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Diário da Covid-19: Óbitos caem, mas cresce a probabilidade de 2ª onda no Brasil

Mundo se aproxima do impressionante recorde histórico de meio milhão de casos por dia


Do Colabora,  25 de outubro de 2020 
Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 3



Menino da etnia Miskito olha pela janela de um ônibus na cidade deTegucigalpa, em Honduras. Foto Orlando Sierra/AFP (Julho/2020)

O número de vítimas fatais da covid-19 no Brasil continua caindo. A média móvel ficou abaixo de 500 óbitos diários pela segunda semana consecutiva, voltando à marca do início de maio. Sem dúvida é uma boa notícia e todos nós torcemos para que a queda continue e que o SARS-CoV-2 seja cada vez menos letal. Porém, o número de brasileiros infectados pelo novo coronavírus aumentou ligeiramente na 43ª semana epidemiológica (18 a 24 de outubro). Ainda é cedo para dizer se ocorreu apenas uma oscilação sazonal ou se este aumento já é um indício de uma segunda onda pandêmica no país. A Europa e diversas outras nações vivem um repique do número de casos e do número de mortes. O Brasil não está imune a um novo surto da covid-19.

No Diário da Covid-19, do domingo passado (ALVES, 18/10/2020), mostramos que a pandemia no Brasil, pela primeira vez nas diversas quinzenas, estava crescendo abaixo do ritmo médio global, mas algumas cidades (como Rio de Janeiro e Manaus) já apresentavam sinais de uma segunda onda. Os dados da última semana reforçam esta percepção e, embora seja arriscado fazer uma previsão, o alerta deve servir para reforçar as medidas de prevenção e evitar o pior.

O médico e neurocientista Miguel Nicolelis também disse que há um risco iminente de retomada da curva de contágio pelo novo coronavírus no Brasil, embora a média de casos tenha baixado nos últimos dois meses. Nicolelis observa que o aumento de casos da doença que vem ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos pode também chegar ao Brasil. No dia 19/10, ele alertou: “É preciso se organizar em nível nacional: formar, treinar e equipar brigadas de emergência de saúde em todo o país, aumentar a testagem, estocar medicamentos, equipamentos de proteção e aumentar a adesão ao aplicativo Monitora Covid-19”.

Além da Europa, já existem exemplos de indicadores de uma segunda onda da covid-19 na América Latina e Caribe (ALC). Três países da região que, inicialmente, tiveram baixo impacto da pandemia – Uruguai, Jamaica e Cuba – agora estão passando por uma segunda onda do novo coronavírus. Todavia são países com baixos coeficientes de incidência e de mortalidade.

Existe uma ameaça real. Entretanto, é preciso registrar que a segunda onda da pandemia não é um fato inexorável, e nem um determinismo inevitável. Países como Taiwan, Vietnã e Nova Zelândia conseguiram praticamente zerar as curvas epidemiológicas na medida em que construíram uma barreira sanitária efetiva, rastrearam e fizeram testes na população de risco e montaram um eficiente sistema de monitoramento da doença. São países que venceram a pandemia.

Porém, a segunda onda é uma possibilidade real nos países que perderam o controle da transmissão comunitária do vírus, como é o caso dos Estados Unidos e da maioria dos países da ALC. Geralmente, quanto a primeira onda começa a refluir, gera uma falsa sensação de segurança que é uma ilusão que favorece o repique da doença. Portanto, todo cuidado é pouco.

O panorama nacional

O Ministério da Saúde informou, no sábado (24/10), que o país chegou a 5.380.635 pessoas infectadas e 156.903 vidas perdidas, com uma taxa de letalidade de 2,9%. Foram 26.979 novos casos e 432 mortes nas últimas 24 horas. Os números de óbitos diários estão caindo, mas o Brasil continua em terceiro lugar no ranking global (atrás apenas dos EUA e da Índia). Os números de casos nacionais subiram na semana passada, mas o Brasil foi ultrapassado pela França e agora está em quarto lugar no número médio diário de pessoas infectadas (atrás dos EUA, Índia e França).

O gráfico abaixo mostra as variações absolutas diárias do número de casos no território nacional entre 01/03 a 24/10 e a média móvel de 7 dias. Nota-se que o número de pessoas infectadas cresceu continuamente no Brasil, desde o início de março, com a média móvel chegando a 38,4 mil casos em 02 de julho. Nos dias seguintes a média caiu até 33,3 mil casos em 21 de julho. A partir de então subiu até o pico da curva epidemiológica com média de 46,4 mil casos diários, em 29 de julho. Após o cume, a média móvel iniciou uma trajetória de queda e, apesar de algumas oscilações, a média móvel caiu para cerca de 20 mil casos em 17 de outubro de 2020. Todavia, a média móvel subiu para pouco mais de 22 mil casos no final da 43ª semana epidemiológica.



