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''Nunca pense que o próximo protesto resolverá o problema''

Por que um veterano nas lutas por direitos civis nos EUA acha que os protestos se parecem mais com 1963 do que com 1968


Da Carta Maior, 5 de Setembro, 2020
Por Ruarí Arrita-Kenna


Créditos da foto: O historiador Clayborne Carson, ao responder a perguntas em uma coletiva de imprensa no campus do Morehouse College, Atlanta, terça-feira, 13 de janeiro de 2009. (AP Photo/WA Harewood)

“Estamos no estágio inicial de outra era de ativismo popular para alcançar mudanças políticas”, disse o historiador Clayborne Carson em uma sessão de perguntas e respostas para a revista POLITICO.

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O verão de 2020 certamente será incluído nos livros de história do futuro, não apenas por conta da Covid-19, mas também pela a onda de manifestações em todo o país, provocada pelo assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis em maio. Mas assim como a pandemia não é verdadeiramente sem precedentes, o movimento de massa por igualdade racial também não. Só que não é com 1968 que devemos comparar o momento atual. De acordo com o historiador Clayborne Carson, é com 1963.

Quando se trata da luta pelos direitos civis, Carson, professor de história americana na Universidade de Stanford e diretor do Instituto de Pesquisa e Educação Martin Luther King Jr., conhece o passado melhor do que ninguém. Ele compareceu à Marcha sobre Washington. Ele experimentou a brutalidade policial em primeira mão na década de 1960. E ele estudou e escreveu sobre a vida e o legado de ativistas dos direitos civis desde então.

A revista Politico conversou com Carson esta semana para perguntar o que ele acha da atual iteração da luta, como ela se compara à era anterior e o que os manifestantes de hoje podem aprender com seus antecessores. Ele está impressionado com o número de jovens ativistas que foi às ruas e rejeita a noção de que os saqueadores são representativos do movimento. Mas ele também observa a ausência conspícua de “líderes morais” que assumem a responsabilidade de manter uma imagem pública pacífica para os protestos. “Ter essas pessoas como modelos de como você pode fazer isso de uma maneira diferente, de como a raiva pode se transformar no tipo de compromisso que John Lewis demonstrou, acho que manteve o movimento mais ou menos no reino do ativismo não violento.”

Para Carson, no entanto, não são tanto as demonstrações que determinarão se a visão de King será realizada, mas o que virá depois. “Claro, existem lições que podemos aprender com o passado. Sempre há, mas é verdade que o movimento no passado não deu conta do recado”. Para não se parecer com os anos 60, ele acredita que esta geração deveria pegar um pouco do que funcionou naquela época e combinar isso com suas próprias habilidades e experiências do século 21 para “traduzir o protesto em algo duradouro”.

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Ruarí Arrita-Kenna: Na sua opinião de estudioso e participante da longa luta pela liberdade dos afro-americanos, como você a descreve, o que está acontecendo agora nos Estados Unidos se compara e se desenvolve a partir dos protestos de 50 anos atrás?

Clayborne Carson: Estou feliz que você colocou nesses termos. Quando as pessoas dizem coisas como “nos dias do Movimento dos Direitos Civis”, eu meio que estremeço. É uma noção muito romantizada da década de 1960 que trata a primeira metade da década como se ela estivesse desconectada da segunda metade. As pessoas tendem a ver o início dos anos 60 como um “bom” movimento pelos direitos civis que foi seguido por uma era distinta vista de forma muito negativa apenas como motins e Black Power e todo esse tipo de coisa. Na realidade, eu o vivi como um movimento contínuo e conectado. Martin Luther King Jr. também esteve presente no final dos anos 60. A situação no momento de sua morte era muito diferente da situação em que ele estava fazendo o discurso 'Eu tenho um sonho', mas era a mesma pessoa. Sua agenda era muito mais ampla no final dos anos 60. Ele tinha estado em Chicago, ele esteve na marcha Black Power pelo Mississippi, e foi quando as divisões dentro do movimento se tornaram mais evidentes, mas era uma divisão dentro do movimento. Stokely Carmichael saiu do mesmo movimento de King. Ele não veio de Marte.

Então, eu vejo o que está acontecendo agora, na medida em que está replicando os anos 60, que provavelmente estamos em algum lugar por volta de 1963. Essa pode ser a melhor analogia. King descreveu aquele ano como o ano da nossa revolução. Houve protestos em Chicago, Nova York, Los Angeles e todos esses lugares diferentes. É mais ou menos onde estamos agora. Há muitos conflitos. Estamos no estágio inicial de outra era de ativismo popular para alcançar mudanças políticas. E, no geral, estou feliz por estarmos tendo isso porque acho que não respondemos à pergunta de King em seu último livro: para onde iremos a partir daqui? Acho que estamos vendo uma tentativa de responder a essa pergunta.

