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A Encíclica 'Fratelli Tutti', por uma outra epistemologia e economia política

Neste último dia 2 de outubro o sumo pontífice publicou sua Carta Encíclica Fratelli Tutti, sua segunda Encíclica, seguida da Laudato Si’ (que já foi objeto de minha reflexão nesta mídia).

Créditos da foto: Em Assis, diante do túmulo de São Francisco, 

o papa assina sua terceira encíclica, Fratelli tutti. (AFP Photo/Vatican Media/Handout).

Da Carta Maior, 13/10/202

Por Carlos Enrique Ruiz Ferreira 

Há duas questões, dentre tantas, que me saltaram aos olhos. Embora ambas encontrem seu lastro em tradições antigas do cristianismo, o Bispo de Roma as reposiciona de maneira inovadora, em face aos grandes dilemas contemporâneos. Nesse sentido, a inovação de Francisco, é atualizar a tradição a partir do cotidiano e da realidade imediata dos seres humanos e do Planeta. As duas questões são as seguintes: a) a promoção de uma epistemologia cristã que se aproxima de sabedorias ancestrais dos povos originários e do povo negro, e b) a posição política frente a um sistema econômico nefasto para com os seres humanos e o meio ambiente.

Cristianismo indígena?

Em primeiro lugar, o Bispo de Roma segue subvertendo a epistemologia dominante, europeia, de raiz greco-romana, racional e racioanalizante.

Essa raiz encontra-se seus vestígios em Sócrates e permeia também boa parte da doutrina da Igreja Católica (São Tomás de Aquino, Santo Agostino), como nos ensinou F. Nietzsche em “A Genealogia da Moral”. Estamos falando de uma epistemologia que parte da dissensão entre a razão e a emoção, por um lado, e uma dissenção entre a espécie humana e os outros seres vivos, sejam eles do reino animal ou vegetal. Em suma: a razão é superior à emoção e nós, seres humanos, somos superiores à Natureza e outros seres vivos.

O Papa Francisco insiste, como o fez sua grande referência - São Francisco de Assis - em iluminar o amor. Portanto, a emoção, o sentimento. Não que deixe em segundo plano a racionalidade, mas seria justo dizer que o papa realça a dimensão do amor como uma fonte inesgotável de vida, partilha e transformação. O amor se transforma numa espécie de núcleo duro irradiador de toda sua filosofia. Assim, ele rompe, em certa medida, com o paradigma da superioridade da razão sobre a emoção e estabelece uma epistemologia cosmointegradora, em que o amor é a força catalizadora.

Essa perspectiva cosmointegradora nos revela não apenas a fraternidade, elo entre os seres humanos, que nos faz irmãos, mas também um sentimento de pertença ao Planeta. A Encíclica Fratelli Tutti nos lembra que São Francisco de Assis “se sentia irmão do sol, do mar e do vento”. Essa compreensão reforça aquilo que havia sido escrito na E. Laudato Si’: “a reacção de Francisco, sempre que olhava o sol, a lua ou os minúsculos animais, era cantar, envolvendo no seu louvor todas as outras criaturas. Entrava em comunicação com toda a criação, chegando mesmo a pregar às flores (…)”. Ao fim e ao cabo, estamos a observar uma epistemologia que se aproxima das sabedorias dos povos originários e das religiões afrodescendentes, em que a cisão “Homem x Natureza” ou “Técnica x Natureza” não cobra nenhum sentido. O Papa Francisco ousa demasiadamente. Sabemos que a religião cristã foi utilizada muitas vezes para abençoar o colonialismo e o genocídio negro e indígena. Logo, quando o Papa aproxima o cristianismo e estabelece uma ponte com as sabedorias ancestrais indígenas e negras uma mudança paradigmática começa a se processar.

Uma política e uma economia cristã e social

O segundo ponto a se destacar é seu compromisso cristão-político para com os pobres, marginalizados e menos favorecidos na História. Seu compromisso e palavras fazem eco, por exemplo, com a Encíclica Rerum Novarum (1891), de Leão XXIII e a Pacem in Terris (1963), de João XXII. O Papa Francisco assume, portanto, a defesa de uma economia política não excludente.

Em tempos da cultura do ódio, do racismo, do sexismo, machismo, homofobia, xenofobia, dos preconceitos com os povos originários, quilombolas, dentre outros, o Papa fala do “coração sem fronteiras”, na “abertura a todos”, da “solidariedade”. Sem negar as multidiversidades o Bispo fala em União ao invés dos divisionismos e lógicas duais e excludentes.

Sobre o racismo diz o Sumo Pontífice: “De novo nos envergonham as expresso%u003es de racismo, demonstrando assim que os supostos avanc%u027os da sociedade na%u003o sa%u003o assim ta%u003o reais nem esta%u003o garantidos duma vez por todas.” Sobre o patriarcalismo e machismo lê-se: “o mundo ainda esta%u001 longe de refletir com clareza que as mulheres te%u002m exatamente a mesma dignidade e ide%u002nticos direitos que os homens. As palavras dizem uma coisa, mas as deciso%u003es e a realidade gritam outra.”

Ao passo, há também uma consideração sobre a economia política, nacional e internacional. Um sistema brutal em que as palavras de Caetano Veloso recobram pertinência: “a força da grana e ergue e destrói coisas belas”. Na Encíclica não se tergiversa; fala-se da destruição de “coisas belas”, que são nada mais nada menos que as pessoas e o planeta terra. O Papa explica: “Ha%u001 regras econômicas que foram eficazes para o crescimento, mas não de igual modo para o desenvolvimento humano integral. Aumentou a riqueza, mas sem equidade, e assim «nascem novas pobrezas»”.

E o Papa versa na Encíclica sobre os “limites das visões liberais” e se fundamenta citando também São João Paulo II, quando ele disse: “Deus deu a terra a todo gênero humano, para que ela sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém” (Centesimus annus, 1991). E sintetiza sobre o processo de exclusão: “Em determinadas visões econômicas fechadas e monocromáticas, parece que não tem lugar, por exemplo, os Movimentos Populares que reúnem desempregados, trabalhadores precários e informais e tantos outros (...)”

Logo, o sumo pontífice vai construindo e solidificando seu legado. Ele vem se constituindo como um papa dos povos, da fraternidade, dos direitos humanos, da Natureza cosmointegradora e da defesa intransigente da justiça social. Mostra-nos que a desigualdade, violenta e histórica, é algo a se superar de maneira urgente e que a visão eurocêntrica-racional - dissidente da Natureza e do Amor -, pode e deve se descolonizar e encontrar sinergias com outras epistemologias.

Carlos Enrique Ruiz Ferreira é professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba

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