O gráfico abaixo mostra as variações absolutas diárias do número de óbitos no território nacional entre 15/03 e 24/10 e a média móvel de 7 dias. Nota-se que o número de vidas perdidas cresceu rapidamente até a média móvel ficar acima de 1 mil óbitos, no dia 04 de junho. Nas semanas seguintes o número diário de mortes se manteve em 4 dígitos e a média móvel atingiu o pico no dia 25 de julho, com 1.097 vítimas fatais. Até meados de agosto, os números caíram, mas a cifra se manteve em 4 dígitos. Somente a partir de 12 de agosto, os números diários de mortes voltaram a apresentar 3 dígitos. Após 17 de outubro a média móvel passou a ficar sistematicamente abaixo de 500 óbitos diários. Contudo, mesmo com a queda significativa das mortes pela covid-19, o Brasil continua em segundo lugar no número acumulado de vítimas fatais, à frente da Índia e atrás somente dos EUA.

Os dados acima indicam que o volume de casos e de mortes permanecem em alto patamar. Nada garante que estes números vão ser zerados brevemente, pois a experiência internacional mostra que diversos países passam por uma segunda onda e alguns convivem, inclusive, por uma terceira onda da pandemia (com acontece com EUA, Israel, Irã, etc.).

Manaus (AM) que teve uma explosão de mortes em abril de 2020, foi palco de cenas chocantes com o colapso do sistema funerário e é uma das cidades brasileiras com um dos maiores coeficientes de mortalidade do país, tem presenciado novo repique dos casos e das mortes.

O gráfico abaixo mostra que o pico do número diário de casos e de mortes na cidade de Manaus ocorreu na virada dos meses de maio e junho. Nos meses seguintes o montante diminuiu até o mínimo ocorrido em setembro de 2020. Contudo, os montantes voltaram a apresentar uma tendência de alta no mês de outubro. Ainda não está claro se está ocorrendo uma leve oscilação ou se trata-se de uma tendência de mais longo prazo de alta. O fato é que o ajuste polinomial de terceiro grau indica uma subida no número de casos e de mortes para a próxima semana. Para o total do Brasil a tendência é de queda do número médio de mortes, mas na capital do Amazonas há uma uma tendência que parece indicar o começo de uma segunda onda da covid-19 (a mesma propensão ocorre também na cidade do Rio de Janeiro).

Para efeito de comparação, Manaus que tem uma população de 2,2 milhões de habitantes tem números muito superiores aos da Nova Zelândia que tem uma população de 5 milhões de habitantes. O país da Oceania registrou o número acumulado de 1.934 casos da covid-19, enquanto Manaus registrou 61.166 no dia 24/10 (31 vezes maior). A Nova Zelândia registrou até agora 25 mortes, enquanto Manaus registrou 2.818 mortes (113 vezes maior). O coeficiente de mortalidade de Manaus é de 1.291 óbitos por milhão e da Nova Zelândia de apenas 5 óbitos por milhão de habitantes. Ou seja, para cada óbito neozelandês pela pandemia há, proporcionalmente, 258 mortes manauenses.



O fato é que o cansaço com a quarentena induz a flexibilização do isolamento social, deixando a população mais vulnerável ao contágio do SARS-CoV-2. Indubitavelmene, a retomada das atividades econômicas e o aumento das aglomerações abrem a possibilidade de retomada do crescimento da covid-19. O descuido com as medidas preventivas é um perigo e um repique de casos e mortes não é um evento a ser desconsiderado pelas autoridades de saúde no território nacional, como mostram os casos já citados das cidades do Rio de Janeiro e Manaus.

O panorama global

O mundo está chegando a 43 milhões de pessoas infectadas e 1,15 milhões de mortes, com uma taxa de letalidade de 2,7%, no dia 24 de outubro de 2020. No dia 23 de outubro, o mundo se aproximou do impressionante recorde histórico de meio milhão de casos em 24 horas. Na última semana, quatro países ultrapassaram o limiar de 1 milhão de casos acumulados: Espanha, França, Argentina e Colômbia.

O grande salto global no número de pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 ocorreu no mês de março e parecia que haveria um declínio a partir do mês de abril. Contudo, o número de casos continuou crescendo aceleradamente a partir de maio, conforme mostra o gráfico abaixo. Nos primeiros dias de julho o mundo ultrapassou a marca de 200 mil casos diários e no final de setembro passou de 300 mil casos diários. Na 43ª semana epidemiológica (de 18 a 24 de outubro), a média móvel de 7 dias ultrapassou a casa de 400 mil casos diários e se aproximou de 500 mil registros no dia 23/10. O pico ainda não parece próximo, pois os países da Europa e de outras partes do mundo enfrentam uma segunda onda, sendo que alguns já vivenciam uma terceira onda, como é o caso dos EUA, do Irã, Israel e outros países.



