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Carta de Paris: O Brasil cruel e cordial de Gilles Lapouge

O escritor e jornalista, falecido em julho aos 96 anos, é autor do «Dicionário amoroso do Brasil» que tira a máscara da democracia racial


Da Carta Maior, 1 de Setembro, 2020
Por Leneide Duarte-Plon 



Créditos da foto: Gilles Lapouge (Jerôme/Mathilde Garro Lapouge)

O Brasil de Gilles Lapouge é um país de contrastes. Cruel e cordial. Que valoriza a pele branca mas quer parecer o paraíso da miscigenação, um país sem racismo. Em 2011, o jornalista e escritor lançou, em Paris, aos 85 anos, com grande sucesso de crítica, o « Dictionnaire amoureux du Brésil », (editora Plon, 659 páginas). Bernard Pivot, um dos mais respeitados críticos franceses, não poupou elogios : «Entre os quase cinquenta dicionários amorosos, esse é o mais exótico, o mais romanesco, o mais encantador, o mais cativante, em suma, o melhor ».

Os 70 verbetes são variados e surpreendentes. Vão de abelhas a Aleijadinho, passando por Jorge Amado, Claude Lévi-Strauss, pau-brasil, saudade, chuva de Belém, Proust nas favelas, peles, pecado da carne, Palmares até chegar a Verger, Pierre. Oviamente, há uma entrada « São Paulo » e outra « Capitais : Salvador, Rio e Brasília ».

Lapouge observa sem "parti pris" um país fascinante. O distanciamento crítico do autor permite assertivas duras e sem condescendência. Mas isso não significa frieza, indiferença. Gilles era fascinado pelo Brasil.

Na entrevista exclusiva que fiz com o escritor, em 2011, para a revista Carta Capital, no restaurante Le Sélect, em Montparnasse e que continuou em seu escritório-biblioteca, Lapouge fez uma declaração de amor ao Brasil, que conhecia há 60 anos :

« É um país que adoro. Claro que há coisas que detesto no Brasil, mas aqui também há e muito mais. O Brasil me deu tudo, não somente meu métier, não apenas o conhecimento do país, ele me inventou ».

Antes de começar a ler a entrevista, convido o leitor a entrar em contato com o escritor premiado que também foi Gilles Lapouge, no verbete Cruauté (Crueldade) que traduzi, assim como os dois outros no fim da entrevista:

Cruauté (Crueldade)

« Tanto pior para Stefan Zweig e os adeptos da « cordialidade ». O Brasil é um país violento. Em assassinatos, não tem rival. Ele produz mais mortes por balas, facas ou facões do que qualquer outro país. Ele mata por atacado ou a varejo e, de bom grado, por acaso. A leitura do livro de Paulo Lins, Cidade de Deus, dá náusea. (...)

O Rio de Janeiro aparece no alto desses hit-parades. O Rio assassina desde a manhã até a noite, vinte e três cadáveres em média por dia, mas as outras cidades não fazem por menos. São Paulo a iguala, muitas vezes a supera. Bahia de Todos os Santos, Campinas ou mesmo Porto Alegre matam. Em Recife, os jornalistas de polícia, enojados pela litania de sangue, colocaram no coração da cidade, na Rua Joaquim Nabuco, um pêndulo gigante que não dá a hora mas o número de assassinatos, como se o tempo, nessas cidades fosse medido não pelo movimento do cosmos ou pelas taxas do dólar ou do yuan, mas pelo dos massacres. Nas favelas, jovens com ar embrutecido passeiam com seus cães. Todos são armadas. O destino deles ziguezagueia entre a prisão, a droga e o cemitério. (P. 187)

A seguir, a conversa com Lapouge, que foi articulista do jornal O Estado de São Paulo, em Paris, por mais de 50 anos:

LDP : Você descobriu o Brasil há 60 anos. Seu « Dictionnaire amoureux du Brésil » é muito crítico mas ao mesmo tempo justo, critica diversos aspectos do país e elogia outros. Foi difícil escolher os verbetes e decidir o tom ?

Gilles Lapouge : Para os verbetes me guiei pela regra dos dicionários da coleção. Acho que fui o mais fiel pois o dicionário amoroso não deve ser exaustivo, deve apresentar o que se aprecia ou não, sem regras pré-fixadas. Não fiz nenhum plano prévio, vinha ao escritório, pensava no Brasil e escrevia.

LDP : O distanciamento critico é um tanto difícil, não?

