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O BANCO IMOBILIÁRIO DO PCC

Esquema de compra e venda de imóveis da facção criminosa movimentou 100 milhões de reais em 28 anos.

Da Revista Piauí, 27/10/2020

ALLAN DE ABREU27out2020_08h56

Ilustração: Fernando Carvall

Depois de viajar por dezenas de contas de laranjas e de empresas de fachada, boa parte do dinheiro movimentado pela facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) com o tráfico de drogas acabava investida em imóveis, entre terrenos, casas, apartamentos e salas comerciais na Grande São Paulo e na Baixada Santista. Levantamento da piauí nos cartórios do estado de São Paulo revela que, entre 1993, quando surgiu a facção, e 2020, o esquema movimentou 100 milhões de reais com a compra e venda de imóveis – a análise leva em conta as cifras declaradas nas escrituras, muitas vezes menores do que os valores reais.


A Operação Rei do Crime, deflagrada pela PF em 30 de setembro deste ano, desvendou um sofisticado método para lavar dinheiro do PCC. Dinheiro em espécie era depositado em contas bancárias de dezenas de laranjas e também de 78 empresas, muitas delas de fachada, incluindo holdings, postos de combustível, transportadoras e revendedoras de peças para veículos. Depois de girar por essas contas, em sucessivas transferências para dificultar o rastreio da origem do dinheiro, as somas terminavam investidas em veículos – a PF listou 210 automóveis, motos e caminhões na posse dos cabeças do esquema – e também em imóveis. Nos últimos quatro anos, a lavanderia do PCC movimentou 32 bilhões de reais, segundo a investigação. Para efeito de comparação, trata-se de um número equivalente ao das lojas Havan, no mesmo período.

O esquema, conforme a PF, era formado por vinte pessoas, divididas em três núcleos. O mais longevo deles era capitaneado por José Carlos Gonçalves, 57 anos, conhecido como Alemão devido à pele clara e aos ralos cabelos louros. Nascido e criado no bairro do Tatuapé, Zona Leste de São Paulo, e sem passagens criminais até ser preso preventivamente na Rei do Crime, Alemão comprou seu primeiro imóvel, uma casa em Jaçanã, Zona Norte da capital, em 1985, por 20 milhões de cruzeiros, ou 49 mil reais, em valores corrigidos.

Por muitos anos, ele, a mulher, a filha, a irmã e a sobrinha tiveram movimentações financeiras modestas na compra e venda de imóveis, situação que perduraria até 2002, quando a família Gonçalves começa uma trajetória de forte ascensão no mercado imobiliário paulista, em um período que coincide com o reinado de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, no comando do PCC: se em 2002 a família possuía patrimônio imobiliário de 757 mil reais, com oito imóveis, quinze anos mais tarde, em 2017, o clã somava 43 imóveis avaliados em 21,5 milhões de reais, um crescimento de 3.000%. Nesse período, a facção multiplicou os seus rendimentos com a exportação de toneladas de cocaína pelo porto de Santos.


De acordo com a investigação da PF, Alemão tem vínculos sólidos com a facção. Uma tia de Marcola havia sido proprietária de uma das quinze empresas dele. Além disso, o empresário paulistano manteve negócios recentes com ao menos três integrantes do PCC e costumava organizar festas para membros do grupo criminoso em Guarujá, conforme delação do piloto Felipe Ramos de Morais, preso em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, acusado de envolvimento na morte de Rogério Geremias de Simone, o Gegê do Mangue, em 2018, no Ceará.

Uma sobrinha de Alemão, farmacêutica que aparece como sócia do tio em várias empresas, era uma das responsáveis por fazer depósitos de dinheiro em espécie, fracionados, em contas do esquema, muitos deles classificados pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeira) como suspeitos. Em 2005, ela utilizou estratégia semelhante no mercado imobiliário: comprou 1,4% de cada um dos 67 apartamentos de um edifício residencial à beira-mar em Praia Grande, litoral paulista. A jovem também foi presa em 30 de setembro.

Há várias outras transações suspeitas com imóveis entre os Gonçalves, com altos lucros e grandes prejuízos em curtos intervalos de tempo. A maior parte envolve a empresa JCG Participações Intermediações e Negócios, que pertencia a Alemão até 2018, quando foi transferida para o contador dele, também preso na operação policial e apontado como laranja do esquema. Em 2014, um terreno de mil m² em Arujá foi adquirido pela empresa por 204 mil reais e vendido dois anos depois pelo triplo do preço. No ano seguinte, 2015, a empresa comprou um apartamento de 625 m² no Jardim Anália Franco por 3,8 milhões de reais, muito abaixo do valor de referência da Prefeitura de São Paulo, que é de 7,7 milhões de reais. O imóvel foi vendido no ano seguinte por 5,4 milhões de reais, conforme consta na certidão.

Em um mesmo dia, 12 de novembro de 2018, a JCG comprou um apartamento em Jundiaí por 49 mil reais e vendeu por 109 mil reais. Subvalorizar imóveis na compra para vendê-los pelo valor real é uma estratégia muito utilizada para “esquentar” dinheiro ilícito – o Ministério Público acusa o senador Flavio Bolsonaro de utilizar essa prática na compra de dois apartamentos em Copacabana, em 2012, no inquérito que investiga o esquema da “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio.

