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“É o professor! Deixem-no passar!”: memórias e sonhos de um congolês

Do Le Monde Diplomatique, 21 de setembro de 2020
Por Serge Katz


Busto de Leopoldo II –
 Crédito: Creative Commons


Quando o Congo é lembrado no debate brasileiro, é sempre para mencionar o holocausto perpetrado por Leopoldo II naquele país. O colonialismo aparece nessa dinâmica do dizer e do não-dizer como um ponto escuro no mapa, que se olha com lupa cada vez que se quer desenterrar as misérias do liberalismo

“A colonização belga deixou raízes mais profundas que isso, e não apenas no Congo. Criou-se um ciclo infernal que atinge o Ruanda e outros países da região numa dinâmica massacrante do ódio xenofóbico.”

Nas últimas semanas a questão do holocausto colonial, especificamente aquele produzido no Congo, reapareceu no debate público brasileiro, numa espécie de competição que visava determinar qual das duas grandes ideologias dos séculos passados era mais assassina: o liberalismo ou o comunismo. Em meio a esta discussão acalorada, senti um imenso incômodo pela forma como o genocídio dos congoleses durante a “aventura colonial” belga sempre é mobilizado como um atestado de inocência por uma parte da esquerda que tenta esconder as próprias misérias atrás daquilo que, não tenhamos medo de dizê-lo, é provavelmente uma das maiores atrocidades da história da humanidade junto com o holocausto dos judeus, o massacre dos índios nas Américas e a aniquilação nuclear de Hiroshima e Nagasaki.

Meu incômodo reside no fato que o olhar da esquerda brasileira sobre o Congo jamais está voltado para os problemas contemporâneos que meu país enfrenta. Quando o Congo é lembrado no debate brasileiro, é sempre para mencionar o holocausto perpetrado por Leopoldo II naquele país. O colonialismo aparece nessa dinâmica do dizer e do não-dizer como um ponto escuro no mapa, que se olha com lupa cada vez que se quer desenterrar as misérias do liberalismo. A colonização belga deixou raízes mais profundas que isso, e não apenas no Congo. Com ela, criou-se um ciclo infernal que atinge Ruanda e outros países da região numa dinâmica massacrante do ódio xenofóbico.

A ilha


Já que é o Congo que me interessa hoje, não posso deixar de mencionar outro massacre, um extermínio mais vivo nas memórias. Falo, adotando um termo do direito internacional, do genocídio dos tutsis em Ruanda pela etnia majoritária do país, os hutus. Este é um lamentável episódio da história africana e a prova cabal de que não existe, necessariamente, solidariedade de cor. Essencialismos devem ser evitados. O genocídio em Ruanda é o resultado – mais um – do colonialismo e da manipulação ocidental, que aplicou da maneira mais eficaz a ideologia do “dividir para reinar”. Em que o genocídio em Ruanda se relaciona com o Congo?

O genocídio de 1994 não parou em 1994, nem se limitou a Ruanda. Seus efeitos perversos continuam se desdobrando nos países vizinhos, principalmente no Congo, na região do Kivu, nome herdado do lago Kivu, cuja nota de Wikipédia em língua portuguesa remete mais ao genocídio em Ruanda do que às suas próprias características naturais: o mais rico em peixes e o mais rico em gás natural. Não me recordo de um caso similar em que um fato histórico eclipsasse as características geográficas e geológicas de um lago. A marca da morte nunca está muito longe de onde o colonialismo instalou suas fundações.

