácio e o posfácio é assinado pela própria autora. A edição é de Marciano Ventura, diretor da Ciclo Continuo.

3 O título da referida obra é Em reticências e foi publicado em 2015 pelo mesmo selo Academia Periférica do Livro. Na época Thata assinava seu nome de batismo: Thayaneddy Alves.

4 Série documental em 10 episódios que retrata a expedição à África feita pelo fotógrafo Cesar Fraga e pelo escritor Maurício Barros de Castro. FBL Criação e Produção, com direção de Rosane Braga e Adriana Miranda, 2017. Disponível em canal pago Prime Box Brazil.

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