Pages

A análise política do discurso do presidente Xi Jinping

Populismo e crise | China



Do Le Monde Diplomatique, 9 de outubro de 2020
Por Grupo de Pesquisa Discurso



Este trabalho faz parte da segunda fase da série de artigos produzidos pelo Grupo de Pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (DISCURSO)” publicados na série Populismo e Crise. Nesta fase, nos detemos na análise dos principais porta-vozes nacionais e internacionais dos discursos negacionista e científico. No primero artigo caracterizamos o discurso da primeira-ministra de Nova Zelândia, Jacinta Ardern. Agora analisamos outro dos principais porta-vozes internacionais do discurso científico, o presidente da República Popular da China, Xi Jinping

No projeto de pesquisa “Discurso, redes sociais e disputa de narrativas relativas à pandemia do Covid19” consideramos a pandemia do vírus Covid-19 como acontecimento que alterou a normalidade, acentuou as desigualdades e colocou em suspensão a hegemonia vigente, abrindo um espaço para disputa política de discursos. Esse campo discursivo no qual se insere a disputa, é conformado não só por falas, mas também por performances e decisões políticas, na dimensão nacional e internacional.

Utilizando como aporte metodológico a análise política dos discursos desenvolvida em torno de Laclau (2007) e Mouffe (2014)[1], assim como os aportes da abordagem de marcos interpretativos (framing analysis) de autores como Snow e Benford (1986)[2] e Galván (2012)[3] apresentamos anteriormente os artigos que reconstruíram o campo discursivo sobre a pandemia com a disputa dos principais discursos, negacionista e científico, que articulam com ênfases diferentes dois polos temáticos: a sustentabilidade da economia e a sustentabilidade da vida e, nos últimos trabalhos, nos debruçamos sobre o papel das mídias na disseminação dos discursos e os possíveis futuros pós pandemia.

Nesse artigo, da segunda fase da série populismo e crises, procuramos caracterizar o discurso de um dos principais porta-vozes no plano internacional do discurso científico: Xi Jinping.

O ator


Xi Jinping (Xí Jìn píng), desde 2012 é o sétimo presidente da República Popular da China, secretário-geral do Partido Comunista da China e presidente da Comissão Militar Central. É considerado um dos líderes mais poderosos que o país já teve, e com seu lema sonho chinês[4] apresentou planos e reformas que objetivam uma frente de oposição ao ocidente.

Devido às circunstâncias atuais, Xi Jinping traz de imediato ao imaginário social o presidente do país de origem do novo coronavírus. Além disso, devido a crescente polarização do cenário político, Xi Jinping é visto tanto como líder de uma potência relevante para economia nacional, quanto líder de um país comunista, e assim, objeto de críticas. Apesar de inicialmente apresentar elementos discursivos mais relativistas – mesmo não negando a gravidade da situação-, Xi Jiping se posiciona fortemente no plano internacional no combate a Covid-19, defendendo que a solução para a pandemia se encontra em ações multilaterais e na adoção das medidas de segurança propostas pela Organização Mundial da Saúde.

Abordando brevemente as preocupações do país antes da pandemia, de acordo com relatório de trabalho das duas sessões realizadas em março de 2019, em ocorrência do encontro anual do Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CPPCC) e do Congresso Nacional do Povo (NPC)[5], recebiam enfoque questões agrícolas e ambientais, como promover a construção do sistema de rastreabilidade da qualidade e segurança dos produtos agrícolas[6]. Ainda, dentre as propostas tinha-se a preocupação com as três batalhas críticas, a pobreza, a poluição, e o desenvolvimento da democracia socialista[7], objetivando aperfeiçoá-la. No mais, houve o projeto de lei de investimento estrangeiro da China e a pauta anticorrupção[8]. Com início do novo coronavírus, entrou para lista de propostas das sessões medidas para responder ativamente à proposta de vitória na prevenção e controle da epidemia, mas como será visto adiante, a preocupação com a pobreza e o plano de desenvolvimento econômico e social não saíram da pauta durante os primeiros meses de 2020. Além disso, o país lidava com um cenário de protestos reivindicando democracia em Hong Kong, e conflitos com os EUA, como a guerra comercial e a disputa tecnológica, apesar do porta voz da segunda sessão, Guo Weimin, em coletiva de imprensa ter frisado de forma positiva o avanço das relações bilaterais com os Estados Unidos[9].

No plano econômico, a segunda maior economia do mundo crescia com taxas elevadas constantes. Em 2019 o crescimento foi de 6,1%, mas com a pandemia a economia chinesa sofreu uma queda significativa. Em comparação com mesmo período de 2019, no primeiro trimestre de 2020 o setor industrial registrou queda de 13,5%, o setor de vendas varejo 20,5%, e investimentos em ativos fixos 24,5%. [10]. Na terceira sessão do Congresso Nacional do Povo (NPC), realizada no dia 22 maio, o governo decidiu não estabelecer uma meta anual específica de crescimento econômico para 2020, e sendo otimista afirmou que a economia chinesa ainda é caracterizada por um amplo potencial, forte resiliência, grande margem de manobra e instrumentos políticos suficientes, antecipando uma rápida recuperação.[11]

Tenhamos confiança!

Inicialmente, Xi Jinping adotou uma postura relativista frente à ameaça do novo coronavírus. Diferentemente dos atores do discurso negacionista, que utilizaram ferramentas discursivas mais nítidas, como a negação da gravidade da Covid-19, o presidente da China não a descartava, mas inicialmente colocava os projetos de desenvolvimento econômico e social como elemento discursivo central, defendendo que o cumprimento das metas definidas para 2020 eram completamente possíveis de serem articuladas com o controle da epidemia, contanto que os demais atores sociais adotassem as medidas propostas por Xi Jinping. Em suas performances iniciais percebíamos atitudes tanto quanto despreocupadas, como em ocasião do encontro com primeiro-ministro do Camboja, Samdech Techo Hun Sen, em Beijing. A ocasião ilustra uma contradição discursiva, ao mesmo tempo em que posa para foto sem máscara e apertando a mão do primeiro ministro, o presidente chinês declara que o governo chinês e seu povo estão movendo todos os esforços para combater a epidemia causada pelo novo coronavírus, e ainda reforça que um amigo que surge quando mais precisamos é, de fato, um amigo. O povo cambojano está do lado do povo chinês neste momento especial. A visita, de acordo com Hun Sen, era uma forma de demonstrar o apoio do governo do Camboja à China na luta contra o surto. Outra performance foi a visita à província de Yuan, no dia 19/01/2020, para uma viagem de inspeção que durou três dias. De acordo com reportagem da Xinhua[12], o tópico Covid-19 ficou fora das suas falas durante a visita.

