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Paris: como o dinheiro arrasa as grandes cidades

Crônica da gentrificação global: na metrópole palco da Comuna, os investidores agora dão as cartas. Aluguéis impagáveis expulsam milhares a cada ano. Em vez da pulsação urbana, turistas. Mas a História não acabou, dizem os que resistem


De OUTRASPALAVRAS, 12 de Novembro, 2020
Por Cole Stangler
no The Nation | Tradução de Simone Paz Hernández




Soumia Chohra, secretária de consultório médico, 34 anos de idade, se refere ao seu apartamento térreo, em Paris, como “ninho de ratos” — literalmente, como faz questão de enfatizar.

Chohra diz que, à noite, consegue ouvir ratos correndo no pátio que fica do lado de fora da única janela de seu apartamento de 20 metros quadrados. “Eles são grandes, mais ou menos assim”, explica, traçando uma linha que vai da ponta dos dedos até um terço do antebraço. “Eles estão por toda parte.”

Para lidar com o problema, ela e seu companheiro, que trabalha como funcionário de armazém e ganha um salário mínimo no Monoprix, um supermercado local, passaram a dormir com as janelas fechadas, preferindo o calor ao risco de visitantes noturnos. Os dois dormem em um colchão escondido em um mezanino acessível por escada. Às vezes, eles também hospedam a filha de 9 anos de seu parceiro, que dorme em um colchão separado no chão, ao lado da entrada.

Quando Chohra e seu parceiro se mudaram, há pouco mais de dois anos, 790 euros de aluguel [R$ 4900] por mês e, em agosto, a taxa já tinha passado para € 806 [R$ 5100]. Ela considera o preço absurdo para o nível do apartamento, mas essa é a inevitável realidade de hoje: é o custo de habitar no 18º arrondissement, distrito historicamente operário, localizado na zona norte de Paris, onde Chohra cresceu — agora no meio de um boom imobiliário.

“É como se vivêssemos só para pagar o aluguel”, desabafa Chohra, que está de licença médica de seu trabalho desde o ano passado — resultado de uma condição conhecida como hipertensão intracraniana, que produz dores de cabeça debilitantes. “Não podemos sair. Não podemos tirar férias. Não podemos ir a restaurantes.”

Muitos parisienses de baixa renda compartilham do mesmo sentimento, lutando para sobreviver enquanto sua cidade se transforma em um ímã global de serviços financeiros, turismo, tecnologia e indústrias altamente criativas. Pior: muitos deles vêm sendo totalmente apagados da paisagem urbana, fugindo para os subúrbios em busca de moradias populares ou simplesmente deixando a área metropolitana de vez.

Entre 2012 e 2017, o ano mais recente com esses dados disponíveis, cerca de 11 mil residentes deixavam a capital francesa por ano, com autoridades estaduais projetando que o declínio da população continue, pelo menos, até 2024. Nesse ínterim, a proporção de residentes parisienses que se enquadram na tradicional definição do censo como classe trabalhadora caiu de 35% (em 1999), para apenas 26% — um contraste gritante com o 51% da força de trabalho total que esses trabalhadores representam nacionalmente.

As coisas já eram desafiadoras antes da pandemia, mas agora, com a França passando por sua recessão mais profunda desde a Segunda Guerra Mundial, o êxodo poderia se tornar ainda maior. Sem uma grande reforma das políticas públicas ou uma rápida reversão das tendências macroeconômicas, teme-se que a crise atual possa ser o último prego no caixão de uma Paris habitável, onde as pessoas comuns conseguiam bancar uma vida. Nesse caso, a capital da França terá quase concluído sua transformação no que os franceses chamam de ville musée, ou literalmente uma “cidade-museu”: um parque temático para turistas e visitantes ricos em homenagem eterna ao seu passado.

A crise imobiliária em Paris já vem fermentando há algum tempo. Na última década, os preços de venda cresceram a uma impressionante taxa de 66% e, no outono passado, ultrapassaram o limite simbólico de € 10 mil [R$63 mil] por metro quadrado. Os custos agora subiram para uma estratosfera muito diferente das outras grandes cidades da França — a taxa média por metro quadrado em Paris é quase o dobro da de Lyon e Bordeaux, e cerca de quatro vezes a do centro de Marselha — se aproximando mais das chamadas cidades alfa globais como Hong Kong, Londres e Nova York.

