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EUA: a democracia resistirá à desigualdade brutal?

Às vésperas de uma eleição decisiva, números são cada vez mais dramáticos. Em 40 anos, ganhos do 0,1% cresceram 343%. Produtividade aumentou 70%, mas trabalhadores perderam 10% de suas rendas. Pandemia só agravou cenário


De OUTRASPALAVRAS, 21 de Setembro, 2020
Por David F. Ruccio1| Tradução: Eleutério F. S. Prado




As pessoas nas ruas estão começando a dizer “basta”. Chega de desigualdade, chega de inexistência de perspectiva que o futuro possa ser melhor (Paul Mason, Capital no século XXI).

Não estamos todos juntos!

Estou quase farto de ouvir o refrão: “Estamos todos juntos!”.

Digo quase, porque acho que há um viés utópico nessa frase, que tem sido muito repetida na atual pandemia. Ela fala de solidariedade, do viver em comum, de prestar atenção e homenagear os profissionais de saúde assim como outros que atualmente trabalham em atividades “essenciais”. Apesar disso, todos nós somos orientados a ficar em casa. Nesse sentido, esse refrão pressupõe – ou pelo menos aspira – que se pense em cuidar mais e melhor dos outros.

No entanto – e é por isso que estou ficando cansado –, a expressão serve para desviar a nossa atenção e para encobrir as desigualdades obscenas que afligem a sociedade americana. Estou me referindo não apenas à desigualdade preexistente nos Estados Unidos – as fissuras agudas e enormes abismos que prevaleciam antes da covid-19 e que contribuíram para a sua disseminação – mas também ao modo como as enormes diferenças entre os que tem (os ricos) e os que não tem (os pobres) desempenharam um papel importante na disseminação dessa temida doença. Refiro-me, também, à possibilidade real de que essas desigualdades se agravem como resultado da pandemia e, em especial, em razão do tipo de resposta planejada e implementada nos Estados Unidos.

Tornou-se agora lugar-comum, pelo menos na grande mídia liberal, observar que o desenvolvimento da pandemia do novo coronavírus e do aprofundamento da crise econômica, sobrevinda em sequência, mostraram as desigualdades grotescas existentes na sociedade norte-americana. A cada dia que passa, fica mais claro que a propagação do vírus tem impacto profundamente desigual na população – seja no que se refere ao acesso aos exames e aos cuidados de saúde decentes e acessíveis seja no que tange à capacidade de se proteger quando há “comorbidades” subjacentes. Tudo isso tornou o vírus mais disseminado e mais letal entre os americanos da classe trabalhadora, incluindo os motoristas de ônibus negros e os funcionários hispânicos de frigoríficos. Como se sabe, eles têm ficado constante e indefinidamente para trás na sociedade norte-americana.

A pandemia também produziu uma escalada da crise econômica – o que também impactou nas desigualdades existentes. Por um lado, dezenas de milhões de trabalhadores de baixa renda ficaram ainda mais vulneráveis às demissões, licenças, reduções nas horas trabalhadas e cortes salariais. Esse risco se mostrou ainda maior em restaurantes e em lojas varejistas. Os trabalhadores, cada vez mais, tiveram de obter sustento para si e suas famílias no país a partir de estoque insuficientes de alimentos. Por outro lado, milhões de outros trabalhadores – aqueles que trocam a roupa de cama em hospitais, ajudam os doentes e moribundos em asilos, embalam e transportam mercadorias, colhem morangos e entregam alimentos – foram forçados a continuarem se deslocando e a trabalharem em condições perigosas, aumentando assim o risco de contágio para si próprios, suas famílias e as comunidades em que vivem.

Enquanto isso, os antigos ou atuais empregadores desses mesmos trabalhadores “fazem fila” para receber empréstimos de bancos privados e por meio de vários resgates do governo, com poucas ou nenhuma restrição (por exemplo, na recompra de ações e no pagamento de dividendos aos acionistas). Bilionários como Jeff Bezos e Elon Musk continuam obtendo muito lucro e, por isso, viram os montantes de suas riquezas dispararem. Os altos executivos de empresas anunciaram cortes voluntários de seus próprios salários, contudo, isto acabou sendo não mais do que um truque publicitário.

