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Lançamento: A síndrome de Babel e a disputa do poder global

Da Carta Maior, 01 de Novembro, 2020
Por Mauricio Metri
 



Como se pode explicar ou interpretar uma mudança tão radical da política externa dos Estados Unidos, sobretudo depois de sua retumbante vitória na Guerra Fria, em nome das ideias, valores e instituições que agora estão renegando ou abandonando? Existem várias hipóteses, e muitos analistas ocidentais falam do fim da “ordem liberal”, atribuindo seu súbito colapso a dois fatores mais importantes: primeiro, a frustração da sociedade americana e europeia com os resultados extremamente assimétricos da globalização econômica, do ponto de vista das nações e classes sociais; e segundo, a “ameaça” colocada pela expansão da China, que estaria ameaçando a supremacia capitalista dos Estados Unidos e abalando a autoconfiança do Ocidente e sua crença na superioridade das instituições que lhe permitiram conquistar o mundo no século XIX. Mesmo sem desconhecer a importância desses dois fatores, o autor José Luís Fiori sugere no livro A síndrome de Babel e a disputa do poder global uma outra hipótese, baseada numa leitura e interpretação heterodoxa do “mito de Babel”

A obra procura analisar as grandes transformações por que passam o sistema internacional e, em especial, a América Latina neste início de século XXI, identificando o fim de alguns dos elementos estruturantes da ordem liberal internacional concebida e liderada pelos Estados Unidos desde 1945. Para além das transformações mais visíveis, relacionadas à ascensão chinesa, ao ressurgimento da Rússia e ao fracasso da globalização econômica, José Luís Fiori surpreende e sugere outras dinâmicas tão ou mais importantes como, por exemplo, a ruptura na tradição da política externa estadunidense a partir do abandono de um projeto hegemônico no campo da ética e da moral internacional.


As implicações disso não são pequenas e tampouco triviais. Ao contrário, são disruptivas e globais, conforme revela o próprio escopo dos artigos. Por assim dizer, o livro busca refletir sobre as estruturas contemporâneas em demolição e interpretar o que está em pleno trabalho de parto. Não deixa de apontar tendências e diagnosticar desafios que se impõem aos países em geral e, em particular, aos latino-americanos, sem, no entanto, se apegar a previsões preconcebidas por corpos teóricos orientados por alguma utopia. Mas atenção para o fato de que o elemento mais refinado do livro não se restringe às suas teses em si. Está na prática de como o autor empreende sua forma de ver e pensar os acontecimentos da conjuntura. Interpretar e escrever os processos sociais em pleno andamento nunca se constituiu numa tarefa fácil, embora não falte quem se arrisque.

Sob a névoa do tempo presente, atuam dinâmicas sociais mais profundas, de movimentos lentos e silenciosos, cujas forças não raras vezes são de difícil percepção, ainda mais quando mudanças estruturais de mais longa duração (co)incidem sobre as disputas comuns do cotidiano. Refiro-me particularmente à “chave de leitura” utilizada para decifrar aquilo que, por mais que olhemos diretamente, insiste em se esconder de nós. Um tipo de arte voltado à formulação das perguntas relevantes e à percepção dos enigmas que se perdem no meio da penumbra do contemporâneo. O leitor mais atento notará que, por detrás dos artigos, existe uma estratégia de análise que procura combinar a um só tempo teoria-história-conjuntura. Ou seja, há uma perspectiva teórica desenvolvida pelo próprio autor, que se convencionou chamar de “poder global”. A esta se associa uma (re)leitura histórica das “leis de movimento de longa duração” do sistema internacional com base na ideia de “explosões sistêmicas” desde suas origens no medievo. Ademais, o autor empreende um raciocínio dialético articulado, por vezes, ao uso de “arquétipos” e “representações coletivas” presentes em diferentes tempos e lugares, que funcionam como lentes de aproximação, observação e análise de problemas atuais.

Com efeito, não se trata de um exercício simples, mas de uma experiência reflexiva sofisticada e que vem permitindo-lhe reinterpretar e ressignificar os acontecimentos de forma tão original. Foi com base nesse “esquema tripartido” que o autor identificou, por exemplo, a “síndrome de Babel”, percebida a partir da leitura das linhas e entrelinhas de documentos do governo dos Estados Unidos, e o “desafio latino”, relacionado à “geo-história” da região, profundamente marcada por sua localização geográfica e inserção na geopolítica da grande potência do sistema. Eis um livro com muitas qualidades e permeado por um raro espírito renascentista, seja por suas contribuições originais ao debate da conjuntura internacional e à reflexão dos problemas brasileiros, seja em razão de seu modo requintado e próprio de ver e pensar. Em sentido mais geral, eu diria que se trata de um inspirador exercício de resistência do pensamento crítico latino-americano que insiste em sobreviver mesmo em tempos de parvoíces e pós-verdade.

Sobre o autor:

Formado em Sociologia e Economia Política pela Universidade do Chile. Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em Economia Política pela Universidade de Cambridge. Professor titular (aposentado) e professor permanente de Economia Política Internacional do Pepi/UFRJ. Coordenador do grupo de pesquisa Poder Global e Geopolítica do Capitalismo, do Pepi/CNPq, e do Laboratório de Ética e Poder Global do Nubeia/UFRJ. Organizou os livros Poder e dinheiro – Uma economia política da globalização, junto com M.C. Tavares, em 1997, e Poder americano, em 2004, pela Editora Vozes. Publicou, entre outros: Poder global e a nova geopolítica das nações, em 2007, e História, estratégia e desenvolvimento, em 2014, pela Editora Boitempo.


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