É neste lago que se encontra a ilha de Idjwi, local de nascimento da minha mãe e berço da minha família. Recentemente, minha família construiu uma biblioteca e outras obras educativas para a população local. Existe sempre uma suspeita na população congolesa de que quem é de Idjwi é em alguma medida de Ruanda. Nada é mais falso, mas a lenda já se cristalizou no imaginário coletivo. No Congo, não é bem visto ser ruandês, realmente ou por atribuição, muito menos tutsi. No final dos anos noventa, após o rompimento do presidente Laurent Désiré Kabila com seus antigos aliados que o ajudaram a derrubar o ditador Mobutu, houve uma caça aos ruandeses na capital Kinshasa. Centenas de pessoas foram queimadas vivas porque pairava sobre elas a suspeita de terem vínculo com o país vizinho. Meu pai escapou por pouco de um linchamento durante um controle enquanto dirigia a caminho de casa. “É o professor! Deixem-no passar!”, gritaram alguns jovens presentes no local que reconheceram o único professor universitário do bairro. Aquela foi minha primeira experiência real da xenofobia que crescia no Congo como uma epidemia. A partir desse dia, parte de mim jamais voltou a amar o Congo por inteiro. Nesse dia me senti um estrangeiro no meu próprio país.

Sempre soube que minha avó paterna era de origem ruandesa. Isso nunca foi um problema para mim. Na região do Kivu, é muito difícil definir fronteiras. A cidade Goma é vizinha de Gisenyi em Ruanda; as populações locais transitam na fronteira em seu dia a dia. Mas o genocídio em Ruanda, que foi seguido da fuga dos hutus para o Congo, onde perpetuam atrocidades contra as populações locais, principalmente mulheres, ascendeu uma nova faísca de ódio entre congoleses e ruandeses. O Estado de Ruanda opera constantemente incursões militares no Congo para perseguir os responsáveis pelo genocídio, o que torna a região uma zona sem leis.

Nem o Prêmio Nobel da paz, o Dr. Mukwege escapa desse ódio. Recentemente, ao denunciar tanto as incursões militares de Ruanda no Congo, como as violações de direitos humanos que sistematicamente as sucedem, Dr. Mukwege foi vítima de uma campanha de difamação orquestrada pelas autoridades de Ruanda ao ponto das forças militares da ONU terem se disponibilizado a garantir sua segurança.

O sonho proibido

Minhas lembranças de juventude vivida nas ruas de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, antiga colônia belga, e que já levou o nome de seu algoz maior, Leopoldo II, são de inúmeras violações banalizadas pela população, que nunca questiona seu próprio mergulho na barbárie. Um homem com rastafaris é tido como um bandido ou um usuário de substâncias ilícitas, uma mulher de saia curta pode ser parada por um policial no centro da cidade sob o pretexto de violar as regras de pudor. Em consequência, ela pode ter essa mesma roupa rasgada, sofrendo assim uma humilhação pública, que chega a provocar certa satisfação no moralismo do kinois* médio, sempre disposto a ver uma mulher ser rebaixada.

Muitas vezes ouvi, em conversas informais, alguém mais velho dizer com alguma naturalidade que “a África não vai bem porque os melhores africanos foram levados para as Américas”. Não sabia exatamente o que pensar quando ouvia essa sentença devastadora. Eu deveria desejar estar no lugar dos negros levados para o outro lado do Atlântico ou deveria odiar meus ancestrais por sua mediocridade tanto física quanto intelectual ao ponto de não terem sido nem merecedores de ser objeto do tráfico de escravos? Então é isso. Crescemos odiando a nós mesmos e amaldiçoando o destino que nos confinou no calor e na brutalidade de um continente desconhecido. Nosso sonho é fugir. O mais longe possível. Fugir para ser esse outro negro que forçaram a atravessar o Atlântico. É um sonho miserável e proibido, que não garante nenhum orgulho pessoal.

É nessa dimensão que opera o colonialismo. Não é apenas uma lembrança do passado, e muito menos um certificado de inocência para um campo ideológico. Também não absolve o próprio africano de suas responsabilidades presentes. O colonialismo é, de acordo com Achille Mbembe, esse ciclo infinito de miséria social e política que constitui o maior desafio do africano.



* Habitante de Kinshasa.

MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra (2018), n-1 edições.


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