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As 100 maiores firmas de advocacia estão acelerando a crise climática

A primeira análise já realizada desse tipo revela como os 100 maiores escritórios de advocacia dos Estados Unidos estão 'acelerando a crise climática': ''Os escritórios de advocacia redigem os contratos para projetos de combustível fóssil, fazem lobby para enfraquecer as regulamentações ambientais e ajudam as empresas de combustível fóssil a evitar sua responsabilização nos tribunais''


Da Carta Maior, 2 de outubro, 2020
Por Jessica Corbett





Créditos da foto: Os alunos da Harvard Law School protestam contra um jantar de recrutamento oferecido por Paul Weiss, um escritório de advocacia que representa a ExxonMobil, em janeiro de 2020. (Aaron Regunberg/Twitter)

Os 100 maiores escritórios de advocacia dos Estados Unidos “estão acelerando a crise climática” por meio de litígios, transações e lobby em nome dos poluidores, de acordo com o primeiro relatório desse tipo divulgado na quinta-feira (1/10) por uma recém-lançada organização de estudantes de direito.

Os membros Law Students for Climate Accountability [Estudantes de Direito pela Responsabilidade Climática] analisaram dezenas de milhares de ações judiciais recentes do Vault Law 100, uma classificação ordenada dos 100 maiores escritórios de advocacia dos EUA, para o relatório “Pontuação de Mudança Climática 2020 dos Escritórios de Advocacia” [2020 Law Firm Climate Change Scorecard], que dá notas de A a F para as empresas, com base em seu trabalho para clientes do ramo de combustíveis fósseis de 2015 a 2019.

"Os escritórios de advocacia redigem os contratos para projetos de combustíveis fósseis, fazem lobby para enfraquecer as regulamentações ambientais e ajudam as empresas de combustíveis fósseis a evitar a responsabilização no tribunal", disse Alisa White, estudante da Escola de Direito de Yale e principal autora do relatório, em um comunicado. "Nossa pesquisa é a primeira a expor a ampla extensão do papel dessas empresas na condução da crise climática."



%uD3D%uDA8A new report shines light on how the most prestigious law firms in the U.S. deploy their legal firepower to accelerate the climate crisis #ClimateScore

Read from @Ls4Ca at https://t.co/HSxrWBBsEL pic.twitter.com/FeUw89yGC4— Sunrise Movement %uD3C%uD05 (@sunrisemvmt) October 1, 2020


Legenda do tuíte do Sunrise Movement: “Um novo relatório mostra como os escritórios de advocacia de maior prestígio nos EUA empregam seu poder de fogo legal para acelerar a crise climática #ClimateScore”

Conforme detalhado na declaração do grupo de estudantes, ao longo dos quatro anos analisados, os escritórios de advocacia:

- Trabalharam em 10 vezes mais casos agravando as mudanças climáticas do que lidando com as mudanças climáticas: 286 casos em comparação com 27 casos.

- Foram os consultores jurídicos em cinco vezes mais transações para a indústria de combustíveis fósseis do que para a indústria de energia renovável: US$ 1,3 trilhão em transações, em comparação com US$ 271 bilhões.

- Fizeram cinco vezes mais lobbies para empresas de combustíveis fósseis do que para empresas de energia renovável: por uma remuneração de US$ 36,5 milhões em comparação com US$ 6,8 milhões.

“Descobrimos que muitos escritórios de advocacia de prestígio, que recrutam em faculdades de direito em todo o país, não são os atores socialmente responsáveis que dizer ser. Em vez disso, eles estão ajudando a destruir a chance de nossa geração ter um futuro habitável", declarou a estudante de direito de Yale, Camila Bustos, cofundadora da Law Students for Climate Accountability.

Lily Cohen, estudante da Faculdade de Direito de Harvard que ajudou a organizar os protestos #DropExxon [pela derrubada da Exxon], disse: "Meus colegas e eu viemos para a faculdade de direito para aprender habilidades para trabalhar em prol de um futuro mais seguro e mais justo ... Espero que esta pontuação incentive as empresas a tomar decisões considerando as pessoas, não apenas os lucros."