Ruarí Arrita-Kenna: O que é diferente desta vez?

Clayborne Carson: Uma das coisas é a escala. A noção de que todo mundo estava nas ruas nos anos 60… está mais perto disso agora do que nunca. Eu estava na Marcha sobre Washington em 1963 e fiquei muito impressionado ao ver 200.000 pessoas. Eu cresci em uma pequena cidade no Novo México, então essa ocasião reuniu mais gente do que eu já tinha visto na minha vida, e aquilo era bastante incrível para mim. Mas quando você pensa sobre o que aconteceu depois do assassinato de George Floyd, provavelmente naquela semana houve a mobilização de mais de um milhão de pessoas e, desde então, milhões mais. A escala é espantosa e muito disso tem a ver com a tecnologia disponível agora. As notícias podem viajar mais rapidamente e são menos centralizadas. Para anunciar algo como a Marcha sobre Washington, você tinha que construir uma rede para espalhar a informação, porque você não iria aparecer no noticiário da noite. Uma forma de olhar para o momento atual é que as pessoas, que estão familiarizadas com as mídias sociais e são capazes de usar a Internet de forma eficaz, podem fazer o que organizadores experientes como A. Philip Randolph e Bayard Rustin demoraram meses para fazer, e eles foram os melhores em de sua época.

Estamos trabalhando num ambiente em que existe esse estímulo para a mudança que vem dos jovens, da mesma forma que os jovens sempre foram os mais impacientes. Mas, novamente, é importante notar que uma proporção maior de jovens está envolvida em protestos e manifestações hoje do que em qualquer momento na década de 1960. Eu acho que a coisa esperançosa é que ao contrário dos protestos pelos direitos civis do início dos anos 60, alguns desses protestos agora são de maioria branca, ou pelo menos tem maioria não negra. Acho que indica uma mudança de mentalidade, mas, além disso, acho que indica que, mesmo entre os norte-americanos brancos, existe um abismo geracional.

Se apenas pessoas com mais de 35 anos tivessem respondido a George Floyd, estaríamos ao menos tendo essa conversa? Não acho que haveria o mesmo movimento. Não é que as pessoas mais velhas não tenham ficado perturbadas com isso, mas nossa resposta provavelmente seria: 'oh, isso foi terrível e ainda está acontecendo, mas o que pode ser feito a respeito?' É preciso um jovem para vir e dizer: 'sim, é terrível e ainda está acontecendo, então vou fazer algo a respeito.'

Quando pensamos sobre as pessoas que iniciaram esta última onda de protestos Black Lives Matter, temos que pensar, também, sobre seu ciclo de vida. Eles passaram pelo 11 de setembro, pela eleição do primeiro presidente negro, pelo Movimento Occupy, pelos tiros contra Trayvon Martin e Ferguson e por todos os incidentes desde então, pela eleição de Donald Trump. Eles passaram por tantos eventos politizados em suas curtas vidas. É condensado o que levaria décadas na minha geração - para acumular esse tipo de experiência e esse tipo de rede. Isso vai alimentar os próximos 10 anos. Nós vamos ver com que eficiências esta geração traduz sua experiência e essa raiva em uma mudança durável positiva.

Ruarí Arrita-Kenna: Há riscos pelo movimento estar tão grande assim hoje? Parece que a escala o torna mais suscetível de ser caracterizado pelos oponentes como violento ou irracional, mesmo que incidentes específicos, como o vídeo na semana passada de manifestantes gritando em um restaurante em DC, não sejam representativos da grande maioria dos manifestantes por aí.

Clayborne Carson: A escala agora é possível devido à liderança descentralizada, mas com isso vem a desvantagem de não haver um grupo central de pessoas responsáveis. Para a Marcha sobre Washington, houve alguém que assumiu a responsabilidade e disse: 'Se isso acabar em violência, eu sou o culpado porque sou eu quem está organizando, sou eu quem está liderando.' Agora, ninguém é realmente responsável, não só pelas ações dos manifestantes, mas pelo sucesso do movimento. E por sucesso, quero dizer não apenas em termos dos protestos, mas de obter um resultado positivo a partir deles.

