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A literatura dos sujeitos periféricos

Na obra de dois poetas do chamado Fundão do Ipiranga, em São Paulo, os “códigos da favela”, o orgulho da comunidade e a rebeldia para enfrentar a segregação — principalmente pela Educação Popular e engajamento no movimento cultural



De OUTRASPALAVRAS, 9 de Outubro, 2020
Por Eleilson Leite, na coluna Literatura dos Arrabaldes


Os dois livros que analiso neste artigo trazem o grito dos excluídos das margens do Ipiranga. São obras de poesia de dois escritores residentes na periferia da Zona Sul de São Paulo, numa região chamada por eles de Fundão do Ipiranga da qual fazem parte bairros como Heliópolis, São João Clímaco, Jardim Clímax, Jardim São Savério, Parque Bristol, entre outros. Fanti é da Favela da Pilões que faz parte do complexo de Heliópolis, maior favela de São Paulo. Paulo Rams é do Parque Bristol. O primeiro publicou Multiversos em 2017 e o segundo lançou Meu canto em 83 poemas, em 2019. Embora da mesma região, eles só se conheceram no movimento cultural periférico nos agitos da primeira década deste século. Ambos atuam como professores da rede pública de ensino e são da mesma geração; Paulo tem 37 anos e Fanti já chegou na quarta casa decimal.

Os poemas dos dois autores discorrem principalmente sobre as injustiças sociais provocadas pela exploração capitalista, criando uma massa de flagelados que habita as periferias e favelas. Problemas como a falta de moradia, a violência contra a juventude e a ascensão do movimento de extrema direita no Brasil são dos mais abordados. Ambos exaltam suas comunidades, o sentimento de irmandade na quebrada e o amor por suas companheiras, filhos e seus cachorros também. Esse conjunto temático e as aproximações de abordagem me fez enxergar nas obras aquilo que Tiaraju Pablo D’andrea chama de “sujeito periférico”1, aquele que é da periferia, dela tem orgulho e a partir dela age politicamente. Definida por esse autor como uma “subjetividade”, reconheço nessa formulação uma estrutura de sentimento2 muito nítida no contexto e nos textos das obras.

Fanti


Multiversos é uma publicação independente, mas foi registrada no ISBN da Editora Ciclo Contínuo. A obra tem formato 14 x 21 e 94 páginas nas quais estão impressos 62 poemas. Não há divisão de capítulos. Numa das orelhas tem um texto do Chelmi Jep, grafiteiro e poeta da Brasilândia. Na capa, assinada por Dambala, há uma ilustração sobre uma foto de um prédio todo pixado. Os títulos de todos os poemas são escritos com grafia de pixo também e aos pichadores é dedicado um poema. Na outra orelha tem uma foto do autor com sua minibiografia. O prefácio é assinado pelo lendário B boy Banks, da Back Spin Crew que veio a falecer em novembro de 2017, alguns meses depois do lançamento do livro, agregando à obra um valor histórico inestimável. Fanti é rapper e integra o grupo D’grand’ Stilo. É formado em Letras. Antes de Multiverso, lançou o livro de contos Vida de Rato, em 2014, prefaciado por Paulo Rams.

Paulo Rams

Meu canto em 83 poemas é um dos mais de 50 títulos publicados entre 2018/19 pela Editora e Gráfica Heliópolis, dirigida pelo ator e escritor Paulo Cesar Marciano. A obra tem formato 12 x 17 e 162 páginas nas quais estão distribuídos os 83 poemas citados no título. A capa e os desenhos do miolo são de Felipe Borges e o projeto gráfico e diagramação de Cristiane Rojas. Ana Fonseca cuidou da revisão. Fanti assina o prefácio que tem trechos reproduzidos na contracapa. RAMS é uma alcunha usada por Paulo Sergio Rodrigues que quer dizer: Revolução Anarquista em Luta por Mudança. Paulo é formado em História. Foi um dos fundadores e se mantém a frente do Sarau Perifatividade há 12 anos. Publicou poemas em diversas coletâneas do seu próprio sarau e de outros. Atualmente trabalha num projeto de arte-educação desenvolvido pela UNAS que é a associação de moradores de Heliópolis.