Além de reconhecer que "a menos que mudemos rapidamente o curso, a mudança climática continuará a produzir um aquecimento catastrófico, eventos climáticos extremos e centenas de milhões de mortes de 2020 a 2100" e evidenciar o papel das empresas de combustíveis fósseis na criação da emergência planetária, o relatório do grupo de estudantes inclui recomendações para as empresas e compromissos que tanto as empresas quanto os alunos assumiram “para abordar o papel da indústria jurídica na crise climática”.



THREAD: We just released the Law Firm Climate Change Scorecard, the 1st ever study of top law firms' role in the climate crisis.

A large majority of top law firms are on the wrong side of history--and we have the data to prove it (1/8)

#ClimateScore https://t.co/ixlULvRh2Y— Law Students for Climate Accountability (@Ls4Ca) October 1, 2020


Legenda do tuíte da Law Students for Climate Accountability: “O Law Firm Climate Change Scorecard mostra quais empresas estão fazendo mais para acelerar a crise climática: cada um dos 100 maiores escritórios de advocacia obtém um #ClimateScore (Nota do Clima) entre A e F. Você também pode pesquisar cada empresa em http://ls4ca.org para uma descrição detalhada do trabalho dela (4/8)”

“Entre as empresas do índice Vault 100, @PaulWeissLLP fez tantos litígios anti-clima quanto 62 empresas juntas, @AllenOvery facilitou mais transações de combustível fóssil do que 78 empresas combinadas e @HoganLovells fez mais lobby para os combustíveis fósseis do que 92 empresas juntas. Sem surpresa, todas eles receberam uma nota F (5/8)”

Apenas quatro dos 100 escritórios de advocacia receberam "nota do clima" A, enquanto 14 obtiveram B, 15 obtiveram C, 41 obtiveram D e 26 obtiveram F. O relatório de pontuação dá os nomes dos cinco piores escritórios atuando em litígio, trabalho transacional, lobby e transações de carvão, e pressiona todas as empresas a descontinuarem seu trabalho para a indústria de combustíveis fósseis.

As empresas que obtiveram um F são: Akin Gump Strauss Hauer & Feld; Allen & Overy; Baker & Hostetler; Baker Botts; Baker McKenzie; Clifford Chance; Cravath, Swaine, & Moore; Freshfields Bruckhaus Deringer; Gibson, Dunn, & Crutcher; Hogan Lovells;King & Spalding; Kirkland & Ellis; Latham & Watkins; Linklaters; McGuire Woods; Milbank; Munger, Tolles & Olson; Paul, Weiss, Rifkind, Wharton & Garrison; Shearman & Sterling; Sidley Austin; Simpson Thacher & Bartlett; Skadden, Arps, Slate, Meagher, & Flom; Squire Patton Boggs; Sullivan & Cromwell; Vinson & Elkins; e White & Case.

"Com este relatório, os escritórios de advocacia de elite são chamados a considerar se seus serviços profissionais estão apoiando a catástrofe climática", disse Douglas Kysar, professor da Escola de Direito de Yale. “Para estar do lado certo da história, não é mais suficiente para os escritórios de advocacia tornarem seus escritórios mais verdes. Devem tornar seu trabalho verde.“

Harold Koh, ex-reitor da Escola de Direito de Yale e consultor jurídico do Departamento de Estado, sugeriu que o relatório pode pressionar mais do que apenas as empresas nominadas.

“Esta impressionante Pontuação de Mudança Climática força cada advogado, estudante de direito e firma a se perguntarem se estão realmente dedicando suas energias para um futuro mais habitável ou para um planeta cada vez mais inabitável”, disse Koh. “Aqueles que recebem notas baixas devem fazer um exame de consciência, e aqueles que são solicitados a fazer promessas devem consultar suas consciências, para decidir de que lado eles realmente estão em uma luta existencial que não tem espectadores”.