Mas mesmo quando comparado com esses centros do capital internacional, o mercado imobiliário parisiense se encontra na extremidade mais alta do espectro. Em seu índice anual de imóveis de 2019, com foco nas maiores cidades do mundo, o UBS — banco de investimentos suíço — mudou Paris para “território bolha”, alertando que os preços das moradias “se desvincularam da renda local”. Este ano, a empresa estimou que um “trabalhador qualificado de setor de serviços” levaria 17 anos de trabalho para comprar um apartamento de 60m² perto do centro da cidade, mais tempo do que em qualquer outra cidade do relatório, com exceção de Hong Kong, famosamente superlotada

Um dos fatores que alimentam a explosão de preços é a simples geografia. Embora Paris em si tenha cerca de três vezes a população de Washington, D.C., ela ocupa apenas 60% da área da capital dos Estados Unidos. Com os limites da cidade fixados e a capacidade de construir novas acomodações restrita por uma paisagem urbana que já é muito densa, a oferta de moradias ficou muito aquém da demanda.

“O mercado imobiliário é um mercado de escassez”, explica Michel Mouillart, economista da Universidade de Paris-Nanterre e porta-voz do índice de habitação SeLoger, um grupo que organiza anúncios de imóveis e pesquisa habitações em toda a França. “Paris não tem um estoque de moradias privadas em crescimento, por razões históricas. Não vamos construir por cima da Pirâmide do Louvre. ”

Em um ambiente como esse, os apartamentos tendem a representar o lance mais alto. E, assim como Londres e Nova York, Paris se tornou um lugar para aqueles profissionais que viajam pelo mundo estacionarem seu dinheiro — um investimento que vem com pouco risco e algum prestígio cultural de brinde. A eleição do presidente Emmanuel Macron, em 2017, ex-banqueiro de investimentos que enfrentou uma série de protestos em massa por buscar reformas favoráveis às empresas nas leis trabalhistas, pensões e benefícios de desemprego, apenas reforçou a sensação de que a capital francesa continuava sendo um porto seguro em um tempos de incerteza.

“Talvez, as pessoas considerem que há um presidente conciliador, que há estabilidade política e que é uma boa situação”, diz Marc Foujols, fundador e CEO da Marc Foujols International Properties, uma empresa imobiliária de luxo com sede em Paris. “Mesmo existindo alguns problemas, greves, coisas do tipo, nada disso prejudicou de verdade a imagem de Paris. É uma cidade associada ao prazer e ao entretenimento. Está bem localizada na Europa e os imóveis são bons, então as pessoas querem se dar esse prazer, elas acham que existe uma boa acumulação de dinheiro [aqui].”

De forma extraordinária, os preços continuaram aumentando durante a pandemia, embora de forma mais lenta. De acordo com a SeLoger, os preços em Paris cresceram 4,5% entre agosto de 2019 e agosto de 2020. Esse aumento foi impulsionado, em grande parte, pela demanda sustentada de compradores nas camadas superiores do mercado, como os que Marc Foujols atende.

Mas o aumento no preço das moradias é também alimentado por pessoas com poder aquisitivo relativamente menor, famílias de classe média-alta e alta, que compram apartamentos em áreas da cidade antes amplamente desprezadas por aqueles de sua classe social. Eles não estão na mesma faixa de renda dos investidores de alto padrão, mas fazem parte do mesmo processo fundamental, de acordo com Michel Mouillart

“Não é que os residentes de bairros bonitos estejam se mudando; parece mais que aqueles que querem se mudar para os ‘bairros nobres’ (‘beaux quartiers’) já não podem, e têm que ir para outros lugares”, diz Mouillart. “Com o tempo, os bairros da “classe trabalhadora”, viram seus preços subir com a chegada desses clientes que não teriam para ido lá antes.

Esse processo se repetiu muitas vezes, engolindo cada vez mais espaço ao norte e nordeste da cidade. As linhas de frente da gentrificação em Paris mudaram gradualmente ao longo da última década, avançando cada vez mais para o 18º, 19º e 20º arrondissements, que em outros tempos foram bairros amplamente de baixa renda

Lentamente, mas com passos firmes, esse processo transformou a cidade. “Não é um movimento conjuntural”, diz Mouillart. “É um [processo de] deslocamento, uma transformação do que é território, uma transformação sociodemográfica que ocorre ao longo de um extenso período de tempo.”

