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Outras Cartografias: Mundo em Luto


Em nossa nova coluna, a linguagem dos mapas – para revelar realidades incômodas. Na estreia, o panorama global da pandemia: o fracasso da ultradireita, a presença das fronteiras nacionais e a indiferença diante da morte, diluída em consumo.

Do OUTRAS PALAVRAS, 05/08/2020

por Igor Venceslau

Mapa e texto: Igor Venceslau

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Baixe o mapa, em alta resolução, aqui:

O mundo em luto. Embora os números mudem todos os dias, a triste realidade se mantém. Há alguns meses, lamentávamos as 100 mil novas valas abertas em cemitérios de todos os países. Agora, quando as vidas ceifadas se encaminham para 1 milhão, a desfaçatez impera gloriosa numa sociedade que aguarda ansiosa mais um 2 de novembro. Envolve mais do que fazer um minuto de silêncio na sua live.

É preciso analisar a taxa de mortalidade (óbitos por 100 mil habitantes) e não apenas as outras estatísticas bastante veiculadas. Olhar apenas para o total de óbitos esconde nuanças de países populosos como a Índia, onde os valores relativos estão bem abaixo da média mundial. A taxa de letalidade (percentual dos infectados que não sobreviveram) é importante, mas os números percentuais podem se manter mesmo com a crescente escalada das mortes reais. Para dificultar a conta, multiplicam-se as estatísticas alusivas ao número de recuperados, como se devêssemos celebrar por não termos sido todos mortos.

Entre o Brasil e os demais países, uma assombrosa diferença. A mortalidade aqui é 5 vezes maior que a média mundial e muito superior a países vizinhos como Argentina, Paraguai e Venezuela. Há quase um mês sem registro de óbitos, Cuba é caso exemplar na América Latina. As distintas políticas adotadas por outros países não escondem o resultado catastrófico da necropolítica neoliberal, e escancaram a atualidade e relevância das linhas de fronteira: na Suécia, a taxa é 56,41 por cem mil; na vizinha Noruega, 4,82.

Junto a isso, uma assombrosa indiferença do governo brasileiro, agora também seguida por grande parte da população. Imunes à realidade, mas não ao vírus, brasileiros voltam às atividades, alimentam as plataformas de dados e compram, compram muito. As vendas pela Internet continuam em disparada, as lojas reabrem, muitos pedem retorno a salas de aulas e a espera pela vacina é a panaceia global. O “novo normal” surge, então, como um projeto de cotidiano: é a normalização da indiferença por meio do consumo. Até quando?


IGOR VENCESLAU
É geógrafo e doutorando em Geografia Humana na USP

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