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“Se colocarmos a criança realmente no centro, como pedia Maria Montessori, tudo muda para sempre”

A jornalista italiana Cristina De Stefano passou cinco anos investigando a vida desta mulher e sua influência na pedagogia e na educação atual. O resultado é a biografia mais completa da criadora do Método Montessori feita até hoje


A jornalista e escritora Cristina de Stefano, que dedicou cinco anos à pesquisa sobre a vida de Maria Montessori.


Por ADRIÁN CORDELLAT
Do El País 07 Outubro 2020



A jornalista italiana Cristina De Stefano passou cinco anos investigando a vida de uma das mulheres mais revolucionárias da história: Maria Montessori. Para isso, mergulhou em centenas de livros e cartas da médica, pedagoga e filósofa italiana. “Queria descobrir se Maria Montessori era uma louca, como alguns dizem, ou uma esperta mulher de negócios, como dizem outros, uma grande alma, como repetem seus seguidores, ou muito mais do que isso”, explica ela na nota final do livro. O resultado é Il Bambino è il Maestro: Vita di Maria Montessori (A criança é o professor: vida de Maria Montessori, ainda sem tradução ao português) uma biografia que se devora como um romance, em que De Stefano conta com um incrível pulso narrativo a história de vida de uma pessoa iluminada, uma visionária dona de um caráter profundamente contraditório e cheio de luz e sombras, de áreas obscuras; a história de vida de uma mulher que sonhou durante toda a sua existência em transformar o homem desde criança e, com isso, mudar o mundo. “Não teve êxito em seu sonho e sua revolução está inacabada, mas ela ainda pode nos inspirar hoje”, diz De Stefano.

Pergunta. Você afirma que com essa pesquisa queria descobrir “a pessoa real, para além da marca global que ainda leva seu nome”. Esse era justamente, diz no livro, um dos medos da Montessori idosa, o de passar para a história por ter criado um método pedagógico e um material didático, mas não pelo que considerava sua verdadeira revolução: “ter visto a criança em sua verdade, não uma criatura inferior, mas potencialidade absoluta de futuro”. Acredita que hoje em dia a memória de Montessori prevalece mais pelo método do que pela visão revolucionária da infância?

Resposta. Hoje dizemos Montessori e vemos o material, principalmente em escolas particulares, e um método que parece ser privilegiado. Receio que haja marketing demais, e até mesmo muitos negócios em torno do nome Montessori, que agora está em toda parte. O risco e o mais fácil é parar no material. Escutar sua mensagem revolucionária é mais complicado (e muitas vezes desconfortável para adultos, sejam pais ou professores), mas também mais emocionante. Se realmente colocamos a criança no centro, e não apenas por meio das palavras, tudo muda para sempre.

P. Il Bambino è il Maestro: Vita di Maria Montessori é o retrato de um gênio. Com suas luzes e suas sombras. O que mais a surpreendeu no que aprendeu ao preparar a biografia de Maria Montessori?



R. Não suspeitei do seu lado espiritual, que me tocou profundamente. Maria Montessori acredita na observação científica, mas também crê no milagre, no invisível, no poder da beleza. Esse ponto, por exemplo, me faz sentir próxima dela. Hoje, quem nos convida a criar beleza para ajudar a alma a se desenvolver é como um profeta clamando no deserto. A modernidade quase sempre parece buscar o feio como padrão. Em seus escritos, Maria Montessori sempre usava a palavra alma, sem medo; um conceito que hoje quase se tornou uma palavra amaldiçoada. E, por outro lado, não há criatura mais naturalmente espiritual do que a criança, que instintivamente sabe ouvir a sua voz interior, sabe maravilhar-se a cada momento, sabe viver perfeitamente o presente. Obviamente estou falando da criança nos seus primórdios, antes que a sociedade adulta ―a partir dessa pequena sociedade que é a família― a deforme.

P. Uma das coisas que mais me impressionaram no livro é sua faceta visionária. Apenas observando as crianças ela deixou muitos princípios educacionais que mais tarde foram endossados pela neurociência. Acha que ter estado tão à frente de seu tempo fez com que fosse e se sentisse incompreendida?

R. Estar à frente do tempo em que se vive é sempre uma fonte de problemas. Em sua época, muitos consideravam Maria Montessori uma maluca. No entanto, quase tudo o que dizia (sobre o direito a um parto respeitado, sobre a vida pré-natal, sobre o funcionamento do cérebro infantil, sobre a polarização da atenção) foi confirmado muitos anos depois pela ciência.

P. O tempo histórico em que ela viveu, precisamente, a fez sofrer muito no plano pessoal. Uma mulher como ela não se enquadrava em uma sociedade em que as mulheres tinham seu caminho marcado desde o nascimento, por isso teve que pagar sua revolução com sofrimento pessoal e renúncias. Maria Montessori seria maior e mais reconhecida em uma sociedade como a de hoje?

