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“É o século da solidão”, constata economista inglesa Noreena Hertz

Do IHU, 05 Novembro 2020
A entrevista com Noreena Herz é de Antonello Guerrera, publicada por La Repubblica, 04-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.



Do século breve ao século da solidão. Às vezes extrema, como nos lockdowns impostos pela Covid-19. E com consequências enormes. Mentais, mas também sociais, físicas e políticas: “Porque os novos populismos e os movimentos de extrema-direita das últimas décadas estão todos ligados à solidão”. Bem-vindos ao "Século da Solidão", que também é o título do último livro da economista e ensaísta inglesa Noreena Hertz, The Lonely Century: How Isolation Imperils Our Future, recém-lançado em inglês pela Scepter. Depois dos ensaios sobre o neoliberalismo e a "Geração K", agora a estudiosa de 53 anos se concentra nas últimas degenerações de uma praga existencial profunda e antiga, pois "Com minha alma em agonia, estou só, todo só, só, só neste imenso mar!", como escrevia Coleridge na Balada do velho marinheiro.

The Lonely Century: How Isolation Imperils our Future

Mas, segundo Hertz, a solidão hoje assume formas e repercussões mais severas e extensas. Porque estamos cada vez mais sozinhos não só em casa ou no trabalho, mas também quando somos abandonados por governos e sociedades, como Jung e Asimov já teorizavam. Não por acaso, o governo britânico anunciou recentemente a formação de um "Ministério da Solidão".

Noreena Herzt fala com o Repubblica em uma teleconferência da Associação de Imprensa estrangeira (Fpa) de Londres e eviscera este século triste, solitário e esperamos não final: há obviamente a fenomenologia do lockdown, seus danos colaterais e o precedente dos "isolados" da velha Sars, que ainda hoje sofrem de complicações físicas e mentais; há "a economia da solidão", ou seja, "as perversões do capitalismo e do individualismo"; há uma sociedade cada vez mais “sem contato”; o “buraco negro” e obsessivo dos smartphones e tecnologia no estilo Black Mirror; enfim, a perda do senso de comunidade e agregações como os "velhos" partidos, sindicatos, mas também aqueles bairros que, por causa das migrações e de culturas que já não dialogam entre si, limitam as relações interpessoais e inflam as tensões. “Sim, há também uma globalização da solidão”, para Hertz. Que se manifesta em uma sociedade cada vez mais turbulenta, de "homens e ratos", como no experimento, mencionado no livro, de roedores agressivos quando solitários. Mas, de maneira mais geral, há um impacto notável também na política. Segundo a economista, é evidente a ligação entre solidão e populismos ou movimentos de extrema direita. Afinal, Hannah Arendt também o narrava nas Origens do totalitarismo, para quem a essência deste último era “a solidão, uma das experiências mais desesperadas e radicais de um homem”.

Eis a entrevista.

E hoje, Sra. Herzt?

Os populistas cada vez mais exploram a solidão para ganhar consensos. No livro há estudos sobre o consenso muito alto que, por exemplo, Jean-Marie Le Pen teve na França em 1992 entre as pessoas mais solitárias ou abandonadas. Mas o mesmo pode ser dito de muitos defensores do partido xenófobo na Holanda Pvv, de Donald Trump nos EUA ou de Matteo Salvini na Itália: mais do que outros políticos, seus seguidores têm menos amigos, menos conhecidos e passam mais tempo sozinhos.

Você de Salvini menciona a obsessiva expressão "amigos" dirigida a seus fãs, mas também palavras como "mãe" ou a "Lega é uma grande família", por exemplo.

Líderes como ele, em um momento histórico de crescente desigualdade, preenchem o vazio deixado pela esquerda, pelos sindicatos, mas também pelas religiões. Portanto, tais movimentos, muitas vezes de direita, atraem cada vez mais pessoas, principalmente quando são sozinhas.

Três em cada cinco adultos nos Estados Unidos se declaram "solitários", de acordo com um estudo mencionado no livro, e 60% dos britânicos não sabem o nome de seus vizinhos.

A solidão também é um problema muito caro: nos Estados Unidos, o custo de suas consequências físicas e mentais foi estimado em 7 bilhões de euros por ano para a saúde estadunidense e dois para a saúde britânica. Mas a solidão também é muito útil, porque é mais receptiva à narrativa das tradições e do senso de comunidade que hoje encarnam esses movimentos populistas. Muitos que entrevistei me disseram que ir a um comício de Trump ou a um festival da Lega são alguns de seus poucos momentos de socialização.

Os “forgotten men” de Trump, “os esquecidos”.

Exato. São aqueles abandonados não só pela sociedade, mas, nos últimos tempos, também pela política e pela economia. É por isso que a solidão é um fator crucial. Pessoas solitárias são cada vez mais numerosas no mundo: estamos pensando não só no lockdown e no smart working, que têm um impacto extremo, mas também, em tempos normais, no crescimento do número de solteiros, ou as cidades cada vez mais alienantes. Esses cidadãos com interações mínimas no mundo real, em suas espirais mentais, tendem a perceber o mundo exterior como mais hostil e ameaçador do que outros indivíduos. As redes sociais e a Internet, que se assentam na compulsividade temática dos seus algoritmos, levam ainda mais a extremos as posições dessas pessoas, também porque muitas vezes a sua “comunidade” não é real, mas sim online. Resultado: os populistas conseguem conquistá-los com muito mais facilidade do que outros políticos.

Como podem reagir as outras forças políticas mais progressistas e liberais em sua opinião?

Para além de conteúdos como a luta contra as desigualdades e um freio ao neoliberalismo extremo, a centro-esquerda e a esquerda devem aprender a falar a mesma língua que os populistas. E isso com emoções, empatia. Não apenas com fatos. Que são importantes, é claro. Mas hoje, mais do que no passado, as emoções são decisivas.

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