Multiversos


Os 62 poemas de Fanti abordam majoritariamente temas políticos. Sintonizado na conjuntura da época em que foi publicado, faz referência a agitação política que começou em 2013 com a tomada das ruas pela classe média que levantou de modo oportunista a bandeia do combate à corrupção para se opor aos governos petistas. Com a vitória de Dilma Rousseff no ano seguinte, o movimento assumiu definitivamente a tonalidade reacionária, respaldando nas ruas a narrativa difundida pela mídia que resultou no golpe parlamentar de 2016.

Dilma caiu; Temer assumiu e aquilo parecia ser o pior dos cenários. Fanti não teve tempo de abordar a ascensão de Bolsonaro. Se tivesse, seu livro seria ainda mais pessimista, pois esse é o tom predominante de sua visão sobre o cenário brasileiro nos 24 poemas que identifiquei como de posicionamento político. Fanti é do movimento hip hop, cuja visão política já é demasiadamente cética e o contexto adverso conferiu ao livro um acentuado sentimento de desesperança.

O clima muda um pouco nos 19 poemas que abordam o cotidiano da periferia, especialmente das favelas. Cria de uma delas, a Favela da Pilões no complexo de Heliópolis, Fanti escreve com uma originalidade que só alguém que vê o mundo a partir da janela de seu barraco consegue ter. Mas o poeta do Fundão do Ipiranga também fala de amor. Há um conjunto de 10 poemas de recorte mais pessoal em meio aos quais há belas e intensas declarações de amor, canções de despedida e devaneios introspectivos sobre o sentido da vida ou seu lugar na vida das pessoas que lhe rodeiam. Comecemos, porém, com os escritos políticos.

Das revoluções critica a hipocrisia dos que foram às ruas pedir o fim da corrupção, motivados pelo lavajatismo potencializado pela televisão. Escárnio critica a “classe política” que zomba do povo. Tá sinistro fala dos tempos sombrios do golpe de 2016, e das pessoas nas ruas defendendo a volta da Ditadura. Verdadeiros bandidos é um protesto conta os políticos corruptos, especialmente um certo parlamentar de Roraima que “dorme no presídio e de manhã preside a câmara”. Problemática ressalta as injustiças com foco no poder do dinheiro. Último poema do livro, o texto reforça a frustração do autor: “caíram por terra nossas esperanças? Esquerda e direita hoje fazem aliança”.

Já no combativo poema Conscientização popular o poeta nomeia os algozes: “Aécio, Cunha, Temer, Serra. Alckmim” e dá a senha: “cada voto errado é mais um cadáver”. Conclui enfatizando a importância da educação como instrumento de conscientização: “são raras as opções de uma solução/ somente nas escolas através da educação”. No poema Escolas, em tom de denúncia, afirma que as escolas “não têm partido”, assim como não tem vidro na janela, biblioteca, laboratório, teto… Não tem, inclusive “viés crítico”; “está parecendo mais escolas sem sentido”, conclui. Já Sonhos e resistência é um poema assertivo que aponta a importância do estudo para a emancipação do pobre. O tema da educação se completa com o texto Livros que trata da importância da leitura e por essa mesma razão explica porque os livros são tão desvalorizados pelos donos do poder. Sugere que livro é verbo a ser conjugado: “livrar” as mentes da ignorância.

Há um conjunto de poemas que miram o capitalismo como gerador de pobreza para a maioria e de riqueza para uma pequena parcela. Em Para tudo manifesta indignação com o sofrimento do povo pobre enquanto os ricos consomem champanhe de R$ 3.000,00. Em O jogo protesta contra a desigualdade botando o dedo na ferida: “a miséria é que mantém o capitalismo”. Em Náufrago das ilusões intensifica sua indignação com a fome e a miséria. Já em Nossos direitos chama a atenção para a violação de direitos que são tão básicos que ele nem chama de humanos e sim de animais: “água e comida, o direito de ver o sol nascer/ respirar um ar puro, terra pra sobreviver”

