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As digitais do governo na devastação do Pantanal

Mais de 15% do bioma — o equivalente à área de Israel — arde. Além de não usar recursos detinados à proteção ambiental, Meio Ambiente interrompeu deliberadamente ações de combate ao fogo. E mais: a funesta liderança do Brasil na pandemia.

Do OUTRA SAÚDE, 14/09/2020

por Maíra Mathias

NO PADRÃO BOLSONARISTA

Desde julho, o Pantanal está queimando. Naquele mês, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) havia registrado 1.684 focos de incêndio. Especialistas já alertavam que praticamente todo o fogo tinha origem humana, mas a situação era agravada por uma seca histórica. Nenhuma ação contundente foi tomada pelo governo federal. De lá para cá, o Inpe detectou nada menos do que 12.703 focos ativos. Foi o suficiente para consumir 15% do bioma, uma área equivalente a Israel. Virou pasto.

Na região que abrange Poconé, Barão de Melgaço e Porto Jofre, em Mato Grosso, o incêndio diminuiu 72%. Parece bom, mas o El País explica: simplesmente não há mais o que queimar. “Tudo foi destruído”, resume um dono de pousada ouvido pela reportagem. É lá que fica o Parque Estadual Encontro das Águas, onde há a maior concentração de onças-pintadas do planeta.

Nos últimos dias, o caos ambiental que se prolonga no Pantanal recebeu mais atenção, principalmente a partir do acompanhamento feito pela imprensa do trabalho de resgate dos animais, tocado em boa parte por voluntários. As imagens dos bichos com as patas queimadas ou totalmente carbonizados são das coisas mais tristes deste já suficientemente trágico 2020.

“O Pantanal é muito grande para os poucos bombeiros que vieram”, observa Eduarda Fernandes Amaral, entrevistada pelo Estadão enquanto liderava o salvamento de uma onça. A reclamação é geral, e parte também de empresários que sobrevivem do turismo na região. O ministério da Defesa afirma que o número de militares combatendo o incêndio – 400 – é suficiente.

Em 28 de agosto, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou a suspensão das ações de combate ao fogo tanto no Pantanal quanto na Amazônia. Alegava bloqueio de verbas pela Casa Civil. Mas, de acordo com o Observatório do Clima, a pasta da “boiada” não executa o orçamento que tem. O ministério utilizou apenas 0,4% dos R$ 26,6 milhões direcionados a programas de proteção e preservação do meio ambiente, entre janeiro e agosto desse ano. “O que a gente vê é a inação como método”, critica a especialista em políticas públicas do Observatório, Suely Araújo, em entrevista a ‘O Globo.

Quando Salles anunciou a suspensão das ações de combate aos incêndios, Hamilton Mourão o contradisse, afirmando que o ministro tinha “se precipitado”. O vice-presidente, que vem assumindo a interlocução com empresários e investidores no front do meio ambiente, tenta se distanciar do colega de governo, mas qualquer diferença é ilusão de ótica. No sábado, ele afirmou à CNN que o fogo na Amazônia – outro bioma que vive uma crise, com 57.823 focos acumulados esse ano – “não é um incêndio padrão Califórnia”.

Por lá, os incêndios que se espalham também pelos estados do Oregon e Washington e tingem o céu de tonalidades laranja, já consumiram algo como 1,98 milhão de hectares. No Pantanal, perdemos 2,2 milhões.

A propósito: segundo o Valor, o governo Bolsonaro abandonou temporariamente o projeto de liberar a mineração em terras indígenas. Não por convicção, mas por timing.

130 MIL EM SEIS MESES

Na noite de sexta-feira, o Brasil ultrapassou a marca das 130 mil mortes oficialmente causadas pelo novo coronavírus. Essa impressionante pilha de cadáveres se acumulou em pouquíssimo tempo: no sábado, completamos seis meses desde que o primeiro óbito foi registrado no país, em 12 de março. Para arrematar a lista de notícias ruins, ontem superamos o Reino Unido em número de mortes por milhão de habitantes, nos tornando o país com o pior indicador do G-20.

Fatos da realidade que pouco importam ao bolsonarismo, naturalmente. Na sexta, o presidente declarou que o Brasil está “praticamente vencendo a pandemia”. Ainda segundo Jair Bolsonaro, “já começa a aparecer”, em especial na mídia estrangeira, “que o Brasil foi um dos países que menos sofreram com a pandemia”. Lembramos que ele é visto como um dos piores líderes no combate à crise sanitária pelos veículos estrangeiros.

