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Pantanal queima e batistas ajudam bombeiros, brigadistas e moradores

Do IHU, 11 Setembro 2020
Por  Edelberto Behs, jornalista.


Foto: Secom MT/Mayke Toscano
A Igreja Batista de Poconé, município do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, localizado a 104 Km ao sul de Cuiabá, arrecada recursos desde 12 de agosto para apoiar bombeiros, brigadistas e marinheiros empenhados em debelar incêndios.

“Nós não podemos ir ao Pantanal apagar focos de incêndio, mas nós podemos fazer alguma outra coisa e assim veio a ideia de lavar as fardas desses combatentes”, explicou ao G1 do Mato Grosso o pastor Samuel Santos. A campanha não se limita às fardas limpas, mas estende-se também ao conserto das casas de famílias pantaneiras danificadas pelo fogo, que dura já dois meses.

Voluntári@s da igreja vendem pratos prontos de comida em eventos da igreja e o dinheiro arrecadado vai para o caixa da campanha. Pastor e fiéis já entregaram mais de duas toneladas de alimentos a famílias que vivem na região do Pantanal.

O avanço do desmatamento no bioma pantaneiro e na Amazônia produziu, segundo pesquisadores, a pior seca no Pantanal dos últimos 47 anos. Viajando pela região, o repórter Gustavo Basso constatou, no início do mês, a nuvem de fumaça que encobria uma área de mais de 80 Km de raio entre os municípios de Poconé e Barão do Melgaço, deixando no ar um cheiro de madeira queimada e tornando difícil a respiração. Também encontrou, ao longo da Transpantaneira, animais mortos vitimados pelo fogo.

Dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e replicados na reportagem de Basso para a revista National Geographic mostram que de janeiro até o final de agosto de 2020 o fogo no Pantanal, na parte brasileira, já queimara 18,6 mil Km2, cerca de 12% do total do bioma, uma área correspondente a 12 cidades de São Paulo.

O Inpe detectou, do início do ano até 3 de setembro, 10,3 mil focos de queimadas, o maior número para o período desde o início dos registros, em 1998. Dos 250 mil Km2 da área do Pantanal, 60% estão em terras brasileiras, os demais 40% ficam na Bolívia e no Paraguai.

“O bioma é considerado o mais preservado do país, com 83% de cobertura vegetal nativa, e apresenta a maior densidade de espécies de mamíferos do mundo, com uma concentração nove vezes maior que a vizinha Amazônia, de onde recebe parte das águas que o inunda todos os anos. É esse ambiente que vem queimando com força extrema nunca visto, segundo brigadistas do Prevfogo (Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, do Ibama)”, relata Basso.

Entre bombeiros do Mato Grosso, do Mato Grosso do Sul, militares, brigadistas e contratados do Sesc Pantanal são 160 pessoas que atuam no combate ao fogo na região.

Especialistas ouvidos pelo repórter Vinicius Leme, da BBC News Brasil, afirmaram que o Pantanal vive, atualmente, a sua maior tragédia ambiental das últimas décadas. “E o receio é que isso seja um ‘novo normal’, como consequência das mudanças acumuladas causadas pelo homem, que alteraram o ciclo de chuvas, seca e das inundações naturais do Pantanal”, disse o coordenador técnico do MapBioma, o geógrafo Marcos Rosa.

Segundo dados da Embrapa, o volume de chuvas na Bacia Pantaneira de outubro de 2019 a março de 2020, o período chuvoso na região, foi 40% menor que a média de anos anteriores. Um dos fatores associados à falta de chuva no Pantanal, explica a matéria da BBC, é a degradação da Amazônia.

“Com a aceleração do desmatamento da Amazônia ao longo dos anos, o período de chuvas tem encurtado e as secas se tornaram mais severas na região central e sudeste do país”, explicou Vinícius Silgueiro, do Instituto Centro de Vida.



Foto: Imagem de satélite da Nasa

O sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real, do Inpe, registrou, no primeiro semestre deste ano, 3,069 mil quilômetros quadrados sob alerta de desmatamento na Amazônia, o maior número dos últimos cinco anos. Essa destruição afeta o fenômeno conhecido como “rios voadores”, em que a corrente de umidade que surge na floresta forma uma grande coluna de água que é levada pelo ar para regiões da América do Sul.

“A Amazônia dá vida a, praticamente, todos os biomas do continente, incluindo o Pantanal. À medida que a floresta vai diminuindo e perdendo suas funções ecológicas, esse ‘serviço ambiental’ que ele presta também vai sendo alterado e se perdendo”, explicou Silgueiro para a BBC.

Levantamento do Ministério Público do Mato Grosso do Sul indicou que cerca de 40% do desmatamento na área pantaneira do Estado podem ter ocorrido de forma ilegal, uma vez que não foram identificadas autorizações ambientais. Até o ano passado, foram desmatados 24,9 mil quilômetros quadrados do Pantanal, ou seja, 16,5% do bioma, número que equivale a mais de quatro vezes a área de Brasília.

“Denunciamos, há muito tempo, que existe uma frente de desmatamento muito grande no Pantanal nos últimos anos. Muitas dessas queimadas estão ligadas à prática agrícola do uso do fogo, que, infelizmente, é cultural em nossa região. É uma situação que tem se expandido, porque o Governo Federal fortalece a sensação de impunidade”, afirmou o diretor da ONG ECOA – Ecologia & Ação, o biólogo André Luiz Siqueira.

Essa fiscalização era feita, no bioma, pelo Ibama e por iniciativas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “As unidades de conservação nos Estados do Pantanal estão completamente desaparelhadas. Nós, do terceiro setor, estamos tendo que ajudar as brigadas de incêndio, o Prevfogo e os bombeiros da região no combate aos incêndios”, informou o biólogo.

Desde o ano passado, reporta a matéria da BBC, o governo Bolsonaro iniciou um desmonte de órgãos de fiscalização ambiental, o que prejudicou o combate às queimadas em todos os biomas.

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