R. Maria Montessori se impôs em um período muito difícil para a emancipação da mulher. Também nisso ela era muito moderna. Queria deixar uma marca no mundo, ser uma pessoa que trabalhava. Chegou até a abandonar o filho por muitos anos para se tornar médica. Em todo caso, não acho que o sofrimento ajude. Acho que, se tivesse vivido hoje, Maria Montessori teria feito coisas ainda mais extraordinárias.

Maria Montessori com um grupo de crianças em 1946, em Londres. KURT HUTTON / GETTY IMAGES

P. Outra das coisas que mais me surpreenderam é algo que você já mencionou: ver como um método que nasceu em um bairro humilde e para crianças de famílias pobres é hoje um sistema de ensino ao qual só podem ter acesso famílias de nível socioeconômico elevado. É um grande paradoxo.

R. É um triste paradoxo. Como conto no livro, esse é o resultado de como era sua vida. As autoridades públicas de Roma não podem ou não querem colaborar com ela, e por isso são as elites, principalmente as anglo-saxãs, que se interessam e financiam suas pesquisas, porque as elites sabem muito bem que a formação é essencial para criar uma classe dominante. Mas essa tendência ainda pode ser revertida. Mais e mais escolas públicas estão adotando o sistema Montessori. Aqueles que argumentam que os custos são altos muitas vezes escondem sua falta de vontade para mudar radicalmente a escola. O material é caro, é verdade, mas é indestrutível e dura décadas. E depois há as aplicações Montessori em residências de idosos, em campos de refugiados, em países menos desenvolvidos. Nunca é tarde para voltar à inspiração do compromisso social que o método teve em seus primórdios.

P. Lendo o livro, me pareceu encontrar o momento em que ocorre esta transição entre um método para crianças de famílias pobres e um método educativo para crianças de famílias ricas: a abertura da primeira escola Montessori nos Estados Unidos. Não sei se há informações sobre o que Maria Montessori pensou sobre essa evolução de seu método pedagógico.

R. Sim, a primeira escola Montessori nos Estados Unidos foi criada para filhos de ricos, todos eles banqueiros e financistas. Não encontrei os comentários de Maria Montessori sobre essa primeira iniciativa, mas estamos falando de uma época em que as coisas explodiam ao seu redor e ela realmente não controlava quase nada. Nos mesmos anos, para dar outro exemplo, os socialistas de Viena criaram escolas Montessori para crianças que passavam fome após a Primeira Guerra Mundial. Tudo isso aconteceu em meio a uma total falta de coordenação e planejamento. Maria Montessori foi uma visionária, mas certamente não uma mulher prática.

P. Eu fiz a pergunta anterior porque, se algo fica bem claro depois de ler sua biografia, é que Maria, embora não fosse prática, era muito protetora com seu método. Queria controlar tudo sozinha, a ponto de ficar irritada com os livros que outras mães e professoras publicaram explicando como aplicar o método Montessori na escola e em casa. Hoje existem centenas de livros e blogs dedicados ao método, influenciadores que ganham a vida divulgando seus princípios em blogs e redes sociais ... O que você acha que passaria pela cabeça de Maria Montessori se ela pudesse reviver e ver a expansão sem controle de sua metodologia?

R. Na década de 1960, seu filho Mario tentou impedir essa proliferação descontrolada proibindo o uso do nome Montessori, mas os juízes norte-americanos decretaram que agora era um patrimônio da humanidade. A partir desse momento, qualquer pessoa pode colocar o nome Montessori em uma escola ou caixa de atividades, principalmente por ser um nome que vende. Não creio que Maria Montessori ficaria feliz ao ver isso, mas, no fundo, esse é o dilema de todo fundador: divulgar a mensagem diluindo ou preservando a pureza das origens? Pessoalmente, acho que a divulgação é mais importante. Deixar a ideia Montessori se infiltrar no mundo, nas famílias e nas escolas só pode tornar as coisas melhores.

P. Ao longo de sua vida Maria Montessori pensou que “a educação é uma técnica do amor” e que por meio desse amor seria possível mudar o mundo, começando essa mudança com as crianças. Em um mundo como o de hoje, assolado por guerras, crises de refugiados, pandemias globais e crises climáticas, adquire mais importância ver se cabe essa visão da educação de Maria Montessori?

R. O mundo de hoje é muito menos violento que o do passado. Isso é o que dizem todas as estatísticas. O que aumentou foram as informações sobre a violência. Daí a sensação que temos de viver tempos piores à medida que a humanidade avança. Dito isso, acredito profundamente no sonho de Maria Montessori. Acredito que se as crianças puderem se desenvolver harmoniosamente, em especial nos primeiros anos, elas serão adultos mais equilibrados, mais capazes de autocontrole, comunicação não violenta e capacidade de atenção. Não é por acaso que Maria Montessori disse que não devemos educar “para” a paz, mas educar “na” paz. É diferente. É melhor. No entanto, são os adultos que têm que mudar, e isso já é mais difícil.

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