As consequências da pandemia não refletem apenas as desigualdades existentes. Parece também que essas mesmas desigualdades estão atuando de forma multiplicativa na propagação e na letalidade do coronavírus. Não é por acaso que os Estados Unidos, país que tem a pior distribuição de renda e de riqueza entre os países ricos, também seja o país com maior número de casos confirmados e mortes pelo novo coronavírus. Uma razão é que, à medida que a desigualdade aumentou, as próprias disparidades de saúde se alargaram. Os americanos de baixa renda, em relação àqueles situados no topo, tem em geral piores condições crônicas de saúde, o que os expõe a maiores riscos se pegam o coronavírus. Além disso, essas mesmas pessoas são as que continuam a trabalhar em empregos “essenciais”, que exigem mais contato com outros trabalhadores, assim como com clientes. Em outras palavras, os trabalhadores, que têm mais problemas e menos cuidados de saúde, correm maior risco de serem os mais afetados pela transmissão da doença.

Sob condição de desigualdade extrema, a pandemia ocorre por meio de um ciclo de realimentação que é devastador para os trabalhadores e para a sociedade como um todo. As pessoas que menos podem pagar, dadas as suas condições de saúde e de trabalho, são forçadas a ficarem mais expostas ao contágio. Tornam-se, assim, agentes transmissores da doença, seja nos seus locais de trabalho seja nos seus lares e na comunidade em geral.

Há, também, um ciclo de realimentação da injustiça nos Estados Unidos. Ele opera nas desigualdades existentes, nos efeitos desiguais da pandemia, de tal modo que haverá ainda mais desigualdade no futuro. Charlie Cooper argumentou que


Como o distanciamento social vai continuar no futuro próximo, está ficando cada vez mais claro que a pandemia vai piorar muito as condições de vida das pessoas. Vai exacerbar as desigualdades existentes, pois os privilegiados se protegem contra seus efeitos perniciosos do vírus, enquanto que os mais vulneráveis do mundo têm de lutar para não caírem nos abismos econômicos que se abrem diante deles.

Por um lado, mesmo após a recuperação da crise mais imediata, a infecção do coronavírus pode causar danos duradouros por todo o corpo, piorando a saúde e a atividade econômica de parte (ainda desconhecida) de toda uma geração.

Além disso, os efeitos da crise econômica, com dezenas de milhões de trabalhadores dispensados ou demitidos – ao mesmo tempo em que bancos e empresas são resgatados, em que o mercado de ações se recupera – podem ser ainda piores do que os da Segunda Grande Depressão. Lembremos que, após um breve hiato (em 2009), a tendência ao aumento da desigualdade antecedente à quebra de 2007-08 foi rapidamente restaurada na incipiente recuperação.

Por exemplo, em 1976, o 1% superior dos norte-americanos obtinha cerca de 12% da renda nacional antes dos impostos (linha vermelha na Figura 1), enquanto que os 90% no inferior da ESCALA ficavam somente com 65% (linha azul na Figura 1). Já em 2016 (o último ano para o qual há dados disponíveis), essas porcentagens chegaram a 19,3% e 54,3%, respectivamente. Ou seja, enquanto os ricos dobraram a sua participação, os pobres perderam pelo menos 10% dos seus rendimentos.



A situação da desigualdade de riqueza é ainda mais dramática: enquanto a fração da riqueza possuída pelo 1% superior (linha verde na Figura 2) cresceu de 24% em 1976 para 36,6% em 2016, a fração possuída pelo 90% inferior (linha roxa) caiu de 35% para 28,7% no mesmo período de tempo. Ademais, a fração do total de riqueza possuída pelo 50% inferior das famílias norte-americanas quase não mudou de patamar nesse período de quatro décadas, eis que passou de 0,3% para cerca de 0,4%. Ou seja, em outras palavras, enquanto os ricos ficaram cada vez mais ricos, os pobres ficaram progressivamente mais pobres.



Já que estamos há alguns meses na crise atual, ainda não sabemos qual será o resultado final. Mesmo uma rápida recuperação econômica em forma de V (que Trump e seus assessores econômicos invocam, mas sobre a qual há sérias dúvidas) ainda assim seria acompanhada, de acordo com a modelagem atual, com milhões de casos de coronavírus e, talvez, mais de 200 mil mortes, disseminados de forma desigual na população dos Estados Unidos (especialmente agora que o governo Trump e muitos governadores estão focados quase inteiramente na reabertura de empresas e na redução do desemprego dos trabalhadores, fazendo-os competir uns com os outros pelo menor número de empregos existentes). Ora, os efeitos de uma desaceleração mais longa e severa – uma Terceira Grande Depressão da história dos Estados Unidos – estarão provavelmente caracterizados pelo mesmo padrão de desigualdade. Pois, vale notar, não houve grandes mudanças nas políticas econômicas em comparação com uma década atrás.

