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As cidades desertas – III

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Do A Terra É Redonda, 15 de Setembro, 2020
Por GILBERTO LOPES*


O fio de uma mesma infâmia: eu não vou renunciar…!

O ar estava rarefeito. É difícil lembrar se fazia sol, se estava nublado… na lembrança, é como se tudo se condensasse num instante em que não se podia sequer respirar. Então, com voz serena, ouviram-se suas palavras: “é a última oportunidade que tenho para dirigir-me a vocês. A força aérea bombardeou as torres das rádios Portales e Corporación. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Sejam elas o castigo moral para os que traíram o juramento que fizeram: soldados do Chile, comandantes em chefe titulares; o almirante Merino, que se autodesignou; mais o senhor Mendoza – general rasteiro que só ontem manifestou sua fidelidade e lealdade ao governo –, também nomeou-se diretor geral dos Carabineros. Diante desses fatos, só posso dizer aos trabalhadores: eu não vou renunciar…!”. “O capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação, criaram o clima para que as forças armadas rompessem sua tradição, a que lhes ensinou o general Schneider e que reafirmou o comandante Araya, vítimas dos mesmos setores sociais que hoje estarão em suas casas esperando reconquistar o poder com mão alheia para seguir defendendo seus benefícios e privilégios”. “– Trabalhadores de minha pátria, tenho fé no Chile e em seu destino. Superarão outros homens este momento cinza e amargo no qual a traição pretende impor-se!”

Era um 11 de setembro e desenrolava-se o novelo com o qual se teceria uma mesma infâmia anos depois. Criminosos e vítimas. “Como poderia ter evoluído o mundo, quão diferente seria, se os militares não tivessem derrocado Allende três anos mais tarde, se outras nações tivessem podido adotar esse modelo de uma revolução não-violenta para satisfazer suas próprias ânsias de libertação e igualdade?”, perguntou-se há alguns dias o escritor Ariel Dorfman, recordando aqueles outros dias. “A desestabilização do Chile, o assassinato da esperança com que dançamos nas ruas de Santiago há meio século” – que os Estados Unidos promoveram ferozmente para apoiar, em seguida, o regime de terror que o suplantou, disse Dorfman – “teve consequências particularmente perversas”. Com Dorfman, compartilhei então daquela experiência. “A morte da democracia chilena – simbolizada na morte de Salvador Allende no palácio La Moneda em 11 de setembro de 1973 – não deu início apenas a uma tirania letal, mas também converteu o país num laboratório desapiedado, no qual se ensaiaram abundantemente as fórmulas do capitalismo neoliberal que logo prevaleceriam em nível global”.

A era da desordem


Sobram predições. Mas há uma recente, um estudo apresentado na semana passada, preparado por quatro especialistas do Deutsche Bank. Suas previsões para os próximos anos são uma análise para os investidores sobre a rentabilidade dos ativos em longo prazo (Long-term asset return study 2020). Conclui-se a “Segunda era da globalização” (1980-2020) e inicia-se a “Era da desordem”, dizem. Uma nova era caracterizada por mudanças estruturais que afetarão tudo, desde o valor dos ativos, até a ordem política ou nossa forma de vida cotidiana. Finda-se a segunda era da globalização, caracterizada pelo maior crescimento do valor das ações na história. Será muito difícil que, na era da desordem, se possa manter este desempenho, principalmente em termos reais. Acelerada, mas não causada pela Covid-19, essa nova era ameaça as altas cotizações de alguns ativos e se caracterizará por um crescimento das dívidas, tanto de empresas quanto de nações.

Na era da globalização, os salários cresceram pouco, subcontratou-se e informalizou-se graças ao crescimento do mercado de trabalho, com a incorporação dos trabalhadores do leste europeu e da China. Cresceram as dívidas das famílias. A desigualdade cresceu e se agravará até que se produza uma reação violenta para revertê-la. O informe refere-se a outros temas, entre os quais as tensões entre Estados Unidos e China. Um choque de culturas se aproxima, enquanto vemos a China a caminho de transformar-se na primeira economia do mundo. Europa, em decadência, enfrentará uma “década decisiva” na qual suas possibilidades de enfrentar com êxito os desafios diminuíram-se. Ao que se acrescentam as mudanças climáticas, a revolução tecnológica e uma brecha geracional, desafio para os jovens que entraram no mercado de trabalho na última década.