No entanto, apesar dessas práticas discursivas contraditórias, e do atraso na tomada de decisão em dezembro, janeiro foi o mês em que o governo chinês mobilizou mais esforços, cabendo aqui apontar alguns exemplos. De acordo com dados do relatório China in Action[13], no dia 01 de janeiro a Comissão Nacional de Saúde instaurou um grupo de resposta à doença, que formulou diretrizes de detecção, prevenção e quarentena precoces. No dia 10, antes da viagem à Yuan, a China compartilhou a sequência completa do genoma da Covid-19 com a Organização Mundial da Saúde e postou no GenBank, um banco de dados internacional de sequências genéticas, e já havia iniciado medidas de controle em Wuhan.[14] No dia 23 de janeiro, teve início a construção de um hospital de 25 mil metros quadrados em Wuhan, que ganhou notoriedade internacional por ficar pronto em 10 dias, além da construção de um segundo leito médico em Leishenshan. Três dias depois (26/01), foi criado o Central Leading Small Group for Work to Counter the New Coronavirus Infection Pneumonia Epidemic, na liderança do Premier do conselho de Estado, Li Keqian[15].

Com a evolução do surto para as demais províncias do país, e para outros países, Xi Jinping se apresentou mais fortemente como defensor das medidas médico-sanitárias e tomou a dianteira no cenário internacional, gerando discussões sobre sua pretensão de ocupar o vácuo deixado pelos Estados Unidos. No dia 10 de fevereiro de 2020, quando o número de mortos por coronavírus na China chegava a 908, o presidente Xi Jinping aparece em público visitando um hospital em um bairro residencial em Beijing, pedindo confiança na batalha contra o coronavírus. Em vídeo da emissora CCTV13[16], podemos ver o presidente chinês medindo sua temperatura, conversando com a população e em videoconferência com demais equipes médicas. Durante sua conversa com os moradores locais, demonstrou confiança e pediu para que não apertemos as mãos, pois são tempos diferentes. Ainda em fevereiro, foi criada a Missão Conjunta OMS-China sobre Doença de Coronavírus 2019, na ocasião o número de mortos na China já alcançava a marca de 1.380.

Um mês depois, Xi Jinping visitou o hospital Huoshenshan, em Wuhan, no dia 10 de março de 2020 (imagem 1). Em sua fala, pediu confiança na batalha contra o coronavírus. No mesmo mês a curva de contágio começa a se estabilizar no país, com queda no número de mortes, no dia 28 de março foram registradas 5 mortes na China.[17]. Por fim, na terceira sessão do 13º Congresso Nacional do Povo (NPC), que ocorreu no dia 22 de maio de 2020, Xi Jinping reforçou o conteúdo do seu discurso científico, pessoas em primeiro lugar, as pessoas e a vida são as principais prioridades.


Xi Jinping em visita ao hospital Huoshenshan. (Crédito: Divulgação Governo Chinês)

No mais, percebendo que não poderíamos tomar as falas dos porta-vozes do governo chinês e ignorar completamente as tensões atuais entre esse país e os Estados Unidos, também analisamos o embate geopolítico entre as duas maiores potências por meio do discurso dos porta-vozes -incluindo Xi Jinping- conformado na mesma tabela de marcos interpretativos.

Justiça e solidariedade: o discurso científico de Xi Jinping

Para análise dos discursos científicos da China utilizamos inicialmente três matérias jornalísticas e um relatório da conversa telefônica entre Xi Jinping e o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, publicado no site do Ministério das Relações Exteriores da República Popular da China. Os dois primeiros discursos Xis’ words of support for country battling coronavirus (27/03/2020) e Xi: Nation can win battle against novel coronavirus (11/02/2020) são do jornal China Daily, apresentados em forma de compilação de frases proferidas pelo presidente Xi Jinping, e organizadas em formato de slide. No primeiro caso o discurso foi direcionado para os demais países, jornalistas estrangeiros e moradores da China, e no segundo caso mais para sociedade civil. Ambos foram escolhidos por serem publicados no veículo de informação China Daily, o qual tem como público-alvo a população residente na China e demais veículos de informação internacionais. Além disso, a própria seleção das frases e sua publicação em formato de slide deixa bastante evidente os marcos discursivos e explicita a mensagem que o emissor pretendia passar.

Referente aos outros dois discursos, President Xi Jinping Speaks with UK Prime Minister Boris Johnson on the Phone (18/02/2020) e Full text of Xi’s remarks at Extraordinary G20 Leaders’ Summit(26/03/2020), o primeiro se ocupa quase majoritariamente de apresentar as ações da China até o momento no tocante à contenção da epidemia de Covid-19. O seu último parágrafo é dedicado às boas impressões que o governo do Reino Unido tinha em relação às medidas adotadas pela China, aparentemente sendo utilizado como elemento que reforça o discurso de Xi Jinping. Foi escolhido por apresentar elementos síntese do discurso do presidente chinês. Já o discurso em ocasião da reunião dos líderes do G20 é mais extenso, trazendo em si proposições. O texto apresenta uma estrutura bem organizada de tomada de ação, sendo apresentada por Xi Jinping quatro planos de ação para aumento de medidas e cooperação internacional no combate ao novo coronavírus.

Considerando que as fricções existentes entre China e Estados Unidos foram mantidas, e em alguns aspectos reforçadas, concluímos que seria extremamente relevante analisar o discurso chinês em torno desse embate geopolítico. Com o objetivo definido selecionamos inicialmente uma coletiva de imprensa disponível no site do Ministério das Relações Exteriores da República Popular da China, intitulada Foreign Ministry Spokesperson Zhao Lijian’s Regular Press Conference realizada no dia 07 de abril de 2020, e uma reportagem da BBC News Mundo intitulada Coronavírus: como a covid-19 acirrou guerra política entre EUA e China, de 21 de março de 2020. Dentre diversos artigos escritos sobre o embate geopolítico escolhemos trabalhar com um discurso oficial, mais uma vez, por representar um corpo coeso com poucas ou nenhuma alteração, e uma reportagem por apresentar o posicionamento dos dois lados. No entanto, desde a criação do quadro de marcos interpretativos, novas práticas discursivas relevantes foram realizadas pelos atores, logo também foram utilizadas para redação desse artigo, tendo em vista que elas traziam novos elementos que não eram divergentes do resultado obtido até então, na verdade os reforçam.

Utilizando o método de enquadramento (Frame analysis) proposto por Galván (2012)[18], reconstruímos três marcos interpretativos, o marco diagnóstico responsável por apontar a dimensão do problema e as injustiças que ele representa, o marco prognóstico, onde são identificadas as soluções propostas, e onde se traça a fronteira que delimita o eles e forma o nós, e por último, o marco da motivação, que por meio da moralização apresenta a naturalização do passado e os principais elementos do seu programa de ação.




O marco diagnóstico apontado pelo discurso identifica como problemas a Covid-19 como grande emergência de saúde pública e os ataques infundados, além da cobrança das dívidas dos países em desenvolvimento. Estes problemas destacam injustiças tanto no campo social, quanto econômico, como demissões em larga escala, instabilidade, desemprego, fome, aumento da pobreza, aumento da disseminação do vírus, agravadas pela falta de responsabilidade global e visão comunitária. No plano geopolítico, os boatos sobre a China que dificultam cooperação e relações bilaterais, e a saúde da população, devido falta de foco dos Estados Unidos no combate a pandemia. A soberania chinesa também é ameaçada, devido conflitos no mar do sul da China; os países em desenvolvimento, se tiverem que pagar as dívidas cobradas por países membros do G-20, e a xenofobia sofrida pela população chinesa, devido aos ataques infundados feito pelos Estados Unidos.