Todos os sinais, então, apontam para o fato de que as desigualdades existentes irão dar origem, por conta própria e através das consequências da pandemia, a níveis ainda mais obscenos de desigualdade no futuro imediato – a menos, é claro, que haja uma mudança profunda no sistema econômico e no sistema de saúde em relação ao modo como estão organizados atualmente. Somente eliminando tais desigualdades, poderão norte-americanos criar as condições reais, durante e depois da pandemia, para que todos estejam juntos.

O fato é que, mesmo antes que a nova pandemia de coronavírus começasse a devastar o país, a desigualdade econômica nos Estados Unidos era tão obscena que muitas pessoas se convenceram que era preciso fazer algo a esse respeito. Em consequência, a grande imprensa comercial iniciou uma campanha para negar a própria existência dessa desigualdade.

Embora os salários dos trabalhadores de baixa renda estivessem subindo a uma taxa mais rápida antes da pandemia (os salários supostamente satisfatórios inerentes a uma economia em crescimento), ainda continua sendo verdade que a participação dos salários na renda nacional (como se pode ver na Figura 3) é em 2018 inferior ao que era em 2008 (quando, então, chegava a 44,9%, em comparação com 43,2% da renda nacional, em 2018). Ele se encontra agora muito abaixo do pico do pós-guerra em 1970 (51,6%).

Contar, pois, com o crescimento contínuo para resolver o problema da desigualdade é simplesmente uma quimera, ainda menos convincente do que os moinho de vento inventado pela imprensa de negócios.

Os economistas ortodoxos continuam a insistir que os trabalhadores se beneficiam do crescimento econômico, porque os salários tendem a aumentar com a subida da produtividade. Entretanto, a equipe de pesquisa do Economic Policy Institute mostrou que a produtividade aumentou 70,3% após 1979, mas os salários do trabalhador médio cresceram desde então muito pouco, pouquíssimo de fato, ou seja, apenas 11,1%. Na verdade, caíram entre 1980 e 2000, passando a crescer algo coisa depois desta última data.

Portanto, não existe uma ligação necessária ou automática entre produtividade e salários na economia dos EUA ou em qualquer outra. Eis que os salários dependem do poder de barganha das classes sociais. Essa relação pode ter existido após a Segunda Guerra Mundial, durante a chamada Idade de Ouro do capitalismo americano, mas não nas últimas décadas.

Uma questão natural que se levanta é exatamente para onde foi o excesso de ganho propiciado pelo aumento da produtividade. Esse excedente magnífico foi apropriado pelos empregadores americanos? Uma proporção significativa, como já foi mostrado em outro estudo, foi para os lucros corporativos das empresas maiores. Uma outra parte importante foi apropriada por aqueles que estavam no topo da distribuição de salários.

Como fica claro na Figura 5, o 1% dos assalariados mais bem remunerados viram os seus ganhos anuais cumulativos crescerem 157,3%, entre 1979 e 2017 – muito acima do crescimento da produtividade em toda a economia; ademais, esse montante é quase quatro vezes maior do que o crescimento salarial médio (40,1%). No mesmo período, o ganho da fração superior do 0,1% cresceu 343,2%. O pico mais recente da parcela salarial refletiu apenas o forte aumento na remuneração de executivos.



Em outras palavras, os executivos corporativos – tanto na Main Street quanto em Wall Street – foram capazes de se apropriar de um butim extra que foi extraído dos trabalhadores americanos em geral. Estes foram forçados a exercer a sua liberdade de vender a sua capacidade de trabalhar por salários que mal aumentaram por décadas em poder de compra.

Que fique claro, há décadas os trabalhadores americanos têm ficado cada vez mais para trás. Ora, simplesmente não há justificativa para esse lamentável estado de coisas – nenhum argumento sensato pode racionalizar ou desculpar a existência desse hiato crescente entre a maioria das pessoas que trabalham para viver e o pequeno grupo no topo que vivem sem trabalhar, administrando apenas o seu patrimônio colossal.

Mas isso não impede que os economistas do sistema continuem tentando provar o contrário com base em seus modelos matemáticos e estatísticos cada vez mais abstrusos.

1 Professor da Universidade de Notre Dame, Estados Unidos. Parte mais significativa e mais geral de artigo publicado na revista Real-world economics review, nº 92.

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