A Marcha sobre Washington pretendia que a legislação de direitos civis fosse aprovada, então esse era o objetivo. Não era simplesmente trazer 200.000 pessoas para Washington e mandá-las para casa. O ponto não era a demonstração. A questão era que a manifestação era um meio para um fim, e você precisa de liderança e estrutura para conectar o protesto ao objetivo final. Quando eu tinha 19 anos, não estava envolvido no objetivo final. Não ajudei a redigir a Lei dos Direitos Civis de 1964. Minha participação era simplesmente estar lá e ir para casa, mas isso significava que outras pessoas tinham que usar minha presença como um meio de dizer que isso é algo que devia ser feito. Tem que haver aquela entidade ou conjunto de líderes que podem traduzir o protesto em algo duradouro. No final da Marcha sobre Washington, os líderes foram à Casa Branca e tiveram uma reunião sobre como traduzi-la em legislação. No final desses protestos, quem se senta e analisa a mecânica da reforma policial e algumas das questões mais amplas?

Ruarí Arrita-Kenna: O fato de ainda estarmos lidando com tantas das mesmas injustiças raciais, como a brutalidade policial, mais de 50 anos depois de Martin Luther King e da Marcha sobre Washington ,sugere que as táticas empregadas talvez não tenham tido tanto sucesso em corrigir os problemas que estavam abordando? O que isso diz sobre as lições a serem aprendidas com o passado?

Clayborne Carson: Claro, existem lições que podemos aprender com o passado. Sempre há, mas é verdade que o movimento no passado não deu conta do recado. Portanto, olhar para trás como o modelo para o modo de realizar o trabalho é talvez muito daquela romantização de uma geração anterior.

Não concordo com a noção de que o movimento deva assumir a responsabilidade por coisas que eu considero resultados de um policiamento ruim ou jornalismo ruim. Se você tem algumas pessoas que estão se manifestando pacificamente e outras que estão saqueando e sendo destrutivas, eu não acho que elas mereçam o mesmo rótulo. O que você tem são pessoas que estão dizendo: 'Eu sei que a polícia está lá enfrentando manifestantes pacíficos, então eles não podem estar aqui protegendo esta propriedade, e eu vou aproveitar isso saqueando'. Por que chamar essa pessoa de manifestante? Contra o que eles estão protestando? Eles estão apenas usando a oportunidade de uma demonstração para fazer algo muito egoísta.

Basta uma pessoa para atear fogo. Para saquear uma loja, basta alguém quebrar as janelas. É muito difícil controlar isso, mesmo durante a década de 1960 no Sul, já era algo muito difícil de se fazer. Como você vai evitar que alguém em Albany, Geórgia, atire pedras na polícia? Bem, King tentou fazer isso, mas apenas com sucesso modesto.

Mas acho que há uma coisa que consideraria uma lição positiva dos anos 1960, olhando para trás. Havia violência e raiva naquela época: tudo o que aconteceu em Birmingham em 1963 não foi apenas que crianças não violentas foram espancadas pela polícia; também houve pessoas jogando pedras na polícia. Quase houve um motim em Birmingham em 1963. Mas uma coisa diferente foi que havia um grupo chave muito pequeno - talvez uma pequena porcentagem de todas as pessoas que eram manifestantes na década de 1960 - em quem as ideias de Gandhi estavam profundamente enraizadas, ideias gandhianas de não violência, como as pessoas que vieram por meio das oficinas de James Lawson. Não era mais do que 5 ou 10 por cento de todas as pessoas nesses protestos que tiveram esse tipo de treinamento. Mas veja o que aconteceu com eles. Esses são os John Lewises, os Bernard Lafayettes, os Diane Nashes, os James Bevels. Foram eles que deram um modelo e deram forma à imagem pública do movimento.

Nem todo mundo o seguiu. Stokely Carmichael não queria levar uma surra na cabeça e ele estava lá também. Mas o que o pequeno grupo estava disposto a fazer era ser a tropa de choque do movimento. Eles estavam dispostos a fazer passeios livres no Alabama e no Mississippi. Eles suspeitavam que tentar fazer isso de forma não violenta poderia resultar em sua morte, mas eles estavam dispostos a correr esse risco porque eram altamente comprometidos e dedicados. Não vejo esse tipo de quadro em muitos lugares agora. Ter essas pessoas como modelos de como você pode fazer isso de uma maneira diferente, de como a raiva pode se transformar no tipo de compromisso que John Lewis demonstrou, acho que manteve o movimento mais ou menos no reino do ativismo não violento.

Mesmo aquelas pessoas que foram para o Sul como Stokely Carmichael, estavam dispostas a tolerar essa disciplina porque a viram. Stokely Carmichael e John Lewis estiveram juntos na prisão no Mississippi em 1961. Eles não concordaram na época e não concordaram mais tarde, mas Stokely Carmichael foi capaz de admirar aquela disciplina e aquele compromisso com a não violência que viu em John Lewis.

