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Uberização da vida


Do IHU 08 Agosto 2020
Por Bruno Cava Rodrigues


"Como repensar a relação entre capital e trabalho quando as linhas rígidas se tornam flexíveis e passamos a existir em redes e nuvens, com múltiplas condições simultâneas e entrelaçadas: oferta, demanda, empreendedor, consumidor?", escreve Bruno Cava Rodrigues, pesquisador associado à rede Universidade Nômade (uninomade.net) e professor de Filosofia, em artigo publicado em seu Facebook, 06-08-2020.

Eis o artigo.

Quando se fala em uberização, a empresa Uber aparece na expressão como uma parte do todo, apenas um exemplo da grande transformação em curso. Na realidade, a uberização é uma mudança mais profunda do que um novo modelo de negócios.

A chamada uberização não se limita à agregação de oferta e demanda por meio de plataforma digital. Deveríamos falar em uberização da vida, pois essa mudança impacta as coordenadas de como organizamos as nossas relações e definimos a verdade a respeito de nós próprios.

Em vez da Uber, poderíamos pensar no exemplo de outra plataforma parecida, o Tinder. Antigamente, havia astrólogos ou profissionais específicos que agregavam as informações sobre as pessoas para recomendar a melhor combinação. O objetivo é aproximar pessoas que combinam para otimizar a chance de sucesso da relação e formar o casal.

Evolução dessa técnica foram as agências matrimoniais e, mais recentemente, já em versão digital, os sites de webnamoro.

São desenvolvidas e aplicadas técnicas de combinação das informações buscando arrumar a oferta e a procura. Não é muito diferente quando tentamos aproximar amigos solteiros para ver se dá liga. Uma pessoa que na festinha cochichava no ouvido que a amiga está a fim de você está atuando como um 'matchmaker'.

Qualquer um que identifica a oportunidade de potenciais acoplamentos e aproxima as pessoas faz as vezes de matchmaker.

Na plataforma digital, essa intermediação inteligente é automatizada e tornada impessoal através dos algoritmos. Eles são capazes de lidar com uma montanha de dados para otimizar as configurações internas de grandes conjuntos.

E é bem mais prático disponibilizar as nossas informações e interesses num perfil, a oferta e demanda individuais, do que propagandeá-las nós próprios. Exigiria dispêndios de tempo, paciência e insistência.

Por isso, para aumentar a nossa chance e reduzir o custo, terceirizamos a atividade de buscar a liga para o algoritmo matchmaker. Cada plataforma otimiza o processamento das informações e a alocação das ofertas e demandas, de maneira que a agilidade, a precisão e a chance de sucesso aumentam exponencialmente.

Não é diferente quando você utiliza um mecanismo de busca. Ao escrever o que procura, o objeto de interesse no campo de pesquisa, o algoritmo se apoia nas informações de uso pregresso e faz o papel de ligador, apresentando um rol de links candidatos. Ou quando a rede social oferta potenciais amigos, grupos ou produtos, com base no perfil empírico de preferências do usuário. Ou quando fornecemos a nossa geolocalização para identificar o motorista mais próximo disponível, para ser parceiro na transação do serviço de transporte.

As premissas operacionais são as mesmas: nos colocamos disponíveis no mercado formado pelos interesses quando informamos os perfis de oferta e demanda, enquanto o aplicativo realimenta o banco de dados ao passo dos sucessivos usos.

Essa dinâmica não é estruturalmente diversa daquela descrita por Adam Smith no capítulo 7 da Riqueza das Nações. Um dos insights centrais do clássico de 1776 é que, ao contrário do que era prescrito pelo mercantilismo, a intensificação das trocas leva a uma situação ganha-ganha em que todos lucram. As trocas são produtivas por si sós.

A diferença do liberalismo de plataforma para Adam Smith é que em vez do homem econômico atomizado que busca maximizar e racionalizar o seu interesse, repassamos o processo da racionalização para as plataformas e algoritmos.

O que estamos vendo na uberização de fretes e entregadores é uma colossal tendência que, nas próximas décadas, deve se disseminar para o mundo do trabalho como um todo. Já está ocorrendo no setor de serviços.

A macrotendência consiste em dispersar e flexibilizar as relações com respeito a centros estáveis de arregimentação e manutenção da força de trabalho. Cada prestador de serviço vai digitalizar o seu perfil, para empreender numa plataforma agregadora dos pools de oferta e procura. Os algoritmos otimizam as ligas para maximizar a alocação dos fatores, seguindo movimentos do tipo nuvem, de condensação ou volatilização de interesses, de composição e decomposição de trends de consumo.