Soumia Chohra mora no 18º arrondissement há vinte e um anos, desde que emigrou de Saïda (Argélia) para a França, com sua mãe. Quando ela saiu do apartamento de sua mãe há alguns anos e começou a procurar um novo lugar com seu parceiro, não tinha dúvidas de onde queria morar.

“Meu companheiro me disse: Vamos procurar em outro lugar. Mas eu lhe disse: Isso está fora de questão, preciso ficar no 18º”, lembra Chohra. “Eu tenho meus pontos de referência. Minha mãe mora na esquina; meu irmão mora na esquina. Minha base é no 18º, você sabe.

Chohra cursou o ensino fundamental e o colegial no bairro, crescendo na esquina da Rue Doudeauville com o Boulevard Barbès, que também é a principal artéria norte-sul do distrito. Sem nenhum dos marcos culturais que tornam Paris famosa para os estrangeiros, a diversidade da rua e o ritmo frenético de vida contrastam com muitos dos bairros frequentados por turistas.

O boulevard começa na estação de metrô Barbès Rochechouart, uma estação parcialmente acima do solo que se eleva sobre um cruzamento movimentado, que tem uma infeliz — senão totalmente injusta — reputação de perigoso pela sua delinquência. Conforme a avenida segue em direção ao norte, ela dá lugar a lojas de roupas africanas, cabeleireiros baratos, açougues halal, uma variedade de lojinhas de esquina que vendem de tudo, desde telefones celulares e utensílios de cozinha até inhame e banana, bem como dezenas de pequenos restaurantes populares que servem kebabs gordurosos e batatas fritas até altas horas da madrugada. Mais adiante, o Boulevard Barbès se torna o Boulevard Ornano e termina nos limites oficiais da cidade — um ponto que é praticamente impossível não perceber porque, como quase todos os outros lugares de Paris, sua fronteira é marcada pelo imponente Boulevard Périphérique, uma rodovia elevada, repleta do burburinho de caminhões e motocicletas

O famoso Périph’ separa Paris de seus subúrbios, circunda a cidade e serve para reforçar o abismo socioeconômico e cultural que separa seus lados opostos. (No departamento de Seine-Saint-Denis que faz fronteira com Paris ao nordeste, por exemplo, a remuneração média é de cerca de 60% dos níveis da capital, enquanto a taxa de desemprego é cerca de 1,5 vezes maior.) No 18º arrondissement, boulevards Barbès e Ornano desempenham um papel similar. Eles marcam uma linha divisória crítica — em riqueza, demografia e política — sinalizando as fronteiras ainda existentes da gentrificação, acenando para serem cruzadas.

Grandes mudanças já estão acontecendo na estação de metrô Barbès. De um lado da avenida fica a principal loja da Tati, uma rede de lojas de departamento, que planeja fechar as portas definitivamente ainda este ano. Fundada por um imigrante sefardita da Tunísia logo após a Segunda Guerra Mundial, a Tati já vinha lutando para competir com rivais maiores, baseados na Internet — mas a pandemia deu o golpe final. Do outro lado da rua, entretanto, fica a Brasserie Barbès, um bar e café de quatro andares que foi inaugurado em 2015 e conseguiu resistir à tempestade do lock down. Com design art déco e adornado com um letreiro neon ostensivo com o nome do restaurante, oferece cheeseburgers de € 18 euros e coquetéis de € 9, muito além da faixa de preço que os transeuntes conseguiriam pagar.

Mais a oeste da linha divisória Barbès-Ornano fica Montmartre, uma meca boêmia do início do século 20 que há muito perdeu sua aura rebelde, mais conhecida hoje como um centro turístico internacional, por causa da basílica do Sacré-Coeur, e como um cobiçado local para imóveis de luxo. Do lado leste das vias públicas encontra-se uma série de bairros enfaticamente menos cênicos e mais acessíveis, como aquele em que Soumia Chohra cresceu. Isso inclui La Chapelle, uma estreita mistura de ruas delimitadas por trilhos de trem em três lados, um arquipélago urbano com poucas e preciosas áreas verdes. Nos últimos anos, acampamentos temporários para migrantes surgiram com frequência, mas também uma nova safra de mercearias orgânicas e de restaurantes da moda.

