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Apagão no Amapá: Culpa é de empresa privada, mas mídia esconde e musa das privatizações mente; conserto é feito pela Eletrobras

Do Viomundo, 7 de Novembro, 2020
Por Rosely Rocha, no portal da CUT







Cerca de 700 mil pessoas estão sem energia elétrica, água e combustíveis há três dias, depois do incêndio em um transformador da empresa espanhola Isolux. Técnicos da Eletrobras fazem os reparos

Mais de 700 mil pessoas, em 13 dos 16 municípios do estado do Amapá, estão sofrendo com a falta de energia, água e combustíveis desde a noite de terça-feira (3) quando a subestação de energia que pegou fogo por volta das 20h40, na capital Macapá, levou ao desligamento automático da linha de transmissão.

A empresa responsável é a espanhola Isolux, que tem histórico de maus serviços prestados em outros países, mas quem está fazendo o conserto são os trabalhadores da Eletrobras, que o presidente Jair Bolsonaro (ex-PSL) quer privatizar.

Privatizar, para este governo é modernizar. As empresas que compram, porém, ficam de olho nos lucros, demitem técnicos experientes e contrata pessoal com menos qualificação para pagar menos e ainda reduz o quadro de pessoal.

Em 2014, a Isolux deu um prejuízo de US$ 476 milhões ao estado norte-americano de Indiana, onde também prestava serviços, segundo o diretor do Sindicato dos Urbanitários do Maranhão (STIU/MA), Wellington Diniz. E agora dá prejuízo ao Brasil e ao povo do Amapá.

O grupo multinacional que controla a concessionária Linhas do Macapá não conseguiu resolver o problema e pediu socorro para os trabalhadores da Eletrobras.

A estatal brasileira está enviando técnicos dos estados do Pará, Maranhão e Rondônia para ajudar no reparo. O problema é que nem um gerador substituto, nem peças de reposição, a Isolux possui no local.

“O que acontece no Amapá pode acontecer em outros lugares. Bolsonaro e ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque vêm dizendo que a Eletrobras não tem capacidade de investimento, e apostam na privatização, só que na hora em que acontece um acidente como este são os técnicos da Eletrobras que são convocados para prestarem socorro à empresa internacional porque ela não tem capacidade para resolver o problema”, alerta Wellington, que também é funcionário da Eletronorte, do holding Eletrobras.

De acordo com o dirigente, a Isolux não tem capacidade técnica, nem trabalhadores em números suficientes para manutenção, nem recompor a energia em pouco espaço de tempo, por isso os técnicos da Eletrobras foram chamados para prestar socorro.

O presidente do Sindicato dos Ubanitários do Amapá (STIU-AP), Jedilson Santa Bárbara de Oliveira, critica ainda o desmonte da Eletronorte no estado.

Segundo ele, a empresa tinha no estado do Amapá, 220 trabalhadores em 2007, mas com a sanha privatista de Michel Temer (MDB-SP), hoje conta com apenas 110 trabalhadores.

“Oito técnicos da Eletrobras de outros estados que estão ajudando nos reparos são considerados dispensáveis pela empresa por terem muito tempo de casa e estão prestes a se aposentar. A empresa quer incentivar a demissão de trabalhadores experientes por meio de PDVs, mas na hora que mais precisa, são eles que são chamados. As mil demissões que a Eletrobras quer fazer são para baratear os custos para privatizar e entregar ao capital internacional mais uma empresa brasileira superavitária. A Eletrobras teve um lucro no último ano de R$ 20 bilhões” , denuncia Jedilson.

A possibilidade de ocorrerem apagões em todo o país já havia sido levantada, em janeiro do ano passado, pelos sindicalistas do STIU de diversos, que denunciaram o projeto privatista do governo Bolsonaro para a Eletrobras.

Apesar da gravidade da situação, o ministério das Minas e Energia e o governo local, preveem que a situação só se normalize em 15 dias, podendo se estender por outros 15.

A demora, dizem os técnicos, é que um novo gerador só deve chegar em duas semanas porque ele pesa cerca de 100 toneladas e seria levado de barco, o que dificulta ainda mais a logística operacional.

A esperança para a população é que o fornecimento de energia seja reestabelecida em 70% em todo o estado do Amapá, conforme prometeram as autoridades governamentais.