Em alguns poemas desse bloco da política, Fanti parece não acreditar na força do povo, em face da alienação que lhe deixa inerte. Essa visão fica nítida no poema Enquanto houver injustiça, um canto desesperado e desesperançado: “Infelizmente é assim em toda a periferia/ que abriga essa vida miserável/ sem rumo, sem futuro, fadado ao fracasso/ pegaram tudo de ruim e jogaram aqui”. Nos versos de Confuso estou, ele faz um libelocontra as injustiças narradas a partir de seu barraco, moradia precária sob risco iminente de desabamento. Manifesta confiança em Deus: “Somente Jesus Cristo para nos dar confiança/ Creio que a situação um dia vai melhorar/ A fé é tão forte que jamais acabará”. O apelo religioso aparece também em O mais humilde foi morto, no qualespecula sobre uma eventual volta de Jesus: “se ele voltar, os homi o matarão…/ na favela”

Mas, como diz os Racionais MC’s, “o guerreiro de fé nunca gela, não agrada injusto e não amarela” e Fanti, como bom representante do RAP corresponde ao apelo de Mano Brown em, pelo menos, três poemas com os quais finalizo esse conjunto maior de textos de seu livro. Tudo errado é um grito da Periferia: “Revolução periférica/ ressuscita os guerreiros/bravos brasileiros/ esquecidos nos becos e vielas”. Do que vale é outro brado contra as injustiças. Apesar do tom desolado, termina numa provocação: “pois saibam que não nos renderemos assim tão facilmente”. E em Difícil, apresenta um manifesto sobre a desigualdade e as injustiças impostas ao povo e termina com um chamado ao levante fazendo uso de um verso do Hino Nacional como intertexto: “um povo que não foge à luta”.

Nos poemas que tratam do cotidiano, Fanti expressa seu apego pela favela e o pertencimento que caracteriza o sujeito periférico. O autor aborda os encantos da vida em comunidade, mas, mantém a verve crítica que lhe serve de lente para retratar o contexto em que vive. Há seis poemas que fazem a etnografia da quebrada. Correndo os trechos, como ele próprio explica no poema é uma gíria de favela que expressa o quanto algo está agradando, bombando na quebrada. Favela discorre sobre a dinâmica da favela, que parece um mundo à parte, ressaltando suas dores e alegrias. Já Nosso campo fala do campo na periferia e da importância do futebol na vida das crianças em épocas passadas: “jogar contra a rua de baixo valendo tubaína”. Todavia trata da gramática do asfalto brincando com o sentido da conjunção adversativa com as vias das ruas e avenidas. Em Dona Biu destaca a importância da benzedeira da favela. Fanti fecha o bloco com É tipo, poema em que enumera as coisas boas da periferia e da vida: “comida fumaçando/ crianças brincando no quintal/um afago/uma tia que aprendeu a ler…”

Os aspectos negativos do dia a dia em Heliópolis ele concentra em poemas que abordam a adolescência e juventude. Moleque doido, poema curto no qual fala de um moleque que foge da escola para usar drogas e sinaliza que o futuro pode lhe uma “rasteira”. Em Memória, assume o eu lírico de uma jovem de 17 anos que atua no tráfico de drogas desde os 15 e sabe que seu filho recém-nascido nunca lembrará dele.Nos versos de Um pouco de amor, o poeta encontra esperança ao ver uma mãe que não desiste do filho drogado. E agora João? é umbelo poema que poderia ser um conto ao estilo de Marcelino Freire. Nele, Fanti parafraseia o poema “E agora José” de Drummond, trata do assassinato de um jovem de 15 anos. É quase uma paródia, mas sem o deboche que caracteriza esse tipo de intertextualidade

Fiel ao traço onisciente do RAP, Fanti dedicou alguns poemas para criticar o próprio povo da quebrada, dois deles são emblemáticos. Um é O que acontece? no qual questiona a apatia da periferia: violência, miséria, droga, crime. O outro é Inconsciência que retrata o povo como alienado, vítima de sua própria ignorância: “Na TV tem futebol e tem novela/ [o povo] ao invés de um livro, prefere um jogo/ olha quanta garota nova engravidando/ já é mãe com apenas 12 anos…”. Termina o poema dando a entender que poderão ser julgados perante Deus: “Quem tem culpa? Quem será condenado?/a lei é sem massagem no divino juizado”