O gráfico abaixo mostra o número diário de óbitos e a média móvel de 7 dias para o mundo. A maior subida do número de mortes aconteceu em março e o pico da média móvel ocorreu no dia 16 de abril com mais de 7 mil vidas perdidas por dia. A partir daí, o número diário de vítimas fatais caiu até o dia 29 de maio, quando a média móvel ficou abaixo de 4 mil óbitos em 24 horas. Mas no mês de junho o número subiu para a casa de 5 mil mortes diárias e atingiu um novo pico no dia 14 de agosto, com média de cerca de 6.400 óbitos em 24 horas. De lá para cá, a média de mortes diárias tem variado em torno de 5,5 mil óbitos.



A pandemia da covid-19 já está quase completando aniversário de um ano, desde a detecção dos primeiros casos em dezembro de 2019 e ainda continua avançando mesmo que com dinâmicas diferenciadas localmente. Analisando a situação de alguns países e regiões que passam pela segunda onda ou pela terceira onda, o gráfico abaixo, do jornal Financial Times, apresenta a média móvel de 7 dias do número acumulado de casos, por milhão de habitantes. Nota-se que a União Europeia e a Rússia passam por uma segunda onda e os EUA e o Irã passam por uma terceira onda. Todos tem curvas apontando para cima.



O gráfico abaixo, apresenta a média móvel de 7 dias do número acumulado de óbitos, por milhão de habitantes. Da mesma forma, a União Europeia e a Rússia passam por uma segunda onda, os EUA e o Irã passam por uma terceira onda e todos tem curvas epidemiológicas direcionadas para cima.



O mundo perdeu o controle da transmissão comunitária do novo coronavírus. Com exceção de poucos países, a covid-19 se expande globalmente. Já são 166 países com mais de 1 mil casos registrados, sendo 48 países com mais de 100 mil casos e 8 países com mais de 1 milhão de casos. A Europa chegou a 250 mil mortes, os EUA a 230 mil mortes e o Brasil se aproxima de 160 mil vidas perdidas.

A maior esperança atual está depositada no surgimento de vacinas que possam imunizar a população mundial. Mas não existe bala de prata. Nenhuma vacina consegue proteger 100% dos habitantes. Além do mais, a disputa política, econômica e ideológica pela produção e distribuição de uma vacina efetiva contra a covid-19 tem gerado insegurança, desconfianças e incredulidade, favorecendo apenas o movimento antivacina e dificultando os planos para a proteção das pessoas. Recentemente, o movimento antivacinação foi incluído pela Organização Mundial de Saúde em seu relatório sobre os dez maiores riscos à saúde global. De acordo com a OMS, os movimentos antivacina são tão perigosos quanto os vírus que aparecem nesta lista porque ameaçam reverter o progresso alcançado no combate a doenças evitáveis por vacinação, como o sarampo e a poliomielite.

Mas o SARS-CoV-2 não aumenta apenas a morbimortalidade dos países e do mundo. Amplia também a recessão econômica, expande o desemprego e a pobreza local e global, além de secundarizar os recursos para combater a emergência climática e ambiental. O coronavírus forçou os líderes mundiais a apertar o botão da pausa do crescimento econômico. Agora, antes mesmo que a pandemia seja controlada, muitos desses líderes querem retornar ao status quo anterior e restaurar o mesmo estado de coisas que nos colocou nessa confusão toda. Mas a pandemia deveria servir para nos ensinar que não devemos voltar ao “velho normal” e sim avançar na construção de uma sociedade mais resiliente, mais justa e mais sustentável.

Frase do dia 25 de outubro de 2020

“Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo”

José Saramago (1922-2010), escritor português e Prêmio Nobel de Literatura

Referências:

ALVES, JED. Diário da Covid-19: Pandemia no Brasil segue em ritmo mais lento do que a média global, #Colabora, 18/10/2020

https://projetocolabora.com.br/ods3/pandemia-no-brasil-segue-ritmo-mais-lento-do-que-a-media-mundial/

Miguel Nicolelis. Segunda onda da covid-19 no Brasil é risco iminente, RBA, 19/10/2020

https://www.redebrasilatual.com.br/saude-e-ciencia/2020/10/segunda-onda-da-covid-19-no-brasil-e-risco-iminente-alerta-nicolelis/

Financial Times. Coronavirus tracked: the latest figures as countries start to reopen. The FT analyses the scale of outbreaks and the number of deaths around the world

https://www.ft.com/content/a2901ce8-5eb7-4633-b89c-cbdf5b386938

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. É professor e pesquisador independente. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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