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Viver em risco

Do A Terra É Redonda, 29 de Agosto, 2020
Por CIBELE SALIBA RIZEK*


Imagem: Adir Sodré

Comentário sobre o livro do sociólogo Lúcio Kowarick

Viver em risco se dedica a descrever e analisar as vulnerabilidades da população pobre da maior cidade brasileira. Resultado de uma longa trajetória de pesquisa e reflexão constitui uma fonte preciosa de informações, mas também de questões que se repõem a cada capítulo, nos quais se ancoram conceitos e matrizes teóricas que podem e devem ser interrogadas, submetidas a contrapontos, ao crivo dos processos e das dinâmicas observadas. São armaduras de questões relativas à heterogeneidade da pobreza urbana, da população vulnerável, nomeada e observada de perto por meio das situações de moradia precária – cortiços na área central, periferias autoconstruídas e favelas.

Lúcio Kowarick, como se sabe, tem um lugar único por sua longa e fértil trajetória na pesquisa e na elucidação dos enigmas urbanos brasileiros. Não é demais lembrar, entre outros títulos, São Paulo – 1975 crescimento e pobreza; A espoliação urbana ou Escritos urbanos, nos quais questões presentes em Viver em risco já estavam esboçadas. Viver em risco, no entanto, traz um novo panorama, resultante de incursões etnográficas cujos achados são analisados a partir de abordagens que permitem uma ancoragem histórica e uma visão sociológica construída, inclusive, a partir de informações estatísticas secundárias. As três situações urbanas são assim perscrutadas de várias perspectivas que, ao se cruzarem, permitem que o leitor construa, com a ajuda das fotografias de Antonio Sagese, um quadro muito preciso do que significa “viver em risco” na São Paulo de hoje.

O livro recoloca dois grandes feixes de leitura da pobreza urbana e de suas vulnerabilidades, depois do fim das sociedades salariais constituídas ou imaginadas como horizonte a ser alcançado: a discussão americana pautada pela individualização e pela ótica da “culpabilização” das vítimas, mais ou menos moduladas pelo debate entre conservadores e liberais e, por outro lado, a discussão francesa em torno da responsabilização do Estado pelas formas da “exclusão” e pelo seu combate contra o que se identifica como fratura social ou desfiliação.

A vulnerabilidade brasileira e paulistana, analisada no segundo capítulo não se vincula estreitamente à matriz norte-americana nem à francesa. Está emoldurada pelo esforço de superação de um déficit de democracia política e pela longa e persistente permanência de um déficit de direitos civis e sociais.

Kowarick, buscando caracterizar nossa especificidade, remonta o debate brasileiro desde a questão da “marginalidade” e de seus desdobramentos e articulações com a teoria da dependência, passando pelas críticas e questionamentos em torno das questões do chamado “desenvolvimento dependente”, das formas de exclusão e inclusão perversa e funcional, instável e precária. Uma citação fornece o tom da recuperação desses marcos teóricos e de suas atualizações: “…se o socialismo saiu do horizonte dos ideais e das utopias e se, ademais, a ideia de revolução perdeu força mobilizadora porque, entre outras razões como Saturno, ela tem devorado seus filhos, permanece o vasto fosso que caracteriza o apartheid social de nossas cidades.”

Entre as “experiências de derrota” e a mentalidade de extermínio, as estratégias de “evitação”, a desconfiança e o medo como elementos estruturadores da sociabilidade, Kowarick apresenta uma pergunta que desenha diálogos e embates: “quais discursos e ações dão conteúdo às questões sociais de nossa atualidade urbana em torno da problemática da desigualdade e injustiça?” Insatisfeito com as versões que explicam essa atualidade a partir de uma espécie de maldição de origem essencializada em um ethos de tristeza, cordialidade, miscigenação e conciliação, busca respostas e novos desafios que tragam para o primeiro plano os modos de vida da população em situações de vulnerabilidade urbana, entre permanências e transformações.

O primeiro feixe de questões, itinerários e personagens se desenha a partir do centro da cidade de São Paulo e de seus cortiços. Nômades urbanos, andarilhos de lugar em lugar, de emprego em emprego, de cortiço em cortiço, em contiguidade com migrantes que constituíram famílias e se instalaram de modo um pouco mais estável em casas de cômodos, a questão da proximidade que é a grande característica do morar no centro vai ganhando nitidez. Potencialidades e vulnerabilidades, políticas urbanas moldadas por diferentes concepções – que ora enfatizam a participação ora a delegação – e as fotografias que flagram fluxos e situações da cidade permitem que a experiência de seus moradores, flagrada em sua história, em suas dimensões sociológicas e etnográficas tomem corpo.

As periferias são objeto do capítulo seguinte, sua constituição como momento da história da cidade e como conformação territorial comparece acompanhada de seu duplo – a casa própria autoconstruída e seus significados. Ao gosto e de certo modo como uma necessidade da estrutura narrativa e de análise, o capítulo termina com um pergunta – vale a pena construir? – e muitas respostas complexas, difíceis, variáveis “… mas, na opinião daqueles que entraram neste espoliativo processo, no final das contas, por vários motivos, se chega a uma opinião favorável: apesar de todos os pesares”.

O capítulo 5 discute a forma mais recente de moradia popular na cidade – as favelas. É preciso observar que favelas e periferias são lugares de algum estranhamento recíproco, ainda que se aproximem crescentemente, tanto territorialmente quanto como modos de inserção urbana. As favelas são a forma de moradia de cerca de 8,7% da população da cidade. Entre urbanizações e remoções, entre ter e não ter direitos, ter e não ter a propriedade do terreno, essa população bastante heterogênea se equilibra ora se estabelecendo, ora – quando possível – desejando se mudar.

Nos três capítulos sobre moradia e vulnerabilidade uma questão se faz presente, atravessando práticas, discursos e formas de um saber que nasce no solo dessas experiências. Trata-se das dimensões da violência, freqüentemente agravadas pela imposição do silêncio, que modulam relações e modos de vida a partir de seu crescimento. Na percepção de vulnerabilidades e de violências, na experiência da humilhação e na denegação do reconhecimento e dos direitos, ganham corpo as heterogeneidades, as vantagens e desvantagens das situações de moradia e de inserção na cidade daqueles que vivem de risco, que vivem na corda bamba na maior e mais rica cidade brasileira.

Uma última referência dá concretude ao título do livro. Em todas as situações de pesquisa (loteamentos, favela e cortiços) “os entrevistados conhecem o local onde estão os bandidos (…) tiveram parentes próximos assassinados, viram pessoas mortas pelas ruas e todos sabem onde se localizam os traficantes (…) são trabalhadores que evitam e temem a presença de criminosos, pois sabem do perigo de ser atingido pelas balas ou ser confundido pelo arbítrio da ação policial: a sensação de “viver em risco” é algo arraigado no cotidiano das pessoas, principalmente nos locais ermos, mal-iluminados, aonde a política só chega depois do crime”.

*Cibele Saliba Rizek é professora do programa de pós-graduação em arquitetura e urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos da USP e organizadora de A era da indeterminação (Boitempo).

Publicado originalmente no Jornal de Resenhas, no. 9, maio de 2010

Referência

Lúcio Kowarick. Viver em risco. São Paulo, Editora 34, 320 págs.

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