Essa transição, na verdade, está em pleno andamento, o que está sendo chamada por alguns pesquisadores de "Gig economy". Aqui, a metáfora são as sessões de música em que técnicos, artistas e públicos convergem para se encontrar num evento ou projeto específico (um "gig"). A uberização do trabalho caminha nesse sentido de relações cada vez mais intensas e episódicas, sem maiores compromissos.

Várias perguntas inquietam o campo de pesquisa.

Como repensar a relação entre capital e trabalho quando as linhas rígidas se tornam flexíveis e passamos a existir em redes e nuvens, com múltiplas condições simultâneas e entrelaçadas: oferta, demanda, empreendedor, consumidor?

Ainda faz algum sentido o antagonismo da economia política clássica? Qual e como seria?

Em que sentido a engenharia digital/algorítmica, a neutralidade da rede e um marco regulatório descentralizado participam da relação estratégica antagonista?

Para além de tecnutópicos (Benkler) e tecnofóbicos (Morozov) -- duas escatologias que se espelham -- como diagnosticar criticamente as tendências de reconfiguração das práticas de liberdade, produção e desejo?

Nas críticas à Teoria da Mão Invisível, costuma-se dar ênfase na Mão. Na teoria smithiana, o mercado assumiria a forma de um Deus abscôndito que nos manipularia como marionetes. Como no ocasionalismo filosófico de Nicolas Malebranche, a causalidade finalística implicada na ação racional dos indivíduos não passaria de uma ocasião para a ação transcendente do Mercado. Através dos interesses individuais, a vontade subjacente do mercado causa o melhor dos mundos possíveis.

Daí a crítica antiliberal ao mercado autorregulado ou espontâneo, já que as condicionantes sociais e históricas da agregação dos interesses apareceriam sublimadas na descrição de Adam Smith.

Só que não.

Ocorre que o ponto principal da Teoria da Mão Invisível não está na Mão, mas no Invisível. É nesse ponto que Smith está contestando o programa político atrelado à Escola dos Fisiocratas, no contexto da Ilustração.

Começando por Quesnay no século XVIII, os fisiocratas eram sinófilos e enxergavam no mandarinato chinês um modelo de despotismo benevolente, com o qual o Ocidente deveria aprender. No livro "O despotismo da China", de 1767, o expoente da fisiocracia panfletava para a Europa um governo tecnocrático e meritocrático, à semelhança da virtuosa condução dos assuntos de estado pelo funcionalismo público do Imperador Chinês.

Vem acoplada ao despotismo esclarecido sinófilo, a ideia fisiocrática do Tableau Economique, quer dizer, um pormenorizado quadro totalizante de racionalização da alocação dos fatores que os economistas imperiais teriam capacidade de enxergar e calibrar.

Pois bem. O Invisível da Mão em Smith embute a contestação de que esse governo econômico fisiocrático inspirado pelo neoconfucionismo institucionalista chinês poderia dar certo a longo prazo. É que, para Smith, o mercado não é totalizável num Quadro Econômico que pudesse ser objeto para uma ciência régia, ainda que conduzida por funcionários públicos de mérito, compromisso e razão superior.

Existe uma opacidade inerente ao funcionamento do mercado que é dada pela multiplicidade volúvel e criadora dos interesses. As tentativas de dirigir ou planificar a agregação das informações e a alocação dos recursos terão, cedo ou tarde, por consequência deprimir a produtividade econômica, levando a desequilíbrios, recessões e crises sociais.

Nesse sentido, o limite superior de uma economia despótico-benevolente de tradição mandarim, conforme o orientalismo dos economistas pró-China, seria dado pelo limite político das tensões internas de um sistema que começa a alcançar gargalos de produtividade e ineficiência das ligas.

Smith explica tal horizonte de recessão pelo fato de ter sido visado o interesse global, na totalização planificada dos produtos, em detrimento da ação dos interesses particulares, mais empíricos e dedicados. O mercado é um processo de otimização contínua cuja totalização deve se dar necessariamente com vistas curtas, sem Tableaux. Assim é melhor para o todo, que só pode ser visto indiretamente.

O economista é como Perseu. Luta contra uma crise global que não pode todavia ser encarada senão por intermédio do escudo espelhado do mercado.