Um panorama que, de todo modo, o informe não considera catastrófico. A reversão da globalização – disse o analista Vicente Nieves, na revista espanhola El Economista – “é um dos propulsores da nova era que começa. Mesmo que essa nova era tenha sido denominada como a da desordem, o documento insiste em que ‘nem toda desordem é ruim’”. Com esperança otimista, o informe indica que muitas mudanças “permitirão que se produza uma espécie de limpeza ou reviravolta que reverterá tendências perniciosas como a desigualdade de renda e riqueza”.

Covid


A Covid-19 não para. Já estamos a caminho de 30 milhões de casos no mundo e um milhão de mortos. E a pandemia não cede, com os Estados Unidos rompendo a barreira dos 200 mil mortos. Quase cem mil novos casos diários na Índia, que superou o Brasil e agora segue atrás (ainda distante) dos Estados Unidos como os países com mais pessoas doentes. Os três dividem entre si mais da metade dos casos em todo o mundo. Na América Latina, o Peru lidera o número de mortos por milhão de habitantes, com 925 (na verdade, é a cifra mais alta do mundo, superada apenas pela do microestado San Marino, encravado na Itália, com pouco mais de 35 mil habitantes). Entre os dez países com mais mortos por milhão de habitantes no mundo, estavam também, nesta semana e com números similares, Chile (624), Bolívia (623), Brasil (617) e Equador (614). Em seguida, vêm os Estados Unidos, com 598. Com a comemoração dos festejos pátrios no Chile, cujo dia da independência é 18 de setembro –, os especialistas advertem do perigo de um recrudescimento dos contágios. A pandemia é “frágil”. O uso dos leitos de UTI chegou a 78% na semana passada, revertendo uma tendência de redução dos casos que vinham ocorrendo no país. Também cresce o número de casos na Argentina, que, na última semana, superou os onze mil diários.

As notícias também nãosão otimistas na Europa. A OMS informa de novos recordes de casos diários. Na semana que passou, era possível ler: recordes de infectados na França, com cerca de 9.500 casos diários, enquanto o número sobe em toda a Europa. Na Inglaterra, o número de casos duplica-se a cada oito dias. O país vai enfrentar um duro inverno, advertiram comentaristas do diário The Guardian. Depois da promoção de atividades comerciais no verão e da volta dos trabalhadores a seus escritórios, o governo parece estar perdendo o controle da pandemia e reforçou as medidas de quarentena nas áreas mais afetadas. Mas não é apenas na Inglaterra. Israel restabeleceu a quarentena. Portugal registra a maior quantidade de casos diários desde abril, mais de 600, depois de ter caído a menos de cem. O mesmo ocorre na Holanda. As coisas não vão por um bom caminho, avisam as autoridades sanitárias, depois de registrar 1.140 casos num dia, na semana passada.

Uma tristeza infinita


No Brasil, com mais de 130 mil mortos, comemorou-se em 7 de setembro a data da independência. Falou o ex-presidente Lula: “– Uma tristeza infinita aperta meu coração. O Brasil vive um dos piores momentos de sua história. Trata-se de uma crise sanitária, social, econômica e ambiental sem precedentes, entregues a um governo insensível, irresponsável e incompetente, que banaliza a morte”, afirmou. Mas não se trata apenas do coronavírus e de uma pandemia que – como lembrou – mata no Brasil, sobretudo, “os pobres, negros e pessoas vulneráveis que o Estado abandonou”. Trata-se da situação do país, de seu lugar no mundo e do papel que representa o governo de Bolsonaro. “Não é por acaso que decidi falar neste 7 de setembro, dia da independência do Brasil”, disse Lula, que acusou o governo de subordinar o Brasil aos Estados Unidos “de maneira humilhante”, de submeter militares e diplomatas brasileiros “a situações embaraçosas”, de envolver o país “em aventuras militares contra nossos vizinhos… para responder aos interesses econômicos e estratégico-militares norte-americanos”, em alusão ao que foi a política de Brasília em relação à Venezuela. Lula criticou também a venda de instituições públicas “a preço vil”, incluindo bancos, a petroleira Petrobrás ou a empresa aeronáutica Embraer. Na sua loucura por privatizar – acrescentou – o governo pretende vender “a maior empresa de geração de energia da América Latina, Eletrobrás, uma gigante com 164 centrais elétricas, responsáveis por quase 40% da energia consumida no Brasil”.

