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Mortos pela polícia brasileira, quatro indígenas da Bolívia foram encontrados com sinais de tortura

Do IHU,08 Setembro 2020
Por 
Sarah Fernandes, publicada por De Olho nos Ruralistas



Chacina ocorreu em agosto, enquanto os jovens caçavam; eles estavam com braços e pernas quebrados e um deles teve a orelha cortada; organizações pró-direitos humanos vão protocolar denúncia contra grupo de fronteira da PM do Mato Grosso.

Indígenas Chiquitano da terra de San José de la Frontera, entre a Bolívia e o Brasil, denunciam que PMs do Mato Grosso assassinaram quatro jovens da comunidade enquanto caçavam em território brasileiro. Os corpos foram encontrados com braços e pernas quebrados, orelha cortada e machucados profundos. Membros do Fórum de Direitos Humanos e da Terra estiveram na quinta-feira (03) no local e vão protocolar denúncias junto a órgãos estaduais, federais e em organizações internacionais para cobrar apuração do caso e punição dos envolvidos.

Membros da comunidade alegaram que os quatro indígenas assassinados, identificados como Arcindo Sumbre García, Paulo Pedraza Chore, Yonas Pedraza Tosube e Ezequiel Pedraza Tosube Lopez, haviam saído para caçar no dia 11 de agosto em uma fazenda no Mato Grosso, com autorização do proprietário. Eles foram surpreendidos pela ação do Grupo Especial de Fronteira (Gefron), ligado à Polícia Militar de Mato Grosso (PM-MT), abordados pelos policiais e alvejados com tiros. Os quatro foram levados ao Hospital Regional de Cáceres, mas não resistiram.

Os indígenas denunciaram o caso na delegacia do município de San Matías, ao qual pertence a comunidade. A polícia boliviana apurou, no entanto, que a chacina ocorreu no Brasil, município no Pantanal mato-grossense que faz fronteira com a Bolívia.

As notícias da imprensa brasileira, a partir do dia 12 de agosto, falavam de “confronto” de bolivianos com a polícia e associavam as vítimas — conforme a versão das autoridades brasileiras — ao tráfico de drogas.
‘Trataram meu irmão pior que um animal’

Em evento online realizado na sexta-feira pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), o líder do povo Chiquitano Soilo Urupe Chupe pediu rapidez da Justiça:

— Temos muita tristeza com a notícia do massacre. Ficamos muito triste por se tratar de policiamento brasileiro tirando a vida de pais de família, de jovens que já vivem uma vida sofrida e queriam construir seu futuro. Tiraram a vida de quatro esposos, com muito sofrimento. Isso corta o coração. O policiamento brasileiro está fazendo abordagens de forma muito truculenta. Aqueles que deveriam fazer nossa segurança nos deixam com medo. Parece que nossa vida não tem valor.

Segundo membros da comunidade, quatro oficiais do Gefron foram à aldeia dias após o assassinato, com uma viatura policial, e intimidaram os indígenas. Há fotos dos jovens assassinados espalhadas por diversos pontos da comunidade, acompanhadas de bandeiras pretas com a palavra luto. “Há uma grande comoção na Bolívia”, disse o coordenador do Fórum de Direitos Humanos e da Terra, Inácio Werner, durante o lançamento regional do Relatório de Conflitos do Campo de 2019, no Mato Grosso. “Toda a comunidade foi atingida”.

Segundo Werner, os Chiquitano estão acuados e com medo de retomar a prática da caça, que, além de ser uma tradição, é uma fonte importante de alimento. O documento oficial produzido durante a visita deve ser protocolado nos próximos dias junta a Secretaria de Segurança do Mato Grosso, o Ministério Público, o Conselho Nacional de Direitos Humanos e a Comissão Nacional de Direitos Humanos e Minorias. “Vamos cobrar uma resposta em nível estadual, nacional e até internacional”, afirmou.

A irmã do indígena assassinado Yones Pedraza, que preferiu não se identificar, disse para a rede Pantanal de Comunicacion que seu irmão foi encontrado machucado e com quatro tiros:

— Meu irmão era um jovem prestativo e cuidadoso. Só saída de casa para caçar. Ele e todos os outros morreram inocentes. Só tinham ido buscar comida. Do meu irmão cortaram uma orelha, machucaram todo o rosto e deram quatro tiros. É uma ação que não tem explicação. Trataram meu irmão pior que um animal. É uma dor que não tem remédio que cure, só a justiça vai acalentar um pouco essa dor.

Pelo menos dez crianças ficaram órfãs


A Secretaria de Segurança do Mato Grosso afirmou que não recebeu uma denúncia formal de autoridades bolivianas. Segundo o boletim de ocorrência, eles teriam desobedecido policias que faziam patrulhamento na área devido a uma denúncia de tráfico internacional de drogas e atirado contra os oficiais.

No entanto, membros da comunidade e integrantes das organizações sociais que estiveram no local afirmam que ainda há marcas de sangue e balas no local da chacina. As árvores estão repletas de marcas de tiros. Os indígenas foram encontrados com braços e pernas quebrados, arranhões profundos pelo corpo e orelha cortada. “Os indígenas estavam apenas com cachorros, facões e uma espingarda de caça”, afirmou Werner. “Foi um massacre”.

Ao longo desta semana, o prefeito de San Matías, Fábio Alcaide Lopez, afirmou que vai acionar o Itamaraty e cobrar respostas pelo assassinato dos indígenas Chiquitano. Segundo o prefeito ocorreu uma injustiça, que destruiu famílias. Dez crianças ficaram órfãs de pai. “Existem crianças que podem ir para o orfanato, porque perderam os pais, que são provedores”, disse Lopez em entrevista ao portal RDNews.

Os quatro indígenas assassinados pertenciam à família de uma das principais matriarcas da comunidade. Membros da comunidade cobram ações de assistência às famílias que ficaram desamparadas.
Ameaças em tempos de Bolsonaro foram parar na ONU

Os abusos contra o povo Chiquitano foram denunciados na 42ª sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, na Suíça, no ano passado. A líder Chiquitana Saturnina Urupe Chue, do Mato Grosso, afirmou na reunião que “hoje somos ameaçados abertamente pelo presidente da República [Jair Bolsonaro]”, que “coloca em risco nossas vidas e a vida do nosso planeta”.

Saturnina disse que as comunidades Chiquitana aguardam há décadas pela demarcação dos territórios historicamente ocupados: “Meu povo tem sido atacado e violentado gravemente. O governo do Brasil insiste em não reconhecer nossos direitos constitucionais sobre nossas terras. Muitos Chiquitano já estão deslocados do território. São obrigados a viver fora, nas cidades não indígenas e abaixo de extrema vulnerabilidade”.

O Grupo Especial de Fronteira (Gefron) é suspeito de outro crime envolvendo bolivianos. Em 1º de julho, oficiais teriam matado a tiros o boliviano Vicente Tapeosi Masai, no município de San Ignácio de Velasco. A investigação aponta que Masai foi alvejado por tiros disparados de dentro de um veículo do Gefron, mais precisamente duas caminhonetes brancas sem placa.

O caso está sob investigação do Ministério Público em Santa Cruz de la Sierra. O Ministério das Relações Exteriores da Bolívia solicitou que o governo brasileiro informe os nomes dos policiais envolvidos na ocorrência. O Itamaraty respondeu que esse assunto cabe ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

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