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Paulo Freire, convite para ver as bonitezas da Ciência

Seminário Internacional, aberto e gratuito, celebra o centenário do patrono da Educação Brasileira. Em debate, as desigualdades no ensino de Ciências e Saúde — e como Universidades podem semear a autonomia, aliando estética, ética e política



De OUTRASPALAVRAS, 23 de Novembro, 2020
Por Juliana Dias e Alexandre Brasil


Seminário Internacional Desigualdades na Educação: desafios para o ensino de ciências e saúde. De 23 de novembro a 4 de dezembro. Organização: Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde (NUTES), da Universidade Federal do Rio do Janeiro (UFRJ), com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Evento online, gratuito e aberto. Para mais informações, aqui

Em setembro de 2020, iniciou-se as comemorações para o centenário do educador pernambucano Paulo Freire, que completaria 100 anos em setembro de 2021. Patrono da educação brasileira, o autor de Pedagogia do Oprimido recebeu 29 títulos de Doutor Honoris Causa por universidades da Europa e da América, além de centenas de menções e prêmios. De acordo com um levantamento feito por Elliot Green, professor-associado da London School of Economics, através do Google Scholar (ferramenta para pesquisas de conteúdo acadêmico), Freire é o terceiro pensador mais citado do mundo em universidades da área de humanas, atrás apenas do filósofo americano Thomas Kuhn e do sociólogo, também americano, Everett Rogers.

Em 2020, a tradução para o inglês de Pedagogia do Oprimido completa 50 anos e está entre os 100 livros mais pedidos em universidades de língua inglesa pelo mundo. A obra foi a única do Brasil a entrar na lista de 100 títulos. No campo de Educação, o livro ficou em segundo lugar entre os mais pedidos. O levantamento foi realizado pelo projeto Open Syllabus.

O legado de sua obra para teoria educacional e as implicações políticas de seu pensamento continua a mobilizar e transformar processos educativos e comunicativos, centrados no diálogo, na autonomia, emancipação e libertação dos sujeitos. Freire escreveu sobre uma tarefa cara para a Universidade, seja no ensino, na pesquisa e na extensão. Sua proposta é desocultar as verdades e sublinhar as bonitezas, e que o estético, o ético e o político não podem estar ausentes nem da formação nem da prática científica”1.

Entre os dias 23 de novembro e 04 de dezembro será realizada a segunda edição do Seminário Internacional Desigualdades na Educação: desafios para o ensino de ciências e saúde,que acontece no marco dos 100 anos de nascimento de Freire. O pernambucano se definiu como um bicho existencialmente universal por ser profundamente brasileiro, latino-americano e mundial, e considerava imprescindível a afetividade e o amor2.

Promovido pelo Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde (NUTES), da Universidade Federal do Rio do Janeiro (UFRJ), com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), o evento é online, gratuito e aberto ao público em geral. A programação completa está disponível no site, onde também poderá ser feitas as inscrições até o dia 30 novembro para acompanhar as transmissões síncronas e assíncronas.

O Seminário contará com as sessões Saberes, Leituras e Diálogos, inspiradas na proposta desse célebre educador, cuja obra e pensamento são igualmente imprescindíveis para compreender as desigualdades na educação brasileira.

A sessão Saberes apresentará três mesas-redondas; Leituras, contará com a participação de três conferencistas internacionais e exibição de um filme seguida de debate; e Diálogos será dedicada a promover encontros entre autores e autoras que tratam diretamente da obra de Freire e temas articulados com o seu pensamento.

Centenas de pessoas de diferentes regiões do Brasil e de países como Estados Unidos, Canadá e da América Latina se reunirão virtualmente para debater sobre políticas educacionais, inclusivas, antirracistas, currículo, educação popular, saberes populares, ensino de ciências e saúde entre outros assuntos.

A primeira sessão Saberes ocorrerá no dia 23, das 10h às 11h, com o tema Contribuições freirianas para a Educação em Ciências e Saúde hoje. Participam desse encontro os professores Demétrio Delizoicov (UFSC), Eymard Vasconcelos (UFPB), Rita Vilanova (UFRJ) e a reitora da UFRJ, professora Denise Carvalho.

No dia 25 de novembro, das 16h às 17h30, acontecerá o segundo encontro de Saberes com reflexões sobre os 50 aos do livro Pedagogia do Oprimido. Contribuem para esse debate Juarez Valadares (UFMG), Pedro Pontual (UNIRIO), Bárbara Carine (UFBA) e Miriam Struchiner (UFRJ).

