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Paulo Freire como antídoto para pandemia

Do Le Monde Diplomatique, 13 de outubro de 2020
Por Pâmella Passos



Um dia desses escutei de uma pessoa muito querida “infelizmente temos que nos arriscar, ou morremos de Covid ou morremos de fome”. Essa frase, tão dura e real me fez refletir sobre como as diferentes posições sociais estão vivenciando a crise sanitária da Covid-19, e por isso, apresento aqui as leituras de Paulo Freire como um antídoto para a pandemia.

Quando a pandemia começou eu achei que não fosse durar tanto. Sou uma das poucas pessoas no país que ainda tem o direito de seguir no isolamento social, fazendo trabalho remoto, direito esse que num Brasil tão desigual me faz as vezes olhar para ele como privilégio. Devido a minha origem social e trajetória profissional participo de diferentes grupos, em especial de whatsapp. Alguns compartilham: links do Airbnb para descansar uns dias, sites de compras online evitando exposição ao vírus e artigos com informações científicas atualizadas. Outros, compartilham: pedido de cesta básica, gente precisando de remédio, famílias desesperadas.

Um dia desses escutei de uma pessoa muito querida “infelizmente temos que nos arriscar, ou morremos de Covid ou morremos de fome“. Essa frase, tão dura e real me fez refletir sobre como as diferentes posições sociais estão vivenciando a crise sanitária da Covid-19, e por isso, apresento aqui as leituras de Paulo Freire como um antídoto para a pandemia.

Segundo o dicionário, antídoto é a substância que impede a ação nociva de um veneno ou toxina sobre o organismo. Indo além dos sintomas, um antídoto vai a fundo nas causas de uma patologia. Ao propor Paulo Freire como um antídoto, parto do pressuposto que o autor, em seus estudos, mergulhou nas toxinas de nossa sociedade excludente para assim propor sua superação através de uma educação libertária e democrática. O ano de 2020 exige de nós ir além dos sintomas, precisamos investigar as causas, ainda que elas sejam múltiplas e dolorosas. Comecemos pela ideia de quarentena e isolamento social.

Ouça o episódio 37 do podcast Guilhotina com Sérgio Haddad sobre a nova biografia do educador Paulo Freire.


Quem pode fazer o isolamento social?

Estávamos em março e os principais meios de comunicação anunciaram a chegada do novo vírus, perigoso e letal, em nosso país. A orientação “fique em casa”, mesmo que não plenamente seguida por todos, foi cumprida por uma importante parcela da sociedade, que começou a usar termos como “lockdow” e “serviços essenciais”.

Para Paulo Freire a linguagem é algo muito importante. As palavras, são muito mais que palavras, são ações no mundo, e como tal, podem reproduzir desigualdades ou gerar superação destas. Rapidamente, as redes sociais e memes, trataram de traduzir o “lockdown” para “Fecha tudo”, “Fica em casa” e tantos outros. Mas o que foi compreendido e valorizado como “serviços essenciais”?

Os profissionais de saúde, que todos os dias se arriscaram e ainda arriscam no enfrentamento a pandemia seriam os únicos a receber aplausos e reconhecimento? E os profissionais de entregas, de setores da limpeza de hospitais, dos postos de gasolina, de tantas outras engrenagens que fazem a economia deste país funcionais.

Chegamos a questão econômica, tão anunciada e pouco aprofundada, em pronunciamentos de (des)governantes que enxergam cifras e não vidas. O isolamento social somente funciona em países onde o Governo compreende que, num momento de crise, como o vivenciado pela pandemia da Covid-19, o Estado deve investir na economia através de benefícios aos seus cidadãos, retornando a eles, através de auxílios e políticas públicas, os valores pagos por seus impostos.

Pandemia não combina com Estado Mínimo! Para muitos leitores e leitoras a compreensão do que é um Estado Mínimo ou orientações neoliberais pode ser algo bastante trivial. Mas o seria para a população brasileira como um todo? Eu diria que não. Nesse sentido, é importante situar que, frases como: “seja um empreendedor”, “não dependa do Estado”, “o que é público não funciona”, “impostos não servem para nada”, dentre outras, nos trouxeram até aqui.

