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A miséria interna bruta está aumentando

A ajuda financeira lançada por Donald Trump nos Estados Unidos e por outros governos do mundo, para tentar melhorar a situação econômica durante a crise do coronavírus, não está chegando aos que mais precisam



Da Carta Maior, 14 de Setembro, 2020
Por Paul Krugman 


Créditos da foto: Em junho, as pessoas fizeram fila em frente a um centro de treinamento vocacional para obter conselhos sobre seus pedidos de seguro-desemprego em Frankfort, Kentucky (Bryan Woolston/Reuters)

Você acha que, economicamente, sua situação está melhor agora, em comparação com o que havia em julho?

A julgar pelas aparências, isso nem deveria ser perguntado. Afinal, as ações estão em alta, a economia criou mais de um milhão de empregos em “agosto” (explicarei as aspas em breve) e as estimativas preliminares sugerem que o produto interno bruto cresceu rapidamente no terceiro trimestre, que termina neste mês.

No entanto, o mercado de ações não é a economia: mais da metade de todas as ações pertencem a 1% dos americanos, enquanto a metade inferior da população possui apenas 0,7% do mercado.

Pelo contrário, empregos e PIB são mais ou menos a economia. No entanto, eles não são o coração da economia. Muitas vezes, alguns economistas e muitos políticos esquecem que a economia não é essencialmente sobre dados, mas sobre pessoas. Gosto de dados tanto ou talvez mais do que qualquer pessoa, mas o sucesso da economia não deve ser julgado com base em estatísticas impessoais, mas com base no fato de a vida das pessoas estar melhorando.

E a simples realidade é que, nas últimas semanas, a vida de muitos americanos piorou muito.

Isso é evidentemente verdade para os cerca de 30 mil estadunidenses que morreram de covid-19 em agosto (em comparação, 4 mil pessoas morreram na União Europeia, que tem uma população maior), para não mencionar o número desconhecido, mas grande, de cidadãos que sofreram danos de saúde a longo prazo. E não olhe agora, mas o número de novos casos de coronavírus, que vinha diminuindo, parece ter parado de cair, se estabilizou, e existe uma forte possibilidade de que a situação do vírus volte a piorar.

As circunstâncias já pioraram para milhões de famílias que perderam a maior parte de sua renda normal devido à pandemia, e que ainda precisam recuperá-la. Durante os primeiros meses da depressão pandêmica, muitos desses americanos conseguiram sobreviver com ajuda de emergência federal. No entanto, grande parte dessa ajuda foi suspensa no final de julho e, apesar dos avanços no emprego, vivemos um grande aumento da miséria nacional.

Então, vamos falar sobre aquele relatório de emprego em agosto.

Uma coisa importante a ter em mente sobre as estatísticas oficiais mensais de emprego é que elas se baseiam em pesquisas realizadas durante a segunda semana do mês. É por isso que coloquei “agosto” assim, entre aspas: o que o relatório realmente nos mostrou foi uma fotografia instantânea da situação do mercado de trabalho no dia 12 de agosto.

Isso pode ser importante. Dados das instituições privadas indicam desaceleração do crescimento do emprego desde o final de julho. Portanto, o próximo relatório de emprego, que será baseado nos dados coletados nesta semana de setembro – e que também será o último relatório antes da eleição –, pode ser mais fraco do que o anterior (mas isso ainda não é um dado adquirido).

De qualquer forma, aquele relatório de agosto não foi muito bom considerando o contexto. Em tempos normais, um ganho de 1,4 milhão de empregos seria impressionante, mesmo se alguns desses empregos fossem uma incidência temporária associada ao censo. No entanto, ainda estamos mais de 11 milhões de empregos abaixo de onde estávamos em fevereiro.

E a situação continua terrível para os trabalhadores mais afetados. O declínio causado pela pandemia afetou desproporcionalmente os funcionários do setor de turismo e lazer – hotéis e restaurantes, por exemplo –, e o emprego nesse setor continua a diminuir em cerca de 25%, enquanto a taxa de desemprego dos trabalhadores ainda está acima de 20%, mais de quatro vezes o que era há um ano.

Em parte, devido ao setor onde se concentrou o declínio, os desempregados tendem a ser norte-americanos que ganhavam baixos salários mesmo antes da crise. E um fato preocupante do relatório de agosto foi que os salários médios aumentaram. Não, isso não é um erro de análise: se os trabalhadores de baixa renda mais afetados pela crise fossem contratados novamente, esperaríamos que os salários médios caíssem, como ocorreu durante a breve recuperação em maio e junho. O aumento dos salários médios agora é um sinal de que aqueles que realmente precisam de trabalho não estão conseguindo.

Portanto, a economia continua a ignorar aqueles que mais precisam de recuperação.

Apesar disso, a maior parte da rede de segurança que sustentava provisoriamente as vítimas econômicas do coronavírus foi desmontada.

A CARES (sigla em inglês da Lei de Ajuda e Segurança Econômica para a Crise do Coronavírus), promulgada em março, deu aos beneficiários um adicional de 600 dólares por semana em benefícios. Este suplemento foi de extrema importância para limitar as privações extremas, e a pobreza pode até ter diminuído.

No entanto, esse auxílio acabou em 31 de julho, e tudo indica que os republicanos do Senado nada farão para restaurá-lo antes das eleições. A tentativa do presidente Donald Trump de implementar um novo suplemento de 300 dólares por semana por meio de ações executivas não deveria alcançar muitos resultados, e será insuficiente até mesmo para aqueles o receberem. As famílias podem ter sobrevivido por algumas semanas com o dinheiro economizado, mas as coisas estão prestes a ficar muito difíceis para milhões de pessoas.

O ponto principal aqui é que antes de citar estatísticas econômicas, é preciso pensar sobre o que elas significam para as pessoas e suas vidas. Os dados não são insignificantes: um milhão de empregos ganhos é melhor do que um milhão de empregos perdidos, e o crescimento do PIB é melhor do que a diminuição. No entanto, muitas vezes há uma desconexão entre os números mencionados nas manchetes e a realidade da vida norte-americana, e isso é particularmente verdadeiro neste momento.

O fato é que essa economia não está funcionando para muitos estadunidenses, que enfrentam tempos difíceis, e que, graças às decisões políticas de Trump e seus aliados, estão se tornando cada vez mais difíceis.

Paul Krugman é professor da Universidade de Nova York e recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2008, por seus trabalhos sobre o comércio internacional e geografia econômica

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de Victor Farinelli

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