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O trabalho feminino gratuito enfrenta a pandemia

50% delas passaram a cuidar de mais alguém durante crise sanitária. Foram principalmente as negras — que também têm menos suporte. 39% de todas elas tiveram com prejuízo de renda. Mundo pós-pandemia precisará debater a crise do cuidado.Do OUTRAS PALAVRAS, 10/08/2020

por Redação

Um estudo da Gênero e Número e SOF Sempreviva

O cuidado está no centro da sustentabilidade da vida. Não há a possibilidade de discutir o mundo pós-pandemia sem levar em consideração o quanto isso se tornou evidente no momento de crise global, que também nos fala sobre uma “crise do cuidado”. Para identificar e revelar os efeitos da pandemia sobre o trabalho, a renda das mulheres e a sustentação financeira da casa a partir da perspectiva de que as tarefas de cuidado e trabalho se sobrepõem de forma mais intensa na pandemia, a Gênero e Número e a SOF Sempreviva Organização Feminista realizaram pesquisa de percepção com mais de 2.600 mulheres brasileiras. As respostas foram coletadas, por formulário online, entre abril e maio.


Se os dados mostram que metade das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém na pandemia, os recortes indicam como a realidade não é a mesma para todas: ao olhar apenas mulheres que estão em ambientes rurais, nada menos que 62% das respondentes afirmaram que passaram a ter esse tipo de responsabilidade. Além das diferenças, as desigualdades estão expostas no levantamento. Os dados mostram que as mulheres negras têm menos suporte nas tarefas de cuidado.

Entre as que seguiram trabalhando durante a pandemia com manutenção de salários, 41% afirmaram estar trabalhando mais no período da quarentena, e a maior parcela é de mulheres brancas, evidenciando que a ausência de funcionárias no domicílio ou de espaços como a creche/escola pesou mais para esse grupo. As mulheres que estão em casa sem renda ou com prejuízo de renda são 39%.

A pesquisa também coletou depoimentos, que mostram como é complexa a leitura da condição de vida e de trabalho neste momento. Mesmo as que seguem trabalhando, com renda, podem estar sob condições diferentes, mais precarizadas, em relação ao período anterior ao da quarentena.


“Eu estou fazendo isolamento e trabalhando de casa, porém minha renda despencou.”. “A empresa reduziu o pagamento a apenas 50% sem reduzir a jornada (minha situação é informal) e isso me força a reorganizar a vida financeira, porque acabo tendo ainda mais gastos com mercado, energia, etc”.

Os resultados estão no relatório, disponível para download (acesse o site). Demonstram, em geral, que as dinâmicas de vida e trabalho das mulheres se contrapõem ao discurso de que “a economia não pode parar”, mobilizado para se opor às recomendações de isolamento social. Os trabalhos necessários para a sustentabilidade da vida não pararam – não podem parar. Pelo contrário, foram intensificados na pandemia. A economia só funciona porque o trabalho das mulheres, quase sempre invisibilizado e precarizado, não pode parar. Por isso entender a situação do cuidado durante a pandemia é fundamental para o desenho de ações que sejam capazes de transformar essas dinâmicas de desigualdade que imbricam gênero, raça e classe.

Artigos

Para o lançamento, pesquisadoras feministas foram convidadas a escrever artigos que jogam luz em questões centrais da pesquisa. “Mulheres rurais em meio à pandemia: desigualdades e práticas econômicas para a vida” é assinado pela engenheira agrônoma Miriam Nobre; “Trabalho, solidariedade e estratégias das mulheres negras” é o texto da jornalista e também pesquisadora Bianca Santana;

Marilane Teixeira, economista do CESIT/Unicamp escreve sobre “A pandemia do coronavírus e os seus efeitos sobre as mulheres trabalhadoras”. Tica Moreno, da equipe da SOF e pesquisadora de temas relacionados ao cuidado, assina o artigo “Cuidado e sustentabilidade da vida: mulheres que não podem parar”.

A Gênero e Número é organização de mídia que trabalha na interseção do jornalismo de dados, da pesquisa e do debate sobre direitos das mulheres, visibilizando e produzindo dados, a partir de narrativas, estudos e pesquisas. O propósito do trabalho, balizado pelas agendas feminista e da transparência pública, é gerar e repercutir informação qualificada e verificada para embasar discursos de mudança, contribuindo assim para a construção de uma sociedade mais justa, menos desigual entre gêneros, raças e classes. Fundada e dirigida por mulheres, a Gênero e Número tem a colaboração e a parceria entre organizações como premissa, com o objetivo de fortalecer pontes entre a sociedade civil, a mídia e os centros de pesquisa. Para saber mais, acesse: www.generonumero.media

A SOF Sempreviva Organização Feminista expressa sua razão de ser em três palavras-chave: movimento social, transformação e feminismo. Isso sintetiza uma trajetória que começa em 1963 e que combina algumas formas de atuação: participação nos movimentos sociais a partir do feminismo; assessoria a organizações mistas e de mulheres, movimentos sociais e órgãos de governo; formação para fortalecimento de grupos e dirigentes sociais, a partir da metodologia de educação popular, da elaboração feminista e da organização de publicações. A economia feminista é, para a SOF, uma ferramenta de luta e transformação. É ela que orienta a atuação da SOF junto com mulheres rurais e urbanas, na construção da economia solidária e da agroecologia, na Marcha Mundial das Mulheres e em alianças com outras organizações, na Rede Economia e Feminismo e no GT Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia. Para saber mais, acesse: www.sof.org.br.

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