Em reportagem divulgada no portal Geledés em agosto deste ano são apresentados dados de que 80% das empreendedoras negras não tem reservas para enfrentar a crise. Como então essas mulheres permanecerão no isolamento social? Outro dado trazido nesta reportagem é a questão da maternidade solo e seus impactos na saúde mental, o que por si só daria um outro artigo, mas aqui, gostaria de pontuar: caso essas mães precisem voltar ao trabalho, com quem, onde e como ficarão seus filhos e filhas? Teremos outros Miguéis mortos, como o pequeno corpo negro que tombou em Recife manchando de sangue as mãos de uma elite hipócrita e racista tão presente nesse país? São tantas perguntas, mas a que faço aqui é: qual a importância de nomear estas mulheres pretas, de que fala a reportagem, de trabalhadoras e não empreendedoras? Penso, parafraseando Paulo Freire, que a importância está no ato de ler. Ler o mundo e compreender que o empreendedorismo beneficia o sistema capitalista e não o indivíduo. Mais do que nunca precisamos saber sobre a posição que Eva ocupava em seu contexto social, e não somente que ela viu a uva.
“As praias estão lotadas”! E os transportes públicos também: o que te assusta e revolta?

Dizer- se comprometido com a libertação e não ser capaz de comungar com o povo, a quem continua considerando absolutamente ignorante, é um doloroso equívoco. Aproximar- se dele, mas sentir, a cada passo, a cada dúvida, a cada expressão sua, uma espécie de susto, e pretender impor o seu status, é manter- se nostálgico de sua origem. (FREIRE,1987. p.27)

Há algumas semanas atrás vi fotos de praias cariocas cheias estampadas em capas de jornais de grande circulação. Na timeline de minhas redes sociais explodiam análises sobre esta imagem da“ praia cheia”. Em geral, o tom das postagens era de susto com o fato da praia estar cheia em meio a uma pandemia que naquele momento, já tinha matado mais de 100 mil brasileiros.

Com certeza não devemos naturalizar as mortes decorrentes do Covid-19 e tão pouco seu altíssimo risco de transmissão em aglomerações como em praias lotadas. No entanto, é preciso se perguntar: onde estão as fotos dos transportes públicos cheios em meio a pandemia? Isso também assustou os críticos da superlotação das praias?

Muitos olharam as fotos das praias lotadas, mas quantos realmente viram a posição social que as pessoas que ali estavam ocupam na sociedade brasileira? Retomemos Paulo Freire, não basta ler “Eva viu a uva”, precisamos também ler e compreender os interesses presentes na disseminação de algumas imagens pela grande mídia.

Conseguiremos direcionar nossa indignação e denúncia não para as áreas de lazer cheias, mas sim para ônibus, trens e metrôs superlotados devido a diminuição das frotas que garante o lucro dos donos de empresa? Fiz essa pergunta a algumas pessoas mais intelectualizadas e classe média de meu círculo social, senti o incômodo que causei. Como resposta, foi comum escutar: “ir à praia é uma escolha, sair para trabalhar não”.

Ouvindo essas respostas, lembrei dos meus anos de pesquisa com as favelas cariocas, de minha atuação nos direitos humanos e de como a classe média intelectualizada tem apreço a vida, enquanto a classe trabalhadora preta e pobre, tem consciência que é alvo e nesse sentido, a morte é uma questão de tempo. Pensei também sobre o termo “escolha”, afinal, quem pode realmente escolher nesse Brasil tão desigual? Quem tem condições materiais de fazer a quarentena de forma minimamente saudável do ponto de vista da saúde física e mental?

São muitas perguntas que as fotos das praias cheias também poderiam nos ajudar a responder, desde que perguntássemos mais e julgássemos menos. Paulo Freire, no livro Pedagogia do Oprimido, ao falar sobre sectários de direita e sectários de esquerda afirma, retomando o que aprendeu em conversa com Márcio Moreira Alves, que sofrem ambos da falta de dúvida. Estamos nós, eu que escrevo e vocês que leem, imersos nessa falta de dúvidas e, portanto, sectários?

Na obra chamada “Extensão ou Comunicação”, Freire problematiza o termo extensão para pensar atividades educativas que vão além dos muros das instituições educacionais. Em suas reflexões o autor apresenta o caráter autoritário e hierárquico deste termo, que indica que há quem fala (estende) e quem recebe. Contrapondo-se a isso, propõe comunicar, e para ele, comunicar é produzir junto, é ouvir, e ouvir não significa concordar sempre, mas reconhecer que há outras e outros nesse processo.

Pergunto então, o que comunicamos em nossas críticas as praias cheias? Nossas postagens, artigos, falas em lives não carregam em si, de forma pouco consciente, um certo incômodo com o lazer da classe trabalhadora que não disciplinou seus corpos apenas aos transportes lotados em meio a pandemia? Refletimos também sobre o processo de produção direcionada dos nossos ódios, afetos e empatias por essas imagens veiculadas na grande mídia? Lembremo-nos de Paulo Freire, “Revolta aos opressores e afeto aos Oprimidos”, destaco ainda que afeto não significa concordar sempre tão pouco aceitar. Mas afeto pressupõe mais diálogo e menos julgamento.