Agora, eu acho que de algumas maneiras isso teve o mau resultado de manter essa raiva reprimida, e acho que o slogan do Black Power era aquela raiva quando chegava ao ponto em que você não conseguia mais mantê-la dentro de si, você não queria mais ser a vítima. Portanto, não é tão surpreendente que em certos pontos, quando você olha de perto para alguém como Stokely Carmichael, ele simplesmente se cansou de apanhar. Mas eu acho que para aquele período do início dos anos 1960, talvez até o ápice da Marcha de Montgomery, a imagem pública do movimento foi moldada por pessoas como John Lewis. Isso é o que você via nos jornais. Essa é a imagem que as pessoas tinham, e o que não viam, pelo menos não até o final dos anos 1960, eram pessoas como Stokely Carmichael. Então eu me pergunto agora, onde estão as pessoas que têm esse mesmo tipo de compromisso espiritual profundo com a não violência?

Pense em como as coisas seriam diferentes se você tivesse hoje pessoas no comando das manifestações comprometidas em confrontar a polícia, mas sem violência, e se isso significa levar uma surra, então que seja. Isso seria enviar uma mensagem a todos os outros de que você pode expressar bravura, não lutando contra a polícia, mas confrontando-a de forma não violenta. Essa é uma mensagem simbólica muito poderosa. Dito isso, o protesto não violento não é um fim em si mesmo, mas uma ponta de lança da luta por justiça social.

Ruarí Arrita-Kenna: Você está preocupado que os protestos possam provocar um recuo político? Que as pessoas ficarão mais atraídas por alguém como Donald Trump, que diz oferecer “lei e ordem”?

Clayborne Carson: Uma coisa que aprendi nos anos 60 é que não se pode prever as consequências políticas de sua ação, mesmo nas melhores circunstâncias. Como eu poderia prever que o que eu estava fazendo no Centro-Sul de Los Angeles levaria Ronald Reagan a se tornar governador? Não gosto de ver argumentos de que o fato de alguns protestos terem envolvido violência afastaria norte-americanos brancos de mudanças positivas. Eles já fizeram sua escolha.

Você sempre pode ter leis que são injustas e uma ordem imposta de cima. Se é isso que está sendo oferecido, as pessoas estão certas em rejeitar. Isso não é uma democracia. É irônico que tenhamos um presidente clamando por lei e ordem que nem mesmo pode ter uma administração que cumpra a lei. Ele não é exatamente um símbolo da lei e da ordem.

Ruarí Arrita-Kenna: Você tem alguma última advertência ou conselho para os manifestantes de hoje?

Clayborne Carson: Hesito em oferecer conselhos que eu não seguiria. Eu não estou em Portland ou em muitos desses lugares onde os protestos estão se mantendo. Mas direi que lutar por algo como justiça social e direitos humanos vai levar muito tempo, e o único conselho que tenho é que se preparem para o longo prazo. Nunca pensem que o próximo protesto vai resolver o problema. Nem sabemos o que vai acontecer nas próximas eleições, muito menos o que vai acontecer nos Estados Unidos nos próximos 10 anos.

Você tem que ser um corredor de longa distância. Você tem que estar disposto a aceitar que a mudança que vale a pena acontecer levará muito tempo para acontecer. E vai exigir muitas habilidades diferentes. Quando você pensa em ativismo político, protesto e manifestação compõem talvez apenas alguns por cento disso. De todas as atividades, é provavelmente a mais libertadora porque pelo menos você está fazendo algo e pelo menos tem a sensação de um impulso, mas então você percebe que os protestos vêm em ondas. O que você faz entre as ondas? Que tipo de ativismo se segue?

Acho que toda pessoa que já se envolveu em protestos deve se perguntar: o que estarei fazendo no próximo ano e no outro? Porque eles estão lutando por questões que, provavelmente, não serão resolvidas no próximo ano. Se for provável que sejam resolvidas no próximo ano, provavelmente não serão as grandes mudanças que realmente queremos. Se o resultado final for que a polícia não pode mais provocar estrangulamentos, isso vai realmente satisfazer as pessoas que estão indignadas com George Floyd? Espero que não. Porque, para mim, o joelho no pescoço é simplesmente uma metáfora para algo muito maior do que aquele único incidente. É por isso que é tão poderoso. É por isso que as pessoas podem dizer: 'Tire seu joelho do meu pescoço'. O que eles realmente pedem é muito mais do que apenas uma mudança no treinamento da polícia, e esse objetivo maior vai demorar muito mais para ser conquistado.

*Publicado originalmente em 'Politico' | Tradução de César Locatelli

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