Gilles Lapouge : Sou muito crítico quanto ao problema da violência, mas mesmo o mais patriota dos brasileiros não pode negar que o Brasil é um país muito violento, às vezes. Equilibro essa crítica com um verbete sobre a cordialidade. Poderia ter feito um só e dizer « eles são cordiais mas crueis ». Preferi fazer dois artigos que são como duas peças de um díptico : é preciso ler um e outro. O brasileiro é muito cruel por muitas razões (históricas, sociológicas etc), e formidavelmente acolhedor, terno.

LDP : São dois verbetes muito justos, que revelam o fino observador. Em « cordialidade », você desmonta o mito do « homem cordial » de Sérgio Buarque de Holanda, demonstrando « porque Stefan Zweig não compreendeu nada do Brasil ». O brasileiro não seria um povo esquizofrênico, entre a cordialidade e a crueldade ?

Gilles Lapouge : Não sei se esquizofrênico, há uma conotação de doente na palavra, acho que não é isso. O que é terrível no Brasil, mas fascinante também, é que ele me parece, às vezes, para além do princípio de contradição, isto é, os brasileiros são capazes de ser ao mesmo tempo crueis, felizmente não com frequência, e muito gentis. Mas mesmo as pessoas crueis no Brasil podem ser gentis de certa forma. O que acho bastante fora do comum. Aqui na França temos os marginais, pessoas terríveis, e temos as pessoas gentis. Mas são separados. No Brasil, existe uma espécie de mistura muito especial, os contrários podem coabitar e nesse caso especialmente.

LDP : Sobre Lévi-Strauss você diz : « O Brasil foi a chance de Lévi-Strauss, a porta de entrada de seu destino ». Isso é válido para você também, não ?

Gilles Lapouge : Exatamente. Meu destino foi o Brasil e não somente pelo tempo que vivo com ele mas pelo que o Brasil me trouxe como inteligência, gentileza. É um país que adoro. Você diz que há um tom crítico no dicionário, mas é porque amo o Brasil. Penso que os brasileiros entendem isso. Claro que há coisas que detesto no Brasil mas aqui há muito mais. O Brasil me deu tudo, não somente meu métier, não apenas o conhecimento do país, ele me inventou.

LDP : Sobre Lévi-Strauss você escreve : « Um dia ela me confessou que era polígamo, mas por causa das leis francesas, em vez de juntar todas as mulheres no mesmo momento, ele as desfiava ao longo do tempo, « como as pérolas de um colar ». Você revela um Lévi-Strauss don Juan com um colar no lugar da famosa lista?

Gilles Lapouge : Ele não tinha nenhum ar de don Juan quando o víamos. Deve ter sido interessante quando jovem, mas não era um Dominique Strauss-Kahn na maneira de agir. Era frio, um pouco irônico. Ele se interessava pelas mulheres, teve quatro mulheres, é bastante. Sua primeira mulher era conhecida por ser bastante feminina, muito interessada pelos homens. Pelo menos foi a lembrança que ela deixou nas pessoas que fizeram a expedição de Matro Grosso. Era uma mulher que gostava de despertar interesse.

Lévi-Strauss não era muito simpático, mas também não era antipático. Era frio, com uma inteligência um tanto inquietante de tão perfeita. Era mais inteligente que sensível. Tinha um discurso bem organizado. Ouvia uma pergunta, qualquer que fosse, refletia alguns segundos e a resposta caía como uma guilhotina, implacável, perfeita. Não havia erro, ele não tinha dúvidas também. Ele sabia.

LDP : Você escreve : « Amei muito tempo o Brasil e ainda o amo… Ele dizia que era o paraíso mas era um paraíso estranho, formado com injustiças, miséria e sombras ». Para um francês de esquerda, as desigualdades são a coisa mais chocante no Brasil ?

Gilles Lapouge : Claro. Elas são talvez mais visíveis, serão mais terríveis que em outros países ? Não sei. Na França, por exemplo, as desigualdades são abomináveis. Mas acho que são mais escondidas aqui porque as pessoas são muito hipócritas, não existe talvez uma exibição tão insolente das fortunas. Aqui, eles estão dentro de castelos, escondidos dentro de florestas e tudo é um pouco assim, meio dissimulado. No Brasil, eles se exibem, até porque vive-se mais no exterior, as pessoas ricas são vaidosas, têm orgulho de mostrar que têm dinheiro. Aqui também, mas um pouco menos.

LDP : Mas há no Brasil um abismo muito maior entre ricos e pobres…

Gilles Lapouge : Há um abismo muito maior, imagino que por razões históricas. A França e a Europa em geral fizeram uma redistribuição de rendas que data de um século e meio. Tivemos tempo, portanto, aqui e na Alemanha, por exemplo. São países ricos há muito mais tempo. O Brasil está se tornando um país muito menos pobre, mas é recente.