Relatos de caos no Amapá

Enquanto lutam contra o tempo para reestabelecer pelo menos parte da energia nos 13 municípios afetados (apenas três estão com energia: Laranja do Jari, Vitória do Jari e Oiapoque, por serem abastecidos pela usina de Coaraci Nunes, sistema independente da linha de transmissão da Isolux ), os relatos do presidente do STIU-AP e da tesoureira da CUT/AP, Maria Neuzina Tavares Castro, são de caos e desespero dos amapaenses.

Segundo os dirigentes sindicais, as filas nos supermercados são imensas, o que já vem causando alguns desentendimentos para comprar água, que está sendo racionada.

Há estabelecimentos que vendem apenas dois galões de cinco litros por pessoa.

Em plena pandemia do novo coronavírus (Covid 19) em que a água é essencial para a higiene e prevenção à doença, a população não tem como se cuidar.

As padarias também estão limitando a venda de pães a 10 unidades por família. Nos postos de combustíveis as filas quilométricas são formadas por 60 a 50 veículos. Outros postos estão fechados porque suas bombas não condições de retirar o produto dos poços.

“O calor é insuportável, especialmente para os mais idosos e crianças, que têm de deixar suas portas e janelas abertas para entrar algum vento, mesmo com medo de assaltos ou algum tipo de violência que possam ser cometidos em função das ruas vazias e a escuridão. A temperatura na capital amapaense é em média 35 graus, mas a sensação térmica chega a 40 graus”, diz Jedilson.

Com o calor e a necessidade de manter alimentos refrigerados, uma barra de gelo chega a ser vendida por R$ 50,00.

A comunicação também é precária. As linhas de celulares das operadoras Vivo e Oi não funcionam. A Claro é a única operadora que dá algum sinal e, ainda assim de vez em quando. Há casos em que uma mensagem transmitida pelo whatsAPP pela manhã só é visualizada a noite.

Toda a energia que chega é direcionada apenas a hospitais e serviços essenciais.

“Toda essa situação poderia ser evitada se a empresa que ganhou a concessão da linha de transmissão contratasse profissionais com qualificação, mas ela só se interessa em pagar baixos salários, colocando a população em risco”, critica Jedilson.

Apagão provoca debate nas redes sociais

As redes sociais têm sido utilizadas para manter a população corretamente informada porque a direita tem contado mentiras dizendo que a subestação era da Eletronorte, diz um técnico da empresa que não quer se identificar.

“Mesmo com o esclarecimento e desmentido por parte das redes sociais a mídia não coloca que a subestação é de uma empresa privada para não ‘melar’ a privatização”, desabafa o trabalhador.

Por outro lado, a direita também tem utilizado as redes sociais para promover a discórdia.

Como no exemplo abaixo em que a economista Elena Landau insiste em dizer que a responsabilidade do apagão é de uma empresa estatal. Ela foi contestada em sua própria publicação.



O ex-prefeito de São Paulo pelo PT e ex-candidato à Presidência da República, Fernando Haddad também utilizou a rede social para criticar a paralisia de Jair Bolsonaro na questão do Amapá.

Para ele, tanto o presidente como seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, só se preocupam com a reeleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, enquanto o povo amapaense sofre as consequências de mais um descaso do presidente da República.



Edição: Marize Muniz



NO QUARTO DIA DE APAGÃO, POPULAÇÃO DO AMAPÁ SOFRE COM FALTA DE ENERGIA E ÁGUA

“Estamos vendo as pessoas terem que ir buscar água no rio Amazonas, o comércio está todo fechado, muitos prejuízos, filas quilométricas nos postos de gasolina e nos grandes mercados que têm gerador”, conta atingido em Macapá

Desde a noite da última terça-feira (3), o estado do Amapá, na região Norte, está sem abastecimento de energia elétrica e água em 13 das 16 cidades, com mais de 730 mil pessoas afetadas.

Nesta sexta-feira (6), o governador Waldez Góes (PDT) assinou um decreto estabelecendo “estado de emergência”.

O apagão generalizado ocorreu por conta de um incêndio na subestação de Macapá, na capital. Dois dos três transformadores foram danificados, e o outro está fora de operação porque passa por manutenção desde o ano passado. A empresa responsável é privada: a Isolux.

Devido à falta de energia, a situação se tornou ainda mais grave porque o fornecimento de água também foi interrompido, já que as bombas hidráulicas pararam de funcionar.

Para reestabelecer a energia no Amapá, o governo federal, por meio do ministro de Minas e Energia Bento Albuquerque, declarou haver três planos para solucionar o problema.

O primeiro, a curto prazo, é consertar o transformador menos afetado, reestabelecendo 70% da energia até este final de semana, de acordo com previsão.

