Pages

Tapas e beijos: as relações Brasil-China no governo Bolsonaro

Do Le Monde Diplmatique, 17 de setembro de 2020
Por Jorge Almeida



Entre 2003 e 2018, os chineses investiram US$ 54 bilhões no Brasil, sendo que 89% para aquisição de empresas já existentes e 11% em novos projetos. Compraram 72 empresas e investiram em 29 projetos novos, sendo 84% nos setores de energia, mineração, petróleo e gás

As relações econômicas Brasil-China começaram a evoluir nos três últimos anos do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e cresceram bastante nos governos petistas de Lula da Silva e Dilma Rousseff, tanto em termos de trocas comerciais como na importação de capitais chineses pelo Brasil, na forma de investimentos diretos e financiamentos.

A Operação Lava Jato facilitou a entrada chinesa no Brasil, ao quebrar as empreiteiras nacionais que açambarcavam as privatizações em nossa infraestrutura.

Nesse contexto, o Brasil fez diversos acordos com a China em 2015, celebrados em Brasília entre Dilma Rousseff (PT) e Li Keqiang, primeiro ministro chinês, que envolveram US$ 53 bilhões em investimentos e US$ 50 bilhões em financiamentos, via o banco estatal ICBC, em obras de infraestrutura como portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, habitação e energia. Além de um “fundo bilateral de cooperação”, de US$ 20 bilhões.

Entre 2003 e 2018, os chineses investiram US$ 54 bilhões no Brasil, sendo que 89% para aquisição de empresas já existentes (“brownfield”) e 11% em novos projetos (“greenfield”). Compraram 72 empresas e investiram em 29 projetos novos, sendo 84% nos setores de energia, mineração, petróleo e gás.

Ao final de 2018, a China já tinha investido US$ 69,2 bilhões, incluindo 155 projetos já desenvolvidos ou confirmados. Ademais, havia mais 162 investimentos anunciados no valor de US$ 64,7 bi, totalizando, entre efetivados, confirmados e anunciados, US$ 133,9 bi (CARIELLO, 2019).

Com o impeachment de Dilma Rousseff, ao contrário do que se especulou, os negócios aumentaram. Não por acaso, Michel Temer (MDB) fez duas viagens à China, sendo o primeiro país visitado por ele, e a China consolidou sua exportação de capitais para o Brasil.

Desde 2009, a China é o maior parceiro do Brasil, com o comércio bilateral passando de US$ 3,1 bilhões em 2001 para US$ 98 bi em 2019 e, desde 2015, é o maior investidor direto de capitais no país.

Bolsonaro, a China e as contradições com sua base social

A campanha eleitoral de Bolsonaro foi fortemente anti-China, chegando ao ponto de ofender política e simbolicamente aquele país, ao visitar Taiwan em 2018. Os chineses protestaram moderadamente.

Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante recepção ao Presidente da República Popular da China, senhor Xi Jinping. (Allan Santos/PR)

Um tema forte em sua campanha foram as relações exteriores dos governos anteriores quando a China estaria sendo supostamente privilegiada por causa de aproximações ideológicas entre o PT e o Partido Comunista chinês. Além disso, a China estaria “predando” e “comprando” nosso país e ele, como “patriota”, nos defenderia disso.

Mais uma vez, especulou-se, à direita e à esquerda, sobre uma redução nas relações econômicas Brasil-China se Bolsonaro vencesse.

Em resposta às sinalizações negativas de Bolsonaro em relação à China, governantes, empresários e órgãos da mídia chinesa se movimentaram institucionalmente, com lobbies, declarações públicas, reportagens e editoriais “semi-oficiais” na mídia do país asiático.

A retórica patriótica de Bolsonaro é um fake anticomunista, mas serve para justificar o alinhamento à política externa de Donald Trump e aos interesses dos monopólios dos EUA. Só não é um alinhamento totalmente automático justamente por causa dos negócios com a China e países do Oriente Médio.

Por isso, depois da posse, seguindo pressões do grande capital brasileiro do setor primário-exportador, especialmente do agronegócio e da mineração, o novo presidente alterou a sua política em relação à China, passando a ser tutelado pelos setores que dão forte sustentáculo ao seu governo, além dos militares, que também foram afirmativos a favor de boas relações econômicas com a RPC.

Foi o que vimos já em janeiro de 2019 quando, a convite dos chineses, um grupo de parlamentares, principalmente do PSL, foi à China visitar empresas de exportação, especialmente um sistema de segurança de reconhecimento facial digital, gerando conflitos agressivos nas hostes bolsonaristas, a começar por Olavo de Carvalho, considerado guru da família presidencial, que atacou os parlamentares com xingamentos e teve retorno no mesmo baixo nível, além de argumentações em defesa de “relações racionais”.

