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Áreas industriais ociosas: a reestruturação produtiva e a desestruturação urbana

Transição da sociedade industrial para era da informação e serviços levou ao surgimento de áreas industriais ociosas pelo mundo. O Grande ABC é uma delas

Por Gisele Yamauchi e Andréa de Oliveira Tourinho
Da RBA, 13 de Setembro, 2020



Acima: Antiga área fabril da Tecelagem Tognato em São Bernardo do Campo nos anos de 1962 e o Condomínio Domo em 2019. Abaixo: Antiga área fabril da Cerâmica São Caetano em São Caetano do Sul nos anos de 1934 e inauguração do Park Shopping São Caetano do Sul em 2011 (Fontes: Arquivos do historiador Ademir Medici e Google Maps)

Desde 1970, muitas cidades e regiões ao redor do mundo estão sofrendo os efeitos da transição de uma sociedade industrial para a sociedade da informação e do conhecimento. As mudanças no cenário internacional – como globalização, financeirização da economia, inovações nas áreas das telecomunicações, informática e transportes – levaram à reestruturação produtiva. E o resultado foi o surgimento de áreas industriais ociosas em várias cidades no mundo.

No Brasil, o dramático cenário de desestabilização econômica e alto endividamento, somados às contrapartidas impostas pelo Fundo Monetário Internacional pelo Consenso de Washington – como a abertura econômica e comercial sem proteger a indústria nacional –, levou à saída e fechamento de fábricas no país. Surgiram, assim, as áreas industriais ociosas, que foram objeto de nosso estudo na 13ª Carta de Conjuntura do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da Universidade de São Caetano do Sul (Conjuscs) e no 15º Seminário de História da Cidade e Urbanismo em 2018.

Esse problema tornou-se um grande desafio a ser enfrentado por diversas cidades no mundo, como Detroit (EUA), Grande Milão (Itália), do Vale do Ruhr (Alemanha). No Brasil, temos o Grande ABC – Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra – na Região Metropolitana de São Paulo.

Intervenção urbana

O conceito de intervenção urbana pode ser definido como um processo que promove um novo uso a uma área ociosa, podendo abranger vários procedimentos. Assim, as renovações de espaços numa sociedade em constante transição são consequências de várias ações realizadas no espaço e no tempo. Com isso, as políticas públicas de intervenção urbana objetivam dar um novo uso a estes espaços antes industriais, como é o caso da criação de novas áreas para o comércio, serviços, equipamentos turísticos ou de lazer.

A região do Grande ABC, durante o período de 1950 e 1980, recebeu grandes investimentos, principalmente internacionais, nos setores automotivo, eletroeletrônico, eletrodomésticos, químico. A região conformou-se em um dos maiores clusters industriais da América Latina. A partir de 1990, com as indústrias fordistas em xeque, esse cenário mudou. O fortalecimento das ideias neoliberais, o clima acirrado competitivo entre as empresas, a abertura comercial indiscriminada e o surgimento de novos territórios oferecendo menor custo de mão de obra produziram um cenário dramático de fechamento de empresas e desemprego. Esse fenômeno foi denominado por vários autores como desindustrialização ou reestruturação produtiva.

Diante dos efeitos desse problema, diálogos e ações foram construídos na década de 1990 entre diversos atores sociais. Entres eles o Consórcio Intermunicipal, a Agência do Desenvolvimento Econômico, Ciesps, sindicatos, universidades e outros. O objetivo foi a busca pelo desenvolvimento regional. Esse objetivo foi orientado por uma possível manutenção da indústria na região e pela concepção de soluções para as áreas industriais ociosas. Como fruto dessas discussões surgiu o projeto de intervenção urbana “Eixo Tamanduatehy”, com investimento do poder público em parceria com o setor privado. Com a implantação das ideias neoliberais, o projeto encontra-se inacabado. E acabou atendendo à lógica do mercado de consumo e da especulação imobiliária, deixando de atender aos projetos voltados para o âmbito social.

Nova onda de fechamentos

Durante os anos de 2003 a 2008, a região recebeu novos investimentos das empresas com a retomada da economia nacional e internacional, com o aumento do comércio internacional e dos investimentos estrangeiros e nacionais. Mas o processo de reestruturação produtiva continuou nos sete municípios da região do Grande ABC. O fenômeno das áreas industriais ociosas prosseguiu.

