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Pegadas: Educação Popular para uma América insubmissa

Nova coluna de Outras Palavras viaja pelas franjas rebeldes do continente. A busca de autonomia por meio da troca de saberes. O trabalho de base, a defesa do Comum e a lenta construção do coletivo. México abre a caminhada



De OUTRASPALAVRAS, 6 de Outubro, 2020
Por Roberta Traspadini


Estou lhe dizendo: Apague as pegadas!
O que você disser, não diga duas vezes.
Encontrando o seu pensamento em outra pessoa: negue-o.
Quem não escreveu sua assinatura, quem não deixou retrato,
Quem não estava presente, quem nada falou
Como poderão apanhá-lo?
Apague as pegadas!
Cuide, quando pensar em morrer
Para que não haja sepultura revelando onde jaz
Com uma clara inscrição a denunciá-lo
E o ano de sua morte a entregá-lo.
Mais uma vez: Apague as pegadas!
(Assim me foi ensinado.)

Bertold Brecht – Apaguem as Pegadas (fragmento)


Pegadas é o termo que sistematiza um velho projeto: socializar, por meio de vídeos e textos, minha experiência latino-americana como educadora popular. Entre 2000 e 2020 foram muitos processos de formação em meio a este campo de vozes-saberes-sabores-sentidos-produção dos “de abajo.” São herdeiros e raízes da resistência, que tratam de agir movidos pelo que “pulsa abaixo do peito à esquerda”, na referência digna das consignas zapatistas.

Pegadas tem como eixo central a Educação Popular latino-americana, protagonizada pela classe trabalhadora do campo e da cidade, na luta por uma autonomia mínima, em uma sociedade de múltiplas prisões. É uma carta de amor. Um convite para o diálogo em tempos de muitas incertezas.

Criação: Ana Carolina Costa Andrade (UFES-OBEPAL)

Começaremos pelo México (2000 a 2004), passando por Chile (2004), Bolívia (2013-2015), Colômbia (2014), Argentina (2016-2017), Paraguai (2015-2018) e Brasil (2005-2020). O México e o Brasil receberão um tratamento maior, dada a permanência por mais tempo nos mesmos.

A educação popular e a educação formal sempre se misturaram no meu que-fazer político. Em especial, a partir do encontro com os movimentos sociais camponeses – MST, MPA, Via Campesina – e os sindicatos de educadores comprometidos com outro projeto societário. Isto, somado à relação com um bom número de pessoas com as quais teci minhas redes pela América Latina, deu o tom de minha convicção de com quem devo caminhar lado a lado, para quê e por quê.

O termo Pegadas toma duplo sentido: 1) as marcas que deixamos ao caminharmos com os pés no barro e o entrecruzar destas com outras importantes vidas que também deixam seus registros em nós; 2) a aderência, no corpo, de um projeto pensado-executado-avaliado, sobre o desejo de vivermos uma vida para além da lógica da compra e venda. Pegadas é tanto a trilha que elucida os caminhos percorridos, como o registro, ao longo da trilha, daquilo que trazemos hoje conosco do que aprendemos ao longo da caminhada.

Com Pegadas reforça-se o papel da memória e da história em tempos de esvaziamentos concretos na lógica da aceleração do roubo do tempo, como premissa de uma vida que, de tão acelerada, nos faz esquecer o vivido – tanto hoje como para trás. Na era das máquinas velozes, do engolir os alimentos envenenados, Pegadas apresenta-se como um freio, um contratempo ao tempo veloz.

No tempo da memória, lembrar significa trazer para o presente processos que nos ajudam, ao olhar pela janelinha da história, a visualizar que o hoje, por mais duro que se apresente, pode forjar novos tempos amanhã à luz de nosso protagonismo social, herdeiro de muitos e muitas lutadores latinos.

