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O Carrefour é o nosso espelho

Culpados somos nós e, sobretudo, aqueles que naturalizam o racismo. O Carrefour é apenas nosso espelho


Da Carta Maior, 25 de Novembro, 2020
Por Lygia Jobim 


Créditos da foto: (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A Lei Áurea não foi assinada por benemerência ou convicção abolicionista da Princesa Isabel e sim e numa desesperada tentativa de salvar o regime monárquico, que já se encontrava falido, diante do crescimento do movimento abolicionista e de pressões externas. No entanto, o efeito foi contrário. Proclamada sem nenhum planejamento, os senhores de escravos, que não receberam qualquer indenização, retiraram seu apoio político possibilitando a proclamação da república apenas um ano depois, em 1889.

Aos escravos lhes foi dito apenas que eram livres e que trabalho, senzala e comida haviam acabado. Ou seja, virem-se, como seus descendentes se viram até hoje.

A pressão exercida pela Inglaterra para o fim da escravatura tinha por objetivo criar um mercado consumidor para a produção gerada pela Revolução Industrial. Assim, era mais conveniente que a Europa exportasse para cá seus desempregados. Estes serviriam de mão de obra barata, porém remunerada, para nossa elite econômica e ajudariam a consumir os produtos ingleses.

O negro tornou-se inútil. Sem serventia para a economia não compensava o investimento de dar-lhe ofício e educação. Passou a viver de biscates ou de trabalhos que ninguém mais se dispunha a fazer, ocupando, como até hoje, o último lugar na escala social.

Mas era preciso apagar essa, como tantas outras, memórias. E disso se encarregou Rui Barbosa ao mandar queimar grande quantidade de documentos sobre a escravidão, contribuindo com seu exemplo para que o problema fosse jogado para debaixo do tapete.

O enraizamento do racismo em nossa sociedade é tão grande que sua naturalização faz com que muitos nem sequer se percebam racistas. O General Mourão afirmou em 2018, em um evento na Câmara de Indústria e Comércio de Caxias do Sul que nossa indolência vem do indígena e nossa malandragem do africano. A declaração não causou nenhum tipo de repúdio no público. Ninguém se levantou para protestar ou sair do auditório, onde, por sinal, não havia nem um negro.

Em entrevista ao programa O Povo Quer Saber, Preta Gil pergunta a Bolsonaro: "se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?". Responde com a maior naturalidade que não corre esse risco, pois seus filhos "foram muito bem educados". Para ser mais explícito explica que namorar uma mulher negra seria "promiscuidade".

Em discurso no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, comparou negros quilombolas a animais de carga, usando o termo "arrobas" para se referir ao seu peso, chamando-os de inúteis ao dizer que "não fazem nada", não servindo sequer “para procriar”.

É esta naturalização que fez possível a eleição da chapa Bolsonaro-Mourão, chapa que assumiu e verbalizou, sem constrangimento, que a raça negra é inferior.

Este pensamento pareceu natural, ou pelo menos não causou repúdio - talvez mero constrangimento, superável num piscar de olhos - a 57.796.986 eleitores brasileiros que sujaram seus dedos, ao teclar o número 17 nas urnas, e os elegeram.

Melhor seria se houvéssemos sido poupados de mais um vexame internacional e nada tivesse dito sobre o assassinato de João Alberto na reunião do G20. Em sua fala o tenente negou um problema que deve, com urgência, ser enfrentado de frente e com firmeza, através da educação de seus eleitores e programas de inclusão. A seguir, classificando-nos como um povo verde e amarelo, fez referência à nossa bandeira que, em seu dia, passou pela dor de receber nas suas cores o sangue de um brasileiro.

Este 19 de novembro, Dia da Bandeira, ficará para sempre marcado pelo desrespeito à raça que ajudou a construir este país e que o mantém de pé.

Responsável por esta morte somos todos. Aqueles que naturalizam o racismo e nós que não os impedimos de fazê-lo. O Carrefour é apenas nosso espelho.

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