A partir da nova crise econômica brasileira de 2014, a região voltou a apresentar sucessivas quedas no número de estabelecimentos industriais. Principalmente nas indústrias fordistas, empregadoras de grande contingente de trabalhadores. Essa onda de fechamento de estabelecimentos industriais, em termos numéricos, entre os anos de 1989 e 2018, configurou-se como a pior da história da região. Entre estabelecimentos de 250 a 499 empregados, houve redução de 57% (de 144 em 1989 para 62 em 2018). Nos de 500 a 999 empregados, de 51% (de 70 em 1989 para 34 em 2018). E os de mil ou mais empregados tiveram queda de 66% (50 em 1989 para 17 em 2018).

Com a continuidade do processo de reestruturação produtiva na região, de 1989 até hoje, o problema das áreas industriais ociosas persiste como grande desafio a ser superado. Mas verifica-se que houve um hiato nas discussões sobre o problema, pois não houve estudos sobre a atual situação dessas áreas, discussões sobre a manutenção da atividade industrial na Região ou atração de novas empresas industriais. Tampouco houve a previsão de obras de intervenção urbana, convertendo essas áreas ociosas em novos espaços voltados para a cultura, lazer e turismo.

Antiga área fabril da Porcelana Schmidt em Mauá. E em seu lugar, o Atacadista Roldão em 2019 (Google Maps)

Novas atividades

A lógica do projeto do Eixo Tamanduatehy acabou se tornando o modelo a ser aplicado nas cidades do Grande ABC. Verifica-se essa aplicação nos projetos urbanos localizados nas cidades de São Bernardo do Campo (no antigo terreno da Brastemp e da Tecelagem Tognato), São Caetano do Sul (na antiga Cerâmica São Caetano), Mauá (na antiga Porcelana Schmidt) e Ribeirão Pires (na antiga Tecmafrig e Ugimag), entre outros.

As obras de intervenção urbana já executadas deram espaços a novas atividades de comércio e serviço, gerando empregos, arrecadações de tributos. Mas observa-se uma limitação no tipo de aplicação de novas atividades nestes espaços. Como é o caso de poucos espaços voltados para a sociedade: lazer, cultura, entretenimento e turismo. Além disso, houve um enfraquecimento nas discussões e não houve uma discussão estratégica de estudos no âmbito regional que ofereçam alternativas de reconversão industrial, permitindo, assim, a manutenção da indústria em áreas industriais ociosas ou, ainda, de intervenção urbana, fugindo dos padrões já executados na região.

A discussão do problema das áreas industriais ociosas precisa voltar à pauta do planejamento regional estratégico em várias esferas da sociedade civil. Antes de conceber ações nessas áreas, faz-se necessário conhecer as novas realidades do problema: quais são suas dimensões, características, localização e estudar que tipos de soluções podem ser feitas para cada caso. O problema é complexo e exige um aumento de amplitude da discussão, pois ultrapassa os limites da esfera da gestão pública urbana e requer interação entre os setores público, privado e a sociedade civil, sendo necessária a criação de uma agenda permanente de planejamento estratégico regional.

Planejamento estratégico

Se a região do Grande ABC deseja manter as suas indústrias e continuar sendo referência, pensar a manutenção delas é vital. Para isso, é necessário um planejamento estratégico regional contemplando estudos e ações para o curto, médio e longo prazo, apontando quais serão as estratégicas de manutenção e reconversão industrial, bem como atração de novas indústrias voltadas para a indústria 4.0, ou mesmo indústria da saúde e indústria verde.

No caso da opção de intervenção urbana em áreas industriais ociosas, é necessário que os investimentos públicos estejam voltados também para o lazer, a cultura, o entretenimento e o turismo. Para que isso ocorra de forma mais efetiva, além do necessário planejamento e maior articulação entre os atores sociais da Região, é preciso ir além do ciclo eleitoral, incluindo a sociedade civil nos debates regionais, tendo o papel de fiscalização das ações.

Por fim, é fundamental a interação entre o governo, empresas e universidades, sob o modelo tríplice hélice, buscando conhecer, aprofundar e enriquecer as discussões no meio público e privado. E, com isso, haver a interação e contribuição de informações nos debates dos problemas atuais e futuros a serem enfrentados, buscando o desenvolvimento econômico e social da região do Grande ABC.

Gisele Yamauchi é economista e Turismóloga. Mestra em Arquitetura e Urbanismo pela USJT e Mestranda em Economia Política Mundial pela UFABC. Pesquisadora do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS – Conjuscs.

Andréa de Oliveira Tourinho é professora do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Judas Tadeu. Arquiteta e Urbanista. Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo

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