É a práxis o que o Pegadas reivindica. Essa que não separa razão de sensibilidade, aparência de essência, teoria de prática, vida pessoal, vida profissional e ambiente político. A práxis como movimento ora violento, ora manso de captação das contradições com vistas a superação de uma sociedade desigual. Portanto, uma práxis militante, que associa a individualidade à coletividade, sem que nem uma nem outra sejam supremas.


Imagem: Cecilia Angileli (UNILA-EPPC )

Pegadas é também um tributo a muitos encontros, perdas e belezas. Trabalhamos duro no estudo de textos e no cuidado com o corpo para produzir cultura e arte. Assim, socializar uma dança ou uma roda de capoeira, significa trabalhar para harmonizar a apresentação. No entanto, quem vê a atividade cultural não necessariamente capta a quantidade de horas trabalhadas para executar a apresentação. É no trabalho de base, de preparação das ações no forjar coletivo, na condução do tempo de produção harmoniosa de um mínimo de referências comuns para as/os integrantes dos coletivos vinculados aos projetos, que Pegadas está ancorado.

Através destas experiências, à luz da teoria marxista da dependência latino-americana, reforçaremos a herança coletiva de quem caminha acompanhada ao longo do tempo, sem margens para a solidão, dada a beleza do trabalho coletivo.

Pegadas é um despertar sobre a América Latina. E dizer isto, sendo brasileira, significa pontuar o vazio de sentidos que temos na produção cotidiana de que integramos um continente diverso, colorido, indígena, afro, cujas trajetórias mais recentes de ondas migratórias apagaram os mais de 40 mil anos de histórias que temos de produção de vida no continente.

A história mesoamericana, a produção de vida maia, asteca, inca, mapuche, guarani, para citar algumas ainda presentes no nosso ser latino, narra processos que a história oficial insiste em ocultar, depreciar, apagar. Pegadas explicita o ser-sentir-se latino-americano como princípio, conexão, irmandade nas lutas sociais do passado e do presente. A invasão escreveu um violento e doloroso capítulo na constituição da América Latina, mas esta, enraizada em seu passado profundo indígena resiste, insiste e revela outros viveres possíveis em meio às prisões instituídas.

Na confecção do Pegadas, produziremos vários vídeos-textos curtos. Além de informar sobre o tempo em que a ação ocorreu, eles sugerirão leituras latino-americanas que ajudam a entender o espaço-tempo narrado, além de alguns relatos de pessoas que passaram pelas ações. O primeiro é uma breve apresentação de como dividiremos os tempos da produção coletiva aprendida no México de 2000-2004. Como foram mais de quatro anos vividos neste país, diversas aprendizagens e substantivos encontros, teremos quatro Pegadas sobre a experiência vivida em terras maias:



1. O contato com o México Profundo, que Bonfil Batalla chamou de civilização negada. Como meu doutorado em Estudos Latino-americanos, na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), permitiu-me conhecer, tremer ante a beleza, surpreender-se frente a dimensão da produção da América pré-colombiana.

2. O diálogo entre duas tradições culturais latino-americanas riquíssimas. No encontro com Banda do Saci, grupo de capoeira angola no México, abriu-se a beleza das aprendizagens com o Mestre Curió (ECAIG, Bahia), mentor do grupo. Produziu encontros na UNAM e demais espaços em que demos aulas sobre a cultura popular brasileira encarnada na capoeira e no samba;

3. A realização do projeto Expressão Popular com banda do Saci, que me apresentou um México fora dos cartões postais. O país dos mercados populares, da vida legítima ante à informalidade; dos bairros “chilangos” cujas vizinhanças recuperaram as tradições.

4. A formação política com os educadores de Michoacán vinculados à Seção XVIII do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Educação (SNTE). A centralidade do marxismo, de Paulo Freire e da formação política nas atividades realizadas ao longo de mais de um ano com homens e mulheres de luta.