Os outros dois são a médio prazo, com reestabelecimento completo da energia no estado somente em 30 dias.
SOS Amapá

Em registros de veículos de imprensa e nas redes sociais, há grandes filas para abastecer em postos de gasolina, pessoas em busca de gelo para conservar alimentos, prateleiras de supermercados totalmente vazias, além de grandes aglomerações em shoppings, aeroportos e outros locais onde a energia é mantida por geradores. Hospitais são motivo de preocupação. Tudo isso, em meio à pandemia de Covid-19.

A hashtag #SOSAmapá está sendo utilizada para chamar a atenção sobre o caso que começou a ter repercussão na mídia somente ontem, dois dias após a queda de energia.

O atingido Moroni Guimarães, morador de Ferreira Gomes, está na capital Macapá e relatou o quadro à reportagem do MAB.

“Imagina como estão as cidades do interior? Uma verdadeira calamidade! Tivemos que vir pra cá pra conseguir carga no celular e comunicar, divulgar o caos que estamos vivendo. Estamos vendo as pessoas terem que ir buscar água no rio Amazonas, o comércio está todo fechado, muitos prejuízos, filas quilométricas nos postos de gasolina e nos grandes mercados que têm gerador. A população está toda na rua atrás de alimento, está sendo difícil achar água até para beber, uma situação muito difícil mesmo”, conta Moroni.

Empresa privada

A fragilidade da empresa espanhola Isolux não é novidade para a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica).

Em 2017, a agência constatou que a companhia descumpria os prazos do cronograma de obras e não possuía capacidade financeira para implantar os projetos que havia arrematado em leilão.

Assim, a diretoria da ANEEL recomendou ao Ministério de Minas e Energia a cassação de dois contratos de linhas de transmissão que estavam no domínio da empresa que estava em recuperação extrajudicial.

O CNE (Coletivo Nacional dos Eletricitários) destacou, em nota, que a Eletronorte, empresa estatal, foi acionada para ajudar o restabelecimento da energia no estado, o que não poderia acontecer no caso de o governo levar adiante o plano de privatização da Eletrobras.

“Embora o setor elétrico esteja sujeito a intempéries climáticas, o que ocorre no Amapá só demonstra o equívoco de privatizar a Eletrobras e suas empresas, que no estado é representado pela Eletronorte”, afirma a nota dos eletricitários.

Posição do MAB

O Movimento dos Atingidos por Barragens que atua no estado produziu uma nota sobre a situação:

O Movimento dos Atingidos por Barragens, no estado do Amapá, repudia o desrespeito com que as geradoras e distribuidoras de energia tratam a população. O estado está sem fornecimento de energia desde 3 de novembro, devido a um incêndio na subestação de energia em Macapá.

Chamamos à responsabilidade as autoridades dos três poderes de nosso estado, que deveriam vigiar e zelar para o bem estar de nossa população.

Nos solidarizamos com a população trabalhadora que luta no dia a dia para sobreviver e que agora está sofrendo até com falta de água, pois o abastecimento depende de bombas hidráulicas. Nos solidarizamos também com os trabalhadores do setor elétrico, que sofrem com precarização e terceirização.

A situação em Macapá é desoladora. Há enormes filas nos postos de combustível e muitas pessoas não conseguem sequer comprar medicamentos porque as farmácias estão sem sistema de pagamento. Até para comprar açaí são formadas filas nos poucos estabelecimentos que contam com gerador de energia.

Como o apagão demonstra, empresas só visam lucro e não priorizam o bem-estar da população. Enquanto isso, os atingidos esperam há anos por justiça.

Aos governantes que representam e governam para os grandes empreendimentos, fazemos aqui uma pergunta: foi interrompido o fornecimento gerado aqui no estado do Amapá pelas quatros hidrelétricas que são interligadas ao linhão de Tucuruí e que abastece outros estados do Brasil?

Acreditamos que não, pois se fosse assim, já teriam resolvido o problema. Lembramos que o Amapá é um estado que exporta energia e sua população ainda sofre sem acesso e com a péssima qualidade do serviço.

Aqueles que dizem querer o bem da população, na verdade, só visam lucro acima da vida. Exigimos ação das autoridades e denunciamos o descaso das empresas.

Também não podemos admitir que se faça uso político do apagão para defender a privatização da Eletronorte/Eletrobras, inclusive porque o incêndio teve início nas instalações de uma empresa terceirizada.

Precisamos de um projeto energético com soberania, distribuição da riqueza e controle popular.


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