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Histórias das aldeias na reclusão

Indígenas relatam, a uma jornalista com quem convivem há décadas, a luta contra a pandemia em suas comunidades. Abandonados pelo Estado, agem por conta própria — isolando-se, ou unindo conhecimentos ancestrais a remédios de fora.

Do OUTRAS PALAVRAS, 07/10/2020

Por Angela Pappiani, com relatos de Maykute Mehinaku, da aldeia Uyaipiuku (TI Xingu/MT), e Cipassé Xavante, da aldeia Wederã (TI Pimentel Barbosa/MT)

Durante meses venho acompanhando de casa, de meu isolamento pessoal, o avanço do coronavírus sobre as aldeias. Pelo celular, tenho mantido contato direto com muitos amigos indígenas, de aldeias de vários pontos do país. Por isso, propus a eles que fizessem relatos sobre como têm encarado a pandemia, que estratégias de sobrevivência usaram, o que aprenderam e o que esperam. Alguns amigos estão isolados, ainda sem comunicação, ou tão atarefados que ainda não conseguiram retornar, alguns falam aliviados, se recuperando da covid-19, outros planejando os próximos passos para garantir mais autonomia e garantias de uma vida boa e sadia para suas comunidades. O que ouvi destes amigos, foram desabafos sobre a triste realidade, mas também um sopro de esperança e energia, em meio a tanta dor, que o Outras Palavras permite agora compartilhar com muitas outras pessoas.

Este é o primeiro de uma série de quatro artigos que serão publicados semanalmente, trazendo esses depoimentos, em primeira pessoa, com o pensamento e o aprendizado de cada um, além de algumas reflexões e informações sobre essas comunidades.

Além de todos os desafios que enfrentamos nas cidades, do sentimento de tristeza pelas perdas de vidas e perspectivas de futuro, de indignação diante do desgoverno que nos empurra ainda mais para a crise, acompanhamos, atônitos, a fragilidade dos territórios indígenas diante da pandemia e do vírus da ganância cada vez mais potente e mortal. São os povos nas aldeias que sofrem no corpo e no espírito o avanço da destruição, a perda de pessoas importantes para a comunidade, de lideranças e sábios; que enfrentam invasão, fogo, preconceito e a violência cada vez mais explícitos nos municípios que cercam as terras indígenas.


Acompanho, como tantas outras pessoas, com um sentimento de raiva e impotência, os crimes acobertados pela pandemia, camuflados de tragédia sanitária ou natural, destino inevitável, ou qualquer outra designação usada como desculpa para justificar a necropolítica. A lista dos crimes, e das consequências dos crimes, é extensa, mas a vítima é a mesma: a vida. Sucumbe a natureza viva à qual se integram árvores, rios, ar, montanhas, mar e as várias humanidades que povoam a terra. Se fossemos usar a mesma linha de pensamento de nosso presidente, copiando seu amigo do norte, de que o vírus comunista chinês foi propositalmente desenvolvido e disseminado para combater a economia capitalista, diríamos que esse vírus destrutivo capitalista foi solto no país para ajudar a exterminar com mais rapidez os povos originários e os povos tradicionais, liberando as riquezas que eles empatam para quem “de direito”, os que sabem extrai-las e se beneficiar delas. As mercadorias que estão em jogo são a terra, o subsolo com seus minerais preciosos para o mercado internacional, as águas dos rios para serem aprisionadas e, no seu desespero de libertação, gerarem energia, os lugares sagrados da terra para serem apossados, desfigurados e transformados em mais mercadoria.

Além da ação mortal direta do vírus, eliminando os inimigos nativos, ele ainda distrai a mídia e o público para que as boiadas passem arrasando tudo, como já sabemos há meses, e agora ainda traz a oportunidade para ações populistas que garantem a sobrevivência da casta governante através do voto dos miseráveis iludidos.

Então, nestes seis meses de perdas e luto, além da morte de mais de 829 indígenas (dados da APIB – http://emergenciaindigena.apib.info/em 01/10/20) de 98 etnias diferentes, entre eles lideranças, educadores, pensadores, artistas, grandes conhecedores da tradição e da sabedoria milenar indígena, ainda somos assombrados com o fogo que consome vida, com as feridas incuráveis do garimpo que abrem a terra e contaminam os rios, com a morte de árvores e outros milhares de seres vivos, com a possibilidade real de deixarmos como herança para as futuras gerações um lugar arrasado, onde não será mais possível produzir alimentos, nem respirar, onde não haverá água potável ou chuva, nem regiões de refúgio e reprodução dos seres fundamentais para a vida nesta terra.