Por fim, Pegadas em tempos de pandemia é uma aprendizagem do uso da técnica para o sentido que necessitamos dar como classe trabalhadora. Uma aprendizagem coletiva de uso, cuja posse sabemos, é propriedade privada dos grandes conglomerados financeiros da comunicação mundial. Experimentar a técnica exige consolidar uma gama de encontros coletivos. Nesse sentido, a abertura do Pegadas, sua feitura e conclusão, ecoam muitas vozes e mãos que representam o quanto trabalhar junto nos faz mais fortes.

No processo de trabalho do Pegadas, aproveitamos uma música marcante para a luta social brasileira, muito presente nas atividades da Via Campesina, Pelos Caminhos da América, de Zé Vicente como ponto de referência de nossas trilhas. A canção foi adaptada por quatro maravilhas musicais: Natalia Moura e Mateus de Melo, diretamente de Ibatiba-ES, Tulio Fernandes de São Paulo, e Thyanderson, desde algum lugar da América Latina. A imagem do mapa invertido do uruguaio Joaquin Torres Garcia, trabalhada pela querida amiga, arquiteta e educadora popular Cecilia Angileli, nos faz viajar sobre os detalhes populares traçados por suas mãos. Contamos também com o capricho de Ana Carolina Costa Andrade na transformação da minha ideia em prática, na arte visual, na criação do logo de Pegadas. A estas pessoas um agradecimento formal da arte de tecer juntos do qual fazem parte.

As experiências narradas nos vídeos-textos serão um tributo aos encontros verdadeiros, em uma sociedade que insiste em propagar a mentira do individualismo, do ego e do academicismo como verdade. Ao caminhar juntos/as no Pegadas, reivindicamos com rigor a ternura do encontro. Disto se trata: nem nostalgia, nem drama, nem romantismo. Realidade de luta concreta e da beleza que dela brota, já que suas raízes são profundas.

Pegadas reivindica, por fim, o diálogo em uma sociedade que silencia vozes, aniquila corpos, esvazia os sentidos. Pois, se os mandatários da propriedade privada insistem em apagar-nos e abalar nossa memória e nossa história como forma de dominação, re-lembrar coletivamente torna-se sinônimo de resistir e celebrar. Recupera, na era “dos sem tempo, sem terra, sem teto, sem alimento limpo, sem amor verdadeiro”, um destempo para o reviver de sentido estas questões. Assim, trazendo para perto, hoje, gente especial que marcou minha caminhada pelos lugares em que passei e enraizei, ontem, reforço meu entendimento de que a vida é um tecer cotidiano de encontros valorosos.

Pegadas transpira a aprendizagem do encontro com as resistências. Ao socializar estas experiências de nossas trilhas coletivas, traçamos hoje pistas para construirmos um outro sentido de viver bem amanhã, à luz do que nossos povos latinos têm a nos ensinar sobre a dignidade. Na América Latina, a experiência indígena e afrodescendente, de manter-se dignos em meio às indigências instituídas pelo capital, é uma escola sobre o que-fazer político.

Se, como sustenta Brecht, insistem em nos ensinar a apagar as pegadas, nós contestamos a ordem e socializamos as lutas cotidianas pela sobrevivência que, na aparência da pobreza mercantil, nos revelam a essência da beleza de nossas memórias e histórias coletivas pelos caminhos da América.

Na revanche da história invasora europeia aprendamos com as marcas de nossos antepassados pré-colombianos. Estes nos deram munições suficientes para produzirmos outro mundo cada vez mais necessário, em meio à ideia evangelizadora dominante de que mudar não é possível. É possível. Desde que as minhas, as suas, as nossas Pegadas se juntem e abram alas à esperança fecunda regada pelo trabalho coletivo.


ROBERTA TRASPADINI
Educadora Popular e Professora Pesquisadora da Universidade Federal da Integração Latino-americana (UNILA). Latino-americanista, é uma estudiosa dos seguintes temas: pensamento social latino-americano, movimentos sociais e luta popular na América Latina, de uma propagadora da Teoria Marxista da Dependência

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