No marco prognóstico, apontando para o enfrentamento do problema, a dimensão vencedora é a China e seu povo, pois se destacaram no sucesso na luta contra a Covid-19 devido aos seus enormes esforços. Além disso, a articulação entre preservação da vida e retorno ao trabalho seria um fator chave para assegurar o sucesso da economia e do bem-estar social. No plano internacional, a união da humanidade como um todo e a realização de ações conjuntas, seriam a saída para vencer a guerra global contra a Covid-19, e no que se refere especificamente a relação com os Estados Unidos, afirma que a nação norte-americana será beneficiada pela cooperação entre os dois países durante o período de pandemia. A construção do nós como humanidade é reforçada, no entanto, não só devido a cooperação entre os países, mas também pelo papel importante que a China desempenha nessa conjuntura, assim, o retorno ao trabalho na China é apontado como um benefício para todas as nações. No plano tecnológico, o compartilhamento da vacina chinesa, considerada um bem público global, é entendido como o caminho para a humanidade vencer a Covid-19. Delimitando o eles, o traçado de fronteira apresenta os xenófobos e ultranacionalistas, que dificultam a cooperação internacional e reforçam atitudes individualistas, outrossim, Estados que não ajudam os países em desenvolvimento, não apoiam organizações internacionais e não facilitam o fluxo comercial. Isso, por sua vez, é entendido como responsável pelo atraso no desenvolvimento das vacinas, pois os antagonistas não cooperam em pesquisas. Ademais, empresas que realizam demissões em meio a pandemia, que não retomam a produção, a população que se recusa a trabalhar, e as restrições ao trânsito de pessoas e mercadorias, são atitudes que contribuem para o aumento da pobreza em um momento tão difícil.[19] No mais, Xi Jinping considerada que a falta de profissionalismo e a ineficácia da mídia são obstáculos no combate a pandemia, já que podem funcionar como mecanismo para disseminar notícias falsas. Além disso, é preciso utilizar esses meios de comunicação para conscientizar o maior número de pessoas sobre as medidas de básicas de segurança e higiene. Em termos de nomeação, o discurso destaca a guerra total global contra a Covid-19 e o compromisso da China guiada por uma visão de comunidade com futuro compartilhado da humanidade.

No marco de motivação, a moralização é feita pela oposição entre os que reconhecem que o vírus é um inimigo em comum que só pode ser vencido com a união dos Estados e a manutenção dos empregos, representando o sucesso, a cooperação, a justiça e aceitação das diferenças, contra o aumento das demissões, atitudes individualistas, e os ataques racistas, injustos e infundados. Na naturalização, a reconstrução histórica retoma a trajetória de sucesso do país, afirmando que a nação chinesa, que passou por muitas provações e tribulações em sua história, nunca foi derrotada. Em vez disso, emergiu cada vez mais resistente e mais forte das dificuldades, além disso, também faz questão de ressaltar a eficácia do seu sistema político, o progresso no controle de epidemias mais uma vez demonstra os grandes pontos fortes da liderança do PCC e do sistema de socialismo com características chinesas.

No que tange às soluções e propostas observadas no seu plano de ação, para vencer a guerra contra a Covid-19 é necessária uma ampla articulação e cooperação internacional, para a comunidade internacional responder com maior confiança e solidariedade. Para tal objetivo têm-se o envio de médicos e assistência material, aumento da oferta de ingredientes farmacêuticos, fortalecimento de relações bilaterais, elaboração de um plano de ação a ser realizado em reunião com ministros da saúde do G-20, aumento do suporte dado a OMS e demais organizações internacionais, a implementação de políticas fiscais e monetárias, agir com responsabilidades, de acordo com fundamentos científicos, resolver a dificuldade dos países em desenvolvimento por meio de canais diplomáticos, que os Estados Unidos parem de vincular a pandemia a questões marítimas, e a importância da concentração de esforços na resposta antiepidêmica nacional e internacional.

Em termos nacionais, depois de um momento inicial de relativização da importância da Covid-19 e uma vez reconhecido esta como pandemia, propõe um plano com ações econômicas e sanitárias. Por um lado, se estabeleceram medidas para garantir a sustentabilidade da economia com a continuidade ou a volta ao trabalho a partir de estratégias diferentes para cada região baseada no risco sanitário, a retomada da agricultura, desobstrução do trânsito de pessoas e mercadorias, a continuação do comércio exterior, a garantia aos investimentos e a preocupação com as pequenas e médias empresas, pedindo a melhoria da macro regulação, diminuindo impostos e taxas. Também são abordadas a necessidade de manter a estabilidade empregatícia e a garantia de meios de subsistência básicos para a população. Pelo lado da sustentabilidade da vida, entre as medidas de combate à Covid-19, encontramos o incentivo a pesquisas, implantação de ações coordenadas de recursos médicos, a estreita cooperação com a Organização Mundial da Saúde e a cooperação internacional com outros países para desenvolvimento de vacinas e medicamentos e o compartilhamento de sua experiência no controle de epidemias.

O tom do discurso de Xi Jinping é predominantemente otimista, acreditando que a China pode lidar com mais esse desafio, também apresenta a dimensão técnica, normalmente propondo programas de ação e sendo metódico, por exemplo, alguns pronunciamentos de Xi Jinping buscavam estabelecer listas de pontos e objetivos[20] a serem alcançados. Já no âmbito geopolítico, apesar do conflito estar presente em ambos os materiais utilizados, o primeiro ainda apresenta uma margem conciliadora, com a China reforçando que os dois países devem estreitar a cooperação em ações conjuntas pois essa é a única maneira de vencer o vírus, no entanto, no segundo há uma mudança para um tom mais defensivo, inclusive levantando insinuações como: Pode ter sido o Exército dos EUA que levou a epidemia a Wuhan, disse Zhao Lijian, portavoz do Ministério das Relações Exteriores da China, em 12 de março. (GIL, Tamara. BBC News mundo. 21/03/2020).


Xi Jinping na cúpula especial dos líderes do G-20. (Crédito: Governo Chinês)

Após a formação dos marcos interpretativos, a análise continua com a caracterização das identidades antagônicas, utilizando como aporte teórico os trabalhos de Laclau (2007) e Mouffe (2014)[21]. De acordo com a análise política do discurso, as identidades são criadas a partir das relações antagônicas, dessa forma, a criação do nós, a autoidentidade, nasce da demarcação do eles. Nesse sentido, observamos os elementos que foram articulados na construção desse antagonismo, apresentando o ponto nodal – o elemento responsável por articular diversas demandas-, e sua cadeia de equivalência, ou seja, as demandas que foram aglutinadas em torno do ponto nodal.