Mas esse tipo de acrobacia com a verdade tem sido modus operandi: de acordo com o site Aos Fatos, Bolsonaro deu 653 declarações falsas ou distorcidas sobre o novo coronavírus ou medidas adotadas pelo governo brasileiro no combate à crise entre 11 de março e 11 de setembro. Nesse período, a declaração enganosa mais repetida foi a de que o Supremo o impediu de tomar decisões para conter a pandemia. A frase foi dita ao menos 63 vezes. Bolsonaro foi também quem mais impulsionou o apoio à cloroquina no Twitter brasileiro.

Ontem, chegamos a 4,3 milhões de casos registrados da doença. Já são 131.663 mortos.

DESCONEXÃO

E no mesmo dia em que o país atingiu 130 mil mortes, os ministérios da Saúde e da Mulher, Família e Direitos Humanos promoveram uma aglomeração em Fortaleza. Detalhe: um decreto do governo do Ceará proíbe “eventos ou atividades com risco de disseminação da covid-19”. Como se não houvesse pandemia, Eduardo Pazuello e Damares Alves falaram na sexta-feira para um auditório lotado. Aconteceu no Centro Universitário Christus, que foi autuado pela vigilância sanitária, que também observou pessoas circulando sem máscara de proteção. “Eu louvo a Deus porque descumprimos o decreto”, comemorou Mayra Pinheiro, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Segundo ela, o público estava de máscara. O Ministério Público Federal está investigando o caso.

Um segundo evento, desta vez em uma igreja evangélica, estava marcado para o sábado, mas foi cancelado pelo Ministério da Saúde depois da repercussão negativa. A pasta se defende, dizendo que comunicou o governo cearense do primeiro evento. Tem mais: o Ministério alega que não foi ‘avisado’ do decreto. Seria de se esperar que a pasta, que tem o papel de coordenação nacional, soubesse das restrições que existem em cada estado, especialmente naqueles em que pretende aglutinar seres humanos.

Falando no Ministério, o colunista Lauro Jardim apurou uma informação curiosa: os militares levados pelo general Pazuello para a pasta gostam de se comunicar em jargão, mesmo durante reuniões com técnicos. Ao invés de ‘ontem’, falam “D menos 1”, por exemplo.

Uma reportagem do El País, que coletou exemplos do crescente poder policial e militar impulsionado pela pandemia em vários países da América Latina, coloca o Brasil como o “caso mais paradigmático”. Nos outros lugares, a militarização serve para conter aglomerações. Aqui, como se sabe, é o contrário.

NOVO RECORDE

O mundo bateu o recorde de registro de casos diários ontem, segundo a OMS. Foram 307.930 infecções confirmadas em 24 horas. As maiores altas foram na Índia (94.372), Estados Unidos (45.523) e Brasil (43.718).

Segundo o diretor do braço europeu da OMS, Hans Kluge, a pandemia voltará a recrudescer no continente entre outubro e novembro, com aumento da mortalidade devido à multiplicação dos surtos.

E Israel terá um segundo lockdown. Foi decretado após registrar quatro mil infecções em 24 horas. Começa na próxima sexta, com duração de três semanas.

BASTIDORES DA PRESSÃO

Uma reportagem do site Politico repercutiu ao longo de todo o fim de semana. O repórter Dan Diamond obteve e-mails trocados entre o Centro de Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) e assessores de comunicação do Departamento de Saúde, equivalente ao ministério nos Estados Unidos. Mostram a clara tentativa da administração Trump em suavizar os relatórios semanais do CDC, caracterizados como uma ameaça à “mensagem de otimismo” que o presidente dos EUA queria passar à população. Palavras eram mudadas e prazos adiados. Um relatório ficou um mês na gaveta. Mas já é um escândalo à parte o fato de os textos da agência passarem por revisão externa – autoritarismo inédito.

À frente da manobra está Michael Caputo, que trabalhou na campanha eleitoral de Trump, assumiu o cargo de porta-voz do Departamento de Saúde e, claro, não tem nenhuma credencial científica. No sábado, ele se justificou, dizendo que só busca “maior escrutínio” do CDC.