Não apenas no Brasil


Uma batalha em torno da energia que não ocorre apenas no Brasil, mas também – e de forma encarniçada – na Europa. Nesta era da desordem, uma nova vítima foi o opositor russo Alexei Navalny, peça chave de um debate sobre o destino do gasoduto Nord Stream2, que permitirá à Rússia duplicar seu atual fornecimento de gás à Europa, até chegar a 110 bilhões de metros cúbicos. Ao contrário do Nord Stream 1 – no qual, além da russa Gazprom, participam empresas europeias como a alemã Eon e a francesa Engie –, Gazprom é a única dona do Nord Stream 2. Os Estados Unidos estão empenhados em evitar que se torne realidade um projeto ao qual restam pouco mais de 100 km para chegar ao destino. Na Alemanha, intensificou-se a pressão, depois de se acusar a Rússia de ter envenenado Navalny, sem que o estranho caso tenha sido esclarecido até aqui. Apesar de que a Rússia permitiu que um avião privado o levasse à Alemanha, onde está sendo tratado, crescem as vozes que discutem a utilidade do projeto e usam o caso para argumentar sobre a inconveniência de aumentar a dependência europeia – e principalmente da Alemanha – do gás russo.

Na Europa do leste


Numa época de “decadência da Europa”, como disse a análise do Deutsche Bank, outras batalhas ocorrem também no centro e no leste da Europa, aproximando-se da fronteira russa. Uma delas refere-se à construção de um reator de 1,2 gigawatts na planta nuclear de Dukovany, na República Tcheca, obra estimada em sete bilhões de dólares, lembrou o jornalista Tim Goslin na última edição da revista Foreign Policy. O secretário de estado norte-americano, Mike Pompeo, que visitou o país em agosto, advertiu os tchecos de que se permitirem que empresas russas e chinesas participem da licitação “porão em perigo sua liberdade e sua soberania”. Não é a única central elétrica para onde apontam os interesses de Washington neste país. Há também a de Temelin, onde se planeja construir duas novas unidades e cuja licitação é disputada pela agência nuclear estatal russa Rosatom e a empresa norte-americana Westinghouse. Decisões que estão muito além do aspecto econômico e que dependem, na República Tcheca, de disputas políticas entre o primeiro-ministro Andrej Babis, que não conta com maioria no parlamento, e o presidente Milos Zeman.

Entre as renovadas tensões, está a disputa em torno do governo da Bielorrússia, onde milhares de pessoas saíram às ruas protestando contra os resultados eleitorais do mês passado. De modo semelhante às que, em 2013, puseram fim ao governo de Víktor Yanukóvich na vizinha Ucrânia e desataram no país um conflito armado que ainda não terminou. Dois países fronteiriços com a Rússia, cujos interesses não estão alheios aos resultados dessas confrontações.

