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Overshoot Day: crise pandêmica e escolhas responsáveis

Do IHU, 24 Agosto 2020
Por Francesco Gesualdi


Neste ano, o Overshoot Day avançou para o dia 22 de agosto. Não melhoramos a situação por escolha, mas por contrição. Foi uma consequência do confinamento, a quarentena coletiva implementada para impedir o avanço do coronavírus.

A opinião é do ativista italiano Francesco Gesualdi, coordenador do Centro Nuovo Modello di Sviluppo, de Vecchiano, na Itália, e um dos fundadores, junto com o Pe. Alex Zanotelli, da Rede Lilliput. O artigo foi publicado por Avvenire, 22-08-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

As notícias são duas: uma boa e outra má. A boa notícia é que a corrida parou: a corrida rumo à corrosão do planeta que o Overshoot Day expressa de forma tão magistral, indicando o dia do ano em que “esgotamos” toda a terra fértil disponível.

Não se trata de um recurso qualquer, mas daquele do qual depende toda a nossa existência, porque, quando se fala “terra fértil”, fala-se da vegetação e, portanto, dos alimentos, das pastagens, da absorção de dióxido de carbono. Para encontrar um ano em que a terra fértil disponível foi suficiente para nós até o dia 31 de dezembro, temos que voltar para 1970. Depois disso, a data de esgotamento começou a recuar até chegar, no ano passado, no dia 29 de julho. Finalmente, neste ano, vimos uma inversão de tendência: o Overshoot Day avançou para o dia 22 de agosto.

E, mesmo que o desequilíbrio continue sendo de 131 dias, o sinal é de grande importância, pois nos confirma que reencontrar o equilíbrio é possível. Basta querer.

E aqui chegamos à segunda notícia, a má: não melhoramos a situação por escolha, mas por contrição. Foi uma consequência do confinamento, a quarentena coletiva implementada para impedir o avanço do coronavírus.

Uma quarentena praticamente mundial que teve um impacto enorme sobre a produção, os transportes e até o consumo de eletricidade e, portanto, sobre a necessidade de terra fértil.

Os números fornecidos pela OCDE testemunham isso: nos primeiros quatro meses de 2020, as viagens aéreas despencaram 89%, os transportes rodoviários, 50%, o consumo de energia elétrica, em média 15%, com a Itália até em 28%.

Uma contração que ocorreu não apenas na Europa, mas também na China, Estados Unidos, Austrália e todos os outros países afetados pelo vírus. Um golpe duríssimo no plano econômico, mas alívio no nível ambiental: segundo os cálculos da revista Nature Climate Change, em abril de 2020, as emissões de CO2 caíram 17% como consequência das restrições impostas pela pandemia.

Há uma relação direta entre o Overshoot Day e o carbono: quanto mais dióxido de carbono em excesso produzimos, mais árvores e, portanto, mais terra fértil são necessárias para eliminá-lo.

Em 1970, o dióxido de carbono produzido pela atividade humana chegava a 15 bilhões de toneladas. Hoje, produzimos 37 bilhões, mais do que o dobro. E os efeitos podem ser vistos: a cada ano, acumulam-se na atmosfera cerca de 15 bilhões de toneladas de dióxido de carbono que não conseguem ser absorvidas nem pelo sistema natural terrestre nem pelo oceânico. Na realidade, devemos cortar o CO2 pela metade.

Outra boa notícia é que existem maneiras de fazer isso sem comprometer a dignidade da nossa existência. O importante é que todos façamos a nossa parte: como indivíduos, como empresas, como governos. Em nível individual, devemos mudar os nossos estilos de vida orientando-os para a sobriedade, o que não significa renúncia, mas sim soberania: a passagem de um consumo impulsionado pela publicidade para um consumo definido por nós mesmos com base em critérios de racionalidade, sustentabilidade e justiça.

A sobriedade, na verdade, é a capacidade de se livrar do inútil e do supérfluo. Um objetivo que é alcançado substituindo os produtos descartáveis pelos duráveis e reparáveis, preferindo os produtos locais aos globais, adquirindo produtos com embalagens leves e recicláveis em vez de embalagens abundantes e irrecuperáveis, utilizando meios de transporte movidos a energia muscular e elétrica em vez de petrolífera, utilizando bens adquiridos em comum e não individualmente.

É o clássico “voto com a carteira”, que as empresas não podem ignorar. De fato, muitas delas estão se convertendo para formas de produção que levam em conta não só a sustentabilidade financeira, mas também a sustentabilidade social e ambiental. Escolhas inspiradas nas energias renováveis, na contenção dos resíduos, na recuperação das matérias-primas e em todos os outros princípios expressados pela “economia circular” cara ao Papa Francisco e que os empresários mais responsáveis projetam para além das fronteiras empresariais.

O senso de responsabilidade é o ingrediente mais precioso de qualquer sociedade, mas, para se afirmar, precisa de educação, estímulo, orientação. Daí a importância da ação governamental que pode e deve agir por meio da escola, do sistema fiscal, dos gastos públicos. Alavancas a serem utilizadas sinergicamente.

Na prática, porém, há uma disparidade de comprometimento. Depois dos riscos de recessão provocados pela pandemia, o instrumento ao qual os governos estão prestando mais atenção são os gastos públicos. Uma atenção igual deveria ser dada à escola e aos impostos. Em um caso, reformando os currículos escolares para que as questões ambientais e o tema dos estilos de vida encontrem um espaço adequado. No outro, adaptando os mecanismos existentes aos desafios que nos aguardam.

Uma questão fiscal de particular relevância diz respeito ao ETS, o mecanismo criado pela União Europeia para estimular as empresas mais poluentes a reduzirem as emissões de dióxido de carbono, cobrando um preço pelo CO2 emitido. Um mecanismo que só pode funcionar se o preço for suficientemente alto para ser um impedimento. Hoje, não é assim.

Por isso, muitos estão pedindo que o sistema seja reformado. Ao mesmo tempo, porém, é preciso evitar que a iniciativa se transforme em um estímulo para que as empresas europeias transfiram a produção onde a lei é mais permissiva. Reduzir as emissões na Europa para fazê-las aumentar no Vietnã ou na Etiópia não seria um ganho para o planeta.

Por isso, é preciso intervir também nas fronteiras com taxas que atinjam o chamado dumping social e ambiental. Não é um caminho simples, porque requeria uma revisão das regras comerciais internacionais acordadas dentro da Organização Mundial do Comércio.

Mas o mundo está na encruzilhada entre a ganância e a segurança. Os espaços para perseguir ambas já se esgotaram.

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