Com a análise do quadro de caracterização das identidades antagônicas, na construção do eles, o ponto nodal é os injustos, a partir do qual se constrói uma cadeia de equivalências conformada por: os Estados Unidos, entraves ao fluxo comercial, não colaboração com organizações internacionais, xenofobia, sociedades desestabilizadas que propiciam o aumento do desemprego, governos que não compartilham pesquisas a nível internacional, não cooperação com a OMS, os que possuem derrotas em seu histórico, desinformação, os imorais, a falta de profissionalismo, os atores maléficos, os não solidários, que não cooperam com as organizações internacionais, os que não colocam como foco principal de suas políticas o combate à Covid-19, os membros do G-20 que continuam cobrando dívidas dos países em desenvolvimento, esses representam a dificuldade em combater a Covid-19


Cadeia de equivalências do eles

Baseado na construção do eles, o discurso de Xi Jinping -e dos porta-vozes- constrói a dimensão do nós a partir do ponto nodal justos, formando uma cadeia de equivalência que articula: facilitação do fluxo comercial, manutenção de empregos, respeito, apoio às organizações internacionais, preocupação com os demais países, estabilidade social, diálogo com a OMS, os que são vitoriosos, a cooperação internacional, o cumprimento de metas, o compartilhamento de pesquisas no plano internacional, os compassivos, os profissionais, os que abraçam as diferenças, a moral, a preocupação em salvar vidas e o combate à Covid-19 como foco principal, a informação, os fundamentos científicos, a solidariedade, os membros do G-20 que não cobram dívidas durante a pandemia, o futuro compartilhado da humanidade, a China guiada por uma visão de comunidade., representando o sucesso no combate à Covid-19.


Cadeia de equivalências do nós

Sua autoidentidade é apresentada como o justo e solidário, ou seja, como um país que age de acordo com um sentimento de solidariedade internacional, com iniciativas para resolver problemas e enviar ajuda, como por exemplo a co-fundação da iniciativa nomeada Solidariedade Global de Combate à Doença de Coronavírus 2019 (COVID-19). Somado a isso, a importância dada ao combate da Covid-19 é atrelada à importância de manter boas relações bilaterais, inclusive com os Estados Unidos. Inicialmente é possível observar uma posição de vítima diante dos ataques feitos pelos EUA.

O principal apoiador do seu discurso no período analisado foi a Organização Mundial da Saúde (OMS) que elogiou as medidas adotadas até então, fato que costuma ser reiterado por Xi Jinping. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, também demonstrou apoio ao presidente chinês, em conversa telefônica realizada no mês de abril, Putin elogiou a ações dos parceiros chineses na Rússia, que ajudaram a estabilizar a situação epidemiológica[22], e afirmou que coordenariam ainda mais seus esforços diplomáticos. Vale salientar que os dois países vêm estreitando laços, tanto pelo viés econômico, já que o país é um dos principais parceiros comerciais da China, quanto geopolítico, formando uma força de oposição aos Estados Unidos. Além disso, demais chefes de Estado também vêm elogiando o governo chinês, como inicialmente Boris Johnson e o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, que em seu twitter[23] preconizou os esforços de Xi Jinping no controle da pandemia. No campo da oposição e reprodução de antagonismos, observa-se chefes de Estado e demais figuras públicas, como no Brasil e Estados Unidos, se opondo as medidas de isolamento, como Lockdown, adotadas pelo governo chinês, acusando a China de ser culpada pela pandemia e levantando até mesmo hipóteses sobre a Covid-19 ser uma arma biológica desenvolvida em laboratório pelo governo chinês. No caso do Brasil temos o exemplo clássico da fala do ex-ministro da educação, Abraham Weintraub, de que a Covid-19 seria um plano de dominação mundial. Em coletiva de imprensa do dia 7 de abril, o porta voz Zhao Lijian’s, quando indagado sobre essa acusação reforçou o discurso do vírus como inimigo de todos e se opôs à estigmas. No mais, recentemente o conflito econômico entre China e Austrália se agravou após essa solicitar a abertura de uma investigação internacional independente sobre as origens do novo coronavírus. Anteriormente, a Austrália havia imposto restrições ao retorno de estudantes chineses ao país. Em resposta ao que classificou como ataques racistas, a China aplicou medidas econômicas contra a carne bovina e a cevada australiana.

Questões como a nova lei de segurança imposta a Hong Kong pela China também reforçaram o campo de oposições, os Estados Unidos retiraram seu status especial de comércio e anunciou limitar a entrada de cidadão chineses no país, o Reino Unido declarou a lei como uma violação grave da Declaração Conjunta de 1984 por meio da qual devolveu sua colônia à China. O Canadá, além de críticas suspendeu seu tratado de extradição com Hong Kong, e até a Organização das Nações Unidas declaram sua preocupação com as vagas e excessivamente amplas medidas estabelecidas pela nova lei de segurança.[24]

No primeiro caso, o porta-voz Zhao Lijian respondeu que qualquer declaração ou ação que prejudique os interesses da China encontrará um firme contra-ataque[25], e no segundo, acusou Reino Unido de grave interferência nos assuntos internos da China. Em resposta ao Canadá, Zhao Lijian postou em seu Twitter no dia 06 de julho de 2020 que condenam veemente os errôneos comentários feitos pelo Canadá e nos reservamos o direito de reagir. Ainda, no dia 29 de junho de 2020, foi lançado um relatório conjunto entre The Asia Society Center on U.S.-China Relations, Bertelsmann Stiftung, e o the George Washington University China Policy Program, chamado Dealing with the Dragon: China as a Transatlantic Challenge, a justificativa foi o comportamento diplomático agressivo, a intensificação de repressão interna e comportamento comercial mercantilista do país asiático.

Dessa forma, é visível que apesar do seu discurso cooperativo e de solidariedade universal frente ao novo coronavírus, os demais litígios com os outros países não desapareceram, as disputas continuam sendo reforçadas e a China continua a ser vista como um desafio no cenário internacional, principalmente pelo ocidente.

No plano interno, nas práticas discursivas de Xi-Jinping não se expressam de forma explícita antagonismos, salvo menções como a de melhorar a ineficácia da mídia, o que nos leva a fazer um paralelo ante performances relatadas por jornais, como as reportagens do South China Morning Post denunciando o desaparecimento de alguns jornalistas chineses que criticaram a ineficácia das medidas do governo[26], e/ou a demora na tomada de ações para o controle da epidemia. No entanto, a China vem lutando para melhorar sua imagem e aumentar a confiança da população, essas que foram extremamente prejudicadas após a morte do médico Li Wenliang, que alertou sobre o surgimento de um novo vírus. Wenliang foi repreendido no dia 3 de janeiro de 2020 por supostamente estar espalhando boatos. Somado a isso, o governo de Xi Jinping vem sofrendo acusações de ter escondido a gravidade da situação nos primeiros 15 dias.

Por fim, com base na análise dos marcos discursivos e com a construção dos antagonismos, é possível aferir-se que a China vem defendendo uma ação conjunta para combater a pandemia, considerada pela mesma como uma guerra global que só pode ser vencida com uma ampla articulação e cooperação internacional. Para isso mobiliza ações de compartilhamento de informações, reforça relações bilaterais, urge para mudanças de políticas macroeconômicas para evitar colapso econômico, e insiste na importância da manutenção de empregos. No mais, apesar de focar em ações conjuntas entende-se pelo seu discurso que a China vem exercendo um papel chave, cujo exemplo deve ser seguido pelos demais países.