Enquanto o The Guardian se perguntava – esperançoso – se os manifestantes bielorrussos poderão derrubar “o último ditador da Europa”, a BBC mostrava, num artigo de Cristina J. Orgaz, “como funciona a economia estatizada da Bielorrúsia, a última planificada da Europa”. Em seu conjunto – diz –, as empresas estatais respondem por 50% do PIB do país, com um sistema de ajudas que se estende por toda sua economia, “fazendo da Bielorrússia um estabelecido estado de bem-estar no leste europeu”. A saúde e a educação são gratuitas e “o percentual de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza baixou, em 18 anos, de 41,9% para 5,6% em 2018, segundo dados do Banco Mundial. Esta é uma das taxas mais baixas da Europa. O desemprego entre seus 10 milhões de habitantes é baixo e os que visitam suas cidades “dizem que estão limpas e ordenadas”.

Outra luta na Europa


Outra luta ocorre na Europa: a de Julian Assange, contra o pedido de extradição apresentado pelos Estados Unidos à Grã-Bretanha, onde se encontra detido, em condições rigorosas, desde que foi obrigado a abandonar a embaixada do Equador, onde havia obtido refúgio durante o governo de Rafael Correa. Não se trata de um pedido de extradição por haver revelado os horrores das guerras dos Estados Unidos no Afeganistão ou Iraque, mas – segundo o representante legal norte-americano – pela publicação de nomes de informantes que trabalhavam para os norte-americanos, o que poderia colocar em perigo suas vidas.

Com o governo de Londres aliado a Washington, com o qual espera firmar um generoso acordo de livre-comércio, uma vez concluídas as negociações – cada vez mais difíceis – do Brexit, as possibilidades de Assange parecem reduzir-se. Tampouco seu país, a Austrália – onde, na última semana, o governo protestou pela expulsão de dois de seus jornalistas da China –, preocupou-se com o destino de Assange, cujo julgamento seguirá nesta semana.

A luta na América


A eleição de Mauricio Claver-Carone no último sábado para a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)pôs fim à tradição da instituição ser liderada por um latino-americano e seu vice-presidente ter sido sempre um norte-americano. Ainda que seu atual presidente, o colombiano Luis Alberto Moreno, tenha nascido nos Estados Unidos, como lembrou o próprio Claver-Carone. É provável que Trump tenha postulado Claver-Carone à presidência por ter sido anteriormente preterido ao cargo de vice-presidente, lembrou o economista mexicano Jacques Rogozinski à BBC. O nome já causava resistências entre diversos membros do banco, ao qual os Estados Unidos aportam a maior quantidade de recursos.

Washington recusou as propostasde diversos países da região para postergar a eleição, e a candidatura de Claver-Carone logo obteve apoio de países como Colômbia, Brasil, Uruguai, Bolívia, Equador e Paraguai, apesar da Argentina ter apresentado um candidato que, ao final, retirou. Segundo o The New York Times, os Estados Unidos ofereceram a vice-presidência do banco ao Brasil. Claver-Carone recebeu 23 dos 28 votos de governantes de países da região. Mas 16 nações se abstiveram, entre elas Argentina, Chile, México, Perú, Trinidad y Tobago e países europeus, o que representa uma abstenção de 31,23%. Assessor de segurança da Casa Branca, reconhecido por suas posições de extrema-direita em relação à região, particularmente agressivas contra Cuba, Claver-Carone candidatou-se oferecendo maiores recursos para o banco, que financia importantes obras de infraestrutura e projetos na América Latina.

Violência na Colômbia


Na Colômbia, a morte do advogado Javier Ordoñez nas mãos da polícia desatou a ira dos cidadãos que, na semana passada, destruíram um terço dos 156 Comandos de Atenção Imediata(CAI), unidades policiais instaladas em Bogotá em 1987, quando a cidade era uma das mais perigosas do mundo. Catorze pessoas morreram até o último sábado nas mãos da polícia, que respondeu aos protestos com armas de fogo, disparando contra os manifestantes. “Nem sequer durante a Greve Nacional de 2019, na qual morreram quatro pessoas, os protestos desencadearam tanta violência. Nem durante essa onda de protestos, que incluiu casos de abusos policiais, a resposta das autoridades foi tão violenta”, afirmou o correspondente da BBC na Colômbia, Daniel Pardo.

Gilberto Lopes é jornalista, doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica (UCR).

Tradução: Fernando Lima das Neves

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