Nesse mesmo dia, o New York Times revelou mais bastidores da pressão que Trump exerceu sobre outras estruturas estatais, a FDA (equivalente à Anvisa) e os Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês) para liberar, sem comprovação científica, o tratamento da covid-19 por plasma sanguíneo. A falta de institucionalidade é total: Trump ordenou que a autorização acontecesse com urgência, coincidentemente dias antes do início da convecção do Partido Republicano. Depois do anúncio, feito na Casa Branca com direito à distorção de dados científicos, Trump convocou Peter Marks, responsável direto pela autorização de vacinas no FDA, para uma comemoração na Sala Oval. Na sexta, Marks descreveu sua situação: “estava um pouco em estado de choque”. O episódio é mais um sinal de que o governo deve pressionar pela liberação de uma vacina antes da eleição.

Anthony Fauci, o epidemiologista que enfrenta Trump, contradisse o presidente mais uma vez. Afirmou na sexta que o ‘velho normal’ não está no horizonte tão cedo, mesmo com a comprovação da eficácia e segurança de uma vacina. Sua previsão é que as coisas voltem aos eixos no fim de 2021.

ÀS FAVAS COM A PRECAUÇÃO

A Universidade de Oxford e a AstraZeneca anunciaram no sábado que receberam autorização para retomar o ensaio clínico da candidata a vacina contra o coronavírus na Grã-Bretanha. O sinal verde partiu de um comitê independente da agência sanitária britânica (MHRA), mas não há muitos detalhes sobre a voluntária com mielite, fato que levou à suspensão dos testes no dia 6 de setembro.

A Anvisa e a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) também deram autorização para que a fase 3 seja retomada hoje por aqui.

Na sexta, o governo da Bahia anunciou a assinatura de um acordo de cooperação com o Fundo Soberano da Rússia que assegura 50 milhões de doses da Sputinik V. O comunicado da secretaria estadual de Saúde reforça o discurso ‘otimista’ sobre as vacinas que tem provocado bastante desinformação, dando um prazo insólito – novembro – para o início da distribuição. O fato de a secretaria reconhecer que é necessário a aprovação dos órgãos reguladores brasileiros não melhora muito: fica parecendo que, se dependesse da boa vontade dos gestores, tudo estaria resolvido, e a ‘burocracia’ de Anvisa e Conep é que atrasam a saída da crise.

Segundo o secretário estadual de Saúde, Fábio Vilas-Boas, a Sputinik V “está sendo testada em cerca de 40 mil pessoas”. Mas essa é a meta, já que a fase 3 começou só na semana passada na Rússia. Em entrevista à Folha, o presidente do Fundo Soberano, Kirill Dmitriev, reforçou a correria: disse que a vacinação geral pode começar no início de outubro, assim que saírem os primeiros resultados da fase 3. Para se ter uma ideia, a vacina de Oxford começou os testes dessa fase em julho. E a possível reação adversa foi verificada que pausou o ensaio por alguns dias foi observada dois meses depois.

Fica cada vez mais claro que os governos estão abrindo mão da precaução. Na sexta, a imprensa internacional começou a repercutir uma entrevista dada na última segunda-feira por Zhou Song, conselheiro-geral da estatal chinesa Sinopharm à rádio nacional de lá. Segundo ele, um dos dois imunizantes da empresa e a candidata da Sinovac – que estão na fase 3 de testes – já foram aplicados em “centenas de milhares de cidadãos chineses”. Ou seja, a China começou a vacinação em massa antes da Rússia – e, silenciosamente, sem registro.

Num esforço diferente para apressar o fim da fase 3, a Pfizer anunciou no sábado que vai ampliar o escopo do teste clínico de 30 mil participantes para 44 mil.

O PAPEL DO AGRONEGÓCIO

Desde a Peste de Atenas, mais de 400 anos antes de Cristo, já houve pelo menos 17 epidemias causadas por doenças emergentes que se espalharam por grandes territórios, incluindo algumas pandemias. A questão é que as novas doenças estão se tornando mais recorrentes. O número delas, por década, quase quadruplicou nos últimos 60 anos. E nunca houve condições tão favoráveis para um patógeno se espalhar pelo mundo inteiro. Um dos fatores que impulsiona esse fenômeno é o desmatamento, que coloca humanos em contato com vírus antes restritos a áreas remotas nas florestas. Outro fator é a criação intensiva de animais, como porcos e aves. O papel do agronegócio no desencadeamento e propagação desse tipo de crise sanitária é o assunto do podcast Tibungo. Nossa editora, Raquel Torres entrevistou o jornalista João Peres, do site O Joio e o Trigo, que tem acompanhado o tema. Dá para conferir aqui.

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