O campo discursivo no embate geopolítico com os Estados Unidos

De acordo com os Estados Unidos a China vem agindo de forma estratégica para tirar proveito da situação da pandemia da Covid-19, dentre as acusações temos que o país asiático estaria aumentando suas atuações no mar do sul da China durante a pandemia. Em outra ocasião, um legislador dos EUA levantou na coletiva de imprensa do dia 07 de abril de 2020 uma suposta negociação feita entre China e França envolvendo a troca de máscaras pela implementação da tecnologia 5G da Huawei no país europeu. Mais recentemente, o governo norte-americano chegou a alegar que hacker chineses tentaram roubar dados de vacinas e tratamentos para a Covid-19, e que o país asiático havia encoberto o surto da doença propositalmente, acusações respondidas pela embaixada chinesa em Washington como falsas.

Além, claro, da conhecida declaração de Donald Trump se referindo a Covid-19 como vírus chinês, advertida pelo diretor geral da OMS e respondida pelo representante do Ministério das Relações Exteriores da China. Em sua resposta, o representante anexou um vídeo em que o diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), Robert R. Redfield, reconhecia no Congresso que algumas das mortes por influenza no país podem ter sido causados pelo novo coronavírus, sem especificar datas. (GIL, Tamara. BBC News mundo. 21/03/2020).

Ainda, os tuítes feitos por Zhao Lijian no dia 06 de julho de 2020 reforçam o discurso de embate entre os dois países, e a mudança de postura dos porta-vozes e diplomatas, que passam a adotar a diplomacia do lobo guerreiro, nome que faz alusão a um famoso filme chinês chamado Wolf Warrior II[27]. Essa mudança de postura, que se afasta do perfil estratégico adotado pelo governo do seu antecessor Deng Xiaoping, pode ser atribuída inicialmente, e de forma resumida, a tendência crescente ao nacionalismo e a ascensão chinesa no plano internacional. Em um de seus tuítes, Zhao chama o conselheiro em política comercial da Casa Branca, Peter Navarro, de mentiroso e obcecado por boatos, citando o caso da criação do pseudônimo Ron Vara utilizado por Navarro para criticar a China em seus livros, e o aconselha a responder por que a contagem da nova doença nos EUA é a mais alta do mundo?.[28] Em outro, também direcionado a Navarro, retoma acusações sobre surgimento do novo coronavírus nos EUA, o que está por trás do fechamento do biolab em Fort Detrick? Qual é a conexão entre o fechamento, a doença pulmonar causada por vape, a gripe e COVID19? Quando os EUA convidarão especialistas para investigar a origem do vírus nos EUA?[29]

Por outro lado, alguns atores políticos norte-americanos adotaram uma postura oposta, como o governador de Nova York, que agradeceu a doação feita pela China de 1.000 ventiladores e pela intensa cooperação existente.

O tom do discurso chinês variou entre o defensivo, com maior predominância por meio do uso de elementos emocionais, evocando questões morais, se colocando como vítima de injustiças, evitando reforçar os conflitos pré-existentes, e ofensivo, respondendo duramente os ataques norte-americanos, recorrendo algumas vezes a acusações.

A disputa de narrativas entre Estados Unidos e China sobre o culpado pelo novo coronavírus visa ampliar sua base e influência tanto no plano nacional quanto no internacional. O pronunciamento de Donald Trump sobre a possibilidade de romper com a Organização Mundial da Saúde (OMS) no dia 29 de maio, acusando a China de estar à frente das decisões dela, é uma forma de mobilizar o discurso em torno da Covid-19 para agitar sua base de apoio. E o fato de a OMS no começo do ano ter elogiado a tomada de ação eficiente pelo país asiático, além de repreender Donald Trump por empregar a expressão vírus chinês, podem ter reforçado sua justificativa. Seguindo o mesmo caminho, o presidente do Brasil ameaçou sair da OMS no dia 05 de junho, acusando a organização de possuir um viés ideológico.

No entanto, a disputa discursiva em torno da pandemia é somente uma dimensão de uma tensão geopolítica muito mais ampla, que perdurará pelo menos pela próxima década. Recentemente, China e Estados Unidos têm trocado ameaças devido a atitude dos EUA de aprovar no congresso o Projeto de Lei de Política de Direitos Humanos Uigur 2020, que objetiva punir violações de direitos humanos praticadas por autoridades chinesas contra muçulmanos Uigures em Xinjiang. As disputas no indo-pacífico também não ficaram suspensas durante a pandemia, a questão do mar do sul da China foi presente no discurso analisado, a China durante esse período intensificou suas ações na região, e os Estados Unidos também, já que além de fazer navegações pelo local entre abril e maio, introduziu o projeto de Iniciativa de dissuasão indo-pacífica, com pretexto de defender os interesses nacionais dos Estados Unidos. Ademais, de acordo com reportagem do New York Times (15/07/2020), Trump estaria cogitando barrar a entrada de todos os membros do Partido Comunista Chinês (PCC) e seus familiares.[30] Ainda, no último dia 22 de julho, o presidente norte-americano anunciou o fechamento do consulado chinês em Houston, Texas, acusando-o de ser um centro de espionagem de pesquisas médicas. Ainda, em discurso, Mike Pompeo defendeu uma articulação dos países ocidentais contra a China, dizendo que O mundo livre deve triunfar sobre esta tirania[31]. A medida provocou réplica imediata do país asiático, o perfil da embaixada da China nos Estados Unidos publicou que se tratava de uma provocação política, dizendo que caso a decisão não fosse revogada o país teria que responder com ações legítimas e necessárias.[32] No dia dia 24 de julho, Pequim anunciou a suspensão das atividades do consulado dos Estados Unidos em Chengdu. Aparentemente os países mantiveram suas posições.

É evidente que os antagonismos existentes entre China e EUA se reforçaram durante a pandemia da Covid-19, essa que acrescenta um novo elemento a nova guerra fria que teve seu início com a guerra comercial em 2018, e o acréscimo da dimensão tecnológica com a disputa pelo domínio da tecnologia 5G, além da disputa militar na região do mar do sul da china.

Pandemia como oportunidade?

A pandemia, em certo sentido, pode ter significado uma oportunidade para China, (e para outros países como Estados Unidos). Cabe pontuar alguns exemplos no que se refere à China. O campo de expansão da tecnologia 5G devido seu alto grau de relevância não foi deixado de lado apesar da conjuntura atual. Evidentemente, as tecnologias vêm desempenhando um papel importante no combate à pandemia, como observado na China, a inteligência artificial aliada ao 5G teve papel relevante em sistemas de diagnóstico, consulta remota, medição inteligente de temperatura e robôs inteligentes performando serviços médicos[33]. Observando a efetividade no combate à Covid-19 no país, o Ministério da Ciência e Tecnologia da China anunciou que o país irá fortalecer o apoio do desenvolvimento de tecnologias e novos formatos de indústria, principalmente baseados na internet[34]. De fato, a pandemia tornou-se um fator de aceleração do desenvolvimento tecnológico[35], de acordo com Relatório de Internet da China, lançado pelo South China Morning Post, a Covid-19 acelerou a digitalização da economia por meio do aumento da busca por serviços de saúde e educação online, além do crescimento do consumo de mídia digital. Espera-se que em 2020 o mercado de rede 5G atinja até US$ 85 bilhões, e 175 milhões de assinantes[36]. A instalação de torres 5G no Monte Everest em abril reforça essa prospecção[37].

