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A desigualdade e a morte nos Estados Unidos

Do IHU, 24 Setembro 2020
Por Joe Goldman, publicada por Página/12, 23-09-2020. A tradução é do Cepat.


Bairro periférico de Nova Iorque.

A pandemia está exacerbando um problema horrível nos Estados Unidos: a desigualdade social. Em 2018, um estudo do banco central do país, o Federal Reserve, constatou que 40% dos estadunidenses não têm o suficiente para pagar um gasto inesperado de 400 dólares. Em 2019, sete em cada dez não tinham 1.000 dólares poupados, um aumento da pobreza relativa de 58%, em apenas um ano. E então, uma pequena criatura chamada coronavírus apareceu em cena, bailando e saltando, e criando uma catástrofe social.

Em um ano normal nos Estados Unidos, 800.000 pessoas são despejadas por mês. Em julho deste ano, estimava-se que já eram de seis a sete milhões. Donald Trump assinou uma lei dizendo: “Não quero que ninguém seja despejado e com esta lei vou solucionar o problema quase completamente, ou talvez completamente”. A assinatura foi em seu luxuoso clube de golfe em Bedminster, Nova Jersey, diante de um grupo de sócios que haviam pagado 350.000 dólares para entrar e continuam pagando anuidades altas.

Mas o que o presidente assinava não era uma lei, mas um decreto, que não fez absolutamente nada para proteger os inquilinos, nem sequer estendia a muito frágil moratória de quatro meses aos despejos. Eram generalidades que deixavam o tema nas mãos do secretário de Estado, Steven Mnuchin, que era presidente de um banco que se encarregou de despejar mais de 100.000 pessoas que não puderam pagar suas hipotecas pela crise de 2008.

No mesmo dia em que Trump assinava seu decreto, em 24 de julho, vencia ao auxílio econômico de 600 dólares por semana votada pelo Congresso, com Trump e os republicanos se negando a estendê-lo. O argumento é que tanto dinheiro faz com que as pessoas não queiram voltar a trabalhar, o que significa admitir que os 20 milhões de trabalhadores que receberam o auxílio não chegam a ganhar isso. É preciso destacar que, considerando os preços estadunidenses, ganhar 600 dólares por semana coloca o trabalhador abaixo da linha da pobreza. Em inícios de setembro, Trump acabou assinando outro decreto designando 300 dólares. Mas ninguém ainda viu um desses cheques.

Um novo segmento dos noticiários televisivos é o bloco dedicado a fome nos Estados Unidos. São imagens de pessoas fazendo fila para receber alimentos em igrejas ou centros de ajuda. O problema aumentou porque o governo Trump tornou cada vez mais complicado receber auxílio-desemprego ou alimentar, e porque as escolas fechadas significam que muitas crianças não recebem seu café da manhã ou almoço gratuitos.

O salário mínimo continua sendo exatamente o que era em 2009, 7,25 dólares por hora. Nos onze anos em que os trabalhadores não receberam aumento, os bônus dos brokers de Wall Street aumentaram exponencialmente. Se o salário tivesse seguido a mesma evolução, para cada hora seriam pagos 33,51 dólares.

As mortes por covid-19 nos Estados Unidos já estão chegando às 200.000 [já chegaram, após esta reportagem], em um ritmo de 1.000 por dia. Os meios de comunicação refletem a quantidade de cidadãos que não podem pagar um funeral, nem sequer o enterro de um ente querido. É um traço da disparidade social: o dono da Amazon, Jeff Bezos, ganhou em um excelente dia, em julho, 13,2 bilhões de dólares, dez vezes o que custaria pagar o enterro de todas as vítimas do vírus em todo o país.

O índice de GINI, que mede a desigualdade social em uma escala que vai de 0 (o menor grau) a 10, qualifica os Estados Unidos como o país desenvolvido de longe mais desigual. Em 2018, teve uma pontuação de 4,14, o mesmo que a da Argentina, de Macri, e pior que a de 3,96, do Uruguai. O mais notável é que há 40 anos, em 1980, os Estados Unidos tinham um GINI de 3,46. É um caso único de queda na equidade social, desde que existe o índice.

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