Por isso a defesa smithiana de uma ação governamental que, por um lado, busque assegurar a moldura de condições do mercado e, por outro, coadjuve e complemente os seus processos por meio de atividades assecuratórias, como segurança, justiça, paz ou educação pública em massa, que o autor considera essencial.

Inerentemente opaco, o mercado não pode ser totalizado *de direito*. Isto é, nem mesmo um supercomputador quântico, um entendimento divino malebranchiano ou um algoritmo perfeito seria capaz de parametrizar a multiplicidade de interesses e utilidades, porque as interações produzem a todo momento desvios, inovações e mutações. O ser humano é simplesmente imprevisível no longo prazo e não é bom que se tente antecipar-lhe as lógicas com horizontes alargados, sob pena da disfunção sistêmica.

O esforço bem intencionado de antecipar e prevenir em absoluto as crises levaria de um modo ou de outro à própria crise, devido ao excesso desorganizador de intervenções e ao fato que as expectativas incorporam as receitas preventivas.

Também precipitariam a crise do sistema as tentativas de centralização mesmo que pela via dos algoritmos e do controle das redes, por não ser ontologicamente possível dar conta da agregação das informações num único aplicativo-mestre, digamos, como no episódio "Nose dive", da distópica Black Mirror.

Poderíamos pensar com uma série mais recente, "I may destroy you", quando um usuário do Tinder é ludibriado em sua demanda original. O 'match' o conduz a um outro usuário que, em vez da relação casual esperada, dribla o formato assumido e propõe um jantar, um cinema e uma ida ao museu. Se, num primeiro momento, o demandante fica irritado, com a sensação de engodo, logo a seguir acaba mudando o próprio interesse e embarca na experiência alternativa.

Isto não significa a possibilidade desejável de regresso a uma pré-história idílica antes das plataformas digitais, pois muito provavelmente o crescimento desse tipo de demanda levaria à aparição de um novo pool de ofertas e demandas, algo como "the boyfriend experience".

Dito isso, dois paradoxos nos forçam a pensar.

O primeiro é a coexistência de duas tendências. Uma tendência de desacreditação sistemática das velhas instituições, a crise da representação, o sentimento antipolítico, a descrença difusa em saberes científicos e nas elites de produção do conhecimento.

Há uma crise da confiança em cujo vácuo vem se instalando com sucesso os neopopulismos, nas suas promessas de resgatar o erodido poder soberano. A polarização populista Nós x Eles e a pressurização do ambiente das redes (a dita "cultura do cancelamento") nos enquadram numa moral da desconfiança permanente, em que todos e cada um podem ser o microagressor, o opressor, o vitimizador, o complicado. Não há mais insuspeitos porque, afinal de contas, nunca se sabe...

Ao mesmo tempo, vivemos uma nova época da confiança. Há pouco tempo, você não cogitaria entrar num carro particular na rua dirigido por um estranho. Mas é exatamente isso que faz, quando chama um Uber. Aceitamos comida preparada por restaurantes que nunca fomos trazida por entregadores anônimos. Apesar de todo mundo ser suspeito de complicações nebulosas, agressões inassinaláveis e erros inexpiáveis, são marcados encontros íntimos por aplicativos o tempo todo.

O paradoxo das guerras culturais: o grau de gregarização e desconfiança do ambiente público em que somos pessoas com nome e reputação parece diretamente proporcional ao grau de nomadização e confiança do ambiente-nuvem em que somos bits de informação e perfis decomponíveis de oferta e procura.

Foucault aqui talvez sorriria: governamentalidade neoliberal, ou seja, omnes (nuvem) e singulatim (identidades).

O segundo é a aceleração digital do mercado smithiano em plataformas que, no final das contas, se tornaram elas próprias megamonopólios corporativos.

Embora não se apresente no mesmo visual distópico previsto pela literatura cyberpunk nos anos 1980-90, o capitalismo de plataforma inaugurou uma versão Vale do Silício para a integração vertical da era fordista. Na antecipação do cyberpunk, as corporações tecnológicas gradualmente ocupavam o lugar das velhas entidades nacionais, como focos de transcendência para a organização social.

O paradoxo da competitividade monopolistíca: a era da desconfiança antipolítica levou à agenda do retorno do Estado nacional, à esquerda ou à direita populistas, ao mesmo passo que a era da confiança fortaleceu a agenda do capitalismo monopolista de plataforma.

Quais tensões, acoplamentos e oportunidades estratégicas esses entrechoques de tendências nos colocam?

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