Também surgiram boutiques de roupa e cafeterias de estilo anglo-americano no bairro vizinho de La Goutte d’Or. Imortalizada no romance L’Assommoir de Émile Zola, que narra as dificuldades dos trabalhadores braçais no final do século 19 em Paris, a área conseguiu manter sua força de classe trabalhadora ao longo dos anos, embora seus residentes atuais estejam mais propensos a rastrear suas origens para o continente africano do que para a França metropolitana. E embora os profissionais de colarinho branco tenham aumentado gradativamente sua presença na vizinhança, os restaurantes ainda têm mais chances de servir mafé da África Ocidental do que macarons.

De fato, como grande parte do nordeste parisiense, o 18º arrondissement foi forjado pela imigração. Durante os anos de expansão que se seguiram à Segunda Guerra Mundial — as três décadas conhecidas como les trente glorieuses — os imigrantes vieram do Magreb, especialmente da ex-colônia francesa da Argélia. Ondas de imigração da década de 1980 em diante viram chegar um fluxo de residentes da África Subsaariana e do subcontinente indiano, mas também da Europa Oriental, dando origem a microbairros sobrepostos e, para aqueles que cresceram aqui, uma capacidade estonteante de intercâmbios interculturais

“Estou acostumada a conviver com diferentes nacionalidades, com essa mistura, estou acostumada com as pessoas, com as diferentes culturas”, diz Soumia Chohra. “Não são só franceses aqui — há árabes, negros, chineses, pessoas de todas as nacionalidades. Eu gosto dessa mistura.”

Essa mistura não foi um acidente aleatório da história: foi, principalmente, o resultado das moradias populares. Quando Chohra chegou, no final da década de 1990, sua mãe conseguiu se mudar com ela para um apartamento de 29 metros quadrados que custava apenas € 500 euros a cada três meses. Dado que o apartamento tinha sido construído antes de 1948 — o ano em que a legislação nacional de habitação entrou em vigor — as leis de proteção de aluguel se estenderam à mãe de Chohra, com os aumentos de preços fortemente restringidos pelo Estado

Mas os apartamentos construídos depois de 1948, ou aqueles para os quais os inquilinos se mudaram após a revogação dessa lei, não eram cobertos pelos mesmos tetos de preços rígidos. E, com a subsequente queda dos controles de aluguel e os preços das moradias explodindo nas últimas duas décadas, bons acordos como o que a mãe de Chohra encontrou na época são muito mais difíceis de conseguir hoje. É por isso que tantos estão fazendo as malas e indo para o outro lado do Périph’, optando por abandonar Paris ao invés de tolerar a existência apertada que Chohra escolheu. Enquanto Paris propriamente dita tem apenas 2,2 milhões de residentes, a grande área metropolitana agora conta com mais de 12 milhões de pessoas.

Transformações desse tipo já devastaram outras regiões do que antes foi uma Paris da classe trabalhadora: Belleville, o berço da legendária Edith Piaf, antigo reduto da Frente de Libertação Nacional da Argélia e, mais recentemente, o centro da imigração chinesa em Paris, viu seus preços médios de aluguel mensal, para um apartamento de 40 m², atingirem o valor de € 1.200 [R$ 7.600]. No bairro de La Villette, cujas altas torres de habitação pública o tornaram, no passado, um dos bairros menos desejáveis de Paris, novos empreendimentos comerciais ao longo do Canal de l’Ourcq fizeram os preços dispararem para € 1.000 [R$ 6,3 mil], para um apartamento de tamanho semelhante. Junto com isso, intervenções regulares da polícia impediram os imigrantes de montar acampamentos na região por muito tempo, ajudando a manter o mercado imobiliário atraente.

A pandemia também pesou em alguns antigos moradores dessas áreas, como Esther Saadoun, de 56 anos, que mora com sua filha de 24 anos no 19º arrondissement. Agora, ambas estão à beira do despejo de seu apartamento de 46 m²

Imigrante judia da Tunísia, Saadoun mora em Paris desde 1958 e passou as últimas três décadas operando uma barraca de crepes perto da estação de trem Gare de l’Est, enquanto sua filha começou a fazer bicos para sustentar seus estudos universitários. Impedida de trabalhar durante a quarentena, Saadoun tem lutado para manter o pagamento do aluguel mensal de € 900 [R$ 5,7 mil]. Já atrasada nos pagamentos, que a certa altura atingiram uma dívida de mais de € 2.000 [R$ 12,5 mil], neste outono Saadoun foi intimada pelo proprietário ao tribunal

“Sinto que tenho que ir embora, o aluguel é muito caro e o bairro não me atrai mais”, diz Saadoun, que dorme no sofá da sala, deixando o quarto para a filha.

