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Na cozinha, convite à imaginação pós-capitalista

Diz-se que ela deu origem aos laboratórios, hoje frios e apartados da realidade. “Coração da casa”, quando deixa de ser prisão feminina, torna-se vibrante espaço de experimentações cotidianas — e semeia afetos, saberes profanos e vida coletiva.

Do OUTRAS PALAVRAS, 11/08/2020

Por Antonio Lafuente | Tradução: Simone Paz

Todo mundo quer ter um lab. Existem labs de todas as cores e para todas as culturas. Laboratórios científicos, industriais, de design e até laboratórios cidadãos. Junto com eles, todos os imaginários que querem fazer da cidade, da empresa ou da sala de aula, um laboratório vivo. Tendo isso em conta, não é de se estranhar que muitos considerem Bruno Latour um profeta: “Dê-me um laboratório, e eu dominarei o mundo”, dizia em 1983. Será que vamos mesmo enfiar todos os problemas do mundo num laboratório? Seria possível pensar todo tipo de experiência pelas estruturas da cultura experimental.

O consenso que evocamos precisa sair de algum lugar e servir a alguma causa. Tanto consenso pode ser entediante — quiçá até perigoso. Como se enxergam os devotos do lab? A conversinha deles é sobre cultura experimental, uma espécie de nova terra prometida. O experimental parece ser — assim como o “aberto” e, mais recentemente, o “transparente” — o novo imperativo que molda nosso imaginário político.

Estabelecer-se como um laboratório doméstico, porém, não vai nos livrar dos muitos males que Mary Shelley quis nos alertar, ou contra os quais alguns dos membros daquele grande laboratório industrial conhecido como Projeto Manhattan se mobilizaram. Em ambos os casos levantou-se a questão sobre como, onde e quem controlaria o enorme poder que poderiam acumular os detentores do Laboratório. Inovar, descobrir ou experimentar, entendidas como ações que ocorrem fora da sociedade que as abriga, ainda são práticas misteriosas (pois inacessíveis e fechadas), cujos atores nem sempre declaram com transparência para quem trabalham ou a serviço de quais finalidades.

A leitura de Latour tampouco deixa dúvidas de que o papel histórico do laboratório surgiu para eliminar totalmente as fronteiras entre o interior e o exterior. A condição para que um laboratório funcione é que os seus membros nunca saiam, o que significa que devem assumir o desafio de abduzir completamente o mundo exterior — em outras palavras: devem criar as condições necessárias para que as práticas de laboratório sejam tão intrusivas quanto exclusivas, tão objetivas quanto desenraizadas, tão abstratas quanto replicáveis. A profecia também poderia ter sido escrita de forma diferente: “dê-me um laboratório e nada mais será o mesmo”.

No entanto, a cultura experimental não cabe no Laboratório. Ela o faz transbordar. Isso explica a emergência de novos espaços sociais menos rígidos, onde o rigor não afugente a vida. De todos esses espaços, nenhum é tão antigo quanto a cozinha. Também, nenhum deles é tão frustrante, se quisermos vê-la como a velha fábrica de cativas e a nova fábrica da feminilidade. A cozinha tem muitas identidades: máquina de alimentar, coração do lar, prisão doméstica, espaço de convivência e, é claro, laboratório doméstico. A cozinha é um espaço repleto de máquinas e aparelhos de alta tecnologia. É também um espaço para fazer testes, inovar procedimentos, contrastar receitas e, consequentemente, pode ser visto como um local para implementar formas de sociabilidade experimentais e mais abertas. É também um espaço onde se desenvolvem formas particulares de vida comum que, em termos gerais, podem ser definidas como mais práticas do que discursivas, e mais compartilhadas do que reservadas

A cozinha é um ponto de encontro informal, esporádico e hospitaleiro. A cozinha é o espaço amador por excelência e, sem dúvida, um complemento da tão fundamental garagem, onde nasceu o rock e a cultura do Vale do Silício. Embora tenha muitas máquinas acessíveis e sofisticadas, seria um exagero ver a cozinha como um espaço dominado pela tecnologia, pois, dentro dela, os seus usuários acreditam ter o direito de mudar as regras, receitas, tempos e tradições. A cozinha é um espaço hacker, onde tudo está ao serviço de quem a utiliza, e nenhum design parece suficientemente inflexível para não se adaptar às exigências emergentes. Quando falamos sobre usabilidade de tecnologias, deveríamos pensar nas cozinhas.

