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A destruição do Pantanal afeta diretamente todos os outros biomas

Do IHU, 24 Setembro 2020
Por 
André Martins, estagiário do Curso de Jornalismo da Unisinos.



O Pantanal brasileiro passa por sérios problemas de queimadas que estão destruindo toda a fauna e flora do bioma. O aumento dos incêndios é tão sério que a proporção é 440% maior do que a média entre 2010 e 2019. Os principais fatores dessa tragédia, segundo o professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, Pedro Luiz Côrtes, são o desmonte no Ministério do Meio Ambiente, a estrutura de fiscalização e a questão climática peculiar, com uma seca muito forte, provocada pela transição dos fenômenos El Niño e La Niña, que favorecem a proliferação do fogo no local.

Para Jorge Sampaio, líder da Iniciativa Pantanal da WWF, mesmo sendo uma época de estiagem, muitas áreas do bioma estariam inundadas por conta das chuvas de meses anteriores, porém, elas secaram, agravando a situação e expondo os locais ao fogo. Mas é claro que ações humanas vêm contribuindo para a degradação do Pantanal, principalmente com queimadas feitas para a limpeza de roçados ou pastagens e atividades de agricultura e pecuária extensiva. “Com a seca severa que estamos vivendo, esse problema se intensifica”, diz.

Essa tragédia que ocorre no Pantanal vem somada da pior seca dos últimos 47 anos no bioma, o que afeta toda a vida animal que ali existe e interfere no habitat da maior planície de inundação do mundo. O Pantanal, por si só, já é um ambiente pobre em nutrientes e quando se tem uma tragédia desse tamanho, é inevitável a redução dos recursos alimentares para os animais e consequentemente a morte de muitas espécies presentes no Pantanal.

O Pantanal faz parte de um dos seis biomas constituídos no Brasil. Mesmo ele sendo um dos menores biomas em extensão (1,8% de área brasileira), é muito importante para espécies de plantas e animais que vivem apenas naquele local, como a arara azul, a onça pintada, a sucuri e muitos outros. A tragédia que afeta esse bioma nos últimos meses não é um caso isolado. Todos os outros ecossistemas existentes no Brasil também sofrem, principalmente pela ação do homem, que destrói a natureza por razões econômicas que às vezes nem são tão lucrativas, mas são feitas em nome de um pseudo-desenvolvimento do país.


A fauna e a flora existentes no Pantanal. (Fonte: IBGE)


A degradação dos biomas


Segundo o jornalista e coordenador do Observatório do Clima, Claudio Ângelo, os biomas brasileiros estão interconectados por estarem no mesmo território da América do Sul e estarem sujeitos às mesmas pressões demográficas, econômicas e climáticas. “Há as zonas de contato entre os biomas, e eles são particularmente importantes entre a Amazônia e o Cerrado, que é onde a fronteira agrícola do Brasil se expande. Em Minas Gerais, os pontos de contato entre a Mata Atlântica e o Cerrado são zonas críticas de desmatamento”, diz.

Ou seja, os problemas que ocorrem em cada um dos biomas se expandem e interferem no ecossistema em geral. Por causa da ação do homem, todos os biomas sofrem com problemas de desmatamento que consequentemente atingem a vida humana. O desmatamento torna o Brasil um dos maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo, segundo Ângelo.

Na Amazônia, 65% do que se desmatou até 2017 foi para fazer pastos de baixíssima capacidade, com menos de um boi por hectare, não gerando riqueza nenhuma. A Mata Atlântica foi destruída em menos de cem anos e 60% da população brasileira vive em cima do que já foi a mata. Na Caatinga, há um crescente estresse hídrico causado pelo desmatamento, deixando o bioma mais seco e árido, sendo difícil frear o processo de degradação no local. O Cerrado é uma das últimas reservas de terras que suportam a produção de grãos e formação de pastagens, atraindo investimento da agropecuária e infraestrutura nessa área, levando a perspectivas preocupantes para o futuro. No Pampa gaúcho, a expansão dos eucaliptos e a produção de soja são as maiores ameaças para o bioma, que vê seus campos de coxilha, tradicionalmente usado para a criação de gados, em extinção. Ou seja, a degradação dos biomas afeta direta e indiretamente o outro. “No caso da Caatinga, a principal interface geográfica é com o Cerrado e a Mata Atlântica, ambos extremamente degradados (restam apenas 8% da Mata Atlântica e cerca de 50% do Cerrado). A degradação do Cerrado e da Mata Atlântica impacta negativamente a Caatinga e vice-versa. Entre os principais impactos, estão a redução de serviços ecossistêmicos, a erosão e a pressão sobre os recursos naturais”, afirma Rodrigo Castro, coordenador do Projeto de Conservação do Tatu-bola e mestre e graduado em Ciências Naturais pela Escola Politécnica Federal de Zurique.



Mapa contendo a divisão atual dos biomas brasileiros. (Fonte: IBGE)

O Pantanal que hoje está se perdendo pelas queimadas é um bioma que vive ritmado pela inundação. Em março, pode ser visto no local imensas áreas alagadas, de centímetros até metros, enquanto em agosto, toda aquela inundação vira poeira e seca. Os animais, plantas e humanos que vivem ali, estão bem adaptados àquela região. Entender que o Brasil é rico na fauna e na flora e respeitar os biomas com as suas particularidades e peculiaridades é o primeiro passo para conseguir viver em harmonia com a natureza. Da mesma forma, a Mata Atlântica é importante para as espécies de plantas e animais do Rio Grande do Sul até o Piauí, a Amazônia para o mundo inteiro, e o Cerrado foi para a vida de populações pré-históricas que iniciaram o povoamento das áreas do continente e instituíram ali as primeiras sociedades.

Estamos passando hoje por um dos piores momentos na defesa de nossos biomas, com o Pantanal em chamas e a Amazônia sendo destruída. Conseguimos notar um ineficaz trabalho do governo que mantém uma forte relação com a indústria agropecuária e mineradora, ajudando aqueles que visam usar o ecossistema como um produto financeiro. O futuro para cada bioma se torna preocupante. Se não houver uma intensa luta para defender o Pantanal, o Brasil irá perder muito de sua riqueza natural nas mãos da agropecuária e com problemas irreversíveis no nosso ecossistema.

Nos últimos anos, o Instituto Humanitas Unisinos - IHU tem publicado inúmeras entrevistas, notícias e revistas sobre a situação dos biomas brasileiros. Entre eles, destacamos revistas que tratam de cada um dos biomas citados nesta matéria. Os materiais sobre o assunto estão disponíveis abaixo.

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