Certamente, há muito tempo que Paris é disputada entre ricos e pobres, e a luta de classes faz parte de sua identidade. Como escreveu o historiador Eric Hazan em 2011, a cidade é “o grande campo de batalha da guerra civil na França entre os aristocratas e os sans-culottes — independente da maneira como os chamemos hoje”. Da revolução de 1789 às barricadas de 1848, e da Comuna de 1871, e das greves em massa de 1936 e 1968, aos protestos dos Coletes Amarelos de 2018, os trabalhadores pobres repetidamente reivindicaram as ruas da cidade como suas.

É claro que as classes abastadas têm, há tempos, um senso de luta por privilégios. Na segunda metade do século 19, Georges Eugène (“o Barão”) Haussmann — talvez o primeiro gentrificador — destruiu grande parte da cidade velha, substituindo-a por avenidas largas e arborizadas e edifícios projetados para abrigar novos residentes burgueses. Já a segunda metade do século 20 viu os ricos solidificarem seu controle sobre o centro da cidade, à medida em que os moradores de baixa renda fugiam para as periferias e o quadrante nordeste.

Porém, mesmo no meio disso tudo, a Paris operária tinha o privilégio de continuar existindo. Na onda de gentrificação atual, não só se intensificou o ataque do capital, nem só os limites de uma vida acessível foram drasticamente alterados, mas as pessoas de baixa renda vêm sendo eliminadas da cidade por completo.

“Por enquanto, a batalha da classe trabalhadora de Paris está perdida”, disse Jean-Baptiste Eyraud, fundador e porta-voz do grupo de direitos à moradia Droit au Logement. “Não sabemos o que a história nos reserva, mas, no momento, está claro que os ricos tomaram a capital. Essa é uma realidade objetiva. É um fato.”

Uma das grandes ironias da onda cada vez mais irreversível de gentrificação que varreu Paris nos últimos anos é que ela ocorreu sob um governo de centro-esquerda. Desde 2001, o Partido Socialista lidera a cidade em coalizão com parceiros dos Partidos Comunista e Verde. Sob a liderança da prefeita Anne Hidalgo, reeleita para seu segundo mandato de seis anos em junho, a secretaria responsável pela política habitacional foi deixado para o Partido Comunista — especificamente para Ian Brossat, um esquerdista feroz que acabou de fazer 40 anos

Brossat é rápido em enfatizar que muito do que aconteceu está fora de seu controle. Como ele destaca, a herança jacobina do país conferiu poder demais às autoridades nacionais, enquanto tende a deixar os políticos locais com margens estreitas de manobra. “Isso tem suas vantagens, mas, neste assunto específico, é mais um inconveniente”, disse Brossat ao The Nation. “Estamos em um país que é muito centralizado, depende muito do estado e o poder dos municípios é relativamente restrito.”

A cidade de Paris por si só não consegue impor restrições aos preços dos aluguéis, a menos que obtenha autorização prévia do governo nacional — e, por anos, tem lutado para conseguir exatamente isso. Depois que a histórica lei de habitação de 1948 foi revogada pela maioria parlamentar de direita da França, em 1986, os seguidores do Partido Socialista — a força dominante na esquerda de então — abandonaram amplamente essa causa, a do controle dos aluguéis. As solicitações para restabelecer os limites de preços ficaram em segundo plano durante grande parte da década de 1990 e no início dos anos 2000.

Foi somente em 2014, sob o governo do presidente socialista François Hollande, que os legisladores — finalmente — restituíram a capacidade das cidades de impor seus próprios controles de aluguel. Isso permitiu que Paris impusesse limites aos preços e aumentos dos aluguéis entre 2015 e 2017, mas a lei foi enfraquecida logo após sua aprovação e os regulamentos municipais da cidade foram por fim rejeitados no tribunal. Somente no ano passado — depois que a Assembleia Nacional deu luz verde mais uma vez — o controle dos aluguéis voltou a Paris. Mas mesmo essa autoridade é bastante restrita. Os tetos dos preços de aluguel, que são definidos pelas autoridades regionais, permanecem relativamente altos, e a nova lei se aplica apenas a apartamentos alugados após julho de 2019.