Na terceira sessão de saberes reuniremos pesquisadores com diversas experiências com movimentos e iniciativas populares. Participarão da sessão a integrante da coordenação do MST Kelli Manfort, que possui formação em pedagogia e doutorado em sociologia, o doutorando pela Universidade do Texas, Davi Pereira Júnior, que é liderança Quilombo de Itamatatiua Alcântara-MA e coordenador da Associação de Pesquisadores da Amazônia (ASPA). Completam a mesa Sulivan Souza, doutorando na UFMG e pesquisador do Núcleo de Educação Popular Paulo Freire da UEPA e Adela Molina, professora da Universidade Distrital em Bogotá na Colômbia, com pesquisas sobre interculturalidade e ensino de ciências. Esta sessão ocorrerá sob mediação de Juliana Dias (UFRJ).

A sessão Leituras, que contará com participação internacional, ocorrerá em duas etapas. No dia 23 de novembro serão disponibilizados aos participantes inscritos o acesso aos vídeos legendados. A sugestão é de que assistam os vídeos no decorrer da primeira semana no momento que for mais oportuno. É possível encaminhar perguntas até o dia 27 de novembro para os convidados/as, que responderão em sessões síncronas entre os dias 1 e 3 de dezembro, com tradução simultânea para o português.

No dia 01, Henry Giroux (McMaster University) conversa sobre Política Radical e Pesadelos Distópicos na Era das Pragas, com a mediação de Gustavo Figueiredo (UFRJ). No dia 2, Ruth Turley (Rice University) aborda o tema Políticas públicas de educação baseadas em evidências, com mediação de Alexandre Brasil (UFRJ). E no dia 3, Felicia Mensah (Columbia University) conversará sobre Diversidade, Equidade e Educação para a Justiça Social com mediação de Isabel Martins (UFRJ).

A sessão Diálogos contará com seis encontros online, entre os dias 24 de novembro a 04 de dezembro, com duração de uma hora. Entre os convidados estão Oscar Jara (CAAL) educador popular e sociólogo, autor de A Educação Popular Latino-Americana História e Fundamentos Éticos, Políticos e Pedagógicos; a educadora Claudilene Silva (UNILAB), autora de A volta inversa na árvore do esquecimento e nas práticas de branqueamento: práticas pedagógicas escolares em história e cultura afro-brasileira; e o filósofo Walter Kohan (UERJ), autor de Paulo Freire, mais do que nunca: uma biografia filosófica.

O encerramento será com uma exibição exclusiva do filme M8 – Quando a morte socorre a vida, dirigido pelo cineasta Jefferson De. A sessão será seguida de debate com Gabriele Santos, médica e participante do coletivo Negrex, coletivo auto-organizado de estudantes negras e negros de medicina, e por Luiz Resende, cineasta e professor da UFRJ.

A pandemia do novo coronavírus (Covid-19) expôs e aprofundou as desigualdades brasileiras na saúde, na educação, nas relações étnico-raciais e trabalhistas. As ocupações dos territórios e a degradação ambiental também desvelam as iniquidades do adoecer e do morrer. No epicentro de uma epidemia, a desinformação se espalha de forma nociva pelas mídias digitais, gerando insegurança, polarização do debate público e mortes.

A crise sanitária global, que é também humanitária, atinge o Brasil em um período de estagnação econômica, desmonte e paralisação de políticas públicas, que contribuiu para acelerar a pobreza, especialmente a extrema pobreza, e o aumento expressivo da população em situação de rua. Para Paulo Freire, a desumanização era principal de seu tempo era a desumanização, daí a tarefa histórica e política de denunciar uma realidade desumanizadora e anunciar as possibilidades de transcendência. O Seminário, ao reunir pluralidade de olhares e saberes com a perspectiva freireana, se engaja na tarefa de desocultar as verdades, ao denunciar e problematizar as desigualdades, mas também sublinhar as bonitezas, ao proporcionar diálogos transculturais e anunciar outros futuros possíveis para a educação.

1 Freire, P. Política e educação: ensaios. São Paulo, Cortez, 2001:53

2 PAULO, F. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. RJ: Paz e Terra, 1976.



JULIANA DIAS E ALEXANDRE BRASIL
Juliana Dias -- Jornalista, com mestrado em Educação em Ciências e Saúde (UFRJ) e doutorando em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia (HCTE/UFRJ). Pós-doutoranda e professora do Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Saúde (Nutes/UFRJ). Atua com pesquisas nas áreas de comunicação, alimentação e cultura. Membro do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN).

Alexandre Brasil -- Professor associado, coordenador do Laboratório de Currículo e Ensino (LCE) e diretor do Instituto Nutes da UFRJ. É doutor em sociologia pela USP.

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