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Ártico está morrendo e tem o menor nível de gelo em outubro




Do IHU, 05 Novembro 2020
Por 
José Eustáquio Diniz Alves


"O que está acontecendo no Polo Norte em outubro de 2020 deve servir de alerta para o mundo, pois a morte do Ártico pode significar também a morte da civilização humana que não conseguiria prosperar em um mundo em constante aquecimento e em uma Terra inabitável", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e pesquisador titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 26-10-2020.

Eis o artigo.

“O principal impulso pelo qual fui dirigido foi o esforço sincero para compreender os fenômenos dos objetos físicos em sua conexão geral e para representar a natureza como um grande todo, movido e animado por forças internas” - Alexander von Humboldt (1769-1859)

O gelo do Ártico está desaparecendo a uma velocidade estonteante. A extensão de gelo do polo Norte em outubro de 2020 é a menor de todos os tempos.

As figuras abaixo mostram que a extensão de gelo no Polo Norte era de 9,3 milhões de km2 em 1992, caiu para 7,5 milhões de km2 em 2013 e 5,3 milhões de km2 em 2020. A média do período 1981-2010 foi de 8,3 milhões de km2, portanto, em outubro de 2020 houve uma redução de 4 milhões de km2 em relação à 1992 e de 2 milhões de km2 em relação à média de 1981-2010. 

 
(Fonte: National Snow and Ice Data Center)

O gráfico abaixo mostra que a perda de gelo nos meses de outubro tem ocorrido ao ritmo de -10,1% por década e que o maior degelo ocorreu em 2020. Nesta marcha, poderia ocorrer a perda total de gelo antes do fim do atual século.



(Fonte: National Snow and Ice Data Center)

Existe um círculo vicioso preocupante. O aquecimento global tem levado ao degelo do Ártico e quando o gelo ou a neve desaparecem, dão lugar ao oceano mais escuro ou a uma vegetação que refletem menos os raios solares e absorvem em maior proporção o calor. O fenômeno eleva as temperaturas da água e do ar, piorando, assim, o problema. Já é possível navegar tranquilamente nos meses de setembro do polo norte e agora a navegação já pode ser feita em outubro, o que é bom para os interesses econômicos do comércio, mas é péssimo para o meio ambiente (Alves, 14/10/2020).

No mês de setembro, um bloco de gelo com cerca de duas vezes o tamanho de Manhattan se separou da maior plataforma de gelo remanescente do Ártico, no nordeste da Groenlândia, após temperaturas recordes no verão. Com o aquecimento do Ártico ocorrendo pelo menos duas vezes mais rápido que o aquecimento global médio, a taxa de derretimento da Groenlândia pelo menos triplicou nas últimas duas décadas. Se este ritmo continuar, o derretimento poderá fazer, em futuro distante, com que o nível do mar suba em até 7 metros, afogando as cidades costeiras.

Para agravar o problema, a aceleração do aquecimento do Ártico aumenta o risco de feedback auto reforçador de degelo do permafrost. Existem duas vezes mais carbono preso no permafrost do que o que já foi lançado na atmosfera. A erosão do permafrost pode ser completamente desastroso, já que o metano é várias vezes mais poluente do que o CO2. À medida que as temperaturas globais aumentam, também é possível que ainda mais metano possa ser emitido do fundo do mar raso da plataforma ártica da Sibéria Oriental.


(Fonte: National Snow and Ice Data Center)

Matéria do jornal The Guardian (27/10/2020) mostra que cientistas encontraram evidências de que depósitos de metano congelado no Oceano Ártico – conhecidos como os “gigantes adormecidos do ciclo do carbono” – começaram a ser liberados em uma grande área da encosta continental da costa leste da Sibéria. Altos níveis do potente gás de efeito estufa foram detectados a uma profundidade de 350 metros no Mar de Laptev, perto da Rússia, gerando preocupação entre os pesquisadores de que um novo ciclo de feedback climático pode ter sido acionado, o que poderia acelerar o ritmo do aquecimento global.

Este círculo vicioso que se auto reforça, pode aquecer a temperatura em velocidade acelerada e tornar várias partes da Terra inabitáveis, sendo que as ondas letais de calor e os eventos climáticos extremos podem matar mais gente do que a atual pandemia da covid-19. O aumento das rotas de navegação, da extração de petróleo e de outras atividades econômicos no Ártico só agravam o quadro da perda de gelo.

Artigo de Maria-Vittoria Guarino et. al. publicado na Nature Climate Change (10/08/2020), utilizou a última geração de modelos climáticos para simular o gelo do mar Ártico durante o período quente de 120.000 anos antes da última era do gelo. As simulações mostraram que, durante essa era, o Ártico provavelmente nunca esteve sem gelo no verão. A equipe também fez simulações de modelos para o futuro e descobriu que o gelo marinho do Ártico provavelmente desaparecerá entre 2030 e 2050.

Outro novo estudo, publicado na revista “Nature Climate Change”, usou a última geração de modelos climáticos para simular o gelo do mar Ártico durante o período quente de 120.000 anos antes da última era do gelo. As simulações mostraram que, durante essa era, o Ártico provavelmente estava sem gelo no verão. A equipe também fez simulações de modelos para o futuro e descobriu que o gelo marinho do Ártico provavelmente desaparecerá entre 2030 e 2050.

Uma ameaça adicional do degelo vem da possibilidade do reaparecimento de vírus e bactérias retidos nas camadas mais profundas do Polo Norte e que podem emergir à superfície, na medida em que o gelo se transforma em água. Vírus liberados e maior circulação humana são bombas-relógio para o surgimento de novas epidemias.

Como mostrou Dana Nuccitelli (28/10/2020) o Ártico vive um pacto suicida, com uma relação mutualmente destrutiva entre o degelo e o aquecimento global: “O clima mais quente e a perda de gelo do mar Ártico formam um verdadeiro pacto suicida. Há uma espiral da morte com o círculo vicioso de feedback entre derretimento-aquecimento, pois mais derretimento de neve e gelo geram ainda mais aquecimento, em um ciclo contínuo”.

O que está acontecendo no Polo Norte em outubro de 2020 deve servir de alerta para o mundo, pois a morte do Ártico pode significar também a morte da civilização humana que não conseguiria prosperar em um mundo em constante aquecimento e em uma Terra inabitável.


Referências:

ALVES, JED. O degelo do Ártico e o atalho na rota comercial norte entre o Leste Asiático e a Europa, Ecodebate, 14/10/2020. Disponível aqui.

Jonathan Watts. ‘Sleeping giant’ Arctic methane deposits starting to release, scientists find. The Guardian, 27/10/2020. Disponível aqui.

Dana Nuccitelli. Warmer climate and Arctic sea ice in a veritable suicide pact, Yale Climate Connections, 28/10/2020. Disponível aqui.

Maria-Vittoria Guarino et. al. Sea-ice-free Arctic during the Last Interglacial supports fast future loss, Nature Climate Change volume 10, pages 928–932, 10/08/2020. Disponível aqui.

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