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Tiros nos EUA e os perigos de uma ultradireita armada

Ao que tudo indica, jovem que assassinou manifestantes nos EUA integrava milícia fascista. Fenômeno cresce no país e acossa organizações antirracistas. Um alerta ao Brasil, onde presidente fala em ataques armados a adversários.

Do OUTRAS PALAVRAS, 27/08/2020

por Almir Felitte

A covarde e brutal tentativa de assassinato de mais um homem negro pela polícia voltou a chacoalhar os EUA. Mas a terceira noite de protestos no país terminaria com ainda mais sangue derramado na cidade de Kenosha. Isso porque um jovem branco de 17 anos resolveu confrontar os manifestantes antirracistas e, portando um fuzil AR-15, disparou contra pessoas que tentavam desarmá-lo, matando dois deles.

O caso em si já seria grave o suficiente, mas algumas informações tornam o enredo dessa história ainda pior. Ao que tudo indica, o assassino era integrante da milícia privada chamada Kenosha Guard, apenas mais uma das muitas milícias norte-americanas de extrema-direita entusiastas de discursos armamentistas e libertários. O grupo chegou a criar um evento no Facebook de nome “Cidadãos armados para proteger nossas vidas e propriedades”, conclamando seus membros a pegarem em armas para agirem contra as manifestações na cidade.

Mas o ocorrido em Kenosha não é novidade. Na verdade, os protestos impulsionados pelo movimento “Black Lives Matter” têm sido constantemente ameaçados pela presença destas milícias armadas, que sempre alegam estarem no local para proteger as propriedades de atos de vandalismo. Na cidade de Albuquerque, por exemplo, em junho, uma manifestação que visava derrubar a estátua de um antigo colonizador espanhol terminou com um homem ferido a tiros após ação violenta da milícia intitulada Guarda Civil do Novo México.

Mas por que estes acontecimentos deveriam servir para que o Brasil ligasse um sinal de alerta?

Como já escrevi antes nesta coluna1, o bolsonarismo tem se espelhado no movimento miliciano norte-americano para a radicalização da política à extrema-direita em nosso país. A própria família Bolsonaro, aliás, jamais escondeu a admiração deste modelo de politização paramilitarizada que cresceu muito nas últimas décadas nos EUA. Modelo este que tem como uma de suas principais bases o discurso armamentista e o afrouxamento das leis de controle sobre armas e munições, o que permite as cenas grotescas que vemos na TV de norte-americanos andando livremente nas ruas de fuzil em mãos.

No Brasil, temos presenciado uma certa “alteração de rota” na narrativa tradicional dos grupos pró-armas. Como expliquei em artigo anterior2, o discurso de “armas para autodefesa” tem cedido espaço a lemas que falam abertamente no uso político de armamento, sempre atrelado a bandeiras da extrema-direita. É o caso, por exemplo, do “300 do Brasil”, que constantemente ameaçava “ucranizar” o país. Ou da Associação CAC Brasil, grupo que reúne caçadores, atiradores esportivos e colecionadores de armas que, em nota dirigida a um de meus artigos, confessou ser uma “força de reação que irá proteger o país, apoiar o presidente e defender o Brasil das ‘garras vermelhas’ junto com as forças armadas”.

A radicalização do discurso destas organizações no Brasil tem coincidido com o afrouxamento cada vez maior das regulações sobre armas e munições promovido por Bolsonaro desde seus primeiros dias de Governo. Uma mistura realmente explosiva em um país que vem flertando com o autoritarismo escancarado nos últimos anos. Frear esse movimento puxado pelo próprio Presidente, que já disse, em vídeo, querer “todo mundo armado” para agir contra opositores, é mais do que urgente. Combater o discurso armamentista se tornou central nesta luta.


ALMIR FELITTE
Advogado e estudioso de Políticas de Segurança Pública

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