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A perigosa corrida às vacinas dos nacionalismos

Do IHU, 11 Setembro 2020
Por Nicoletta Dentico


"O nacionalismo sanitário que a Covid-19 detonou desde o início da epidemia se insere nesse cenário. Um efeito indesejável aparentemente incurável e, portanto, destinado a se agravar, se é verdade que o novo coronavírus – sem o seu conhecimento – se tornou o principal campo de batalha na guerra de propaganda entre os protagonistas da política internacional. Sobre a rápida descoberta da vacina os chefes de estado redesenham a geopolítica", escreve Nicoletta Dentico, jornalista e analista sênior de políticas em saúde global e desenvolvimento, que atualmente lidera o programa de saúde global da Sociedade para o Desenvolvimento Internacional (SID), em artigo publicado por Il Manifesto, 10-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Uma corrida selvagem onde vale tudo pela vacina contra a Sars-CoV2. Quem chegar primeiro terá o destino do planeta em mãos. É o clima da corrida desenfreada das falsas promessas, conforme relata no Observer Jeremy Farrar, diretor do “Wellcome Trust”.

E como demonstra a interrupção dos testes pela AstraZeneca de Oxford. A competição envolve o mundo da ciência e as grandes multinacionais farmacêuticas que o controlam, pela aquisição da patente e do poder de monopólio que isso confere. Cada passagem de fase no ensaio clínico faz disparar as cotações da bolsa e é justamente esse o efeito desejado. Uma mobilização científica contra o mesmo patógeno nunca havia sido vista antes: mais de 120 projetos de pesquisa em andamento, dos quais 24 na fase um (que verifica a segurança em um número limitado de pessoas), 14 na fase dois (de expansão do estudo), 9 na fase três (para testar a eficácia em grande número).

Três vacinas já foram aprovadas para uso limitado, incluindo a desenvolvida pela Sinovac chinesa: Pequim a adotou por um ano reservando-a para o exército. O nacionalismo sanitário que a Covid-19 detonou desde o início da epidemia se insere nesse cenário. Um efeito indesejável aparentemente incurável e, portanto, destinado a se agravar, se é verdade que o novo coronavírus – sem o seu conhecimento – se tornou o principal campo de batalha na guerra de propaganda entre os protagonistas da política internacional. Sobre a rápida descoberta da vacina os chefes de estado redesenham a geopolítica. Trump proclamou que a aceleração da pesquisa clínica devido à superioridade tecnológica dos EUA tornará a vacina feita em seu país disponível em 1º de novembro. Vejam a coincidência: dois dias antes das votações.

A operação “Warp Speed” (velocidade da luz) lançada com vultosos recursos públicos e sob a égide da defesa se reporta ao Projeto Manhattan que o governo estadunidense montou para a bomba atômica. Os EUA reservaram 800 milhões de doses de pelo menos 6 vacinas em desenvolvimento, todas para uso interno. America first. A vacina para ser reeleito.

E Putin, evocando a era espacial soviética, anunciou em meados de agosto a Sputnik V, a vacina financiada pelo fundo soberano russo que produziu uma forte resposta imunológica nos 76 pacientes testados, de acordo com dados a serem confirmados publicados no The Lancet. Continua problemático o fato de sua aprovação preceder a fase três, iniciada no final de agosto para 40.000 pessoas. A produção em larga escala da vacina está prevista para começar em setembro, com uma previsão de 500 milhões de doses por ano, inclusive para o exterior.

A vacina russa será testada na Arábia Saudita, Filipinas, Índia e Brasil, e depois há a China, o verdadeiro competidor nessa guerra fria sanitária. À medida que os EUA se retiram do cenário internacional sanitário para evitar a OMS, a China avança com uma projeção multilateral completamente inédita, graças à Covid-19.

Pequim comunicou seu novo protagonismo à Assembleia Mundial da OMS, com extrema consciência de si. A China pretende jogar pela carta da "vacina do bem comum" para fortalecer sua esfera de influência geopolítica não apenas na Ásia – com um recente encontro regional garantiu a vacina anti-Covid a vários países asiáticos, alguns envolvidos na acirrada disputa territorial do Mar da China – mas também na América Latina e na África. Existem 4 vacinas chinesas na fase três, com todos os testes clínicos no exterior (Oriente Médio e América Latina).

Na desorganizada corrida global pela descoberta da vacina, há questões que preocupam a comunidade sanitária.

A primeira diz respeito à tensão entre ciência e política.

Que pressão o anúncio de Trump produz na agência de medicamentos FDA, por exemplo? As novas tecnologias aceleram os tempos, claro, mas temos certeza de que todas as etapas da pesquisa clínica estão sendo respeitadas, mais exigentes com as vacinas do que com medicamentos (as vacinas são administradas aos sãos, não aos doentes)?

Depois, há o desequilíbrio entre expectativas e realidade.

A vacina precisa ser desmistificada. Não vai garantir a solução mágica, não importa o que digam. Os coronavírus sofrem mutação, a mesma vacina contra a gripe garante cobertura entre 30 e 50%, por alguns meses, um ano quando se tem sorte.

A vacina contra a Covid de primeira geração terá benefícios limitados inclusive devido ao efeito combinado de urgência sanitária e gestão proprietária do conhecimento. Ninguém hoje desenvolve uma abordagem integrada de vacinação: modelo de distribuição, condições ideais para uma resposta imune, preço mínimo. "Devemos prevenir o nacionalismo da vacina", declarou o diretor da OMS em 18 de agosto, mas a revista Nature, falando de "escalada desigual", denuncia que os países ricos encomendaram para si mais de 2 bilhões de doses (340 milhões de doses apenas para a Inglaterra). Em vez disso, Covax Facility, a iniciativa internacional para as vacinas de baixo custo para países média e baixa renda, continua em jogo com apenas 300 milhões de pedidos de doses para todo o Sul global. A desigualdade pandêmica permanece, agravada pela Covid-19: sem que ninguém corra aos remédios.

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