Um outro conjunto de poemas desse bloco aponta o caminho: o conhecimento. O quinto elemento do Hip Hop se expressa no Sarau, mas principalmente no RAP. Sarau que sara discorre sobre a importância do sarau como espaço de conscientização e elevação da autoestima. Tem Criolo como inspiração de quem retirou o último verso: “leva no sarau e salva essa alma aí”. A voz da realidade ésobre o ofício do poeta em denunciar a realidade, poema no qual parafraseia o GOG: “a rima no papel denuncia a dor”. Cordel marginal enalteceo estilo do RAP pesado e consciente. Em tom apocalíptico, novamente fala da ignorância como instrumento de dominação: “O cativeiro da mente/ aprisiona o corpo todo” e finalmente, em É o resgate, defende o RAP das antigas como expressão verdadeira da periferia em virtude de suas mazelas: “Depois me aparecem uns caras/ Dizendo que rap pesado não pega nada/porque ninguém vai querer dançar na pista/ Não terá playboy rebolando. Não insista/ Rap é o resgate dos esquecidos nas favelas/ a música que forma cidadãos conscientes da sequela”

Os poemas mais pessoais de Fanti discorrem, principalmente, sobre o amor. E essa temática aparece logo no texto que abre o livro: Em cada canto uma dor. O título do poema remete a um verso da famosa canção de Chico Buarque, A Banda, mas, ao que parece, não foi utilizado pelo poeta como inspiração e mais como recurso estilístico para dar uma elegância ao poema. Canto para ele é o seu barraco que ficou vazio de sentido depois que seu amor se foi.: “E a tristeza mora agora no meu barraco”. Fanti se perde em devaneios: “imensos vales sombrios no qual já percorri”. Ele também parafraseia num só verso Racionais e Criolo: “minha solidão é como o ar da noite/gelado e implacável parecido com açoite” (Racionais, Jesus chorou: “o vento não, ele é suave, mas é frio e implacável”; Criolo, Freguês da meia noite: “um frio que é um açoite…”). A construção desse poema me sugere que o autor não o fez motivado por uma dor pessoal de abandono do amor. Se assim fosse, talvez ele não se dispersaria tanto e seria mais direto e intenso. Mas é significativo que ele abra seu livro com uma declaração de amor em tom de sofrimento, expondo a fragilidade de um homem em face do abandono de sua amada. Essa expressão contrasta com o prefácio do Banks que apresenta o livro como um manifesto para a guerra.

Outro que merece um destaque entre os 10 que classifiquei como de traço pessoal, é um poema em duas partes ou dois poemas que se complementam. Ambos tratam de um rompimento que partiu dele e não da mulher amada. Verso que te fiz é o primeiro e serve de antessala para o segundo que é o mais importante: Vide verso. Trata-se de uma carta de despedida de um homem para uma mulher em tom um tanto machista: “valeu por tudo que fizesses por mim/ valeu a roupa lavada, o rango, enfim”. Os versos “Deixei uma cota do dinheiro embaixo do televisor/também quitei o crediário na Marabrás/ se quiser pode pegar o dinheiro e ir no Brás…” poderia ser uma paródia para a canção Trocando em miúdos, de Chico Buarque e Francis Hime: “aceite uma ajuda do seu futuro amor/pro aluguel/ devolva o Neruda que você me tomou/ e nunca leu”….

Meu canto em 83 poemas

Como o título do livro já anuncia, Paulo Rams reuniu 83 poemas na obra fazendo referência ao ano em que nasceu: 1983. O gosto por datas e periodizações pode ser atribuída ao fato de o autor ser historiador, mas há também na obra um traço de balanço. Paulo quis com seu livro demarcar momentos de sua trajetória pessoal para anunciar o quanto se encontra bem resolvido e feliz atualmente. Fiquei com a impressão de que há um marco de virada do poeta no ano de 2005 em função de um episódio marcante, conforme veremos adiante. A partir dali (com 22 anos) vem o engajamento em causas sociais, a militância no movimento cultural e a conquista de sua mulher amada, companheira que parece ser fundamental em sua vida.