Law students don't want to work for firms that will condemn our generation to an increasingly uninhabitable planet in exchange for a quick buck. If law firms insist on taking on fossil fuel clients, they better get ready to lose recruits (7/8)— Law Students for Climate Accountability (@Ls4Ca) October 1, 2020


Legenda do tuíte da Law Students for Climate Accountability: “Os escritórios de advocacia escolhem seus clientes. Não há nada de ético em representar empresas multibilionárias de combustíveis fósseis que já têm advogados internos. Isso apenas inclina o campo de jogo ainda mais para favorecer os poluidores do clima e tornar mais distante um futuro habitável (6/8)

“Estudantes de direito não querem trabalhar para empresas que condenarão nossa geração a um planeta cada vez mais inabitável em troca de um dinheirinho rápido. Se os escritórios de advocacia insistem em aceitar clientes de combustíveis fósseis, é melhor eles se prepararem para perder recrutas (7/8) ”

A Pontuação de Mudança Climática vem em um momento em que as gigantes dos combustíveis fósseis continuam a ser questionadas por suas promessas climáticas inadequadas e a ser desafiadas a enfrentar processos de responsabilidade climática. Só no mês passado, os procuradores-gerais do estado de Connecticut e Delaware, bem como líderes locais que representam as cidades de Charleston, Carolina do Sul e Hoboken, Nova Jersey, entraram com ações judiciais contra grandes empresas de petróleo e gás.

“A indústria de combustíveis fósseis faz tudo o que pode para evitar sua responsabilização pelos enormes danos que causou ao nosso planeta. Uma das armas mais fortes nessa luta são os litígios conduzidos por alguns dos escritórios de advocacia mais bem estabelecidos do mundo jurídico", disse o senador democrata Sheldon Whitehouse, que representa Rhode Island, que foi o primeiro estado a abrir um processo desse tipo em julho de 2018.

"Já passou da hora dessas empresas reconsiderarem a forma como representam uma das indústrias mais destrutivas da história, e não há razão para que os estudantes de direito não devam considerar essa representação ao decidir para onde direcionar suas carreiras", acrescentou Whitehouse. "Eu aplaudo este importante esforço".

A pontuação também recebeu elogios de ativistas do clima, incluindo a Dra. Sandra Steingraber, que agradeceu à nova organização estudantil "por iluminar o papel desempenhado pelos principais escritórios de advocacia na história dos combustíveis fósseis".



Wow. I just learned a lot. Thank you for shining a light on the role played by top law firms in the fossil fuel story.

Looks like that role is the villainous Snidely Whiplash tying us to the fossil fuel tracks in front of the oncoming climate crisis train. Need a new story. pic.twitter.com/9NQ0Of8wwV— Dr. Sandra Steingraber (@ssteingraber1) October 1, 2020


Legenda do tuíte da Law Students for Climate Accountability: “A grande maioria dos principais escritórios de advocacia está do lado errado da história - e temos os dados para provar isso (1/8)”

Resposta da Dra. Sandra Steingraber: “Nossa. Aprendi muita coisa... Obrigado por lançar uma luz sobre o papel desempenhado pelos principais escritórios de advocacia na história dos combustíveis fósseis. Parece que esse papel é como o do vilão Snidely Whiplash nos amarrando aos trilhos do combustível fóssil na frente do trem da crise climática que se aproxima. Precisamos de uma nova história.”

O escritor e ativista Bill McKibben também destacou o grupo e seu primeiro relatório no Twitter na quinta-feira:



Wow. I just learned a lot. Thank you for shining a light on the role played by top law firms in the fossil fuel story.

Looks like that role is the villainous Snidely Whiplash tying us to the fossil fuel tracks in front of the oncoming climate crisis train. Need a new story. pic.twitter.com/9NQ0Of8wwV— Dr. Sandra Steingraber (@ssteingraber1) October 1, 2020


Legenda do tuíte de Bill McKibben: “Nova frente muito importante na luta contra o clima: Law Students for Climate Accountability acaba de classificar os 100 maiores escritórios de advocacia dos Estados Unidos pela quantidade de danos climáticos que causam. Os jovens simplesmente não aceitam mais”

"Esta é uma organização incrivelmente poderosa", disse McKibben em uma mensagem pública ao grupo. "Muito obrigado pela sua liderança!"

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de César Locatelli

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