Na cozinha, fronteiras de gênero, raça, idade e classe são diluídas: a cozinha parece estar ao alcance de todos e é pouco provável que se torne mais um espaço dominado por especialistas. Essa nova religião gourmet, que chamamos de gastronomia, se distancia cada vez mais do mundo da cozinha e se aproxima ao das indústrias culturais, regidas pela moda, pelos influenciadores, pelo requinte e pela excelência. Seria a cozinha o antecessor da gastronomia? Acho que não. Os grandes chefs querem ganhar a atenção das donas de casa e dos mestres das panelas, mas nunca chegarão lá se a cada dia que passa mais se afastam do principal desejo que move a panela caseira: alimentar as pessoas que você ama é o inverso de quem só alimenta quem pode pagar. A Glamcook é outra farsa neoliberal

Se Latour tivesse razão, e o mundo da ciência tivesse que diferenciar entre questões quantificáveis, objetivas e comprovadas de um lado, enquanto, de forma complementar ou como alternativa, fosse obrigado a distinguir questões relacionadas a interesses, paixões e conflitos, então a cozinha seria o laboratório das matters of concern (questões de interesse) e não das matters of facts (questões de fatos). Utilizamos o Laboratório para estabelecer leis, conceitos ou testes baseados em evidências, os chamados fatos, enquanto que na cozinha ninguém entra buscando estabelecer princípios, normas ou provas. A cozinha é o espaço onde você tenta fazer coisas que promovam uma vida compartilhada. Ninguém na cozinha tenta certificar-se de que ele está certo ou de que suas razões são incontestáveis, mas tenta experimentar as possibilidades de uma convivência harmoniosa

Na cozinha, pouco importam as leis do sabor ou as regras da cor, da textura e do aroma. Quando alguém no grupo é intolerante a algum alimento, ou simplesmente não gosta dele, o ingrediente é excluído. O que move os habitantes desse universo é poder ampliar o mundo da sociabilidade. O comum na cozinha é o comum na vida. No laboratório, o normal é o raro, o incomum ou o excepcional. Uma refeição, mesmo se for excepcional devido aos ingredientes, procedimentos ou comensais, é boa se nos deixa felizes ao compartilhá-la. Projetos de laboratório beiram a verdade, enquanto projetos de cozinha beiram a bondade. Quando tudo funciona na cozinha, os comensais se preocupam menos com a replicabilidade das receitas do que com o aconchego dos ambientes. Os percentuais de proteína e os níveis de açúcar ou gordura ficam em segundo plano. Os elementos quantificáveis ​​são substituídos pelos ingredientes imateriais.

A cultura é uma grande conversa que vibra em torno de uma mesa de convidados (não de plutocratas, sempre viciados nos gestos gastronômicos). Hoje, em tempos em que cada rio, cada doença e cada dispositivo possui uma associação para sua defesa, em que todas as matters of fact se tornaram matters of concern, em que o laboratório já transbordou, foi privatizado e é vigiado, precisamos de bons cozinheiros. Precisamos menos bancos de testes e mais mesas. Os problemas são agudos e precisamos nos preparar para uma negociação, não para uma demonstração.


Contamos com muitos estudos que argumentam que a origem da ciência moderna está na culinária e na cultura experimental. A noção de laboratório é mais recente e aqueles que documentaram o seu surgimento apontam para a segunda metade do século XIX. Isso quer dizer que, até datas mais recentes do que imaginávamos, o locus da ciência não é o laboratório. Sabemos que os laboratórios ficavam dentro das casas e que havia mulheres no ecossistema da cultura experimental. E é claro, elas não aparecem na história. As mulheres foram removidas da cena. O espaço não foi descrito, mas prescrito. E mais, não só foram retiradas de cena algumas personagens, como o próprio espaço foi estigmatizado, transformado num lugar culturalmente pobre, socialmente marginal, politicamente invisível e cognitivamente irrelevante.


Agora que todo mundo quer um laboratório e que poucas coisas são mais bacanas do que cozinhar, num momento em que certas cozinhas são laboratórios, talvez tenha chegado a hora de fazer o movimento oposto e da cultural experimental reivindicar suas origens na cozinha. Uma fenda que nos convida a questionar a figura do líder, a cultura do impacto, o papel autoral e o culto aos fatos.


Cozinhar os problemas continuará sendo uma prática experimental, colaborativa, mediada, objetiva e pública, mas também deve ser hospitaleira, transparente e aberta (em beta), mais atenta ao paladar dos convivas do que ao elogio dos seus iguais, mais ligada aos recursos da vizinhança do que à metafísica global, tão sensível ao conhecimento profano quanto às receitas especiais e, finalmente, comprometida com um lema fácil de lembrar: fazer (o) bem.


ANTONIO LAFUENTE
Físico, pesquisador do Centro de Ciências Humanas e Sociais do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) da Espanha, na área de estudos da ciência. Seu interesse pela relação entre tecnologia, patrimônio e bens comuns desembocou nos laboratórios cidadãos, na inovação social e na cultura do prototipado.

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