Paulo já dividiu seu livro com poemas de militância que formam a maior parte do livro. Os 47 textos são muito inspirados na conjuntura política do país no período pós-golpe de 2016. Anarquista, ele defende causas, mas não partidos ou qualquer outro tipo de organização institucionalizada que o aceite como membro. A periferia é seu ponto de partida e de chegada e tem um território definido: o fundão do Ipiranga como são chamados os bairros de São João Clímaco, Jardim Clímax, Parque Bristol, São Savério uma região onde ficam o Parque do Estado e o complexo do Zoológico. O autor transmite em seus textos uma visão um tanto idealizada do povo como sendo um conjunto coeso de pessoas que, irmanadas pela opressão, estariam prontas para um levante. Dotado de repertório amplo e uma perspicaz visão política, Paulo consegue em poemas de boa arquitetura prender o interesse do leitor num bloco demasiadamente tematizado, porém no qual o sujeito periférico manifesta toda a sua potência.

Já entre os poemas mais pessoais aos quais ele denomina de “sentimentos”, ficam algumas joias da coroa, para usar um clichê que pode incomodar o coração anarquista do poeta. Paulo se sai bem nessa seara. Demonstra sensibilidade e densidade reflexiva em versos curtos que dão bom ritmo aos poemas. Há variações de percepção também que diversificam as abordagens tirando aquela impressão deixada no primeiro capítulo que é mais homogêneo. Diferente do Fanti, Paulo é melhor no amor do que na política e nos brinda, inclusive, com poemas eróticos de alta voltagem sexual. Já o bloco derradeiro que tem apenas 9 poemas parece ser um apêndice da obra. Um bloco de poemas tristes, sombrios que falam de morte e encarnação numa abstração que contrasta com o realismo da maioria dos textos do livro.

Além de todas as aproximações existentes entre os dois autores aqui analisados, conforme mencionamos, surge uma inusitada. O livro do Paulo abre com um poema, cujo título tem uma semelhança com o primeiro texto do livro de Fanti. O nome da poesia é Meu canto. Mas as palavras têm sentido distinto entre os dois. Enquanto que para Fanti, “canto” é seu lugar de morada, para Rams, se trata de sonoridade.Opoema se faz de prefácio para o livro, levando ao conhecimento do leitor as motivações da escrita do poeta. Indica que sua poesia é um canto, um alarido que se alastra. Tem o tom de anunciação: “canto pelas vielas/escuras e estreitas/canto pelas atitudes/impuras e imperfeitas”. Reitera seu lugar de fala: “reivindicando o canto dos guetos…”, dando contornos ao sujeito periférico.

Mas há no bloco dois poemas que estabelecem uma das principais distinções entre os dois autores. São dois poemas que enaltecem as mulheres como sujeitos políticos. Um é Cantando a elas que éuma ode às mulheres heroínas do passado: artistas como Inezita Barroso, Elis Regina, Carolina Maria de Jesus ou guerrilheiras: Iara (Iavelberg) e Maria Bonita. Manda um salve para muitas mulheres contemporâneas, algumas mortas recentemente (Lélia Gonzales). Denuncia que o golpe contra a Dilma Rousseff foi misógino.O outro é Mulheres de aquário que enaltece as mulheres insurgentes. Cita Vinícius de Moraes e reforça um tom de exaltação próximo da apologia que pode soar como lisonja de homem desconstruído.

Os poemas mais engajados de Paulo discorrem sobre as injustiças sociais decorrentes da desigualdade gerada pela exploração capitalista. Os interesses do capital estão representados pelos patrões e pelo Estado por eles dominado. Paulo localiza as diferentes dimensões desse sistema de opressão que pode estar representada no prefeito da cidade de São Paulo (Ao prefeito de Sampa) ou na defesa da Palestina (Salvem a Palestina). Mas há dois temas que chama a atenção pela recorrência: o flagelo dos sem-teto e a violência policial contra a juventude.

