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Um fosso de intolerância, por Kakay

Pixabay

“Pessoas de bem” se sentem melhores

Hipócritas defendem próprios privilégios" Pessoas de bem" ignoram problemas sociais para defender os próprios privilégios


Do Poder360, 02.out.2020 


“Nada me pesa tanto no desgosto como as palavras sociais de moral. Já a palavra ‘dever’ é para mim desagradável como um intruso. Mas os termos ‘dever cívico’, ‘solidariedade’, ‘humanitarismo’, e outros da mesma estirpe, repugnam-me como porcarias que despejassem sobre mim de janelas. Sinto-me ofendido com a suposição, que alguém porventura faça, de que estas expressões têm que ver comigo, de que lhes encontro, não só uma valia, mas sequer um sentido.” (O Livro do Desassossego, Fernando Pessoa na pessoa de Bernardo Soares)

Sempre que tiver dúvida sobre o caráter de alguém observe, com cuidado, se a pessoa se jacta de ser uma “pessoa de bem”. Esse critério aberto pode abarcar, abrigar, todo tipo de canalha. Normalmente, são pessoas que se sentem melhores do que as outras e se orgulham de se sentirem melhores. Inventam, com as devidas adaptações, um ar de soberba e vilania para se identificarem: “somos os nascidos com berço”. É uma denominação social de um grupo geralmente inepto, frequentemente ignorante, pretensioso, injusto, desleal e desumano: os nascidos com berço e que são pessoas de bem.

Com frequência, são hipócritas que se apegam a conceitos vagos para defender os privilégios, como se fossem humanistas. São contra as cotas raciais, por serem racistas estruturalmente, mas defendem a “meritocracia” como escudo para se dizerem antirracistas. Não são capazes de entender que, numa sociedade abissalmente desigual, a defesa da “meritocracia” pode ser uma cortina de fumaça para não mudar nada. E tome empáfia em discussões com frases de efeitos tiradas de livros nunca lidos e de textos colhidos aleatoriamente. Têm no Google a única amizade real.

É melhor nos recorrermos a Poética de Manuel Bandeira:

“Estou farto do lirismo comedido.
Do lirismo bem-comportado
(…)
Abaixo os puristas
(…)
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
(…)
Não quero mais saber do lirismo que não é libertação. ”

Vez ou outra, esse grupo descuida e se desnuda ao enfrentar um entregador que não abaixa a cabeça ao entregar a encomenda, ou um guarda municipal que ousa cumprir a lei, ou uma mulher que assume sua sexualidade usando um biquíni no Leblon, ou numa incrível “coragem” de um garçom que os serviu sem a subserviência esperada pelos escolhidos pelos céus. Nessa hora, em regra, rodam a baiana e humilham os que eles julgam que não sabem “quem eles são” para serem tratados assim. Senhores feudais, de engenho, que se portam como seres superiores.

Esses seres estranhos aparecem hoje em quantidade cada vez mais impressionante. Ao que parece, não foi uma mutação genética que tirou essa gente do esgoto, mas uma identidade que se fortaleceu com a ascensão ao poder desse grupo que governa o país. Eles estão se sentindo representados pelo governo federal e, por via de consequência, sabem que são o esteio desse Brasil acima de todos. E realmente se acham acima, e melhores.

Deveriam ler Herberto Helder:

“Um espelho em frente de um espelho: imagem que arranca da imagem, oh, maravilha do profundo de si, fonte fechada na sua obra, luz que se faz para se ver a luz.”

É o tipo de gente que fala que não é racista, pois “até tem uma babá negra para tomar conta da filha”. Daqueles que acham correto tirar o dinheiro do SUS, até porque sempre podem pagar uma ambulância privada para levá-los aos melhores hospitais particulares. Os que compraram remédios na pandemia, sem necessidade imediata, e estocaram para caso fosse preciso usar no futuro, sem se importar com o desabastecimento do mercado para os que precisam do medicamento diariamente por outras comorbidades. Enfim, é uma perigosa junção de egoísmo, falta de solidariedade, arrogância e vaidade. É o Brasil sendo corroído por dentro, nas estruturas que desenham o perfil, o caráter, a índole de um povo, de uma nação. Pensar que esse mesmo Brasil produziu um João Cabral de Melo Neto:

“E somos Severinos,
iguais em tudo na vida
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
e de fome um pouco por dia.”

É uma falência múltipla dos órgãos, onde perecem a solidariedade, a compaixão, a capacidade de se colocar no lugar do outro para poder, verdadeiramente, ver o outro e sentir sua dor e seu desespero. É a vaidade de fazer propaganda de um ou outro ato solidário que, claramente se vê, visa mais a aparência do ato do que qualquer preocupação social real.

Esse é o mundo formado por pessoas que se elegeram com o uso deliberado das fake news e que agora se tornam, eles próprios, personagens fakes. São falsos o bastante para se esconderem atrás do que é socialmente conveniente. Só que com a proliferação da mediocridade, da banalidade, alguns se sentem protegidos para mostrar quem realmente são. E a intolerância é a marca indelével destes pulhas. Temos que ser intolerantes com a intolerância, mas não necessariamente com os intolerantes, sempre tentando não nos igualar a eles.

Mas, que eu advogaria de graça para aquela mulher do Leblon que revidou a agressão e agrediu a intolerância, ah eu advogaria!

Me recorro ao poeta Boaventura de Souza Santos:

“Tinha uma caminhada
mas perdi-me,
um plano
mas esqueci-me,
uma missão
mas comi-a,
um recital
mas faltou gente,
um desejo
mas desistiu,
uma sementeira
mas faltou terra.
Uma colheita
que se recolheu,
uma alegria
que desanimou,
um membro
que se desmembrou,
uma companhia
que me abandonou.
Não estou a desistir de nada
que não tenha desistido de mim.”

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Autores


Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay)

Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, tem 61 anos. Nasceu em Patos de Minas (MG) e cursou direito na UnB, em Brasília. É advogado criminal. Escreve para o Poder360 sempre às sexta-feiras.


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