Ainda, buscando retomar o ritmo de crescimento econômico, a China iniciou testes com o Digital Renminbi, ou yuan digital, atrelada à moeda nacional e controlada pelo Banco do Povo da China. O início dos testes também tem relação com a pandemia do novo coronavírus, o país espera com a implementação da moeda digital evitar contato físico e a disseminação do vírus. Por enquanto, a criptomoeda só pode ser utilizada nas províncias de Shenzhen, Suzhou e Chengdu e Xiong’n.

Referente ao conflito naval presente nos discursos analisados, China e Estados Unidos avançaram durante a pandemia para militarização do Mar do Sul da China. No mês de abril a embarcação chinesa Haiyang Dizhi 8 adentrou a Zona Econômica Especial reivindicada pela Malásia, próximo de uma navio de perfuração, e anunciou a criação dos distritos Xisha e Nansha, para ficarem responsáveis pelas ilhas Paracel e Spratly, essa última reivindicada por alguns países, entre eles a Malásia, que declarou que ação foi um ataque à soberania do país.[38] Os Estados Unidos aumentaram sua presença no mar da China meridional, e também no começo de abril o destruidor de mísseis guiados USS Barry, navegou duas vezes no estreito de Taiwan[39], mais recentemente o país realizou incursões perto das Ilhas Xisha. Além disso, lançaram em abril a Iniciativa de dissuasão indo-pacífica, com orçamento de US$6 bilhões.

Voltando a China, a iniciativa Health Silk Road (HSR), um dos projetos da Belt and Road Initiative (BRI), criada em 2015 e reforçada em 2017, e que tem como objetivo a cooperação na área da saúde, sofreu processo de aceleração devido à pandemia. Antes do surto da Covid-19 a iniciativa progredia silenciosamente, com a realização de fóruns e projetos de cooperação regionais. No entanto, com o surgimento do surto concomitantemente surgiu oportunidade de expandi-la, colocando em prática o que ficou conhecido como diplomacia das máscaras, levando, no dia 24 de abril, a realização do primeiro fórum online sobre a Health Silk Road (HSR). Aparentemente, a pandemia se mostrou como oportunidade para China tomar a dianteira na área de saúde global, agindo principalmente nos países em desenvolvimento. No entanto, HSR não ficou de fora da disputa geopolítica, e recentemente os Estados Unidos, buscando reforçar sua presença no sudeste asiático, lançaram em abril o projeto US-ASEAN Health Futures[40], criando um fundo de US $35 milhões aos países da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) para combater a Covid-19[41].

O tema saúde também tem sido motivo para China aumentar sua presença na África, que já era forte devido os investimentos em infraestrutura. No dia 17 de junho foi realizada por videoconferência a Cúpula Extraordinária China-África sobre a Solidariedade contra a Covid-19. [42] Na ocasião foi afirmado que a China continuará ajudando os países africanos fornecendo suprimentos, enviando equipes de especialistas e facilitando a aquisição de suprimentos médicos na China pela África, além disso, anunciou dentre outras iniciativas a aceleração da construção de hospitais de amizade China-África. É cabível aferir que a presença chinesa nos países africanos será exponenciada ao final da pandemia.

A corrida pela vacina também é uma oportunidade. Inicialmente Reino Unido, China e Estados Unidos estavam na liderança, mas atualmente a Rússia tomou a dianteira, o país declarou no dia 01 de agosto que completou os testes da vacina produzida pelo instituto Gamaleya, e dará início a vacinação em massa em outubro,[43] no dia 11 de agosto a Rússia registrou a vacina, nomeada Sputnik V, e no dia 4 de setembro a proeminente revista científica, The Lancet, reportou que referente às duas primeiras fases da vacina, todos os voluntários desenvolveram anticorpos sem efeitos indesejados[44]. Desde o início das pesquisas a China reforçou seu discurso de solidariedade, em assembleia da OMS (Organização Mundial da Saúde), realizada no dia 18 de maio, Xi Jinping defendeu a universalização da vacina junto à França, e prometeu compartilhar uma eventual vacina, afirmando que essa se tornará um bem público global, disponível nos países em desenvolvimento.[45]

No entanto, até o momento de redação do artigo a China ainda não havia assinado para contribuir para o fundo da COVAX Facility, liderada pela OMS, a Coalizão de Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI), e a Gavi (aliança pela vacina em países em desenvolvimento), que objetiva reunir recursos para garantir acesso há um número maior de vacinas por países em desenvolvimento. Mas o país já dá indícios que pretende aderir ao programa. De acordo com reportagem da Bloomberg[46], no dia 2 de setembro o porta voz do Ministério das Relações Exteriores da China teria afirmado que o propósito da China é altamente consistente com o objetivo da Covax. Atualmente, a China está desenvolvendo nove vacinas, a Coronavac, produzida pelo laboratório Sinovac Biotech, que já entrou na 3° fase de testes no Brasil, na capital paulista – e outra vacina produzida pela Sinopharm, (que será também avaliada no Paraná). Ademais, uma terceira em fase preliminar produzida pela CanSino Biological e Instituto de Biotecnologia de Pequim; outra em 2° fase pela Biofarmacêutica Anhui Zhifei Longcom com Instituto de Microbiologia e Academia Chinesa de Ciências além de outras 4 em fase inicial.[47] No dia 17 de agosto de 2020[48], foi anunciado o registro da primeira patente da vacina contra a Covid-19, chamada Ad5-nCoV.


Xi Jinping em visita a Academia de Ciências Médicas Militares e a Escola de Medicina da Universidade de Tsinghua (Crédito: Governo Chinês)

Vencer a corrida da vacina mais importante dos últimos anos já é um fator de vantagens por si só, econômica e geopolítica. Mas após sofrer acusações de ser a culpada pela pandemia vencer essa corrida, com êxito, também seria importante para possível retomada de confiança dos demais países na China, além de servir como elemento que reforçaria o discurso de Xi Jinping do crescente protagonismo dos campos científico e tecnológico chinês. Como afirmado por Yanzhong Huang, pesquisador sênior em saúde global no Conselho de Relações Exteriores, a vacina permitiria a China demonstrar sua força abrangente, incluindo capacidade de pesquisa.[49] Retomando o quadro de identidades antagônicas, o nós, da dimensão que sempre sai vencedora e o eles que possuem derrota em seu histórico, seriam mais uma vez confirmados, pelo menos em uma das dimensões dessa guerra.