Sobre o segundo tema há pelo menos três poemas. Eu sou suspeito, texto ritmado pelo tom de denúncia do genocídio da juventude negra e de pulsão de morte, soturno, cada verso parece marcado por uma batida de bumbo. O poema é uma homenagem póstuma ao DJ Lah do grupo Conexão do Morro. Coxinha de farda cria uma sensação de suspense também. Retrata uma abordagem de policial à paisana dentro de uma sala de aula. Essa injusta redução da maioridade penal! é um longo poema-protesto contra o que está anunciado no título. Nele, o autor assume o eu lírico de um adolescente marginalizado que comete ato infracional e manda um recado para os que querem sua criminalização: “apoia a redução da maioridade/que pena!/ irei mais cedo para a faculdade/ serei estrela do Datena”.

O problema da falta de moradia aparece especialmente em dois textos. Fundão do Ipiranga especulado aborda o processo de especulação imobiliária que levou empreendimentos imobiliários de alto padrão para a região do Parque Bristol, mas, por outro lado, foi empurrando os mais pobres para as margens dos córregos. O autor, a meu ver, exagera no tom crítico ao associar o zoológico, Jardim Botânico e Safari como “passeio da burguesia”. Jardim Clímax Reintegração I e II são dois atos que retratam o sofrimento dos sem-teto, despejados pela PM para dar lugar a empreendimentos imobiliários destinados à elite em áreas valorizadas no bairro que dá nome ao poema.

Mas o tema principal do capítulo politizado é a revolta popular que o autor denomina como levante, tomada de assalto ou revolução. Paulo escreve com autêntica paixão sobre o tema e conquista o leitor para se somar às fileiras de combate. Um desses poemas é particularmente interessante. Trata-se de Favelados cantando aquarela. O texto faz um contraponto ao tom dócil e conciliador da canção Aquarela, de Toquinho e Vinícius de Moraes. Para os versos “numa folha qualquer/ eu desenho um sol amarelo”, Paulo formula: “Amarelo?/ Não!/ vermelho!”. E assim ele vai descontruindo a letra. Estabeleço aqui um paralelo com Racionais MC’s no RAP Da ponte pra cá. Nesta música, Mano Brown também provoca o poetinha num trecho em que, após citar vários bairros de quebrada (Valo Velho, Vaz de lima, Fundão, entre outros) ele arremata: “é muita treta pra Vinícius de Moraes”. Há aqui um viés irônico semelhante ao que propõe Paulo Rams.

Dito isso, seguem alguns poemas de afronta ao sistema. Favela é um manifesto que anuncia o levante do povo pobre da periferia: “não se abalar, não recuar/ não deixar esses vermes/ vir aqui nos intimidar”. Povo éuma exaltação ao povo que corre pelo certo, não o zé-povinho: “salve esse meu povo/Zé povinho fica louco/ acaba sendo minoria…” Diferente de Fanti, valoriza o futebol: “povo que celebra uma conquista/ em jogos de futebol”. Descemos do morro narra a revolução popular que vai crescendo de estrofe em estrofe: a favela desce o morro; invade as casas grandes; os meninos vão para as ruas; quando o poder não for mais da minoria; os índios tomar suas terras… e assim vai crescendo o projeto de sublevação dos pobres

Pavio de Molotov se utiliza do coquetel molotov como figura de linguagem para expressar a rebeldia popular. Flores da revolução, por sua vez, é um poema protesto que exalta a força popular que resistirá numa revolucionária primavera. Legitima luta é um levante das letras. Nele é revelado o significado de sua alcunha RAMS: Revolução Anarquista em Luta por Mudança. Bloco Negro é mais um poema de levante popular, agora com recorte racial; o autor se assume como afrodescendente. Tomemos o poder de assalto é um poema de forte teor classista: “somos os representantes da massa/ nós somos a massa!” Os versos da composição lembram o hino da Internacional Comunista: “se nada somos em tal mundo, sejamos tudo ó produtores…” Finalmente, em Avante cambada! o levante é do movimento cultural da periferia.

