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David Graeber, antropólogo e autor de “Bullshit Jobs”, morre aos 59 anos

Do IHU, 04 Setembro 2020
Por Sian Cain, publicada por The Guardian, 03-09-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.


O anarquista e autor de livros best-seller sobre o capitalismo e a burocracia morreu em um hospital de 
Veneza, na quarta-feira, 02-09-2020.

David Graeber, antropólogo, anarquista e autor de livros sobre a burocracia e a economia, como “Bullshit Jobs: A Theory” (Empregos de Merda: uma teoria) e “Debt: The First 5,000 Years” (A Dívida: Os primeiros 5 mil anos), morreu aos 59 anos.

Na quinta-feira, a esposa de Graeber, a artista e escritora Nika Dubrovsky, anunciou no Twitter que Graeber morreu em um hospital de Veneza, no dia anterior. A causa da morte ainda é desconhecida.

Conhecido por seus escritos mordazes e incisivos sobre burocracia, política e capitalismo, Graeber foi uma figura importante no movimento Occupy Wall Street e era professor de antropologia na London School of Economics (LSE). Seu último livro, “The Dawn of Everything: a New History of Humanity” (O amanhecer de tudo: uma nova história da humanidade), escrito com David Wengrow, será publicado no segundo semestre de 2021.

O historiador Rutger Bregman chamou Graeber de “um dos maiores pensadores do nosso tempo e um escritor fenomenal”, enquanto o colunista do Guardian Owen Jones o chamou de “um gigante intelectual, cheio de humanidade, alguém cujo trabalho inspirou, encorajou e educou tantos”. O membro do parlamento John McDonnell, do Partido Trabalhista, escreveu: “Eu considerava David um amigo e aliado muito valioso. Sua pesquisa iconoclasta e seus escritos abriram-nos a todos novos pensamentos e abordagens inovadoras para o ativismo político. Todos nós sentiremos muita falta dele”.

Tom Penn, editor de Graeber na Penguin Random House, disse que a editora estava “devastada” e chamou Graeber de “um verdadeiro radical, um pioneiro em tudo o que fez”.

“O trabalho inspirador de David mudou e moldou a forma como as pessoas entendem o mundo. Em seus livros, sua curiosidade constante e questionadora, sua ironia perspicaz das panaceias recebidas brilhava. O mesmo acontece, acima de tudo, com sua habilidade única de imaginar um mundo melhor, nascida de sua própria humanidade profunda e duradoura”, disse Penn. “Estamos profundamente honrados em ser seu editor e todos sentiremos sua falta: sua bondade, seu calor, sua sabedoria, sua amizade. Sua perda é incalculável, mas seu legado é imenso. Seu trabalho e seu espírito viverão”.

Nascido em Nova York em 1961, filho de pais politicamente ativos – seu pai lutou na guerra civil espanhola com as Brigadas Internacionais, enquanto sua mãe era membro do Sindicato das Trabalhadoras do Vestuário – Graeber atraiu primeiro a atenção acadêmica por seu hobby adolescente de traduzir hieróglifos maias. Depois de estudar antropologia na Universidade Estadual de Nova York em Purchase e na Universidade de Chicago, ele ganhou uma prestigiosa bolsa da Fulbright e passou dois anos fazendo trabalho de campo antropológico em Madagascar.

Em 2005, Yale decidiu não renovar seu contrato, a um ano de garantir o tenure (estabilidade aos professores do ensino superior). Graeber suspeitou que era por causa de sua política; quando mais de 4.500 colegas e alunos assinaram petições apoiando-o, Yale ofereceu-lhe um ano sabático pago, que ele aceitou e se mudou para o Reino Unido para trabalhar na Goldsmiths antes de ingressar na LSE. “Acho que tive dois ataques contra mim”, disse ele ao Guardian em 2015. “Pareciam estar gostando muito do meu trabalho. Além disso, sou da classe errada: venho da classe trabalhadora”.

Seu livro “Debt: The First 5,000 Years”, de 2011, o tornou famoso. Nele, Graeber explorou a violência que está por trás de todas as relações sociais baseadas em dinheiro e pediu a eliminação das dívidas soberanas e de consumo. Embora dividisse os críticos, conseguiu grandes vendas e elogios variados, de Thomas Piketty a Russell Brand.

Graeber seguiu em 2013 com “The Democracy Project: A History, a Crisis, a Movement” (O projeto democracia: uma história, uma crise, um movimento), sobre seu trabalho com Occupy Wall Street, então “The Utopia of Rules: On Technology, Stupidity and the Secret Joys of Bureaucracy” (A Utopia das Leis: Sobre tecnologia, estupidez e a felicidade secreta da burocracia), em 2015, que foi inspirado por sua luta para resolver os assuntos de sua mãe antes que ela morresse. Um artigo de 2013, “On the Phenomenon of Bullshit Jobs”, levou ao livro Bullshit Jobs: A Theory, de 2018, no qual ele argumenta que a maioria dos empregos de colarinho branco não fazia sentido e que os avanços tecnológicos levaram as pessoas a trabalhar mais, e não menos.

“Um grande número de pessoas, na Europa e na América do Norte em particular, passam toda a sua vida profissional realizando tarefas que consideram desnecessárias. O dano moral e espiritual que advém desta situação é profundo. É uma cicatriz em nossa alma coletiva. No entanto, praticamente ninguém fala sobre isso”, disse ele ao Guardian em 2015 – mesmo admitindo que seu próprio trabalho poderia não ter sentido: “Não pode haver medida objetiva de valor social”.

Anarquista desde a adolescência, Graeber apoiou o movimento de liberdade curda e a “notável experiência democrática” que ele pôde ver em Rojava, uma região autônoma da Síria. Ele se envolveu fortemente com ativismo e política no final dos anos 90. Ele foi uma figura central no movimento Ocuppy Wall Street em 2011 – embora negue que tenha criado o slogan “Nós somos os 99%”, pelo qual ele era frequentemente creditado.

“Eu sugeri primeiro que nos chamássemos de 99%. Em seguida dois Indignados espanhóis e um anarquista grego adicionaram o ‘nós’ e, mais tarde, um veterano do food-not-bombs colocou o ‘somos’ entre eles. E eles diziam que você não pode criar algo que valha a pena pelo comitê! Eu citaria os seus nomes, mas considerando a forma como a inteligência policial tem vindo após os primeiros organizadores do Ocuppy, talvez seja melhor não fazer isso”, escreveu ele.

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