Dessa forma, podemos aferir que em certo sentido a pandemia serviu como oportunidade, seja para expansão do uso, controle e desenvolvimento de tecnologias no plano nacional, como também expansão de poder no plano internacional, mobilizando hard power e soft power, apesar de não ter efetivamente alterado a distribuição de poder. Em momentos de crise os Estados-nação, normalmente, buscam obter vantagens sobre seus rivais. Essa tendência característica das relações internacionais tem sido observada nos últimos meses entre China e Estados Unidos, em um cenário que muitos têm nomeado como nova guerra fria. A corrida pela vacina, a problematização da origem do vírus, as melhores medidas de controle adotadas, o melhor sistema de governo, são questões pelas quais China busca afirmação almejando aumentar seu poder e influência, principalmente nos países em desenvolvimento, para provar o sucesso do socialismo com características chinesas.

Considerações finais


Momentos de crise, principalmente graves como a da Covid-19, tendem a aumentar tensões, reforçar estigmas, preconceitos e xenofobia, podendo despertar o sentimento de Self-Help por parte dos Estados. O discurso de Xi Jinping vai se opor a isso, já que buscou afirmar a necessidade de estreitar a cooperação internacional, seja apelando para tom emocional, como temos um futuro compartilhado, temos que ter esperança que vamos derrotar o vírus ou em alguns casos com tom mais técnico, urgindo para compartilhamento de pesquisas, sendo explícito sua oposição a ações individualistas. Outrossim, observa-se a defesa da adoção de medidas que buscassem equilibrar vida e economia, para a manutenção das metas de desenvolvimento econômico e social, demonstrando um certo grau de equilíbrio entre a razão e a paixão, e sendo predominantemente otimista.

Com base nos materiais analisados, pode-se aferir que o discurso chinês está em consonância com o discurso científico, e apesar de inicialmente apresentar uma preocupação maior com a economia, suas falas e performances foram se alinhando mais fortemente à defesa da vida com o passar das semanas, afirmando que a vida e as pessoas são o mais importante, e defendendo ações conjuntas para aceleração do desenvolvimento de vacinas. A característica mais marcante observada no discurso chinês é o otimismo, seja relacionado a saúde ou a economia, e o apelo emocional a questões como solidariedade, união, e superioridade do socialismo com características chinesas. Por meio da construção da sua autoidentidade e da reconstrução histórica, o discurso objetiva demonstrar sua força nos campos econômico, político e tecnológico. Para Xi Jinping, razão e paixão andam de mãos dadas, e o uso de elementos emocionais é empregado conjuntamente a elementos racionais, uma estratégia para captação de aderentes ao seu discurso, como observado na união de frases motivacionais com planos de ação bem estruturados.

Como supracitado, apesar das correlações de força antagonistas terem sido mantidas, a narrativa retoma à questão cultural estruturada na ideia de futuro compartilhado da humanidade. A título de exemplo tem-se a afirmação de que a vacina para a Covid-19 deve ser tratada como um bem público global para ser disponibilizada aos países em desenvolvimento, reafirmando a sua política de aproximação com África, América Latina e demais países em desenvolvimento na Ásia. O país asiático, que já vinha sendo acusado pelos seus críticos de adotar a diplomacia da dívida (Debt-trap diplomacy) por meio da Belt and Road Initiative, durante a pandemia não diminui sua presença nesses locais e adotou a diplomacia das máscaras. Dessa forma, por meio da análise política do discurso realizada, surge a indagação de até onde há uma reafirmação da sua pretensão de expansão de influência por meio do discurso de solidariedade, e a efetiva utilização da Covid-19 como parte de um projeto maior de busca pela hegemonia.

Caroline Boletta de Oliveira Aguiar, Jorge O. Romano, Ana Carolina Aguiar Simões Castilho, Érika Toth Souza, Juana dos Santos Pereira, Larissa Rodrigues Ferreira, Myriam Martinez dos Santos, Pamella Silvestre de Assumpção, Vanessa Barroso Barreto, Thais Ponciano Bittencourt, Liza Uema, Paulo Augusto André Balthazar, Annagesse de Carvalho Feitosa, Eduardo Britto Santos, Daniel Macedo Lopes Vasques Monteiro, Daniel S.S. Borges, Juanita Cuellar Benavídez, Renan Alfenas de Mattos e Ricardo Dias são pesquisadoras e pesquisadores do grupo de pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (DISCURSO)” vinculado ao Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade e ao Curso de Relações Internacionais do DDAS/ICHS da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, registrado no CNPq e com apoio de ActionAid Brasil


[1] LACLAU, E. La Razón populista. Buenos Aires :Fondo de Cultura Económica. 2007. MOUFFE, C. Agonística. Pensal el mundo políticamente. Buenos Aires: Fondo da Cultura Económica. 2014.

[2] SNOW, D. e BENFORD, R. “Ideology, Frame Resonance and Participant Mobilization” in B. Klandermans, H. Kriesi y S. Tarrow (eds.) From Structure to Action: Comparing Social Movement Research across Cultures. Greenwich: JAI Press, 1988.

[3] GALVÁN, I. E.: La lucha por la hegemonía durante el primer gobierno del MAS en Bolivia (2006-2009): un análisis discursivo. Madrid: Universidad Complutense, tesis de doctorado, 2012.

[4]Metodologicamente, ao longo do texto, pusemos em itálico palavras ou significados tanto expressos nas práticas discursivas dos porta-vozes como aquelas que achamos adequadas, em termos de significado, pelo trabalho analítico e que gostaríamos de destacar.

[5] O NPC é o mais alto órgão de poder do Estado chinês, dentre suas responsabilidades supervisiona o governo e o sistema judicial, elege ou destitui do poder o Presidente de Estado, o presidente da Suprema Corte, o Procurador-Geral, o Primeiro Ministro e Vice-Primeiro-Ministro, entre outros, e examina e aprova o plano nacional de desenvolvimento econômico e social. O CPPCC é um organismo consultivo formado por membros e não membros do Partido Comunista Chinês, realiza reuniões anuais que coincidem com a reunião do NPC.

[6]Relatório sobre o trabalho de propostas desde a Segunda Sessão do 13º Comitê Nacional da CCPPC. Disponível em: http://www.cppcc.gov.cn/zxww/2020/05/13/ARTI1589371523240669.shtml

[7]Máximo órgão de assessoria política da China conclui sessão anual construindo consenso para desenvolvimento. Xinhua.net. Disponível em: http://portuguese.xinhuanet.com/2019-03/14/c_137893951.htm

[8] FENGYUAN, Duan. China’s Two Sessions 2019: Four critical issues in a “key year”. CGTN. Disponível em: https://news.cgtn.com/news/3d3d414e3145444d33457a6333566d54/index.html

[9]Highlights: CPPCC spokersperson briefs media on trade talks, China’s image , other key issues. CGTN. Disponível em: https://news.cgtn.com/news/3d3d514d7755444d33457a6333566d54/index.html

[10] Coronavírus: o impacto na economia chinesa, e por que isso é uma grande ameaça ao mundo. BBC News Mundo. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51938759

[11] Xi’s “two sessions” messages reassuring at difficult times. National People’s Congress of the people’s Republic of China. Disponível em: http://www.npc.gov.cn/englishnpc/c23934/202005/bbd579f675f744e580f5fd586142649c.shtml

[12] Xi focus: Xi extends Chinese New Year greetings to all Chinese. Xinhua. Disponível em: https://bit.ly/3d113sY