Encerro o comentário dessa primeira parte do livro destacando dois poemas nos quais, a exemplo do primeiro, o autor discorre sobre sua forma de escrita. Porém, percebi nesses dois textos, uma abordagem diferente do poema de abertura. Essa é minha poesia apresenta sua criação poética baseada em aspectos mais mundanos do que no primeiro poema: “Essa é minha poesia/ela não é pura/ é cheia de revolta/ela é amarga/ uma prostituta/uma verdadeira puta/ que se vende/ pela sua leitura”. O outro poema é Ácrata (palavra quer dizer anarquismo) no qual faz uma declaração de afirmação poética: “o que tenho/ são meus protestos/ malditos versos/ que ama a desordem”. O autor pondera sobre sua escrita: “o que tenho/ além dos protestos/mais mesquinhos/pequeninos/na imensidão das necessidades/versos agraciados que se curvam/ à gramática da vaidade/ da pontuação e da concordância/ respeitando a forma culta de uma palavra: Foda-se! Tais poemas que denotam inquietação e instabilidade sentimental do poeta, nos ajudarão a ler os textos da parte seguinte do livro.

A segunda parte da obra, a qual o autor nomeou como de “sentimentos”, contém poemas de amor, reflexões sobre o tempo, a leitura, manicômios, os cachorros, entre outros temas do vasto repertório do poeta. Destaco os de amor, todos endereçados a Ana, e dois outros textos distintos. Um, parece autobiográfico e o outro é elaborado sobre uma imagem do cotidiano da periferia que são os sapatos pendurados nos fios de energia. 20 de setembro de 2005 trata da angústia de ser preso, trancafiado numa cadeia, provavelmente por vacilo: “e escapado como feliz deslize/superei as aflições/ que em certas ocasiões/ adquiri como consequências/ e inconsequências de meus atos”. Minha suspeita de que se tratasse de um fato ocorrido com o autor é respaldada no próprio título, uma vez que registra uma especial distinção. Para se guardar um dia específico há que se ter uma justificativa muito relevante. Mas o outro dado é a citação do nome Fátima, atribuída à mãe, o mesmo nome da mãe do autor, citada nos agradecimentos. Consultado, Paulo Rams confirmou minha hipótese.

O outro poema que destaco, fora os de amor, é Shoefiti. Essa palavra quer dizer sapatos pendurados nos fios. Trata-se de um dos melhores poemas do livro. A imagem expressa no título é um típico cartão-postal da periferia. A partir dessa inspiração, o poeta constrói sua argumentação: “esperança de quem viu, viu/ fugir por um triz/aquela mínima alegria/dando voz à frustração/sigamos adiante/ um passo à frente/ já não estou no mesmo ambiente”. Parafraseando Chico Science (“um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”), Paulo nos coloca num patamar diferente do que ele nos conduz na primeira parte do livro. Ali ele quer virar o jogo num levante. Aqui ele sugere um passo a passo, um acúmulo de forças.

Mas no peito do poeta anarquista bate um coração apaixonado. E Paulo é inspirado para falar de amor tanto quanto para exaltar a revolução. No passo dado (pra ela) é um poema ritmado de versos curtos, às vezes de uma só palavra e faz uma declaração de amor em tempos de réveillon (2014/2015): “minha conduta/postura/sem rodeios/ na linha reta te anseio”. Em Dia dos namorados faz jus a data com uma dedicatória de amor rasgada e erótica, mas sutil: “como flor sensível te excitando/ao contato de minha língua/no cangote delicadas mordidas/te arrepia, me supero…”

Quando estivemos a sós tem um título meio clichê e bem-comportado que não tem correspondência com o teor de alta voltagem sexual dos versos: “sedenta pelo meia nove/ que explode/saciando minha língua/lubrificando a vagina para minha/ exaltação”… Parafraseia o nome do seu bairro: “pra chegarmos a mais um ápice/e ao Clímax…” Já em Poemas são seus passos (Ana) a declaração de amor tem endereço explícito: Ana, sua companheira. Como sugere o título, o poema tem ritmo de dança. Ela é sensação já é uma dedicatória de amor que poderia ser uma letra de funk bem comportada: “ela causa/ e me causa/ uma maravilhosa sensação/ gostosa sensação/de ser querido/ ser correspondido/ ela é minha sensação”