Com isso, setores do capital primário exportador e seus representantes políticos deixaram claro que não aceitam aventuras ideológicas em detrimento de seus lucros, através da exportação de suas commodities e investimentos diretos chineses na construção e administração de uma infraestrutura privatizada para reduzir seus custos de produção e escoamento de mercadorias. Que é tudo que a China também quer, além da exportação de suas mercadorias de maior valor agregado.

Por isso, Bolsonaro foi o único presidente do Brasil que, no primeiro ano de mandato, esteve mais vezes com um presidente chinês: três encontros, quando foram selados diversos acordos bilaterais. A visita à China foi saudada pelo jornal oficial do PCCh (Diário do Povo) como uma prova da “normalidade das relações sino-brasileiras” e, antes dele, o vice Mourão já tinha sido recebido por Xi Jinping em Pequim, quando, de acordo com o jornal China Daily, declarou que o governo Bolsonaro “atribui grande importância às relações com a China, admira a ideia do Partido Comunista da China exercer o poder para o povo e elogia muito as importantes contribuições da China para o crescimento econômico global”.

No encontro, o presidente brasileiro chegou a pedir aos chineses o favor de investir no leilão das bacias de petróleo que estava em curso, pois nenhuma empresa estrangeira estava interessada e o governo brasileiro precisava dar alguma satisfação ao público. De fato, o leilão acabou sendo um fracasso e a única entrada de capital estrangeiro foi da estatal chinesa CNODC, que fez uma parceria com a Petrobrás.

Além disso, o Brasil recebeu Xi Jinping, sediou uma reunião dos BRICS e indicou para a presidência do banco da instituição (NDB), sediado em Pequim, Marcos Troyjo, que era Secretário de Comércio Exterior do Ministério da Economia do governo Bolsonaro.

Finalmente, o Brasil manteve os acordos multilaterais e bilaterais com a China em diversos setores, inclusive no sensível programa CBERS de cooperação aeroespacial para construção e lançamento de satélites, que lançou o sexto satélite em dezembro de 2019.

As contradições estão presentes até entre os próprios filhos do presidente. Enquanto o deputado Eduardo (PSL) ataca sistematicamente os chineses, seu irmão, senador Flávio (Republicanos), participou de uma delegação à China, tendo elogiado os anfitriões antes, durante e depois da viagem, quando esteve na sede da Huawei e com dirigentes do PCCh e declarou buscar investimentos chineses bilionários no setor de petróleo e gás do Rio de Janeiro.

Como vemos, o grande capital brasileiro, na sua histórica relação subordinada ao capital internacional, está pouco interessado em discursos ideológicos estratosféricos e na origem desses capitais, preferindo fazer negócios e obter os seus lucros particulares, mesmo que prejudiciais a um projeto nacional que possa romper nossa dependência histórica.

Chegando à China para a visita oficial, Jair Bolsonaro disse que estava “num país capitalista”, talvez para se justificar perante sua base anticomunista e neofascista. Foi uma das poucas vezes que Bolsonaro acertou pois, desde as reformas pró mercado iniciadas pelo PCCh e o estado chinês no final dos anos 70, a China vem consolidando o modo de produção capitalista, domesticamente e nas relações internacionais (SOUZA, 2018, ALMEIDA 2019).

Tem hoje o segundo PIB do mundo (FMI) ou, de acordo com os critérios do Banco Mundial, o primeiro. Possui o maior PIB industrial, é o maior exportador do mundo e avança rapidamente em ciência e tecnologia. As relações de produção capitalistas foram se generalizando, acompanhadas de descoletivização do campo, privatizações amplas, estatais a serviço de um projeto nacionalista de mercado, desmonte da seguridade social e, apesar da diminuição da pobreza, uma explosão da desigualdade. Agora é uma potência defensora da chamada globalização e da abertura econômica.

Pandemia: “vírus chinês” x “vírus mental”

Em 2019, Bolsonaro e seu governo evitaram fazer críticas à China e não interpuseram obstáculos a que tudo continuasse mais ou menos como antes.

Mas, com a pandemia da Covid 19, a xenofobia e o anticomunismo anabolizaram os discursos mais reacionários de governantes federais e seus apoiadores, provocando novos atritos e muitas notícias desencontradas sobre aquisição de equipamentos médicos chineses, realimentando especulações e gerando confusões à direita e à esquerda.

A temperatura subiu quando, em março, o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República e presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara Federal disse que a China era culpada pela pandemia do “vírus chinês” e de ter censurado sua divulgação, como na “ditadura soviética”.

A China respondeu através de seu embaixador no Brasil, Yang Wanming, que, repudiando “veementemente” a fala do deputado, exigiu uma “desculpa ao povo chinês”, acusando-o de ter contraído um “vírus mental” em Miami.

Ernesto Araújo, Ministro das Relações Exteriores do Brasil, veio em defesa do deputado e exigiu que o embaixador se retratasse, piorando as relações diplomáticas e gerando boatos de prejuízos à economia brasileira.