O primeiro amigo com quem conversei por whatsapp para estes artigos, foi Maykute Mehinaku. Ele é cacique da aldeia Uyaipiuku, do povo Mehinaku, às margens do Rio Curisevo, na Terra Indígena do Xingu/MT. No primeiro contato que tivemos, ele estava feliz pois haviam conseguido, por cinco meses, impedir a chegada do coronavirus na aldeia onde vivem cerca de 180 pessoas. Relatou as pescarias, a produção abundante de mandioca para o beiju, as festas e cerimônias que fortaleciam a comunidade. Todos estavam muito unidos e alegres, conscientes da necessidade de se resguardarem e valorizarem os conhecimentos ancestrais.

No segundo contato, 10 dias depois, a situação já estava tensa. Uma família havia retornado da cidade de Canarana para a aldeia, sem saber que estavam contaminados, e o vírus se espalhou muito rápido. Apesar de não terem feito testes, de não haver acompanhamento direto das equipes de saúde, eles acreditam que a aldeia toda esteja contaminada. Algumas pessoas tiveram sintomas leves, outras, formas mais sérias da doença, inclusive com problemas respiratórios. Mas decidiram não sair de lá. Quando a situação ficou mais séria e tentaram alcançar o Posto Leonardo, mais ao norte no território do Xingu, onde há equipes de saúde e medicamentos, foram impedidos pelo fogo que vem arrasando a mata e algumas aldeias. Contando com sua própria cultura e sabedoria, como sempre fizeram, estão se cuidando e se recuperando bem. Não há mais nenhuma pessoa em estado grave na aldeia. A seguir o relato de Maykute:

“Nesse tempo de pandemia, a gente decidiu não ir mais para a cidade, ficou todo mundo quietinho aqui. Melhorou bastante dentro da comunidade. Não teve nenhum caso de gripe, pneumonia, resfriado, nem diarreia e conjuntivite. Comemos muito bem, só o peixe e o beiju, com fartura. Fizemos muita festa, muita luta, pintura, canto. Todo mundo junto, animado, cuidando da nossa cultura, se fortalecendo. Observamos que durante esse isolamento a comunidade ficou muito bem, sem a comida de fora, ficou feliz. A criança não ficou mais com febre, nada. Estou vendo, é muito bom. Sem ir para a cidade fica todo mundo com saúde porque é a gente mesmo que traz a doença, a gripe, a diarreia. Essa é minha avaliação. A gente conseguiu ficar livre da doença muito tempo.

Pensamos que esse coronavírus não ia chegar na nossa comunidade, porque cuidamos muito. Mas é difícil controlar o povo. A regra do coronavírus é difícil. A gente conversou muito, falou da preocupação, ouvimos a técnica de saúde explicar, mas o povo é teimoso. Por isso a pandemia chegou. Era para não chegar. Uma família veio de Canarana, a mulher foi para ter neném e voltou um mês depois. Eles trouxeram a contaminação. Não queriam ficar no isolamento, ficaram tristes. O povo da saúde também não cuidou para impedir a volta de gente contaminada para a aldeia.

E agora está todo mundo contaminado. Algumas pessoas ficaram mais grave, só algumas, mas não saímos para tratar na cidade, está todo mundo na aldeia. Estamos observando, cuidando aqui mesmo, com o remédio da tradição e algum remédio de fora. Eu acredito que não vai acontecer nada de mais grave. Hoje a aldeia amanheceu coberta de fumaça, não dá nem pra enxergar a casa do outro lado. Está difícil respirar, para todo mundo, o olho sai lágrima. Imagina pra quem está com a doença! Está perigoso aqui.”

Infelizmente, outras aldeias no alto Xingu sofreram dores irreparáveis como os Yawalapiti, que perderam o grande chefe Aritana e seu irmão Yanama, e viram jovens fortes a atuantes como Anna Terra Yawalapiti quase perderem a luta para a covid-19. Pelos dados oficiais foram 13 mortes pela covid-19 na T.I. Xingu e muitos infectados. Algumas aldeias concentraram mais casos e mortes do que outras. As estratégias de enfrentamento do vírus e as condições de cada aldeia podem explicar os resultados diferentes. Os Kuikuro, também do Alto Xingu, se organizaram com uso de aplicativos de monitoramento nos celulares e a instalação de uma unidade básica de saúde, inclusive com a contratação direta de uma médica e aquisição de equipamentos e insumos, o que controlou os casos mais graves sem que houvesse nenhum óbito entre esse povo.