O brado retumbante do Fundão do Ipiranga


A poesia de Fanti e Paulo Rams têm distinções estéticas e de abordagem. Anarquista e ateu, Rams não cita Deus nem como interjeição. Já Fanti recorre a Cristo algumas vezes demonstrando uma crença que pode ser apenas uma inspiração e não uma adesão religiosa. Paulo enaltece o protagonismo das mulheres, como já foi dito, enquanto que para Fanti, as minas só aparecem como tema amoroso, com exceção da Dona Biu, benzedeira da Favela. O poeta do Bristol fala explicitamente de sexo em contraposição à discrição da abordagem de seu colega de Heliópolis. Paulo gosta de futebol midiático, enquanto Fanti denuncia o espetáculo como instrumento de alienação do povo. Há poemas no livro de Rams que nos leva para a praia ou para um sítio; já Fanti, em seus textos, não sai da quebrada.

Tais diferenças servem para destacar a riqueza das obras de dois autores que são muito convergentes. Entre as inúmeras semelhanças, destaco três que formam uma síntese: a identidade de classe; a defesa da educação (especialmente da leitura e literatura), e o engajamento no movimento cultural periférico. Os dois poetas são trabalhadores da educação como professores da rede pública e atuantes no circuito de saraus por meio dos quais difundem a leitura como fonte de conhecimento e de conscientização. Apegados aos territórios, hasteiam a bandeira da cultura e, em torno dela, agitam politicamente suas comunidades.

A leitura dos livros de Paulo e Fanti, nos dá a possibilidade de enxergar por meio da poesia o que Tiaraju Pablo D’andrea demonstrou numa tese de sociologia. Com sua pesquisa acadêmica ele nos ensina que o sujeito periférico deve cultivar o orgulho de ser periférico; compartilhar códigos e formas de ver o mundo; ter senso crítico e atuar para a superação das condições que o marginaliza. Para D’andrea, “o sujeito periférico existe na realidade social. Sua maior expressão se encontra nas ações políticas dos movimentos sociais populares e na ação política dos coletivos artísticos da periferia”3.

Podemos então afirmar que Paulo Rams e Fanti (e os movimentos nos quais estão inseridos) são uma boa representação do sujeito periférico. E nas palavras deles confirmamos tal conclusão: “sem que nossas ações e ativismos/ não sejam apenas em palcos/ e microfones à espera dos aplausos/E sim nas multidões que clamam por justiça/…Organizemos saraus, slams, rodas de leituras/ fanzines, publiquemos livros/ e não baixemos a cabeça/ Avante cambada! (Paulo Rams – Avante cambada!). “Revolução periférica/ ressuscita os guerreiros/ bravos brasileiros/ esquecidos nos becos e vielas” (Fanti – Tudo errado). Nos poemas desses autores, o sujeito periférico é uma voz ativa. Parafraseando a letra do Hino Nacional, por vezes citado nos livros, os poemas de Fanti e Rams são o tal brado retumbante de um povo heroico que se ouviu às margens (do Fundão) do Ipiranga.

1 D’ANDREA, Tiaraju Pablo – A formação dos sujeitos periféricos: cultura e política na periferia de São Paulo. Tese de Doutorado, FFLCH/USP, São Paulo, 2014.

2 A estrutura de sentimento é formulada a partir de recorrências comuns em obras de distintos autores de uma mesma época ou geração. Ela é percebida observando nas narrativas o pensamento como é sentido e o sentimento como é pensado. Tal percepção é possível de se alcançar observando o movimento da consciência prática que é o impulso, contenção e tom na fala dos personagens e dos narradores. Este procedimento foi criado pelo sociólogo britânico Raymond Williams (1920 – 1989) autor dedicado aos estudos da cultura, do teatro e da literatura, fundador dos Estudos Culturais e expoente do movimento New Left que renovou o marxismo na metade do século passado. Sua obra mais conhecida no Brasil é Cultura e Sociedade, publicada pela Editora Vozes.

3 Op. Cit, página 175.

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