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Com números baixos, Cuba dá exemplo no combate à pandemia de Covid-19

País contabiliza 136 mortes provocadas pelo coronavírus. Como comparação, a cidade de SP, de população aproximada, tem mais de 14 mil óbitos
 

Da carta Capital, 6 DE DEZEMBRO DE 2020 - 09:26
Por 
ALISSON MATOS




NA PANDEMIA, CUBA ENVIOU MÉDICOS PARA OUTROS PAÍSES. FOTO: YAMIL LAGE/AFP

Das mais de 1, 5 milhão de mortes provocadas pela Covid-19 em todo o mundo, apenas 136 ocorreram em Cuba, país do Caribe com pouco mais de 11 milhões de habitantes.

Até o último sábado 5, a ilha contabilizava, desde o início da pandemia, 8.714 casos diagnósticados e, neste momento, 667 ativos.



FONTE: CUBADATA

Como comparação, a cidade de São Paulo, com quase a mesma população de Cuba, tem mais de 420 mil casos confirmados e 14.632 mortes, segundo boletim diário da Prefeitura.



O balanço da pandemia no país comunista, até o momento, é considerado positivo por organismos independentes. Na última semana, Franco Cavalli, presidente da ONG Medicuba Europa, visitou Havana e elogiou as medidas adotadas pelo governo local.

“Muitas mídias e governos europeus consideram que os dados cubanos são tão positivos que eles só poderiam ser falsos. Eu estou muito impressionado, pois pude ver como Cuba alcançou esses resultados. Aqui todas as pessoas contaminadas são hospitalizadas e todos aqueles com quem elas estiveram em contato são acompanhadas pelos serviços sanitários. A realidade europeia é muito diferente”, afirmou Cavalli em entrevista à agência RFI.

Antes, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) reconheceram a capacidade e a eficácia do sistema de saúde cubano no enfrentamento à pandemia.

O epidemiologista peruano José Moya, representante das instituições no país, destacou o papel da rede de atenção primária na identificação imediata dos casos positivos, após o anúncio dos primeiros relatos de pacientes, no mês de março.

Moya mencionou o papel que a estratégia de comunicação de massa teve em torno do comportamento e gestão da pandemia, ao atualizar constantemente a população. Diariamente, o governo divulga os números oficiais no site do Ministério da Saúde.

Para a médica Camilla Negreiros, o que diferencia Cuba de outros países no combate ao coronavírus “é o sistema de saúde verdadeiramente universalista”.

“Devido à expertise cubana, o sistema de saúde está baseado há mais de seis décadas no aprimoramento de um trabalho efetivo da Atenção Primária de Saúde, cujo foco está na prevenção e detecção precoce de doenças. Uma estratégia que gera alto padrão de qualidade sem demandar grandes recursos, pois assim é mais fácil e econômico atender as demandas existentes. Na ilha, tanto os profissionais de saúde e a população estão acostumados com visitas preventivas regulares. Inclusive, por outras epidemias, como a de dengue, que são frequentes por lá”, diz Camila, que se graduou na Escuela Latinoamericana de Medicina (ELAM) em 2008.

“Em vez de esperar chegar os doentes aos hospitais, os profissionais de saúde vão às casas no que se chama de busca ativa epidemiológica. Os contatos e casos suspeitos são transferidos para centros de isolamento – enquanto realizavam testes para descartar ou confirmar a doença – e os doentes são internados em hospitais que estavam preparados para recebê-los”, explica a médica que lança neste mês o livro “Nascida no Brasil, pero hija de Cuba – Relato sobre os frutos de uma revolução”.

Outro ponto, destaca Camila, é a capacidade do país em formar médicos. “Cuba pode se permitir uma eficiente busca ativa epidemiológica, pois a ilha tem uma das mais altas relações de médicos por habitantes do continente americano”, afirma.

Na conversa com CartaCapital, a médica ainda lembra que a ilha enviou profissionais de saúde para outros países, como Itália, Haiti, Venezuela e países africanos.