As gerações mais velhas do Xingu viveram uma grande epidemia de sarampo nos anos 60 que causou a morte de cerca de 30% da população, além de epidemias de tuberculose, gripes e outras doenças levadas por invasores que disputavam as terras ainda não demarcadas. Essa experiência, o contato com doenças invisíveis que tomam conta do corpo e se espalham causando morte, foi fundamental para as estratégias de reclusão nas aldeias.

Como em outros países, a diferença nas formas como lideranças e governos conduziram o enfrentamento ao coronavírus e as condições do sistema de saúde local também resultaram em consequências mais ou menos graves para as aldeias. Entre o povo Xavante, no Mato Grosso, a Terra Indígena São Marcos, próxima à cidade de Barra do Garças, foi a primeira e a mais atingida, com 28 mortes confirmadas até o começo de setembro. Entre os povos mais vulneráveis à pandemia, os Xavante tiveram cerca de 68 mortes (dados da Apib) antes de tomarem decisões importantes de isolamento e cuidados dentro da tradição, ao lado de ações de enfrentamento às péssimas condições no atendimento à saúde pelo DSEI (Distrito Sanitário Indígena).

Na conversa com Cipassé Xavante, neto do grande chefe Apoena e cacique da aldeia Wederã, na Terra Indígena Pimentel Barbosa, há cerca de 500 km. da T.I. São Marcos, ele explica a estratégia que adotaram e os resultados positivos nessa guerra contra o inimigo invisível. Afirma que a covid-19 chegou às aldeias principalmente pelo descaso das equipes de saúde da região, mas que a ação das lideranças da T.I. Pimentel Barbosa conseguiu conter o avanço do coronavírus. Cipassé faz ainda uma reflexão sobre o significado da epidemia e o momento político atual.

“O coronavirus entrou no Brasil, primeiro em São Paulo, Rio de Janeiro, outros estados e foi se espalhando. Até que chegou na Barra do Garças (MT) e entrou na TI São Marcos. Antes disso, a gente foi fazendo um trabalho com o professor na escola, no Warã (Conselho tribal que se reúne todos os dias). Muitos amigos mandaram material, informação para nós. Quem deveria estar fazendo isso era a SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena), mas não fizeram nada, simplesmente nada. Nós tentamos conscientizar o nosso povo. Mas vimos que não dava para controlar a saída do pessoal para fazer as compras na cidade, receber os benefícios e pagamentos dos professores e agentes de saúde, porque são 16 aldeias aqui na TI Pimentel Barbosa. Ficamos assustados quando vimos que estava morrendo muita gente lá em São Marcos.

Começamos a discutir internamente, principalmente as aldeias daqui. Vimos que se o pessoal não estava obedecendo, o único meio era ocupar o espaço, ir para o fundo da reserva, fazer acampamento na beira do rio, porque é tempo de peixe. Aproveitamos para conhecer o espaço, o território, a importância do Rio das Mortes, relembrar o tempo em que a gente era nômade. Era o jeito de controlar os jovens. Graças a Deus que temos um espaço grande, temos recursos naturais, flora e fauna. Cada turma foi para um ponto do rio, em lugares diferentes. Pouca gente ficou nas aldeias, umas 10 ou 15 pessoas, e o pessoal que se contaminou ficou em isolamento na escola. Foi essa estratégia que deu certo, de sair, levar o pessoal longe e isolar os contaminados. Se a gente tivesse ficado aqui, ia acontecer igual a São Marcos. A previsão do pessoal retornar para a aldeia é só em novembro, quando começar a chuva.

O vírus, para nós não é novidade. Os velhos já falavam isso, que no universo tem muita doença ruim que vai aparecer. Que tínhamos que estar preparados para lidar com a doença, com a leve e a pesada. O vírus surgiu por causa do jeito que vivemos. O vírus é igual ao ser humano, ele vive no habitat dele, ele respira, precisa de oxigênio para viver, igual vivemos na terra. Se a gente não respeitar a natureza, essas coisas ruins vão aparecer. Ele mora há muito tempo no universo, veio para mostrar para todo mundo que não vivemos num lugar seguro. Eu podia pensar que vivendo na aldeia eu estava num lugar seguro, mas não, o vírus anda através das pessoas que se movimentam. As pessoas são o meio de circulação dele. Se chegou numa aldeia, com certeza ia chegar em outras, por que o povo não para, vai para a cidade fazer compras… depende de comida de fora.