Mas, em nove transações imobiliárias, das quais oito envolvendo apartamentos de um mesmo edifício no bairro do Jabaquara, Zona Sul de São Paulo, a JCG Participações teve prejuízo somado de 1 milhão de reais nas vendas. Nesses casos, segundo a PF, o prejuízo pode servir para “esfriar” o dinheiro imobilizado, que retorna para as atividades criminosas – compra de drogas, por exemplo. As defesas da família Gonçalves e do contador não quiseram se manifestar.


O segundo núcleo do esquema, de acordo com as investigações da PF, é o da família Cepeda. Também teve um expressivo crescimento no patrimônio imobiliário nesta década: de 939 mil reais em imóveis em 2011, passou a 9 milhões de reais neste ano – um incremento de 900%. Comandada pelo empresário Natalício Pereira Gonçalves Filho (sem parentesco direto com Alemão), a família é uma das donas da rede de postos de combustível Boxter, com 150 unidades espalhadas pela região metropolitana de São Paulo. A Operação Rei do Crime constatou que os Cepeda movimentavam muito dinheiro vivo nos postos: declaravam receber até 70% do faturamento diário dessa maneira, muito acima da média dos postos de combustível paulistano, onde a média não ultrapassa 30%. A assessoria da rede Boxter informou, em nota, que “está cooperando com as investigações para demonstrar que nenhuma irregularidade foi praticada”.

Renan, um dos filhos de Natalício, chegou a ser investigado pela PF na Operação Arepa, de 2016, que desvendou um esquema do PCC para exportar cocaína colombiana via aeroporto de Guarulhos, mas não foi denunciado à Justiça pelo Ministério Público. Assim como no grupo de Alemão, os Cepeda registravam altos lucros nas transações imobiliárias em um curto espaço de tempo. Em junho de 2014, por exemplo, Renan comprou um apartamento em Vila Maria por 317 mil reais; três meses depois, o imóvel seria vendido pelo dobro do preço. Em nota, a defesa dos Cepeda informou que “o crescimento empresarial da família é decorrente de aportes realizados por sócios investidores e financiamentos bancários” e que parte dos lucros foi investida no mercado imobiliário. “Os sócios já prestaram depoimento [à Polícia Federal] e toda a documentação foi apresentada para as autoridades”, afirma a defesa.

O terceiro e último núcleo, comandado por Antônio Carlos Martins Vieira, o Tonho, conforme as investigações da Polícia Federal, investia menos em imóveis, mas também registrou crescimento patrimonial nesta década, ainda que menos expressivo do que os demais. Tonho foi preso em 2018 na Operação Transbordo, que investigou um esquema de furto e receptação de cargas em seis estados, mas acabou solto meses depois graças a um habeas corpus e só foi detido novamente na Operação Rei do Crime. A quadrilha, chefiada por ele, aliciava caminhoneiros para que eles permitissem o furto da carga e do caminhão e, em seguida, dissessem à polícia que os produtos haviam sido roubados. Vieira foi um dos presos na Rei do Crime. A defesa dele não quis se manifestar.

O investimento do PCC no mercado imobiliário chegou ao auge em 2017, quando acumulou 73 imóveis avaliados em 29,5 milhões de reais, no total. A partir daí, o patrimônio começou a ser desfeito, até chegar neste mês a 58 apartamentos, terrenos, casas e salas comerciais, avaliados em 18 milhões. A PF apresenta três hipóteses para esse processo de descapitalização imobiliária dos três núcleos: investimentos em outros ramos, pagamento de dívidas com fornecedores de cocaína ou remessa de dinheiro para fora do país. A análise do material apreendido e a continuidade da investigação prometem responder a essa e a outras dúvidas. “Vamos cruzar essas negociações de imóveis com o imposto de renda dos envolvidos”, disse o delegado da PF Rodrigo Costa, coordenador da operação.

No total, vinte pessoas – das quais treze estão presas – foram indiciadas por associação criminosa e lavagem de dinheiro. O inquérito deve ser relatado até o fim do mês e encaminhado ao Ministério Público, a quem caberá denunciar ou não os envolvidos à Justiça.

A Operação Shark, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) de São Paulo, descobriu como a facção movimenta o dinheiro decorrente do tráfico de drogas antes e depois de passar pela lavanderia de Alemão, Natalício e Tonho: uso de doleiros para transferir o dinheiro para Europa, Bolívia, Paraguai e Peru, e aluguel de “casas-cofre”, imóveis ocupados por famílias sem passagens pela polícia, para armazenar dinheiro vivo (e não mais em tambores enterrados, como no início dos anos 2000), estratégia parecida com a adotada pelo doleiro Dario Messer. Somente no primeiro semestre de 2019, segundo o Gaeco, o PCC negociou mais de 15 toneladas de cocaína. Por ano, a facção fatura pelo menos 600 milhões de reais, estima o Ministério Público paulista

ALLAN DE ABREU (siga @allandeabreu1 no Twitter)

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela editora Record

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