LDP : Os ricos brasileiros são exibicionistas ?

Gilles Lapouge : Eles são muito exibicionistas, se mostram. Mas talvez o clima explique, tudo é mais vivido do lado de fora.

LDP : Eles não têm consciência pesada ao exibir a riqueza…

Gilles Lapouge : De forma alguma. Eles não têm consciência pesada, simplesmente obedecem a pulsões. Por isso é que o pobre Stefan Zweig me parece ter sido muito ingênuo porque viu as pessoas na rua muito gentis. Eles são gentis no Brasil enquanto aqui são mais rudes. Mesmo numa metrópole como São Paulo, as pessoas param para lhe responder, prestam atenção. Os negros e os brancos vivem juntos, então o pobre Stefan Zweig não entendeu nada, pensou que era a verdade do Brasil, mas era apenas a vitrine. Temos de ser indulgentes com ele, estava idoso, depois se suicidou…

LDP : Zweig não teve tempo de conhecer bem o país…

Gilles Lapouge : Quando Bernanos foi ao Brasil, durante a guerra, se instalou no interior de Minas, com camponeses, depois em Barbacena, com o povo, trabalhou, se comunicou. O outro era um judeu muito europeu, muito assimilado e que adorava os Habsbourg. Adorava a Áustria, muito justamente pois Hitler tinha destruído o império. Mas para onde ele vai ? Para Petrópolis, a cidade dos Habsbourg, a cidade de Pedro II. Ele não viajou, Pedro II é um Habsbourg pela linhagem dos Bragança.

LDP : Você diz que Zweig ele não entendeu nada do Brasil. Você escreve : « O Brasil é conhecido por ser um dos únicos lugares do mundo com a receita para que os homens de todas as cores se amem em vez de se odiar. Essa reputação é um blefe. O cândido Stefan Zweig acreditou que o racismo acabava misteriosamente na fronteira do Brasil ». O Brasil construiu o mito de uma « democracia racial » ou foi o olhar míope de pessoas como Zweig que espalhou essa lenda ?

Gilles Lapouge : O Brasil gosta de se ver assim e como ele tem o segredo de parecer assim, o racismo é menos visível lá. Me irrita ouvir que os outros países são racistas e o Brasil não.

LDP : Os brasileiros não conseguem assumir que são racistas…

Gilles Lapouge : Existe uma espécie de jeito brasileiro para não parecer racista mesmo sendo. Isso é ruim. Eles não são piores que os outros. Dizer que os americanos são racistas e os brasileiros não são é inexato. Alguém observou que o racismo mais evidente dos americanos permitiu que uma contra-sociedade se desenvolvesse nos Estados Unidos com negros que se tornam presidente da república, chefe do Estado-Maior como Colin Powell, grandes advogados. No Brasil é mais raro… Os obstáculos não são visíveis mas no fundo são mais perigosos, perniciosos. Acho que existe um gênio português da mestiçagem. Fiquei impressionado em Moçambique. Era a mesma coisa, antes do fim do salazarismo. Eles se abraçavam. Negros, brancos, mulatos, todos eram amigos, como no Brasil. Mas na realidade, os brancos eram os colonizadores, estavam no topo da pirâmide e os negros não tinham acesso nunca. Penso que é o gênio português cujo resultado me parece muitas vezes pernicioso, mas é um gênio de bondade, de certa forma.

LDP : Você se mostra impressionado com as 136 cores de pele recenseadas no Brasil. O verbete « peaux » é delicioso… Na França qualquer estatística étnica é formalmente proibida. Como você vê essas cores de pele ?

Gilles Lapouge : Isso é incrível. Foi um órgão oficial, o IBGE, que recenseou 136 cores de pele ! Descobrimos 12 cores de negro, com brancos de todas as nuances e a cor « em vias de se tornar branco », o que mostra que evidentemente o ideal é ser branco. E o mais incrível, a « cor de burro quando foge ». Isso mostra um desejo de verdade e ao mesmo tempo, uma total confusão. É um país maravilhoso com muitas nuances de cor mas daí a catalogar as cores… Não vejo o interesso senão para mostrar a pele branca como objeto de todos os desejos. É terrível pôr as pessoas em categorias, em vez de dissolvê-las.

LDP : De Jorge Amado, de quem você foi amigo, você diz que ele era pouco considerado por intelectuais do Rio e de São Paulo e reproduz trecho da crítica entusiasta feita por Albert Camus do livro « Bahia de todos os Santos » (Jubiabá). Como ele vivia a glória e a esnobação de certo meio intelectual brasileiro?