Afirmar uma educação Freireana em tempos de pandemia

Recentemente escrevi um artigo de opinião no qual afirmo que o que está sendo oferecido pelas escolas de forma online não é ensino. Volto a esta afirmação e pergunto em termos Freireanos: o que acontecia antes da pandemia era ensino? Tendo em vista que esta crise sanitária levará muito mais tempo que o previsto e que, segundo inúmeras projeções científicas, teremos outras pandemias, o formato não presencial pode vir a ser considerado ensino?

É preciso poder fazer perguntas sem ter medo de ser mal interpretado e por consequência “cancelado”, afirmando assim um compromisso com o combate às desigualdades sejam elas de raça, gênero, classe e tantas outras que sequer conseguimos nomear ou aprofundar.

É necessário encarar que não haverá vacina em pouco tempo, ainda mais no caso brasileiro com parcos investimentos em pesquisas científicas e na saúde pública. E caso haja a vacina, será ela disponibilizada para toda população, ou apenas vendida por preços exorbitantes como as famosas vacinas contra tipos específicos de meningite (ACWY e B) que juntas custam mais de R$ 1.500,00?

Neste momento tão delicado onde a economia apressa uma discussão sobre educação e saúde no que diz respeito a reabertura das escolas, é preciso afirmar Paulo Freire como antídoto para Pandemia do negacionismo que ignora e silencia sobre os mortos, afirmando que mais de 140 mil vidas brasileiras são descartáveis.

O que ainda está em disputa? É o modelo online ou a forma como encarávamos e continuaremos a encarar nossos currículos escolares? É preciso separar o que queremos barrar no avanço conservador do que queremos construir para o mundo pós-pandemia. Falaremos apenas em cancelar ou não o ano letivo ou proporemos uma discussão profunda acerca dos ciclos de aprendizagem que não podem ser vistos de forma lucrativa como aceleração para diminuição da dita distorção idade-série?

Defendo que o acesso seja garantido a todos e que aproveitemos esse contexto para retomar políticas públicas como Programa Nacional da banda larga. Que possamos valorizar plataformas públicas, popularizar a temática de software livre, debater o uso das redes sociais por crianças, jovens e adultos. Desejo que os encontros online não se reduzam a conteúdos, mas que possam ser afetos e trocas que produzam conhecimentos necessários a vida e não apenas ao Enem, que é bom lembrar, nem sabemos se acontecerá e como acontecerá.

Paulo Freire escutou as críticas de bell hooks, incorporou, reescreveu, pensou. Poderemos nós, fazer o mesmo? O antídoto, Paulo Freire, tem que ser para todos, senão, seu efeito será limitado. Como o educador chama atenção em seu livro “Pedagogia dos Sonhos Possíveis”, nossa principal responsabilidade consiste em intervir na realidade e manter a esperança, que possamos fazer isto nesse momento. Pensando nossos currículos, disciplinas e formas de estar com os alunos.

Nesse mesmo livro, Paulo Freire após contar uma história de sua infância, quando com fome, ele e seus irmãos mataram uma galinha roubada, mas que jamais seriam culpados ou julgados delinquentes devido a sua posição social, Freire termina dizendo “ajudemos estes meninos a reinventar o mundo”. Que nós, educadoras e educadores nos esforcemos para ajudar essas crianças, jovens e adolescentes a reinventar o mundo nesta pandemia e após ela. Que possamos não apenas ler Paulo Freire, mas compreendê-lo em toda sua dimensão de afeto, pois amar e preocupar-se em tempos de ódio e indiferença é nossa grande resistência.

Por último quero dizer que, sim está difícil, pesado e em alguns momentos pode parecer insuportável, mas como também alerta Paulo Freire, “A História não termina em nós: ela segue adiante”. Nós seguiremos!



Pâmella Passos é professora e pesquisadora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) onde atua desde 2008 lecionando no Ensino Médio e Técnico. Doutora em História pela UFF, com estágio de pós-doutorado pelo Programa de Pós graduação em Antropologia Social/ Museu Nacional/UFRJ. Desenvolveu pesquisas sobre Juventudes, Cultura Popular e Favelas Cariocas, Anticomunismo no Brasil, Ensino de História em Escolas Técnicas. Atualmente realiza novo estágio de pós-doutorado sobre os impactos do Conservadorismo no Ensino de História (PPGEDU/UFF) e coordena projetos na área de Educação e Direitos Humanos.


Referências


FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

____________. Pedagogia dos sonhos possíveis. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

PASSOS, Pâmella; MORGAN, Evelyn. Precisamos falar do ‘efeito balbúrdia’: um diálogo com Paulo Freire sobre o papel da extensão em tempos de ataques a educação pública. Cadernos de Extensão IFF. Campos dos Goytacazes, Volume 4, Número 1, 2020.

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