Por outro lado, a cidade de Paris pode construir moradias públicas, e é exatamente isso que a liderança socialista tem feito. Desde 2001, a parcela de moradias públicas na cidade aumentou de 13% para quase 24% — conquista da qual Brossat se orgulha muito, mesmo reconhecendo que isso não seja, ainda, suficiente. (Esther Saadoun, por exemplo, contou que está na lista de espera por habitação social desde 1996.)

“Isto é um sucesso que não dá para negar”, diz Brossat. “Hoje, existem 550 mil parisienses vivendo em habitações sociais; e esses 550 mil parisienses estão protegidos da especulação imobiliária. De certa forma, eles estão seguros em Paris.”

Ao mesmo tempo, a cidade pretende atingir o limite estabelecido nacionalmente: de 25% de moradias públicas até 2025 — uma meta que muito provavelmente terá de envolver a compra e conversão de apartamentos privados e edifícios de escritórios. A equipe de Hidalgo também chamou à priorização de novas habitações sociais para os mais necessitados, em oposição aos residentes relativamente privilegiados que teriam mais facilidade de pagar por moradia em apartamentos privados.

As autoridades municipais também têm pressionado por maior poder de intervenção no mercado privado. No mais emblemático desses esforços, Ian Brossat tentou reprimir a plataforma Airbnb, que ele acusa de ter retirado 30 mil apartamentos do mercado entre os últimos sete e oito anos.

“O Airbnb não está nas origens da gentrificação de Paris, mas é um acelerador dela”, explica Brossat. “Em uma cidade onde temos poucas possibilidades de construir novas moradias, perder 30 mil apartamentos é muita coisa.”

Atualmente, em algumas das cidades mais visitadas, os proprietários podem alugar seus apartamentos no Airbnb por no máximo 120 dias ao ano — e a cidade aumentou as inspeções para garantir que a empresa respeite a lei. (Uma decisão recente do Tribunal de Justiça Europeu confirmou essa lei francesa, para a alegria de Brossat.) Mas a administração de Hidalgo quer ir mais longe. Desde agora até o próximo verão, eles planejam realizar uma série de consultas em toda a cidade, com foco na redução potencial desse número em Paris: para apenas 60 ou 30 dias por ano. O objetivo é pressionar a Assembleia Nacional a devolver o poder à cidade e, assim, restringir os aluguéis do Airbnb.

“Nosso cálculo é que se dezenas de milhares de parisienses pedirem por isso, o estado terá de agir”, diz Brossat, que acredita na mudança da opinião pública. Os resultados das recentes eleições locais — que viram Verdes e Socialistas vencendo em grandes cidades como Lyon e Bordeaux — podem trabalhar a seu favor.

Alguns críticos reclamam que o governo socialista ainda não foi longe o suficiente. Por exemplo, o ativista habitacional Jean-Baptiste Eyraud disse ao The Nation que a cidade deveria usar de forma mais agressiva o que é conhecido como droit de preemption — o direito de impedir a venda de propriedades privadas e assumi-las para a cidade. Ele também diz que o município deveria valer-se de seu direito de desapropriação, que é autorizado em circunstâncias especiais pela lei francesa

Brossat concorda que Paris deveria impedir novas vendas entre entidades privadas e tem lutado para aumentar a parte do orçamento da cidade dedicada exclusivamente a isso. De fato, durante o primeiro mandato de Hidalgo, o orçamento para essa finalidade aumentou de € 500 milhões para € 850 [R$ 5,35 bilhões]. Brossat também diz que não se opõe ao uso da ferramenta de expropriação, mas que, na prática, pode ser difícil de defender no tribunal. (Juízes podem decidir que propostas de desapropriação sejam tomada apenas como último recurso, e não de maneira “desproporcional”.) O político comunista acrescenta que gostaria de recorrer ao “direito de requisição” do setor público — que é o direito de se apropriar de construções desabitadas — mas, no momento, apenas o governo nacional detém esse poder

“É muito frustrante para um secretário de habitação como eu ver que os edifícios permanecem vazios por anos e que o Estado não aciona seu direito de requisição”, diz Brossat. “Em certos assuntos, seria bom dar mais capacidade de manobra aos municípios que assim o desejam.

