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Adorno e as “pragas” dos movimentos fascistas

Do IHU, 04 Setembro 2020
Por Sergio Paolo Ronchi

Theodor W. Adorno,
Aspetti del nuovo radicalismo di destra.
Veneza, Marsilio, 2020, p. 100

"Para enfrentar tal problema 'altamente real e político' representado pela direita radical, 'é preciso trabalhar contra ele com a força do choque da razão, com uma verdade realmente a-ideológica'", escreve Sergio Paolo Ronchi, teólogo e ensaísta, em artigo publicado por Riforma, 30-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A contemporaneidade transcende o tempo: é a "atualidade" da história. Um exemplo claro disso é um texto de Theodor W. Adorno datado de 1967: Aspectos do novo radicalismo de direita[1]; sete páginas de notas e palavras-chave "traduzidas" em uma palestra pouco conhecida (conservada apenas em forma oral) na Universidade de Viena, agora em uma edição italiana para a editora Marsilio, baseada em uma gravação, com um posfácio do historiador alemão Volker Weiss.

Principal expoente junto com Max Horkheimer da chamada "Escola de Frankfurt", o Instituto de Pesquisas Sociais, Adorno pretendia "esclarecer ao auditório austríaco o surgimento na República Federal da Alemanha do NPD [Partido Nacional Democrático da Alemanha], fundado em 1964, que registrava significativamente um discreto sucesso como grupo da área da direita”. Ele certamente não poderia ter previsto sua derrota nas eleições federais dois anos depois. Ele pretendia chamar a atenção para o nacional-socialismo em um contexto que registrava o desenvolvimento de uma formação política de direita radical. “Em Viena – ressalta Weiss – Adorno não falava apenas como analista crítico da situação, mas também como testemunha do tempo”. “A leitura do discurso – prossegue – exige, portanto, distinguir entre o que é condicionado pelo contexto e o que é essencial. É preciso relacionar a atualidade que produz efeito profético com o núcleo histórico de sua verdade”.

As palavras do filósofo alemão, articuladas em uma argumentação analítica precisa, visam destacar e conectar aqueles vários elementos supracronológicos carregados de atualidade sobre os quais refletir com extrema sensibilidade e atenção. Uma confirmação do que foi exposto em uma conferência de 1959, O que significa elaboração do passado. Nele, ele escreve, “ilustrei a tese segundo a qual o radicalismo de direita, ou o potencial de um radicalismo desse tipo, pode ser explicado pelo fato de que, hoje como então, as premissas sociais do fascismo continuam a subsistir. Gostaria de partir da ideia de que, apesar da queda, as premissas dos movimentos fascistas continuam subsistindo no plano social, se não mesmo também naquele diretamente político”.

Entre as premissas, em primeiro lugar está a “tendência do capital à concentração”, figura no “espectro do desemprego tecnológico” que leva ao medo de perder o status social. Depois, o problema do nacionalismo de “caráter competitivo” comum também ao radicalismo de direita. Que se expressa em movimentos "de baixo nível espiritual" ou completamente desprovidos de pressupostos teóricos: "São em linha de princípio apenas técnicas de poder e não derivam de teorias bem articuladas." Pelo contrário, a sua peculiaridade é “uma extraordinária perfeição dos meios, sobretudo os da propaganda em sentido lato, combinados com uma certa cegueira, até mesmo uma ambiguidades dos fins que são perseguidos. Nesses movimentos, a propaganda constitui a substância da política": a verdade é posta a serviço da não verdade pela descontextualização de "observações que são em si verdadeiras e corretas".

Assim acabam se encontrando sob ataque a cultura em sentido lato e os intelectuais de esquerda - expressões da "rejeição da argumentação racional e do pensamento baseado no discurso". Depois, a procura de um bode expiatório. E aqui nos encontramos no terreno do antissemitismo, “um dos ‘eixos da plataforma’”. Caso possa assim der dito, sobreviveu aos judeus, e sobre isso se baseia a sua forma espectral. Acima de tudo, o sentimento de culpa será rejeitado por meio de uma racionalização. Dir-se-á: "Eles devem ter feito algo, caso contrário, não os teriam matado." Adorno invoca a expressão alemã "método do salame": uma questão complexa é "fatiada" até sua banalização. Em virtude desse "pedantismo pseudocientífico", chegar-se-á até a questionar os números do Holocausto.

Para enfrentar tal problema "altamente real e político" representado pela direita radical, "é preciso trabalhar contra ele com a força do choque da razão, com uma verdade realmente a-ideológica".


Nota

[1] Theodor W. Adorno, Aspetti del nuovo radicalismo di destra. Veneza, Marsilio, 2020, p. 100, €12,00. A resenha foi publicada no site da Riforma, em 30 de julho de 2020.

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