Principais medidas

Em Cuba, em 12 de março, foram detectados os três primeiros casos de infecção por coronavírus. Um dia antes, a OMS havia declarado estado de pandemia. Como reação, o Ministério da Saúde endureceu as medidas protetivas.

Além da obrigatoriedade do uso de máscara em locais públicos, houve também proibição de aglomerações e restrição no uso de transporte público. O país priorizou a produção de medicamentos essenciais para os infectados, desenvolveu teste de detecção próprio e iniciou uma corrida pela vacina.

“Até aí, tudo muito parecido ao realizado em outros países, mas a chave do êxito cubano está nas diferenças que têm se demonstrado cruciais”, diz Camila. “Quando houve a confirmação de 21 casos foi anunciado o fechamento dos aeroportos. A partir de então só cubanos ou estrangeiros residentes no país poderiam entrar”, explica a médica.

A restrição precoce dos voos para a ilha possilitou agora a reabertura dos aeroportos do país. Desde então, os turistas são submetidos a um teste RT-PCR e ficam em isolamento em um hotel por 24 horas. Depois do resultado, eles ainda fazem um segundo exame cinco dias depois da chegada. O aeroporto da capital Havana, que estava fechado desde o final de março, voltou a receber voos comerciais. Outros cinco aeroportos internacionais já operavam desde meados de outubro.

Com a nova situação, o país adotou novas medidas para controle da pandemia. É o que mostra um relatório da OPAS. “O Ministério da Saúde Pública informou sobre os procedimentos para Controle de saúde internacional, que permite o controle nas fronteiras (portos, aeroportos e marinas) para evitar a propagação da Covid-19. Da mesma forma, o Ministério do Turismo reportou as medidas para para turistas”, diz o texto.

As ações adotadas por Cuba para frear a transmissão do vírus seguem as recomendações da organização, que, em novembro, divulgou um manual de melhores práticas para controlar a pandemia.

Intitulado “Considerações para implementar e ajustar medidas sociais e de saúde pública no contexto da Covid-19”, o documento recomenda vigilância robusta de doenças para detectar a propagação do vírus e aprimorar a resposta, rastreamento de contatos, priorizando a atenção primária à saúde para atender as pessoas onde for necessário e tendo equipes médicas prontas para emergências.

Os países do Caribe“foram disciplinados quanto à imposição de restrições e endurecimento de medidas de saúde pública quando houver novas infecções, ao mesmo tempo que mantém o turismo funcionando”, disse Jarbas Barbosa, subdiretor da OPAS, na ocasião.

Para ele, o rastreamento de contatos, ajustado aos padrões de transmissão, é bem feito na Argentina, Costa Rica e Jamaica. Já Canadá e Brasil priorizaram a atenção primária à saúde e ajustaram sua força de trabalho em saúde para atender à crescente demanda. Cuba e Costa Rica garantiram atenção às pessoas por meio de seus fortes sistemas de cobertura universal de saúde.

Busca pela vacina

Nesta semana, o diretor do Instituto Finlay de Vacinas, Vicente Vérez, foi ao twitter comemorar os resultados das pesquisas com as vacinas Soberana 01 e 02, produzidas no país.

“Rumo à tão esperada vacina! Semana 29. Dia especial! Os anticorpos atingem fortemente o vírus! As duas soberanas avançam muito’, escreveu o cientista na rede social.

Hacia la ansiada vacuna! Semana 29. Historias heroicas que se contaran llegado el momento. Emociona vivirlo. Compromiso con nuestro pueblo y nuestra revolucion sin limites. @FinlayInstituto @centro_cim @BioCubaFarma @PresidenciaCuba @DrRobertoMOjeda https://t.co/kQSCsfVldb

— Vicente Vérez Bencomo (@BencomoVerez) December 2, 2020

Os institutos científicos estatais trabalham em mais dois projetos de imunizantes: Mambisa e Abdala. As autoridades esperam ter um deles e inocular toda a população já no primeiro semestre de 2021. O país tem experiência na obtenção de vacinas, já que fabrica oito das 12 que utiliza em seu programa de imunização.

(Com informações da Prensa Latina)

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