Ao mesmo tempo, qualquer conversa séria sobre gentrificação não pode ignorar o grande elefante na sala: o fato de que a maioria da população que vive na área metropolitana parisiense, não vive mais em Paris, propriamente dita. Para o bem ou para o mal, agora, ela mora nos subúrbios, ou nas banlieues

O mainstream político concorda amplamente em que existe um grande problema com o status quo. Conscientes das desigualdades que a divisão “cidade-subúrbio” gera, os formuladores de políticas nacionais há muito afirmam querer integrar melhor os dois lados da Périph’ — e, durante anos, a conversa rendeu pouca ação. Mas, em 2016, esses esforços finalmente deram origem à tão esperada superestrutura administrativa de “Grand Paris”, integrando 131 municípios diferentes

Trazer a simpatia de progressistas para o projeto é seu maior potencial redistributivo: a nostalgia pode ser atraente em uma cidade com uma história tão rica, mas o quê que realmente significa defender a divisão administrativa entre Paris e seus subúrbios? Por que não reunir recursos em toda a área metropolitana e usá-los para criar um sistema habitacional mais igualitário — sem falar em escolas, transporte e instituições culturais que funcionem melhor? Afinal, a própria Paris se expandiu no passado, absorvendo vilas como Belleville, Montmartre e La Chapelle, que já foram independentes até meados do século XIX. Por que agora não fazer o mesmo com cidades como Saint-Denis, Pantin ou Clichy-sous-Bois?

Um dos obstáculos é um estigma cultural persistente. No imaginário popular, a banlieue parisiense de baixa renda sofre de uma associação com o crime e com o que os franceses chamam de “comunitarismo”: a manutenção de diferentes comunidades étnicas e religiosas que são só deles. Até mesmo alguém como Soumia Chohra, que conhece muitos do outro lado da Périph’, diz que não gostaria de se mudar para lá. “Eu me sentiria muito isolada. Eles não têm o mesmo estilo de vida. Não é a mesma mentalidade”, diz ela.

Um obstáculo talvez mais significativo para expandir os limites da cidade seja a resistência política. Atualmente, a Grande Paris é governada por uma maioria de direita que demonstrou pouco interesse em uma maior integração entre a cidade e seus subúrbios. Em tese, a metrópole tem o poder de impor políticas habitacionais comuns, mas essa decisão ainda não foi tomada.

“Tenho plena consciência do fato de que Paris não resolverá os problemas de habitação por si só”, diz Ian Brossat. “Mas a metrópole precisa ser liderada por pessoas que se preocupem com essas questões socioeconômicas. No atual equilíbrio de forças dentro da metrópole, isso está fora de questão. ”

Brossat acrescenta que, além de desenvolver a habitação social, uma Grande Paris bem-sucedida depende de municípios que estejam preparados para arcar com a carga habitacional coletivamente, em vez de transferir projetos para certas cidades e agravar as desigualdades. E, no final, esse tipo de cenário de sonho, ele argumenta, se resume a obter poder político — vencer as eleições locais e reformular as prioridades das prefeituras. Embora as eleições municipais deste ano tenham sido amplamente positivas para os partidos de esquerda, elas também ilustraram a sua dificuldade em conseguir ganhar muitos dos subúrbios de renda média que compõem a área metropolitana de Paris.

A chegada dos Jogos Olímpicos de Verão, daqui a quatro anos, pode complicar ainda mais o cenário. Apesar da marca oficial “Paris 2024”, grande parte dos jogos e quase toda a construção ocorrerá nos subúrbios, inaugurando novos estádios, novos empreendimentos habitacionais e redes de trânsito melhoradas, mas junto com eles, o aumento no valor das propriedades e um grande medo de novos deslocamentos e despejos. Antes disso, a eleição presidencial de 2022 também pode acabar desempenhando um papel fundamental na definição do futuro da Grande Paris e da política habitacional de maneira mais ampla. Mas o cenário não é dos melhores para as forças progressistas no momento: enquanto o presidente Macron e a extrema direita de Marine Le Pen lideram as primeiras pesquisas, a esquerda continua dividida, dividida entre socialistas, verdes e populistas de esquerda da França Insubmissa. Enquanto isso, o boom imobiliário continua, e a crise de covid joga luz, como um fósforo aceso, sobre as desigualdades latentes da região

“Minha filha gostaria de continuar aqui, mas eu fico bem de qualquer maneira”, diz Saadoun. “Se eu puder pagar um aluguel menor, é isso que importa.”


COLE STANGLER
Cole Stangler é jornalista e reside em Paris. Ele escreve, principalmente, sobre politica e o mundo do trabalho. Ex-redator do International Business Times e do In These Times, Cole também já publicou trabalhos na Vice, Dissent e The Village Voice.



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