[13] White Paper – Fighting Covid-19: China in Action. China Daily. Disponível em: https://covid-19.chinadaily.com.cn/a/202006/08/WS5edd8bd6a3108348172515ec.html

[14] DOTSON, John. The State Response to a Mystery viral oubreak in central china. The Jamestown foundation. Disponível em: https://jamestown.org/program/the-state-response-to-a-mystery-viral-outbreak-in-central-china/

[15]DOTSON, John. The CCP’s New Leading Small Group for Countering the Coronavirus Epidemic—and the Mysterious Absence of Xi Jinping. The Jamestown foundation. disponível em: https://jamestown.org/program/the-ccps-new-leading-small-group-for-countering-the-coronavirus-epidemic-and-the-mysterious-absence-of-xi-jinping/

[16] Disponível em: https://tvi.iol.pt/programa/missa/ e https://bit.ly/30TfrRV

[17]RIBEIRO, Valéria Lopes. A China e a pandemia do covid-19 – das medidas de contenção à estratégia global. Carta maior. Disponível em: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Pelo-Mundo/A-China-e-a-pandemia-do-Covid-19-das-medidas-de-contencao-a-estrategia-global/6/46992

[18] Ibid nota 3

[19] Esses elementos discursivos são mais presentes no início da pandemia na China, quando o governo adotava uma atitude mais relativista frente à situação, e apesar de articular vida e economia desde o princípio, a ênfase nessas duas categorias vai mudar mais visivelmente a partir de janeiro.

[20] Como no texto Xi Jinping Urges Unremitting Efforts in Epidemic Control and Coordinated Economic and Social Development, disponível no site do Ministério das Relações Exteriores da República Popular da China.

[21] Ibid nota 1

[22] Telephone conversation with President of China Xi Jinping. Kremlin. disponivel em<http://en.kremlin.ru/catalog/persons/351/events/63209> acesso em: 07.set.2020

[23] disponível em: <https://twitter.com/CyrilRamaphosa/status/1247966056574042118>. acesso em: 07.set.2020

[24]ONU expressa alarme por prisões em Hong Kong. ONU Brasil. Disponível em: https://nacoesunidas.org/onu-expressa-alarme-por-prisoes-em-hong-kong/

[25]Agência France-Presse. China promete contra-ataque aos EUA após anúncios de Trump sobre Hong Kong. Correio Braziliense. Disponível em: https://bit.ly/3kysMW5

[26] LEW,Linda. Missing Chinese citizen journalists highlight risks of telling Wuhan’s story during coronavirus outbreak. South China Morning Post. Disponível em: < https://bit.ly/3d3jXzB>

[27] ZHU, Zhiqun. Interpreting China’s ‘Wolf-Warrior Diplomacy‘. What explains the sharper tone to China’s overseas conduct recently?. The Diplomat. Disponível em: https://thediplomat.com/2020/05/interpreting-chinas-wolf-warrior-diplomacy/

[28] https://twitter.com/zlj517/status/1280131704535973888

[29] https://twitter.com/zlj517/status/1280131459429232645

[30] MOZUR, Paul; WONG, Edward. U.S. Weighs Sweeping Travel Ban on Chinese Communist Party Members. The New York Times. .Disponível em: https://www.nytimes.com/2020/07/15/us/politics/china-travel-ban.html

[31] SANDOVAL, Pablo Ximénezes; LIY,Macarena Vidal. Em novo embate, EUA pedem guerra à “tirania”, e China ordena fechamento de consulado americano. EL PAÍS. Disponível em: https://brasil.elpais.com/internacional/2020-07-24/em-novo-embate-eua-pedem-guerra-a-tirania-e-china-ordena-fechamento-de-consulado-americano.html

[32] https://twitter.com/ChineseEmbinUS/status/1286022993806753792

[33]RUIZE, Ouyang. 5G’s indispensable role in China’s fight against COVID-19. CGTN. Disponível em: https://news.cgtn.com/news/2020-07-09/5G-s-indispensable-role-in-China-s-fight-against-COVID-19-RXRu9TlZ9S/index.html

[34] http://english.qstheory.cn/2020-04/04/c1125813160.htm.

[35] Ler Yuval Noah Harari: the world after coronavirus. Disponível em: https://www.ft.com/content/19d90308-6858-11ea-a3c9-1fe6fedcca75

[36]QU, Tracy; NICHOLSON, Gareth. SCMP’S China Internet Report 2020 finds that Covid-19 has accelerated digitization of economy. South China Morning Post. Disponível em:https://www.scmp.com/tech/article/3091967/scmps-china-internet-report-2020-finds-covid-19-has-accelerated-digitisation

[37]China instala torres de 5G no monte Everest para fazer transmissão ao vivo do local. Sputnik news. Diponível em: https://bit.ly/3mCjlXE

[38] PEREIRA, Matheus Bruno. As ações silenciosas de Pequim no Mar do Sul da China. Boletim Geocorrente • N. 115 • Maio. 2020

[39] KUOK, Lynn. Will COVID-19 change the geopolitics of the Indo-Pacific?. IISS. Disponível em: https://www.iiss.org/blogs/analysis/2020/06/geopolitics-covid-19-indo-pacific

[40] U.S. -ASEAN Health Futures. U.S. Department of state. Disponível em: https://www.state.gov/u-s-asean-health-futures/

[41]Co-Chairs’ Statement of the Special ASEAN-United States Foreign Ministers’ Meeting on Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) (via Video Conference). Disponível em: https://asean.org/storage/2020/04/Final-Co-Chairs-Statement-for-the-Special-ASEAN-U.S.-Foreign-Ministers-Meeting-on-COVID-19.pdf

[42] XINHUA. Xi preside cúpula China-África e pede solidariedade para derrotar COVID-19. Portuguese Xinhua. disponível em<:http://portuguese.xinhuanet.com/2020-06/18/c_139148406.htm>.

[43] OSBORN, Andrew. Russian COVID-19 vacchine approval imminent, souce says. Reuters. Disponível em: https://br.reuters.com/article/idUSKCN24U1V9

[44] The Lancet publica resultados dos testes clínicos da vacina russa Sputnik V. Sputnik. Disponível em:< https://bit.ly/3i38Ee4>.

[45]https://oglobo.globo.com/mundo/china-franca-defendem-que-vacina-contra-covid-19-seja-bem-comum-resolucao-europeia-pede-reforma-da-oms-24432634

[46] China May Support Global Vaccine Program That Trump Has Shunned. Bloomberg. disponível em:< https://bloom.bg/2Z82cLe>

[47]https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,corrida-por-vacina-contra-o-coronavirus-tem-10-paises-e-24-imunizantes-na-fase-de-testes-clinicos,70003373093

[48] O que significa o registro da 1ª patente de vacina contra coronavírus pela China. BBC News. disponível em:<https://www.bbc.com/portuguese/internacional-53814165>.

[49] KIRBY,Jean. The global risk of “vaccine nationalism”:A Covid-19 outbreak in one country is a threat to all. What happens if the vaccine race is every nation for itself?. VOX. disponível em<:https://www.vox.com/21327487/covid-19-vaccine-coronavirus-trump-us-china-competition>.

Nenhum comentário:

Postar um comentário