O meu tio Cidaneri Xavante veio da cidade onde estava em tratamento de saúde, fazendo hemodiálise. Ele não sabia, mas já estava contaminado. Então muita gente foi contaminada. Eu sabia que ia me contaminar. Fiquei tranquilo, não me apavorei. Porque o medo abaixa a imunidade. Fui ler, conhecer o inimigo, porque o vírus é o inimigo invisível e eu tinha que saber como ele se comporta para enfrentar. Fiquei em isolamento na escola. Tomei remédio da cidade, remédio caseiro e remédio tradicional do nosso povo A’uwe (autodenominação do povo Xavante). Segui tudo direitinho e superei.

Esse vírus está matando muita gente querida e vai continuar matando enquanto não tiver uma vacina no Brasil. Se as pessoas não mudarem o seu pensamento, não vai mudar nada no mundo. Pode morrer 150 ou 200 mil pessoas que nada vai mudar. As pessoas continuam circulando na cidade, indo para a praia, para as festas, aglomerando. Se as pessoas tivessem consciência, iam entender e se proteger para o povo não continuar morrendo. Mas não, poucas pessoas mudaram sua postura, entenderam que a vida é muito valiosa. Aqui, nosso povo aprendeu que temos que comer comida do mato, proteína natural para o corpo ficar forte. Valorizar o conhecimento e a cultura. Despertamos para isso, o que ajudou.

O problema do Brasil, essa crise econômica e social, eu vejo que é o vírus que já existia antes, que é o Bolsonaro. Depois chegou o outro vírus que atravessou o oceano e começou a desestabilizar, matar as pessoas, trazer mais crise. O coronavírus veio acelerar o que já existia. E hoje temos dois problemas, o primeiro vírus, que é esse governo sem cérebro do Jair Bolsonaro, e o coronavírus.

Para combater o coronavírus, a vacina tem que chegar rápido, senão a coisa complica. O outro vírus, o governo, está desestruturando as instituições, acabando com a democracia, tirando a segurança das pessoas. As queimadas, estamos no 2o ano mais grave da história, primeiro atingiu, em 2019, o cerrado e a Amazônia. Agora chegou no Pantanal, além da Amazônia. E as instituições, não vão reagir? O congresso, o STF, todo mundo olhando e ninguém fazendo nada. Eles são cúmplices. As mãos estão atadas por algum motivo que não se pode falar… enquanto isso o Bolsonaro fazendo o que quer, deitando e rolando, só ele pode falar, ameaçar, xingar. Que povo é esse, que instituições são essas, que país é esse? Não pode denunciar na ONU? O Bolsonaro está fazendo o que ele quer. Dizem que ele é burro. Burro de jeito nenhum. Burras são as pessoas, as instituições. Ele sabe o que quer. Mexeu na PF, no Ibama, ninguém falou nada.

Esse negócio do fogo é reflexo do que o governo está fazendo. Pegou fogo e o que as pessoas estão fazendo? Nada. Parece que todo mundo está cego, ou estão com dificuldade de gritar, de se mexer, ou viraram cúmplices, acomodados. Enquanto isso os nossos direitos estão sendo desmantelados, outras leis estão sendo criadas para legalizar o garimpo em terras indígenas, o arrendamento de terras indígenas, a retirada de madeira de lei. O cara está fazendo o que ele sempre prometeu na campanha dele. O que as instituições estão fazendo? Nada. Viraram cúmplices. O que temos que fazer é cada etnia se organizar internamente, vigiar seu território e agir. Porque não podemos contar com a Funai que se tornou extensão dos fazendeiros. Metade dos funcionários comissionados são fazendeiros, ou afilhados, ou amigos, sobrinhos dos fazendeiros… Não é só em Brasília, em todas as sedes da Funai está assim. Temos que ficar atentos com relação à Funai, ao governo. Temos que discutir internamente, brigar e defender. Não podemos desanimar. A luta continua. Temos esperança que as coisas vão melhorar.”

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