Gilles Lapouge : Costumava vê-lo na Bahia e em Paris, onde ele comprou um apartamento no pior bairro, Bercy, o mais frio, o mais americano. Perguntei-lhe o motivo e ele disse que foi de propósito pois era o contrário da Bahia onde ele não podia andar sem ser parado nas ruas. Em Paris, ele dizia, ninguém o reconhecia e ele era obrigado a trabalhar. Conhecia bem Paris, tinha sido exilado e não queria viver no Quartier Latin para não encontrar turistas brasileiros nem se distrair em bairros que conhecia bem. Ele tinha a glória e acho que não se importava com o respeito dos intelectuais brasileiros. Ele dizia : « Tenho horror de falar de literatura, o que me interessa é a vida ».

LDP : Você viajou muito pelo Brasil, pela Amazônia, Nordeste. Quando se lê o verbete « São Paulo », nota-se que você a prefere ao Rio, « cidade desfigurada e deteriorada » pois « o empilhamento das misérias nas favelas fez do Rio de Janeiro uma das cidades mais perigosas do mundo ». Pode comentar ?

Gilles Lapouge : São Paulo é minha cidade. Eu me apropriei de São Paulo. Os franceses não gostam de São Paulo, eu a amo.

LDP : Você acha que alguém pode se apropriar de São Paulo ? Ela não escapa sempre, não é fugidia com seu gigantismo ?

Gilles Lapouge : Mesmo excetuando-se a violência que agravou o caso do Rio, sempre preferi São Paulo porque é uma cidade de grande imaginação, de trabalho, de paixões fortes, enquanto o Rio para mim é uma cidade unicamente de sensualidade, de prazeres, de preguiça, de boas tiradas. Eles são engraçados… Tenho a impressão que o Rio é uma cidade que dorme e adormece as pessoas. Eu me sinto adormecer quando estou no Rio. Evidentemente, há Copacabana, as moças, tudo isso é interessante mas aquelas moças não me interessam...

LDP : Copacabana tornou-se vulgar. Mas o Rio tem Leblon, Ipanema…

Gilles Lapouge : Não faço um julgamento global. O que me comove no Rio é a decadência. Essa espécie de cidade que está, não morrendo, mas se esgotando um pouco desde que deixou de ser a capital. O que me agrada é o lado decadente do Rio. Isso me dá tesão.

LDP : E o que mais lhe agrada em São Paulo ?

Gilles Lapouge : A energia. A inteligência. É uma das cidades mais inteligentes que conheço. O Rio também é uma cidade inteligente porque existe a ironia, uma espécie de ironia decadente, um pouco cética. Mas prefiro a inteligência forte do inventor, do engenheiro, do poeta. Fico muito contente de saber que o único francófono que ama São Paulo é o poeta Blaise Cendrars, que cito em dois poemas sobre São Paulo. Estou em boa companhia.

VERBETES DO “DICIONÁRIO AMOROSO DO BRASIL”

Amado, Jorge

« A partir de 1948, Amado passa longas temporadas em Paris (…) e se torna a coqueluche dos escritores e artistas comunistas, Pablo Picasso, Paul Éluard, Louis Aragon, Georges Sadoul. O casal Joliot-Curie torna-se amigo de Zélia e Jorge. Mas Jorge e a maravilhosa Zélia se divertem também nas boates da Rive Gauche, admiram Miles Davis, Duke Ellington e Louis Armstrong. Cada vez que um amigo sul-americano tem problemas com a polícia, Jorge e Zelia correm na casa de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir ou François Mauriac e conseguem uma intervenção em favor de Pablo Neruda, Asturias, Alfredo Varela, Guillen ». (P. 36)

Péché de chair (Pecado da carne)

« Os portugueses suprimiram um pecado. Um dos mais irritantes. Tendo aportado na Terra de Vera Cruz, em 1500, eles decidiram que o pecado da carne não existia no hemisfério Sul. Como essa reforma é agradável mas surpreendente a ponto de ser incrível, eles despenderam grande energia para torná-la válida entregando-se a trabalhos práticos. Os soldados, os colonos, os padres consagraram suas noites, madrugadas e tardes a confirmar que de fato as leis da moral se transformavam na « passagem da linha do Equador ». Caspar Van Barleus, capitão de Maurício de Nassau, o governador de Recife no tempo da ocupação holandesa (1630-1654) resumiu o caso : « Ultra aequinoctialem non peccavi. » Os portugueses dizem : « Pecado aquém do mar dos Sargassos, candura além ». (P. 511)

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional

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