O momento mais tenso foi quando o presidente Bolsonaro buscou acomodar o conflito, tentando telefonar para o presidente Xi Jinping. Porém, a Embaixada da China negou o telefonema dizendo que Eduardo Bolsonaro tinha “que pedir desculpa ao povo chinês”. Mas a conversa acabou acontecendo uma semana depois e Jair Bolsonaro informou que “os laços de amizade” e comércio tinham se ampliado.

Contudo, depois disso, vários rounds se sucederam. Eduardo Bolsonaro voltou a atacar o “vírus chinês”, sendo contestado pelo Consul da China no Rio de Janeiro, que o chamou de “ingênuo”, “ignorante” e incapaz de “representar o grande país que é o Brasil”. Abraham Weintraub, fez uma piada xenófoba e foi contra-atacado como “racista” com “objetivos indizíveis”.

Em maio, veio a divulgação do vídeo de uma reunião ministerial de 22 de abril, quando o presidente e o ministro Paulo Guedes atacaram a China, mas o embaixador chinês minimizou o fato. Porém, em seguida, o filho nº 03 voltou à carga num vídeo com uma bandeira de Taiwan e o slogan “Viva Taiwan”.

Enfim, não houve retratações nem retaliações econômicas. As respostas dos chineses seguiram sua orientação pragmática pois, para eles, a uma única condição indispensável para manter relações diplomáticas e bons negócios com outros países, é o reconhecimento da RPC como sendo a única China e não o governo de Taiwan, considerada parte do país.

Quem sai ganhando?

O saldo comercial é bem positivo para o Brasil mas, estrategicamente, é desfavorável pois nossa importação é de industrializados e a exportação é de bens primários. A política econômica brasileira durante o chamado neodesenvolvimentismo dos governos petistas, facilitou os interesses chineses, especialmente comerciais. Mas, veio o esgotamento do modelo, o aprofundamento da crise econômica e o enfraquecimento das empresas nacionais, ao tempo em que a China avançava sua estratégica expansionista. Isso permitiu também o aprofundamento da exportação de capitais para cá, justamente quando a China, em abrangente aliança estratégica com a Rússia, despontava como principal potência desafiante dos EUA, expressando uma competição de tipo interimperialista.

Foi um salto de qualidade dos asiáticos, pois a exportação de capitais é uma das características principais de um país imperialista e, no caso, da dependência do Brasil, inclusive dentro dos BRICS.

Pensando num projeto de verdadeira independência nacional e de transição democrática e popular ao socialismo, a implementação de capitais monopolistas estrangeiros, reforça a nossa dependência, diversificando-a, porém, aprofundando-a.

Bolsonaro encontrou relações imperialismo-dependência entre China e Brasil, estrutural e superestruturalmente, estabelecidas e com amplo apoio na classe dominante e nas elites políticas conservadoras, neoliberais, social-liberais e neodesenvolvimentistas, que aderiram à “atração de investimentos de capitais”, como se isso fosse “desenvolvimento”.

Por isso, independentemente dos desejos ideológicos de Bolsonaro, no seu governo os negócios Brasil-China continuam fortes, mesmo com os conflitos na pandemia. No primeiro semestre de 2020, as exportações brasileiras para a China bateram recordes aumentando 11,3% e as agrícolas cresceram 30%. Os investimentos também voltaram a crescer em 2019, após uma reduzida durante a campanha de 2018, quando os chineses, e os estrangeiros em geral, foram mais cautelosos.

Além disso, as relações comerciais não dependem somente do governo federal. O empresariado, diretamente, e os governos estaduais e prefeituras também as fazem e as estão patrocinando, buscando “atrair investimentos”. Exemplo significativo, foram os contatos formais que o “Consórcio dos Estados do Nordeste” tem feito com a embaixada da RPC para negociar investimentos.

No entanto, a questão mais estratégica no momento é a importação pelo Brasil do sistema de Internet 5G. Quem tem a melhor tecnologia e preço é a empresa Huawei, que vem sendo boicotada pelos EUA sob a acusação de estar a serviço da espionagem chinesa. A Anatel realizaria o leilão neste ano mas, apesar de não ter sofrido restrições do Gabinete de Segurança Nacional (GSI), foi adiado para 2021, sob alegação de dificuldades geradas pela pandemia da Covid-19.

Jorge Almeida é professor do Departamento de Ciência Política e do PPG de Ciências Sociais da UFBA

Referências

ALMEIDA, Jorge. As Relações China-Brasil em leitura comparada nos governos de Lula-Dilma, Temer e Bolsonaro. Anais do 43º Encontro Anual da ANPOCS, 2019, Caxambu.

CARIELLO, Túlio. INVESTIMENTOS Chineses no Brasil 2018: O quadro brasileiro em perspectiva global. CEBC – CONSELHO EMPRESARIAL BRASIL-CHINA, Rio de Janeiro, 2019.

SOUZA, Renildo. Estado e Capital na China. Salvador, EDUFBA, 2018.

Nenhum comentário:

Postar um comentário